domingo, 27 de junho de 2010

Reflexão do dia – Roberto Romano



O governo atual é inimigo da livre expressão do pensamento. Para salvar as aparências na ordem externa, aumentando o número de votos em plano interno, seus adjuntos e aliados pregam o "controle social da imprensa". Tal prática, sob o disfarce da vontade coletiva, herda a pior razão de Estado moderna, a fascista.


Roberto Romano, no artigo, A razão nanica de Estado, hoje, em O Estado de S. Paulo)

A arte de enganar :: Ferreira Gullar

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Vejo Lula como o oposto de tudo o que seu partido prometia trazer à vida política brasileira

ÉTICA NA política é coisa rara, qualquer que seja o partido. É surpreendente, no entanto, que o partido que nasceu empunhando a ética como bandeira tenha se tornado a expressão da antiética. Certamente, haverá, no próprio PT, exemplos louváveis de políticos que não se deixam seduzir, seja pela esperteza, seja corrupção, mas não são estes que dão as ordens na equipe do presidente Lula.

Não quero cometer injustiças mas, se não é mera impressão minha, vejo o presidente Lula como o oposto de tudo o que seu partido prometia trazer à vida política brasileira. Posso estar enganado, mas, se bem o percebo, ele, com a sua esperteza sindicalista, induz os que atuam sob seu comando a pôr de lado todo e qualquer escrúpulo: manipulam informações, falseiam a verdade dos fatos, forjam dossiês com falsas acusações, acusam vítimas de os estarem caluniando. Esses são alguns dos procedimentos comuns ao governo do atual presidente.

Os exemplos não faltam. Todos sabem que um dos objetivos de Lula, no plano internacional, é conseguir, para o Brasil, um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU. Em face de sua desastrada aliança com Ahmadnejad, de que resultou o isolamento do país, uma repórter perguntou ao ministro Celso Amorim se esse isolamento não inviabilizaria aquela pretensão do governo brasileiro.

A resposta dele não foi própria à de um ministro de Estado, que tem a obrigação de prestar contas à opinião pública. Disse ele: "É engraçado, os que consideravam tolice do governo pretender um lugar no Conselho de Segurança, agora lamentam a possibilidade de o perdermos". Ora, não importa o que certas pessoas pensavam da pretensão do governo; importa, sim, que o governo pretendia alcançar aquele objetivo e o inviabilizou por se ter aliado a uma ditadura belicista. Admiti-lo seria aceitar que errara e Lula, claro, não erra...

Mas assim é esse governo, só assume como coisa sua o que lhe dê prestígio, ainda que sua não seja, como no caso da defesa do meio ambiente. Alguém já viu, no plano internacional, uma comédia semelhante à representada por Lula e Dilma durante a reunião do clima em Copenhague?

O país todo sabe que Marina Silva deixou o Ministério do Meio Ambiente porque Dilma, então ministra da Casa Civil, seguindo as ordens de Lula, impunha a aprovação, a toque de caixa, dos projetos do PAC, ainda que atentassem contra a preservação do meio ambiente. No entanto, em Copenhague, ambos, apareceram como defensores da preservação ambiental. O tema é tão distante das preocupações de Dilma que ela, num ato falho, soltou uma frase reveladora do que realmente pensa da ecologia.

Nesse terreno da farsa descarada, um dos últimos episódios foi o do novo dossiê que o PT preparava para caluniar o candidato José Serra, mais um dentre outros, como aquele que foi escandalosamente flagrado num quarto de hotel, em São Paulo, quando a polícia apreendeu, em mãos de uma quadrilha petista, uma montanha de dinheiro. Em face de tão incontestável flagrante, Lula imediatamente chamou os responsáveis pela falcatrua de "aloprados", ou seja, tendo de admitir que era gente sua, tratou de desqualificá-los, como se agissem por conta própria. Como sempre, ele e seu partido nunca sabem de nada, desde que vire escândalo.

Surgiu, recentemente, outro dossiê e, de novo, contra Serra. Um dos convidados a armar a falcatrua abriu a boca e a denunciou, voltando a confirmar a denúncia numa CPI da Câmara de Deputados. A reação de Lula e seu partido não podia ser outra: afirmam que o dossiê foi inventado para acusar o PT e, assim, mais uma vez, o vilão se torna vítima e a vítima, vilão.

Um exemplo, para concluir. A equipe econômica do governo afirmara que, se aprovado pelo Congresso, o aumento de 7,7% para os aposentados comprometeria o equilíbrio orçamentário do país.

Mas Lula, que só pensa na eleição de Dilma, contrariando a opinião de seus ministros, sancionou o aumento e alegou: "Não é isso que vai levar o país à bancarrota". Só que ninguém afirmara tal coisa.

Como sempre, ele responde a uma afirmação que ninguém fez, para escamotear a verdade. A verdade é que esse aumento eleitoreiro agrava o déficit da Previdência, que já chega a R$ 50 bilhões.

À disposição das consequências:: Wilson Figueiredo

DEU NO JORNAL DO BRASIL

O Brasil está hoje – e não se sabe até quando – à disposição das consequências cujas causas históricas já perdeu de vista ou preferiu esquecer.

Falta ajustar a nova visão do nacionalismo e reservar ao Estado atribuições econômicas intransferíveis, cuja oportunidade historicamente correta se deu sob os dois mandatos social-democratas. O presidente Lula, com o PT para servi-lo em alguns serviços especializados, não deu continuidade ao tipo de reformas que não passam de jogo de aparência, mas não se lembrou das outras que são passadas adiante pela metade. Lula cortou a conversa, fez o que quis e o que não quis, ao optar pela via constitucional e fechar a via socialista por mau estado de conservação. O presidente vai dar uma volta completa em torno do mandato emprestado e, enquanto isso, cantará de galo republicano. Seu antecessor deixou aberto o precedente de utilizar as grandes reformas na função de bode do mujique para exasperar as reclamações da família e aceitar o desconforto normal com a alternativa.

Lula nem precisou de tanto: aprendeu que reformas valem mais como ameaça do que pelo resultado.A palavra que saiu de moda, por tempo imprevisível, foi revolução. Mas se dispõe ao recall.

Candidato a lugar de destaque, Lula sempre será daqui para a frente.

Nem na tentativa de continuar por outros meios (consulta plebiscitária para o eleitor dar a última palavra), o presidente se valeu do cacoete revolucionário em torno da qual se organizou o PT e em cujo centro Lula pontificou, mas nem mais se lembrava quando chegou ao poder. Trocou três insucessos eleitorais e um programa radical intacto por uma carta ao povo brasileiro, que poucos leram e da qual nem se lembra. Era uma renúncia de ordem prática, e não tática.

A sequência histórica da qual ele e o PT são a última consequência – a desmontagem da oligarquia republicana, passando pelos quatro anos de governo provisório, o protesto armado por São Paulo em 1932, a eleição da Constituinte em 1933 e a promulgação de Constituição de 1934, a campanha presidencial e o golpe de 10 de novembro de 1937, o Estado Novo e a retomada da via constitucional em 1945, as tensões políticas das sucessões presidenciais, a asfixia golpista de Getulio Vargas, a renúncia de Jânio, o parlamentarismo, a bipolarização sob João Goulart, o golpe militar de 64, a falta de autenticidade da eleições indiretas, o esgotamento dos governos militares, a saída eminentemente política da ditadura – pode ser considerada o delta de um sinuoso processo. Teve mais de último ato do longo processo histórico do que o início de algo realmente novo. A ver.

Lula fez o que quis e o que não quis, ao optar pela via constitucional e fechar a socialista


Wilson Figueiredo escreve nesta coluna aos domingos e terças-feiras.

A razão nanica de Estado :: Roberto Romano

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O governo brasileiro assumiu uma prática antiga na ordem internacional. Trata-se da razão de Estado. Na Europa, na Ásia e nos Estados Unidos da América é muito clara essa forma de pensar e agir. O Brasil, por sua vez, viveu sob a razão de Estado como súdito de Portugal, depois num Império conservador e duas ditaduras. Sem potência militar ou econômica para atingir os seus interesses, o País seguiu regras alheias e alvos idem. Agora o Itamaraty executa planos heterodoxos, sobretudo no campo dos direitos humanos. Prisioneira de regimes como os de Cuba, Irã, Zimbábue, Coreia do Norte e de outros países que violam estatutos civis, a Realpolitik brasileira se justifica pela suposta eficácia geopolítica ou econômica. Em Honduras, quando quebrou normas diplomáticas, interferindo nos assuntos internos do país, e no episódio iraniano, ao apoiar um dirigente antissemita, perdeu o Brasil. O recuo no acordo com a ditadura do Irã mostra a imprudência de nossa Chancelaria. Tais desastres mostram uma razão de Estado bisonha, mas, como as suas primas sérias, afeita à dissimulação.

A razão de Estado surgiu no Renascimento e significa o recurso da força e da astúcia a serviço do poder político. O seu ápice se encontra no absolutismo. Neste último, o governante foi posto acima das instituições. Contra tal arbítrio surge a democracia moderna na Inglaterra (século 17), nos Estados Unidos e na França (século 18). Os governos e os legisladores, mesmo os juízes, passam a integrar o corpo cidadão e jamais devem colocar-se fora dele. Assim, é exigido de todos os que operam no espaço público o compromisso com a verdade (daí o livre exame e a imprensa sem peias), a dita "accountability".

Fé pública e verdade garantem, nas democracias, os deveres, as leis, os contratos. As sociedades livres não podem existir sem a verdade. Nelas o segredo e a dissimulação devem ser atenuados.

A mentira e similares ameaçam o coletivo, pois corrompem o juízo e as condutas. Nada é garantido no campo democrático, que, segundo Norbert Lenoir, "é menos um regime que duraria por suas próprias forças, em virtude de seus princípios constitucionais, do que uma dinâmica: dinâmica de uma extensão dos direitos e generalização dos direitos fundamentais, resistência à concentração do poder que pode favorecer uma oligarquia reinante em nome do povo" (Democracia e Espaço Público). Quando partidos ou líderes são postos acima ou fora da ordem constitucional, surge a tutela arbitrária exercida contra o povo, impera a razão de Estado.


Esta é sinônimo de segredo e de espionagem. O pensamento democrático é oposto ao segredo. A publicidade é "a lei mais apropriada para garantir a confiança pública, sendo a causa de seu avanço constante rumo ao fim de sua instituição". Ademais, o segredo "é instrumento de conspiração; ele não deve, portanto, ser o sistema de um governo normal" (Bentham, Of Publicity). Segundo Georg Simmel, "toda democracia considera a publicidade como intrinsecamente desejável, seguindo a premissa fundamental de que todas as pessoas deveriam conhecer os eventos e circunstâncias que lhes interessam, visto que esta é a condição sem a qual elas não podem contribuir nas decisões sobre elas mesmas". Procedimentos secretos são corrigidos pela publicidade, ou seja, pela imprensa.

O governo atual é inimigo da livre expressão do pensamento. Para salvar as aparências na ordem externa, aumentando o número de votos em plano interno, seus adjuntos e aliados pregam o "controle social da imprensa". Tal prática, sob o disfarce da vontade coletiva, herda a pior razão de Estado moderna, a fascista.

No tema, basta citar Carl Schmitt - acarinhado pela esquerda, depois de ser oráculo da direita mundial - e seu pensamento sobre o controle político. O jurista alemão afirma que, no mister de formar a opinião pública, a imprensa estaria prestes a ser destronada pelo audiovisual. A mídia ameaçaria o Estado na tarefa de moldar o pensamento coletivo. Assim, pensa Schmitt, o Estado deve ter controle direto ou indireto daquelas técnicas, usando-as para propaganda. "Não existe ainda", acrescenta Schmitt, "um Estado tão liberal que não tenha reivindicado em seu proveito pelo menos uma censura intensiva e um controle sobre filmes e imagens, e sobre o rádio. Nenhum Estado pode permitir deixar a um adversário os novos meios técnicos de dominação das massas, sugestão das massas e formação da opinião pública." O Estado total, segundo Schmitt, controla a comunicação. Assim, "os novos meios técnicos pertencem exclusivamente ao Estado e servem para o aumento de sua potência". O Estado novo "não deixa surgir em seu interior forças inimigas que o obstruam ou desagreguem. Ele não deixa que seus inimigos disponham de meios técnicos, sapando sua potência por um slogan qualquer como Estado de Direito, liberalismo ou um nome outro. Ele sabe distinguir entre amigo e inimigo. (...) Sempre foi assim e a novidade reside apenas nos meios técnicos, cuja importância política deve ser levada em conta" (citado por Olivier Beaud: Les derniers jours de Weimar. Carl Schmitt face à l"avènement du nazisme).

A razão nanica de Estado espiona cidadãos e censura a imprensa. É o "controle social"... Daí o costume de armar denúncias, os supostos dossiês, a quebra ilegal dos sigilos bancários. Recordemos o ataque covarde de agentes públicos a Francenildo Santos Costa, o dossiê dos aloprados, o dossiê contra Ruth Cardoso e, agora, os papéis contra Eduardo Jorge. Certa parcela da ordem política brasileira recorda a bonequinha matrioshka: um crime dentro de um crime, dentro de um crime, dentro de um crime... E todos os crimes são impunes porque praticados em nome da razão nanica de Estado. Quem arma dossiês aproveita a penumbra, o silêncio, o segredo que infecta as entranhas do poder político. Saibamos reagir a tempo, porque depois, sob uma ditadura, restam apenas as receitas de bolos, sob a censura e a espionagem.

Professor titular da Unicamp

Alceu Valença - Solidão..

Em Convenção, PPS oficializa apoio a Serra e aprova nome de Álvaro Dias para vice

DEU NO PORTAL DO PPS

Foto: Tuca Pinheiro

Evento reuniu mais de 500 pessoas no Rio de Janeiro.

Wilson Passos

Em Convenção Nacional realizada na noite deste sábado, no Rio, o Partido Popular Socialista (PPS) formalizou o seu apoio a candidatura de José Serra (PSDB) à Presidência da República. O nome de Álvaro Dias, indicado para ser o vice do candidato tucano, também recebeu o apoio do partido no evento que contou com a participação de mais de 500 pessoas e foi realizado no Hotel Guanabara.

Na abertura do encontro, o presidente nacional da legenda lembrou que a Convenção era fruto de uma “construção coletiva” por não representar, segundo Freire, escolha de apenas algumas pessoas. Referia-se à decisão tomada em agosto de 2009, durante Congresso Nacional, onde a legenda aprovou o apoio ao candidato do PSDB que, até então, não estava definido. Serra e o ex-governador de Minas Gerais, Aécio Neves, eram os dois nomes que postulavam a indicação para a corrida ao Planalto.

Freire também lembrou que foi neste mesmo hotel (Guanabara) onde o partido em 2004 decidiu romper a aliança com o governo do presidente Lula por discordar dos rumos que o PT tomou depois de chegar ao poder. E que, a partir daquele instante, “começava a formação da aliança com os tucanos”.

Roberto voltou a criticar o governo, principalmente a política econômica. “Não mudou nada (da política), os resultados são pífios, cresceu pouco o país e vamos sofrer as consequências no futuro”, disse.

Vice de Serra

No meio da Convenção, Freire foi interrompido por um telefonema. Era o próprio Serra se desculpando por não ter comparecido ao local por um problema ocorrido na agenda. O presidente nacional do PPS transmitiu aos presentes um recado em que o ex-governador pedia para repassar o abraço dele a todos. Também informou que “está firme na campanha”. Freire emendou: “É importante dizer aqui que Serra não é homem que morre com a zoada (barulho) do tiro. Ele não vai aceitar imposição. O candidato a vice é Álvaro Dias”.

E entrevista a jornalistas horas antes, Freire já havia reiterado que do PPS o nome do vice recebeu toda a aprovação e elogiou a escolha. “Existe um consenso em torno do Álvaro Dias. Nós que fizermos esta aliança e que vamos enfrentar um governo que não tem limites temos que estar muito unidos. É um nome (o de Álvaro) que pode significar um boa composição com Serra e vamos para a luta”, afirmou.

Gabeira

O candidato apoiado pela aliança PV/PPS/PSDB e DEM ao governo do Rio de Janeiro, Fernando Gabeira, também participou da convenção do PPS. Ressaltou a longa trajetória de luta em que participou ao lado de pessoas do PPS e disse que é preciso resgatar no país a política séria.

Gabeira também criticou o governo do PT.

“Regredimos politicamente. Políticos hoje são mal vistos porque estão interessados em problemas pessoais. Perdemos o contato com os valores”, disse. Em seu discurso, Gabeira também pediu para as pessoas que fizessem um minuto de silêncio para as vítimas das chuvas ocorridas no Nordeste.

PSDB mantém vice, mas DEM resiste

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Segundo Rodrigo Maia, Serra ligou para demistas para tentar convencer partido a aceitar indicação de Alvaro Dias

Dias diz que reação do DEM não vai levá-lo a abrir mão da vaga e, no seu 1º discurso após ser indicado, ataca o PT

SÃO PAULO, RIO, CUIABÁ - O PSDB decidiu bancar a indicação do senador Alvaro Dias (PSDB-PR) como vice na chapa de José Serra à Presidência, mas o DEM deu sinais de que não recuará do veto ao nome do tucano, o que mantém aberta a crise entre os dois partidos.

Apesar de não ter havido reuniões entre líderes do PSDB e do DEM para discutir a crise, por conta de convenções partidárias em diversos Estados, até Serra entrou em campo, pelo telefone, para tentar apagar o incêndio, segundo o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia.

Maia disse que Serra não falou com ele, mas que, na tentativa de convencer o partido a aceitar o nome do senador paranaense, o tucano ligou para pelo menos três expoentes do DEM: Jorge Bornhausen, Marco Maciel e José Agripino Maia.

"De todo mundo, ouviu "não"", disse o deputado.

O ex-senador Bornhausen (SC), um dos principais interlocutores de Serra no DEM, negou que tenha conversado com o tucano. A Folha não conseguiu falar com os senadores Agripino (RN) e Marco Maciel (PE).

Maia afirmou que o DEM fará convenção na quarta-feira aprovando a aliança com Serra, mas colocando como candidato a vice um filiado seu. "Vamos esperar ele indicar o nome do DEM. Se não indicar, vamos aprovar o nosso nome", declarou.

Questionado sobre o possível imbróglio jurídico se os tucanos mantiverem o nome de Dias, foi sucinto: "Pergunte ao advogado do PSDB".

Serra era esperado na convenção nacional do PPS na noite de ontem, no Rio.

Às 19h20, o presidente Roberto Freire anunciou que ele não compareceria, mas que havia mandado um recado: "Está firme e não vai se submeter à imposição de quem quer que seja".

A direção do DEM se reunirá hoje ou amanhã para analisar a repercussão do caso entre os diretórios estaduais.

"NÓS DOIS FICAMOS"

Pivô da crise, Alvaro Dias afirmou que seu nome está mantido. "Acho que isso é próprio do calor da disputa eleitoral", disse o senador à Folha, pela manhã.

À tarde, em convenção do PSDB em Cuiabá, Dias afirmou que foi "advertido" pela direção nacional tucana a não mais afirmar que desistiria da indicação em caso de o DEM ameaçar rompimento."Não tenho o direito de abrir mão de uma convocação. Não sai nem o DEM e nem eu. Nós dois ficamos."

Em seu primeiro discurso após ser indicado à vice de Serra, Dias atacou o PT e foi saudado por tucanos como o "futuro vice-presidente".

Apesar das tentativas de apaziguamento, no microblog Twitter o tom seguia beligerante, com ataques e ironias de lado a lado.

Ele avisou que não aceitará imposições, diz Roberto Freire

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Luciana Nunes Leal

O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, desistiu na última hora de comparecer à convenção do PPS no Rio, que formalizou ontem o apoio a sua candidatura. Em meio ao conflito com o DEM em torno da indicação do candidato a vice em sua chapa, ele telefonou para o presidente do PPS, Roberto Freire, e avisou que não iria ao evento. Ao comunicar a ausência do candidato tucano à plateia da convenção, Freire disse que ele enviou um recado. "Mandou dizer que está firme e não vai se submeter a imposições de quem quer que seja."

DEM ameaça indicar outro vice na chapa de Serra

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Presidente do partido anunciou que, se necessário, levará o confronto até a convenção nacional do DEM na quarta-feira

Luciana Nunes Leal, Eugênia Lopes, Marcelo de Moraes, Eduardo Kattah e Fátima Lessa

O presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), acirrou ainda mais o clima de confronto com os tucanos e deixou claro ontem, no Rio, que não pretende voltar atrás na exigência de que o partido indique o candidato a vice na chapa presidencial de José Serra (PSDB). E anunciou que, se necessário, levará o confronto até a convenção nacional do DEM na quarta-feira.

Segundo ele, o partido vai esperar até lá que Serra indique um nome do DEM. Caso contrário, a própria legenda fará a indicação. " Vamos esperar que ele indique. Se ele não indicar vamos aprovar nosso nome na convenção do dia 30", afirmou Maia. Questionado sobre como se resolveria o impasse, já que o PSDB se definiu pelo senador tucano Álvaro Dias (PR), Rodrigo Maia respondeu: "Pergunte ao advogado do PSDB. Na convenção, vamos aprovar apoio ao Serra com candidato a vice do DEM."

Rodrigo Maia não foi na noite de ontem à convenção nacional do PPS que formalizou o apoio à Serra. "Estou cheio de coisas para fazer, atrás de voto para mim", afirmou o deputado, que é candidato a reeleição.

Mesmo diante das ameaças, o comando nacional da campanha do PSDB permanecia irredutível na indicação do nome de Álvaro Dias como vice na chapa. Em Cuiabá, o próprio senador paranaense se incumbiu de afirmar que é vice de Serra apesar da resistência do DEM. "Já me sinto em campanha", disse. Dias argumentou que não postulou o cargo. "Fui convocado. Aceitei e, portanto, não tenho direito de abrir mão ou ser intransigente. Minha posição é a do PSDB e principalmente do José Serra. Já está determinado desta forma e desta forma deve caminhar. Não saio eu nem sai o DEM", disse. Segundo ele, a rejeição a seu nome não é unânime no partido aliado. "Acredito no entendimento."

Tempo na TV. Coordenador da campanha tucana e presidente do PSDB, o senador Sérgio Guerra (PE) passou parte do dia de ontem em negociações com o DEM. O apoio formal do partido significa mais três minutos de TV para Serra ao longo dos 45 dias do programa eleitoral gratuito.

"Não é a primeira vez que essas diferenças acontecem. Sugerimos o nome de Álvaro Dias. Ponto. O DEM tem a posição dele", afirmou Guerra, que deverá se reunir hoje ou amanhã com os partidos que integram a campanha de Serra.

"O DEM insiste que o vice tem de ser do partido. Vamos deixar o processo andar", disse o deputado Jutahy Magalhães (PSDB-BA).

Um dos argumentos de Rodrigo Maia para cobrar o vice para o DEM foi o de que o presidente Lula "sacrificou" vários aliados nos Estados em prol da candidatura da petista Dilma Rousseff à Presidência. Citou os casos dos ex-prefeitos Fernando Pimentel (PT-MG) e Lindberg Farias (PT-RJ), que tiveram que abrir mão de suas candidaturas a governador para o PMDB. "Mas PSDB não quer sacrificar ninguém", observou Maia.

Rodrigo Maia ficou particularmente irritado com o anúncio do nome de Dias para o cargo pelo Twitter do presidente do PTB, Roberto Jefferson (RJ). O vazamento da escolha por um aliado, sem o prévio conhecimento do DEM, foi considerado no partido uma trapalhada muito grande.

Ao participar da convenção do PPS de Minas que homologou a candidatura do ex-presidente Itamar Franco ao Senado, o ex-governador Aécio Neves disse confiar num entendimento com o DEM. "Não tenho dúvidas de que o Democratas tem, acima das preferências pessoais por nomes, um compromisso com o País, com as mudanças, com os avanços e é isso que vai prevalecer", afirmou. "Tenho muita confiança que a liderança do governador Serra prevalecerá."

DEM do PR contraria cúpula nacional e apoia Alvaro Dias

DEU NA GAZETA DO POVO (PR)

Maioria das lideranças do partido no estado diz apoiar o paranaense na chapa de José Serra

Alexandre Costa Nascimento e Deise Campos

A convenção estadual do DEM, realizada neste sábado (26) em Curitiba, marcou uma posição divergente dos democratas paranaenses em relação à cúpula nacional da legenda. Enquanto o DEM nacional condenou a indicação do senador Alvaro Dias (PSDB-PR) a vice do presidenciável tucano José Serra, a maioria das lideranças do partido no Paraná apoiaram o nome do paranaense. A convenção estadual do DEM confirmou ainda o apoio da legenda à candidatura do tucano Beto Richa ao governo paranaense.

O anúncio de Alvaro como vice de Serra, na sexta-feira, foi mal recebido pela cúpula nacional do DEM, a ponto de o vice-presidente do Democratas, deputado federal Ronaldo Caiado (GO) ameaçar romper com os tucanos se a decisão não for mudada. O presidente nacional da sigla, deputado federal Rodrigo Maia (RJ) também se manifestou negativamente à decisão e disse que não medirá esforços para mudar o nome do vice. O DEM pleiteia a vaga que agora é de Alvaro.


Mas a maior parte das lideranças democratas no estado aceitou vem a indicação do tucano. O deputado Alceni Guerra (DEM-PR) disse que o apoio a Alvaro Dias é certo na bancada paranaense. “Vamos enfrentar o partido em nível nacional para defender a indicação do Alvaro Dias”,disse ele. “Tem momentos na política que o amor à terra é tão ou mais importante que o amor ao partido.” Alceni defendeu ainda que o deputado federal paranaense do DEM que não apoiar o nome de Alvaro “estaria cometendo um deslize". "Seria passar um recibo da falta de vontade de fazer o estado crescer.”

O deputado federal Eduardo Sciarra (DEM) disse que, como paranaense, ele não pode ser contra a indicação de Alvaro. “O DEM nacional abriu mão do cargo pelo Aécio Neves e agora está cobrando a indicação", disse Sciarra. Ele afirmou ainda que, pessoalmente, é favorável ao nome do Alvaro.

Já o deputado Luciano Pizzato disse apoiar o nome de um paranaense, sem citar Alvaro, e argumentou que devem ser levadas em consideração as questões locais para a escolha nacional. Ele afirmou que todos os integrantes do diretório estadual do DEM aceitaram bem o nome de Alvaro, mas que aguardam uma solução nacional, até porque as críticas do diretório nacional foram muito duras. “A questão nacional não tem a ver com o nome do Alvaro, não é objeção pessoal e sim da forma como foi feito, porque vazou antes, não sabemos se por querer ou não.”

Apesar disso, algumas lideranças do DEM no estado preferem ainda não se posicionar. É o caso do deputado federal Cassio Taniguchi. Ele disse não ter nada contra Alvaro, mas afirmou que essa é uma discussão que ainda deve ser feita pelo PSDB e pelo DEM.

Já o presidente estadual do DEM, o deputado Abelardo Lupion, foi uma das únicas vozes dissonantes, destoando dos companheiros de partido no assunto indicação de Alvaro a vice de Serra. “O PSDB não tem o direito de, para resolver uma questão paranaense [tirar o senador Osmar Dias da eleição para o governo do estado], negociar o cargo que já havia sido acordado.” Segundo ele, há dois anos já havia sido negociado que o DEM faria a indicação do nome para vice da chapa de Serra. “O DEM não abre mão dessa indicação. Se não tivermos a vice, o partido pode fechar.”

Lupion, que também foi contra o apoio do partido no Paraná a Beto Richa, disse que pedirá licença do cargo de presidente do partido no estado na próxima quarta-feira. O objetivo dele é criar um comitê no estado em favor da candidatura do senador Osmar Dias (PDT) ao governo estadual.

A crise é do candidato Serra João Bosco Rabello

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O fato de o anúncio do vice na chapa de José Serra, o senador Álvaro Dias, ter vazado, em vez de ter sido anunciado, resume o ambiente de campanha do PSDB: confuso e desarticulado.

A escolha - provisória ou definitiva, não se sabe - não foi de Serra, mas do partido, sem consulta aos aliados, num gesto mais na linha de um clube de notáveis que de um partido.

O problema é que restou um único notável a bordo: o próprio Serra. Aécio Neves internou-se em Minas e Fernando Henrique, rejeitado como um patinho feio, foi cuidar da própria vida.

A campanha centrou-se no candidato; a estrutura é precária, cada um é porta-voz de si mesmo. Nesse contexto, o principal aliado, o DEM, soube pelo Twitter de Roberto Jefferson, do PTB, que havia sido preterido por uma chapa puro-sangue, com Dias no lugar de Aécio.

Serra já decidira que, sem Aécio, o melhor seria um vice figurativo, o que o levou a nomes inexpressivos, desconsiderando o acordo de que, naquela hipótese, a vaga seria do DEM, humilhando o aliado, que percebeu o desconforto ideológico que causava.

O Twitter de Jefferson uniu o DEM. E as próximas horas definirão o destino da aliança: se efetiva ou burocrática, limitada a acordos regionais sem envolvimento da militância.

A declaração de Dias, de que desiste para pacificar, e o gesto de Pilatos de Serra, dizendo-se alheio à decisão, indicam que tudo pode voltar à estaca zero.

Guerra versus Jarbas

As coisas não vão bem entre o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, e o senador Jarbas Vasconcelos, palanque de Serra em Pernambuco. Segundo interlocutores de ambos, eles não conversam há mais de dois meses. Uma das razões é que o PSDB não quer indicar a segunda vaga ao Senado (a primeira é do DEM, Marco Maciel). Guerra está irritado com a influência do DEM na campanha, através da boa relação entre Jarbas e o presidente do partido no Estado, Mendonça Filho.

Pesquisa inclui Álvaro Dias

Para complicar mais um pouco a crise com o DEM, o próximo Datafolha já vem com Álvaro Dias como vice de Serra. O instituto protocolou sexta-feira no TSE a pesquisa, cujo resultado deve sair no próximo fim de semana. Na rede Twitter, o veneno ontem era de que o Datafolha soube antes do DEM que o vice seria Álvaro Dias.

A novidade é que o questionário apresentado pelo instituto inclui perguntas sobre o candidato a vice-presidente. Numa delas, o eleitor é questionado se sabe quem é o vice e se ele influencia o voto no candidato. Amadorismo

Desabafo de um senador tucano, antes do vazamento do nome de Dias para vice de Serra. "A campanha está mambembe, tudo é improvisado, há amigos fazendo tarefas por favor, no lugar de profissionais contratados". Um exemplo, segundo ele, é a agenda do candidato, cuja definição depende da senadora Marisa Serrano (PSDB-MS). Reclamou também da concentração das decisões e das informações, e que jamais recebeu um briefing da campanha, que deveria ser diário.

Dilma em Minas

Enquanto o PSDB exibe desorganização, o presidente Lula e sua candidata, Dilma Rousseff, preparam um desembarque glorioso na convenção do PMDB, em Belo Horizonte, na próxima quarta-feira, para lançar a candidatura de Hélio Costa ao governo, com Patrus Ananias de vice. À frente de uma caravana do PMDB, Michel Temer, vice de Dilma.

''Espero que Lula entenda seu peso para a afirmação da democracia na região''

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Empresário e ex-embaixador nos EUA, o chanceler hondurenho, Mário Canahuati, afirma que seu governo já assegurou ao ex-presidente Manuel Zelaya o direito de retorno. "Isso já foi resolvido, ele tem amplas garantias para voltar", diz ao Estado por telefone. Moderado, ele evita críticas ao Brasil como quem pisa em ovos e diz que o País pode ajudar "muitíssimo".

Para normalizar laços com Honduras, o Brasil exige o retorno de Zelaya ao seu país. O seu governo aceita?

É na OEA que se está discutindo o caminho para a volta de Honduras ao sistema interamericano, assim como a questão da normalização dos laços bilaterais com países que até agora não aceitaram o novo governo. Estamos sendo muito cautelosos nesse processo. Não queremos mais dizer simplesmente que defendemos a autodeterminação ou a posição desses países que não nos aceitam.

Mas seu governo pode dar garantias de que Zelaya não será perseguido pela Justiça, ou por quem quer que seja, caso volte?

Creio que isso ficou claro quando o presidente (Porfírio) Lobo encontrou-se com Zelaya na República Dominicana e lhe assegurou os mesmos direitos de qualquer cidadão hondurenho. O caso foi resolvido, ele tem garantias para retornar. Desconhecemos se há uma razão por trás da recusa brasileira em normalizar laços. Honduras é um país de paz e amigos. E a liderança do Brasil pode nos ajudar muitíssimo, assim como a de outras potências econômicas - Peru, Colômbia, México. Espero que em pouco tempo líderes como Lula, que fez um excelente trabalho no Brasil, dêem-se conta da grande responsabilidade que têm para a afirmação da democracia na América Latina.

O sr. reconhece que o fato de o governo hondurenho ter sido eleito sob um regime de facto compromete sua legitimidade?

O presidente Lobo fez um governo integrado pelas diferentes facções políticas, incluindo pessoas que participaram da Frente Nacional de Resistência (radicais pró-Zelaya). Um deles é Cesar Ham (ex-candidato do partido Unificação Democrática), que chefia agora o Ministério Nacional Agrário. O presidente assumiu totalmente do acordo Tegucigalpa-San José, cujo penúltimo ponto era a instalação de uma Comissão da Verdade. Ela foi iniciada em 4 de maio. O último ponto era o retorno automático de Honduras à OEA e a normalização dos laços com os países, mas lamentavelmente isso não ocorreu.

Vozes em Honduras já falam em desistir de voltar para a OEA.

Tomamos a decisão de trabalhar voltados para dentro, para responder às necessidade dos hondurenhos. Demos passos importantes quanto à questão de direitos humanos. O presidente convidou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA a avaliar tudo que ocorreu e está ocorrendo para ajudar-nos a avançar. Mas a comunidade internacional não resolverá sozinha nossos problemas.

Zelaystas continuam a dizer que lutarão até o fim por uma constituinte. Há o risco de uma nova instabilidade institucional?

Isso é parte da democracia. Alguns deles (zelaystas) estão no governo e todos têm a liberdade de se manifestar, assim como os demais 8 milhões de hondurenhos.

Família, filhos, comida e voto:: Vinicius Torres Freire

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Crescimento da renda e redução do tamanho médio das famílias fazem eleitor comer mais nos anos Lula

É evidente que as pessoas vivem e comem melhor no Brasil de agora do que no final do governo FHC. Para ser mais preciso, dadas as estatísticas disponíveis, viviam melhor em 2009 do que em 2003. Diga-se de passagem que nem todas as melhorias e pioras se devem a FHC ou Lula, embora argumentos jamais virão a convencer os torcedores fanáticos de petistas e tucanos.

Isto posto, o que nos diz sobre essas melhoras a POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), divulgada pelo IBGE na semana que passou? Mais precisamente, o que a POF e alguns indicadores auxiliares nos dizem sobre tais melhorias, sobre a renda e o estômago dos brasileiros?

Na equivalente da POF realizada em 1974-75, em média 34% do total da despesa dos brasileiros destinava-se à alimentação. Em 1995, 23,4%. De 2003 para 2009, a mudança foi pequena: de 20,8% para 19,8%. Ou seja, durante os anos FHC, diminuiu o peso relativo dos gastos com alimentos. Nos anos Lula, tal fatia de despesa ficou praticamente estável. Ressalte-se que não se está atribuindo a mudança a este ou aquele governo, por favor.

Nos anos FHC, porém, a renda média real (descontada a inflação) caiu ou, no mínimo, ficou estagnada, a depender do tipo de estatística empregado. No que diz respeito à despesa com alimentos, porém, tal problema foi em parte mitigado por uma mudança de preços relativos, como dizem os economistas. Em português, isso quer dizer que a inflação dos alimentos foi menor que a inflação média e a de outras rubricas do orçamento das famílias.

Entre 1995 e 2002, o IPCA, a média da inflação, subiu 200%. O preço médio dos alimentos aumentou 166%. A inflação da habitação foi de 311%; a dos transportes, 256%.

Nos anos FHC, o preço da comida subiu relativamente menos. As agruras sociais da renda estagnada foram ao menos remediadas com a queda do preço dos alimentos.

Registre-se que ao final dos anos FHC, no início de 2003, despesas com alimentação, moradia e transporte levavam 74,7% do gasto médio de consumo das famílias. Em 2009, penúltimo ano de Lula, tais gastos equivaliam a 75,7% do total.

Entre 2003 e 2009, anos Lula, o IPCA subiu 143%. A inflação da comida, 143%, assim como a da habitação; a dos transportes, 139%.

Nos anos Lula, até janeiro de 2009, data de referência da POF, portanto o preço da comida subiu mais ou menos na média do IPCA.

Mas a renda média real cresceu, como se sabe. Além do mais, houve um "bônus demográfico", digamos, para melhorar a situação.

O tamanho médio da família brasileira era de 3,7 pessoas em 1995. Em 2003, era parecido: 3,62. Em 2009, as famílias ficaram significativamente menores, ao menos em termos estatísticos: 3,3.

A renda das famílias cresceu, em termos reais, e a renda de cada pessoa (a renda familiar per capita) subiu ainda mais, claro. Entre 2003 e 2009, a renda familiar per capita cresceu na média quase 22%, em termos reais (acima da inflação), segundo cálculos do economista Marcelo Neri, com base na POF.

De 2003 a 2009, a parcela da despesa familiar destinada à alimentação ficou praticamente estável. Mas a renda das famílias aumentou; a renda que cabe a cada membro das famílias aumentou ainda mais -pode-se comer mais e/ou melhor.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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Valentina Lisitsa (Chopin 24 Etudes DVD track)Op. 25 No. 12

O Relógio:: João Cabral de Melo Neto


1.
Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.

Se são jaulas não é certo;
mais perto estão das gaiolas
ao menos, pelo tamanho
e quadradiço de forma.

Uma vezes, tais gaiolas
vão penduradas nos muros;
outras vezes, mais privadas,
vão num bolso, num dos pulsos.

Mas onde esteja: a gaiola
será de pássaro ou pássara:
é alada a palpitação,
a saltação que ela guarda;

e de pássaro cantor,
não pássaro de plumagem:
pois delas se emite um canto
de uma tal continuidade

que continua cantando
se deixa de ouvi-lo a gente:
como a gente às vezes canta
para sentir-se existente.
2.

O que eles cantam, se pássaros,
é diferente de todos:
cantam numa linha baixa,
com voz de pássaro rouco; desconhecem as variantes
e o estilo numeroso
dos pássaros que sabemos,
estejam presos ou soltos;

têm sempre o mesmo compasso
horizontal e monótono,
e nunca, em nenhum momento,
variam de repertório:

dir-se-ia que não importa
a nenhum ser escutado.
Assim, que não são artistas
nem artesãos, mas operários

para quem tudo o que cantam
é simplesmente trabalho,
trabalho rotina, em série,
impessoal, não assinado,

de operário que executa
seu martelo regular
proibido (ou sem querer)
do mínimo variar.
3.

A mão daquele martelo
nunca muda de compasso.
Mas tão igual sem fadiga,
mal deve ser de operário;

ela é por demais precisa
para não ser mão de máquina,
a máquina independente
de operação operária.

De máquina, mas movida
por uma força qualquer
que a move passando nela,
regular, sem decrescer:

quem sabe se algum monjolo
ou antiga roda de água
que vai rodando, passiva,
graçar a um fluido que a passa;

que fluido é ninguém vê:
da água não mostra os senões:
além de igual, é contínuo,
sem marés, sem estações.

E porque tampouco cabe,
por isso, pensar que é o vento,
há de ser um outro fluido
que a move: quem sabe, o tempo.
4.

Quando por algum motivo
a roda de água se rompe,
outra máquina se escuta:
agora, de dentro do homem;
outra máquina de dentro,
imediata, a reveza,
soando nas veias, no fundo
de poça no corpo, imersa.

Então se sente que o som
da máquina, ora interior,
nada possui de passivo,
de roda de água: é motor;

se descobre nele o afogo
de quem, ao fazer, se esforça,
e que êle, dentro, afinal,
revela vontade própria,

incapaz, agora, dentro,
de ainda disfarçar que nasce
daquela bomba motor
(coração, noutra linguagem)
que, sem nenhum coração,
vive a esgotar, gôta a gôta,
o que o homem, de reserva,
possa ter na íntima poça.

sábado, 26 de junho de 2010

Reflexão do dia - Giulio Ferroni



" Poder-se-ia dizer que o conceito de intelectual orgânico é, ao mesmo tempo, atual e inatual. Atual pela lucidez com que Gramsci estendeu a categoria de intelectual, incluindo não só as figuras tradicionais (escritores, filósofos, artistas, etc.), mas abrangendo todas as figuras de técnicos e de mediadores do consenso e das formas de consciência e conhecimento sob títulos diversos (aqueles que hoje poderíamos chamar de operadores culturais). Inatual porque hoje não podemos mais falar de intelectuais que sejam orgânicos para uma classe ou um grupo de classes. Quando muito, há intelectuais funcionários que são orgânicos em relação ao sistema de comunicação e intelectuais “não orgânicos”, que resistem ao sistema global da comunicação, sem nenhum mandato social.


Bolchevique nos anos da revolução soviética e naqueles da fundação do Partido Comunista Italiano, Gramsci se afastou do bolchevismo no pensamento mais maduro dos Cadernos do cárcere, pensamento que também é animado por uma forte contraditoriedade e por uma grande tensão dramática. Quanto à concepção do “Moderno Príncipe”, os atuais partidos de esquerda, também aqueles que ainda pretendem ser “comunistas”, estão, com efeito, muito distantes disto. Na realidade, o atual “Moderno Príncipe” não é mais um partido ou o partido, mas é a televisão. "



(Giulio Ferroni, professor de literatura italiana da Universidade La Sapienza, de Roma, em entrevista publicada no site Gramsci e o Brasil, outubro de 2009)

Partidos em transição :: Marco Aurélio Nogueira

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Agora que a campanha presidencial ganha força e os candidatos começam a revelar seus recursos e ideias, pode ser útil dar algum destaque ao que está por trás e na base deles. Refiro-me aos partidos políticos, e especialmente ao PT e ao PSDB, as duas estruturas mais importantes em termos de quadros, bancadas parlamentares, experiência de governo e presença na História recente do País.

O cientista político Luiz Werneck Vianna tem observado, de forma recorrente, que esses dois partidos "paulistas", nascidos nas dobras da redemocratização para dar voz e representação a vários setores sociais impulsionados pela modernização, teriam vindo ao mundo com "um diagnóstico comum sobre o que seriam os males do país": o excesso de Estado, a "herança ibérica" e patrimonial, o autoritarismo político, as políticas de clientela, o burocratismo parasitário, os mecanismos de cooptação, em suma, tudo aquilo que bloqueava a movimentação da sociedade civil e a livre representação dos interesses.

No entanto, crescendo como estruturas independentes, passaram a ter de lutar pela conquista de espaços, recursos de poder e "territórios". Tornaram-se concorrentes, adversários. E o que poderia ter produzido uma vigorosa social-democracia no País acabou por desembocar no fortalecimento de dois partidos que detêm a hegemonia na política nacional, mas não conseguem mudar a face do Brasil nem melhorar a representação política dos setores que a eles se vincularam na origem. Com isso PT e PSDB deixaram de ser "expressões do moderno na política" e se entregaram ao trabalho de cortejar as forças do atraso político e social, para assim responderem ao "presidencialismo de coalizão" que prevaleceria no País. A diferença entre eles esmaeceu. Converteu-se em efeito colateral dos embates eleitorais.

Isso não quer, evidentemente, dizer que os dois partidos se tenham tornado iguais, nem que as distinções entre eles se resumam a detalhes banais ou pouco nobres. Muitas coisas importantes separam PT e PSDB: o estilo de governo, a relação com os setores organizados da sociedade, a maneira como concebem a questão da regulação do mercado. Isso para não mencionar suas ideias de desenvolvimento, distribuição de renda, redução da desigualdade e afirmação dos direitos de cidadania, que dão origem a políticas públicas distintas.

A interessante hipótese de Werneck Vianna vale tanto pelo que constata quanto pelo que sugere.

PT e PSDB perderam progressivamente a graça e a vitalidade. Acostumaram-se ao exercício do poder, assimilaram as implicações da globalização e do estabelecimento de um padrão mais "líquido", individualizado e veloz de vida social, ajustaram-se às novas maneiras de fazer política e disputar eleições. Deixaram-se envolver por uma rede de ressentimentos, mágoas e feridas recíprocas, que os mantém num conflito inflamado, mas pouco substantivo. "Civilizados" pela estabilidade democrática e pelos ritos e armadilhas do sistema político, foram se desconstruindo como partidos. Hoje estão à procura de um novo eixo. Não conseguem mais aparecer com cara própria, compatível com os ideais de esquerda ou centro-esquerda que professam.

Donde a sensação de que as disputas eleitorais transcorrem sem muita nitidez, como se expressassem mais do mesmo. Há concordâncias categóricas quanto ao que se considera "fundamental" - a estabilidade financeira, a responsabilidade fiscal, a necessidade de um novo ciclo de desenvolvimento. Como nada é aprofundado, fica difícil saber onde estão as diferenças.

PT e PSDB encontram-se em transição, obrigados a decifrar e traduzir uma sociedade complicada, num momento complicado do mundo. O cenário da política não lhes é propriamente favorável. Nem sequer está claro que tipo de partido pode cumprir uma função decisiva hoje.

Partidos políticos são entes que sempre disputam territórios e agem com os olhos na conquista de poder político. Partidos fortes e reformadores, como querem ser ambos, precisam ser pragmáticos e responsáveis, mas não podem abrir mão de postulações de identidade, ideais, valores e projetos de sociedade. Sem isso não têm como consubstanciar uma alternativa. Tornam-se iguais aos outros. Hoje, a disputa por território entre PT e PSDB é inevitável, mas também é vazia de ideias. Não chega a ser fisiológica, mas está perto.

Num debate que fizemos dias atrás pela internet (http://www.marcoanogueira.blogspot.com/), a cientista política Gisele Araújo observou corretamente que tudo o que se desconstrói também pode estar em reconstrução. Partidos são organismos em construção permanente, mas não são imortais. É provável que nossa época esteja desconstruindo os partidos para reconstruí-los como organismos especializados em arregimentar eleitores e conquistar governos. Pode ser que estejamos caminhando rumo a uma era de política menos ideológica, mais perfunctória e pragmática, que exigirá partidos mais frios e calculistas.

Mesmo que seja assim, PT e PSDB terão de realizar sua transição. Para onde caminharão? Há dois cenários no horizonte.

Um deles apontaria para o prolongamento da situação atual. Nele, PT e PSDB levariam ao extremo a adaptação às exigências da Realpolitik própria da "vida líquida". Continuaríamos a ter embates eleitorais inflamados, mas inócuos, demarcação de terreno sem maior substância, revezamentos continuístas e muita opacidade.

Outro cenário sugeriria o reforço daquilo que aproxima PT e PSDB. Ele significaria o deslanche de um movimento que culminaria na construção de um grande partido social-democrata com correntes internas dotadas de identidade suficiente para fomentar um embate partidário de qualidade e cavar novas trincheiras na sociedade.

Esse, porém, é um caminho árduo e complexo. Requer discernimento e desprendimento em doses elevadas, coisas improváveis quando se está em condição de hegemonia e sob os louros da vitória.


Professor titular de Teoria Política da UNESP.

Quem é o vice?:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

De repente, quando ninguém queria ser o vice de José Serra, abre-se uma crise na coligação oposicionista justamente devido à disputa pelo posto. Os últimos dias foram gastos em reuniões infindáveis para analisar o que estaria acontecendo no Sudeste para permitir a ultrapassagem da candidata oficial logo na região onde a oposição tinha mais possibilidade de se impor ao governo.

As pesquisas recentes confirmavam que o país está dividido, desde a eleição de 2006, mesmo com a alta popularidade do presidente Lula, e que as questões regionais têm mais preponderância na escolha do voto que ideologias.

Toda a estratégia oposicionista está baseada em garantir as regiões “tucanas” e tentar reduzir a diferença nas dominadas pelo “lulismo”.

Na mais recente pesquisa do Ibope, em que surgiu pela primeira vez a candidata oficial, Dilma Rousseff, à frente de Serra, o candidato tucano melhorou no Nordeste (27% para 30%) e no Norte/ Centro Oeste (31% para 34%), cumprindo assim com sucesso a estratégia.

Mas caiu justamente nas duas regiões em que predomina o eleitorado “tucano”. No Sul, caiu de 46% para 42%, mas ainda lidera a disputa. E, no Sud e s t e , registrou se a maior reviravolta: Serra caiu 5 pontos, indo para 36%, e Dilma cresceu 4 pontos, alcançando um empate técnico.

Numa visão otimista, é melhor que essa mudança tenha se registrado em regiões onde o PSDB e aliados são fortes, pois indicaria que há condições de reverter esse processo.

U m processo , aliás , que teve início na ameaça de dissidência do Rio de Janeiro na chapa de Fernando Gabeira, com o PV e o PSDB reagindo a uma coligação com o DEM de Cesar Maia.

Por pouco a convenção para ratificar a candidatura de Gabeira não se realizou.

Por mais dificuldades que os parceiros tenham para caminharem juntos, é preciso fazer movimentos coordenados com os aliados, e não é isso o que está se vendo na escolha do vice.

O processo decisório começou com um equívoco político realmente sério, com a ideia de emplacar a vereadora Patrícia Amorim, do PSDB do Rio, c o m o c ompanheira de chapa de Serra.

Chegou a haver consultas sérias a respeito, e o melhor argumento a favor era o de que a vereadora, presidente do Flamengo, poderia levar para a candidatura um sopro popular no Rio de Janeiro, com reflexos em outros estados do país onde a torcida do Flamengo é grande.

Um argumento típico de quem está perdido na busca de um reforço em um dos estados da região Sudeste onde Serra perde terreno.

Apesar da pressa de alguns políticos imediatistas, que já cercavam a vereadora como se ela fosse a salvação da campanha, ao final de algumas consultas ficou claro que não era ali que estava a solução de uma questão política.

Já a escolha do senador Álvaro Dias, do PSDB do Paraná, tem a vantagem de consolidar a presença da oposição no Sul do país, garantindo a adesão do senador Osmar Dias, seu irmão.

Mas se esqueceram de combinar com os russos, como diria Garrincha.

O DEM, parceiro de primeira hora do PSDB, já se sente em condições de reivindicar posição de honra na coligação, digerida a crise do mensalão de Brasília.

O PSDB, e o próprio Serra, não pensam desse jeito, e gostariam de manter a coligação, com os preciosos três minutos de propaganda de rádio e televisão, mas sem ter que sair de mãos dadas com o partido que, temem, ainda está com a reputação abalada pelo escândalo.

Mas, como não é possível explicitar tais sentimentos, o PSDB esperava que o DEM ficasseem uma posição recatada nas discussões, acatando qualquer decisão que surgisse de um suposto “comando de campanha” do qual o presidente de honra do DEM, ex-senador Jorge Bornhausen, e o presidente, deputado Rodrigo Maia, fazem parte, mas de cujas reuniões, se é que aconteceram, não foram convidados a participar.

O resultado da fatídica pesquisa do Ibope deu forças ao DEM para reivindicar seu lugar na chapa, colocando na balança seus minutos de propaganda eleitoral.

A discussão não é feita em termos tão crus, embora seja isso mesmo o que está acontecendo.

Os dirigentes do Democratas consultados mostraramse unidos na recusa em abrir mão do cargo, a não ser que fosse para o ex-governador mineiro Aécio Neves, e alegaram temer não terem condições de controlar suas “bases” na convenção marcada para o dia 30, prazo derradeiro para a definição oficial da coligação.

No mesmo dia , por exemplo, as regionais de Sergipe e Pernambuco farão suas convenções, totalmente fora do controle na direção nacional, se não houver o compromisso de que o partido ficará com a vice-presidência.

O deputado Ronaldo Caiado, por exemplo, que apoia de má vontade o senador tucano Marconi Perilo em Goiás, está doido para romper a aliança.

Em todas as conversas, a impossibilidade de garantira realização da convenção nacional do partido a tempo de formalizar a aliança é colocada na mesa, travando a decisão final.

Que já tem no senador Álvaro Dias um vice convidado e que aceitou, e está sendo vetado por um dos grupos aliados. Para quem não tinha vice nenhum, até que a confusão está de bom tamanho.

A chapa pura:: Fernando Rodrigues

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - O PSDB quer disputar o Planalto com dois tucanos como candidatos a presidente e a vice: José Serra e Álvaro Dias. Essa chapa puro-sangue remete a uma discussão paralela: a nova configuração dos partidos pós-era Lula.

O PT há muito tempo abandonou o carreira solo em eleições. Lula venceu em 2002 em grande parte após promover uma dobradinha com o megaempresário José Alencar, à época abrigado no PL.

O tucano Fernando Henrique Cardoso alavancou sua vitória em 1994 com a ajuda do PFL (hoje DEM). A vaga de vice coube ao pernambucano Marco Maciel.

Num país com 27 partidos, é difícil vingar um projeto nacional sem compartilhamento de poder. Embora irrelevantes na vida real, muitas das 27 agremiações têm peso no establishment político: todas beliscam um naco do fundo partidário (R$ 200 milhões anuais) e têm horário garantido na TV e no rádio.

Se o PSDB for bem-sucedido com a chapa José Serra e Álvaro Dias, protagonizará um formato inédito de ganhar a Presidência da República. Poderá surgir talvez um partido social-democrata mais coeso. Mas, se o projeto fracassar, tucanos e oposição de centro-direita em geral entrarão esfarrapados em 2011. Uma coisa é perder a eleição de forma unida. Outra, bem diferente, é entrar na disputa já de maneira fragmentada, rachada.

Nesse cenário negativo para o PSDB, o partido emergirá mais fragilizado do que em 2002, quando Serra perdeu a eleição presidencial para Lula. Eterna linha auxiliar dos tucanos, o Democratas definhará. O PTB e outras siglas do sistema solar anti-PT dependerão de cargos em governos estaduais amigos.

Do outro lado do muro, se for vencedor, o consórcio PT-PMDB ampliará a política tradicional do fisiologismo no Congresso. Tudo considerado, a configuração partidária pós-Lula parece ser muito semelhante à atual -ou pior.

Mariene de Castro participa do DVD de Beth Carvalho

Álvaro Dias é escolhido vice de Serra e irrita DEM

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Após longo impasse, PSDB anuncia tucano para a chapa presidencial, mas principal aliado faz ameaça

O PSDB anunciou, ontem, após longo impasse, a indicação do senador tucano Álvaro Dias (PR) para vice na chapa de José Serra à Presidência, ainda sob o impacto da pesquisa CNI/Ibope que mostrou a candidatura do partido em queda. Dirigentes do PSDB consideram a indicação de Dias "irreversível", apesar de o principal aliado dos tucanos, o DEM, recusar a chapa puro-sangue e insistir em ocupar o posto - Rodrigo Maia, presidente do DEM, disse que os tucanos têm até o dia 30, data da convenção dos democratas, para mudar de ideia. Já o PPS e o PTB aprovaram a decisão. A escolha tucana foi uma solução política para evitar que um curto-circuito no Paraná ameace sua liderança na única região em que bate a petista Dilma Rousseff. Com isso, o PSDB abandonou a possibilidade de escalar Patrícia Amorim, presidente do Flamengo, que seria uma novidade de apelo popular.

PSDB indica Álvaro Dias como vice de Serra e enfrenta resistência do DEM

Escolha do nome do senador tucano é considerado irreversível pelos dirigentes do partido apesar de o deputado Rodrigo Maia (RJ) ter reagido de maneira negativa ao saber da notícia; para ele, decisão tucana deve sair até a convenção democrata, no dia 30

Christiane Samarco e Ana Paula Scinocca

BRASÍLIA - O PSDB escolheu o senador tucano Álvaro Dias (PR) para vice na chapa do presidenciável José Serra, ainda sob impacto do resultado da pesquisa CNI/Ibope que mostrou a candidatura do partido em queda. Dirigentes do partido consideram a indicação "irreversível", apesar de o principal aliado, o DEM, recusar a chapa puro-sangue e insistir em ocupar o posto.

Entre uma novidade com apelo popular e uma solução política para evitar que um curto-circuito no Paraná ameace sua liderança na única região em que bate a petista Dilma Rousseff, Serra ficou com a opção pragmática de vice. Foi assim que a cúpula tucana trocou a presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, por Dias. Patrícia é também vereadora no Rio de Janeiro pelo PSDB.

Os estrategistas da campanha avaliaram que Serra precisa manter, a qualquer custo, a liderança no Sul, sob pena de passar a imagem de candidato em declínio. O que seria uma opção converteu-se em necessidade de consolidar os votos na região Sul, evitando qualquer "marola" política no Paraná. "Essa movimentação isola o PT no Estado e pode dar ao partido a maior vitória proporcional de Serra em todo o Brasil", justificou o deputado Jutahy Júnior (PSDB-BA), um dos articuladores da escolha.

Dias na vice significa afastar de vez a possibilidade de o irmão dele, senador Osmar Dias (PDT), dar um palanque forte a Dilma no Estado, saindo candidato a governador em aliança com o PT. Também serve de argumento a Osmar junto à direção nacional do PDT. Como seu partido decidiu pelo apoio à candidatura de Dilma, só uma boa justificativa pode render a liberação para apoiar o tucano Beto Richa na corrida estadual.

Serra bateu o martelo na escolha de seu vice ontem de manhã, encarregando o presidente nacional do PSDB e coordenador da campanha, senador Sérgio Guerra (PE), e seu amigo Jutahy de dar a notícia a Dias e aos aliados. O senador já estava na capital paulista desde cedo. Fora avisado na véspera de que poderia ser chamado por Serra, a qualquer momento.

Guerra fez questão de ir ao Rio comunicar o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), da opção por Dias. "O nome que temos é este", avisou. A conversa foi tensa e não houve acordo. "Se querem um acordo no Paraná, o PSDB que se sacrifique, abra mão da candidatura de Beto Richa ao governo e apoie Osmar Dias. Não podem pedir para o DEM abrir mão. Entreguem o braço deles, e não o meu", disse Rodrigo Maia.

Ele fincou o pé na decisão do DEM de indicar o vice e disse que os tucanos têm até o dia 30, data da convenção do partido aliado, para decidir. É na convenção que a coligação com o PSDB terá de ser aprovada para dar mais três minutos de TV a Serra, ao longo dos 45 dias de programa eleitoral gratuito.

Já as consultas ao PPS de Roberto Freire e ao PTB de Roberto Jefferson foram bem sucedidas. "Acho uma excelente escolha", afirmou Jefferson. Avisou também que, se Rodrigo Maia insistir no critério partidário para a escolha do vice, o PTB vai pleitear o posto. "Acho que temos melhores condições públicas de fazer a indicação porque o episódio do Arruda (o ex-governador do DF José Roberto Arruda) está muito recente", disse, sugerindo o nome do ex-deputado Benito Gama (BA). Jefferson entende que Dias pode resolver o problema no Paraná e influir em toda a região, consolidando os votos no Sul.


'Se o DEM tiver que sair, saio eu', diz Dias

DEU EM O GLOBO

Anselmo Carvalho Pinto

Especial para O GLOBO CUIABÁ.

O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) afirmou ontem, em visita à capital de Mato Grosso, que o convite para ser vice na chapa encabeçada pelo tucano José Serra na disputa presidencial foi uma “convocação irrecusável”.

Ressaltou, no entanto, que a confirmação oficial de seu nome como vice depende da concordância do DEM, partido que esperava ter a prerrogativa de indicar o nome para a chapa. Perguntado se sua efetivação como vice não poderia provocar a saída do DEM do arco de alianças, Dias afirmou que essa possibilidade é nula.

— Não há nenhum risco. Se o DEM tiver que sair, saio eu. Estamos a favor do Brasil. É responsabilidade da oposição oferecer uma alternativa inteligente de poder ao país. Não podemos abrir mão desta responsabilidade — disse.

Apesar de dizer que ainda falta a concordância do DEM, Dias já falava como candidato.

— Fui convocado para ser o vice de Serra. E a convocação é irrecusável . Para contribuir, não vou fugir a esta responsabilidade.

Aceito, sim, obviamente. É uma honra ser vice do Serra, pelo seu talento, pela sua competência política e pela sua capacidade administrativa.

O senador afirmou ainda que se José Serra fizer um apelo pela unidade em torno do projeto da oposição, “certamente os democratas apoiarão”.

Álvaro Dias contou que conversou com o irmão, Osmar Dias (PDT-PR), com quem o PT contava para se lançar candidato no Paraná e abrir um palanque para a presidenciável Dilma Rousseff no estado: — Conversei com o Osmar, que me deu força, e me disse que não eu não tinha como não aceitar uma convocação dessa, que para o estado é importante. O fato de sermos irmãos é um estímulo para estarmos juntos.

Vaivém em torno de Aécio travou definição

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A escolha do candidato a vice na chapa do tucano José Serra se arrasta desde muito antes da oficialização de sua candidatura à Presidência. O maior entrave foi o vaivém, desde o ano passado, em torno da tentativa de convencer o ex-governador de Minas Aécio Neves a aceitar a missão. Vice dos sonhos do PSDB, do próprio Serra e dos partidos aliados, o ex-governador resistiu até o fim e não embarcou no projeto da chapa tucana puro-sangue. Aécio alegou ser mais útil para projeto de eleger Serra como candidato a uma vaga no Senado.

Sem o ex-governador de Minas em jogo, o DEM - tradicional aliado dos tucanos - voltou a reivindicar o posto. E resiste à ideia de chapa tucana pura. Ofereceu os nomes do deputado José Carlos Aleluia (BA) e dos senadores José Agripino Maia (RN) e Kátia Abreu (TO). Ante a cogitação do nome da presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, contrapôs o da vice-presidente do partido, Valéria Pires Franco.

Senador já foi acusado de traição e expulso do partido

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Depois de ter assinado a CPI da Corrupção no governo FHC, Álvaro Dias saiu do PSDB e apoiou Lula na eleição de 2002

Christiane Samarco e Ana Paula Scinocca

BRASÍLIA - O nome que a cúpula do PSDB e o candidato a presidente José Serra querem ver na chapa tucana já foi expulso do partido e votou contra Serra em 2002. Acusado de traição pelo tucanato por ter assinado a CPI da Corrupção no governo Fernando Henrique Cardoso, o senador Álvaro Dias (PSDB-PR) foi posto porta a fora do PSDB e ficou com o candidato vencedor, Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas tudo isso é passado, repetem, em coro, os tucanos que hoje defendem a escolha de Dias como salvação do partido no Paraná, imprescindível para consolidar o avanço de Serra na região.

Quanto às críticas do DEM, os tucanos rebatem dizendo que, em 2002, o então PFL também ficou contra Serra. Apoiou Ciro Gomes no primeiro turno e, depois, fatia expressiva do partido também acabou aderindo a Lula.

A operação política da escolha de Álvaro Dias foi feita para atrair outro tucano expulso da legenda no passado: seu irmão e senador, Osmar Dias, também assinou pedido de CPI e deixou o PSDB. Como Álvaro, foi para o PDT. A diferença é que o vice voltou ao ninho e Osmar não.

O irmão caçula venceu a eleição para o Senado, pelo PDT. Álvaro preferiu concorrer ao governo do Paraná e foi derrotado por Roberto Requião, do PMDB. Sem mandato, tentou obter do aliado e presidente Lula a indicação para ser embaixador do Brasil na Espanha. Não conseguiu e, assim, acabou retornando à oposição e ao PSDB em 2003.

De volta ao Senado pelo PSDB em 2006, Dias foi líder da minoria de oposição e retomou um posto na direção partidária, como um dos vice-presidentes da legenda. Seu nome entrou na lista dos mais cotados para vice há cerca de dois meses. O senador paranaense foi lembrado pelo próprio presidente do PSDB, que tinha uma "dívida" com ele.

Em fevereiro, Guerra tinha dado sua palavra a Dias de que ele seria o novo líder do PSDB no Senado.

Diante da resistência do líder Arthur Virgílio (AM) em liberar a cadeira, que ocupa há 14 anos, ao colega de partido, Guerra adiou a promessa para maio. Nem assim conseguiu liberar o posto para ele. "Vamos resolver isso. Tenha calma. No final tudo vai se resolver", contemporizou Guerra. Virgílio continua líder, mas Álvaro Dias ganhou a vice de Serra e não tem nada a perder. Na pior hipótese, continuará senador por mais quatro anos.

PSDB dá a Álvaro Dias missão de 'virar votos'

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Luciana Nunes Leal

Na noite de quinta-feira, José Serra foi ao aniversário da filha, Verônica, na casa dela, no Morumbi. Àquela altura, o nome de Álvaro Dias estava amadurecido como candidato a vice e a missão do presidente do PSDB, Sérgio Guerra (foto), era conversar com os presidentes dos partidos aliados. "Era preciso bater o bolo onde tem fermento. Álvaro tem potencial instantâneo de virar pelo menos 500 mil votos", calcula um aliado que defendia a escolha do paranaense, em vez de uma mulher, para fazer frente a Dilma Rousseff e Marina Silva. Para o tucano, era arriscado lançar uma candidata com pouca consistência eleitoral ou de um Estado pouco expressivo. Depois de optarem por Álvaro Dias, os tucanos contavam com a reação inconformada do DEM e com a concordância do PTB e do PPS. Só não previam a indiscrição de Roberto Jefferson, que anunciou a escolha no Twitter.

Reação tucana contra prefeitos rebeldes

Dirigentes do PSDB em vários Estados estão encarregados de enquadrar prefeitos e outras lideranças municipais, na tentativa de evitar que, na prática, façam campanha para Dilma Rousseff, embora declarem apoio a José Serra. Há uma avaliação de que a vantagem de Dilma na última pesquisa Ibope já é consequência de uma debandada de prefeitos que vem acontecendo nos últimos meses. Em Estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais, prefeitos do PSDB e do DEM argumentam que não têm como pedir votos contra o presidente Lula, depois de terem sido beneficiados por ações do governo federal. No Rio, governantes de partidos oposicionistas também trabalham pela reeleição do governador Sérgio Cabral (PMDB) e não embarcarão na campanha de Fernando Gabeira (PV), aliado de PSDB, DEM e PPS.

Cenários opostos para dois aliados

Uma situação curiosa acontece na eleição capixaba. Pesquisa do instituto Enquet (registro 10655/2010 no TSE) feita em maio, com 1.400 entrevistas, mostrou o candidato do PSDB ao governo, Luiz Paulo Vellozo Lucas, 40 pontos atrás do adversário do PSB, Renato Casagrande, enquanto José Serra estava 10 pontos à frente de Dilma Rousseff. "Hoje, o Serra me ajuda mais do que eu o ajudo", reconhece Vellozo Lucas.

Dilma não vai à festa do PMDB

José Serra estará hoje na convenção nacional do PPS que vai formalizar a coligação com PSDB. Já Dilma Rousseff não é esperada na convenção estadual do PMDB que lançará o governador Sérgio Cabral candidato à reeleição, amanhã. A petista vai ao lançamento da candidatura de Jaques Wagner (PT) na Bahia. Depois de prestigiar o peemedebista Geddel Vieira Lima, a candidata não poderia faltar à festa de seu partido.

Lula e Dilma: o voto e a copa :: Villas-Bôas Corrêa

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Espremido entre a campanha por ele antecipada em desobediência aos prazos da lei, com a penca de multas do Superior Tribunal Eleitoral e a ansiedade do peladeiro, corintiano fanático em São Paulo e mais discreto vascaíno no Rio, o presidente Lula desta vez acertou na moita ao optar entre o voto e a Copa do Mundo pelo seu dever ético de visitar as áreas atingidas pelas chuvas que causaram mais de 50 mortes em Pernambuco e Alagoas e anunciou a liberação imediata de R$ 550 milhões para os dois estados.

Além das visitas a Palmares (PE) e Rio Largo (AL), cidades devastadas pelas enchentes, com mais de 150 mil desabrigados, Lula estimulou os governadores e autoridades estaduais a não medirem esforços e gastos para atender às vítimas da tragédia.

E num apelo que veio a calhar e soa com a sinceridade de uma autocrítica, advertiu aos governadores e prefeitos que não permitam o uso político do dinheiro já depositado para os dois estados.

Pela primeira vez, por uma desafinação imprevista, Lula e a candidata Dilma Rousseff bateram de frente na contradição. Enquanto o presidente caminhou pelas ruas enlameadas de Palmares, sujando os sapatos e as meias, a ministra-candidata cumpria o ameno programa de uma visita a Aracaju e baixou o nível do debate para acusar como responsáveis pela calamidade “os governos dos últimos 20 anos, pois não havia governo para 100% da população, mas apenas para um terço, e é esta camada mais pobre que sofre as consequências”.

A ministra esqueceu de conferir as datas, para descontar dos últimos 20 anos os sete anos e meio dos dois mandatos do presidente Lula. E que não deve utilizar o pretexto para cancelar a visita às outras áreas devastadas pela chuvarada que ainda maltrata populações que não têm mais o que perder, além da vida.

Desconfio, com as boas razões do seu entusiasmo pelo futebol, que o presidente acompanha a Seleção de Dunga desde a confirmação da sua escolha para técnico. E que muito na moita cultiva o sonho de uma viagem à África do Sul para assistir a uma final com a participação do Brasil na decisão do sonhado Hexacampeonato.

E não desanimar com a medíocre exibição da Seleção capenga e com ausências que a desfiguraram.

Sem Kaká, suspenso por um jogo e sem Ronaldinho Gaúcho, que não foi convocado, a Seleção de Dunga ficou perdida em campo. Mas disputará o título completa, com Kaká nas quatro partidas das oitavas de final, das quartas de final, nas semifinais e a final em 10 de julho, no estádio de Port Elizabeth.

PS Fica para a próxima o comentário sobre a Jabulani e as pesquisas científicas sobre a sua aerodinâmica pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo e também pela Nasa, publicadas ontem pelo JB

Tempo de TV e eleições:: Cesar Maia

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A formação das coligações partidárias no Brasil para as eleições presidenciais é muito mais um processo de conquista de tempo de TV que de agregação política. Dias atrás, até o uso de tempo de TV do Senado foi motivo de atritos. Na verdade, uma questão inócua.

Realmente, o tempo de TV no auge do marketing político, até dez anos atrás, era um fator diferenciador pelo impacto que produzia. Vide os EUA, onde o tempo de comerciais na TV é comprado e, portanto, ilimitado. Os pontos eram o conteúdo e o efeito que produzia sobre o eleitor.

No Brasil, onde o tempo de TV é proporcional à quantidade de deputados federais, alguns partidos têm mais tempo que outros. E isso acirra a disputa por esse tempo.

Com as restrições dadas pelo regime militar, a introdução de tecnologia eleitoral na TV atrasou mais de 20 anos. A abertura do dique trouxe, ao mesmo tempo, essa tecnologia desenvolvida nos EUA e uma enorme atratividade para o eleitor. O tempo de TV ganhou importância, e vitórias eleitorais eram atribuídas aos publicitários (chamados marqueteiros), que passaram a ser estrelas nas eleições.

Mas a continuidade do uso da TV em propagandas partidárias e eleitorais foi acostumando o eleitor, e o desgaste progressivo dos políticos pós-democratização foi gerando desinteresse e menor impacto.

Nos últimos cinco anos, esse menor impacto dos comerciais políticos passou a ser percebido e analisado. Na eleição de 2008 nos EUA, este foi um fato comprovado, a ponto de a vitória de Obama receber um exagerado destaque pelo uso de redes na internet.

Com a minimização da emoção pela TV, surgem psicólogos sociais que oferecem técnicas de emocionalizar a comunicação política, com ou sem TV. No Brasil, o menor impacto da TV a partir da eleição de 2006 ficou claro para os analistas atentos. Claro que os publicitários continuaram a insistir que depende da técnica e que não é bem assim. Afinal, é um mercado generoso. O uso da TV em campanhas passa a ser muito mais um elemento de informação geral que de mobilização. E, nesse sentido, a técnica continua importante. Claro que a técnica exclui os que não usam a definição de imagem adequada e os que comunicam de forma simplória.

No Brasil, um tempo de TV para presidente abaixo de dois minutos elimina o candidato por falta de exposição e informação. Acima de cinco minutos é inócuo e não agrega quase nada, mas pode servir para não dar fôlego aos menores.

Nos comerciais, melhor ainda para quem tem mais, pois elimina os com pouco tempo, por um ou dois dias por semana. No programa, a vantagem é zero: todos os demais juntos terão sempre muito mais tempo para distrair o eleitor.

Fé e política:: Míriam Leitão

DEU EM O GLOBO

Na entrevista que fiz esta semana com Marina Silva não perguntei de religião. Foi proposital. Ao me preparar para a entrevista, me dei conta de que já entrevistei muitos candidatos à Presidência, nas últimas cinco eleições, e nunca perguntei a qualquer dos candidatos se, de alguma forma, suas convicções religiosas seriam parte do programa de governo. E eles tinham religião.

As perguntas sobre a religião evangélica de Marina Silva aparecem de várias formas, são recorrentes, todas revelam o mesmo temor: o de que ela imponha ao país, caso eleita, suas crenças religiosas através do currículo escolar ou padrões de comportamento. Um temor que mais parece preconceito. Primeiro, ela não tem esse perfil autoritário, aliás é uma pessoa pública que marcou sua vida pelo diálogo. Segundo, e mais importante, nós temos uma democracia forte, vibrante, capaz de reagir a quaisquer tentativas de cerceamento da liberdade individual. Vejase a tentativa do governo Lula de impor o controle da imprensa, em 2003, através de uma agência de audiovisual e de um conselho de jornalistas. Não deu certo. Em outros países latino-americanos, os governantes foram bem mais sucedidos.

Ninguém pergunta a um candidato católico se ele vai proibir a pílula, exigir que os brasileiros não usem métodos contraceptivos, apesar de isso ser uma orientação do Vaticano para as famílias. Não teria cabimento essa pergunta, porque é claro que o candidato, se eleito, nem tentaria uma barbaridade dessas, e se tentasse, as famílias ignorariam.

Mas à Marina a pergunta se ela implantaria políticas públicas baseadas na visão da igreja que frequenta aparece insistentemente.

O Brasil é um país laico e assim continuará. Marina está sendo vítima de erros de alguns políticos evangélicos que têm tentado transformar púlpito em palanque, o que é detestável da perspectiva religiosa e uma ameaça à qualidade da democracia.

Fé e política são questões que devem estar separadas. Apesar disso, os candidatos em campanha sempre vão a eventos religiosos, de diversas confissões, num chamado indireto aos fiéis. Se visitar diversos cultos for uma demonstração de tolerância religiosa, é excelente; se for uma tentativa de manipular a escolha do eleitor religioso, é um retrocesso.

A grande questão é: por que Marina é crivada de perguntas sobre sua fé e não há a mesma ilação sobre o risco de transposição das doutrinas religiosas para as políticas públicas quando o candidato é da religião dominante no país? Aos outros, basta responder afirmativamente à pergunta clássica se acredita em Deus.

E nisso aí, há uma hipocrisia: só se aceita como boa a resposta positiva, como se o Brasil não pudesse ser governado por um agnóstico.

A imprensa brasileira lida de forma mais civilizada com questões da vida pessoal do que a imprensa de outros países.

Há na americana uma obsessão puritana por saber quem tem ou teve amante; quem traiu ou não o cônjuge.

Isso é tão definitivo que uma infidelidade conjugal pode acabar com a candidatura.

A imprensa brasileira só dá atenção a casos pessoais quando eles envolvem questões públicas.

Um exemplo, o caso do senador Renan Calheiros.

A pauta não era se o então presidente do Senado tinha uma filha fora do casamento, mas o fato de que as contas da mãe da filha eram pagas no escritório de uma empreiteira.

Temos sabido distinguir entre fatos da vida pessoal que pertencem à privacidade do candidato, daqueles fatos que se transformam em questões públicas. Já a imprensa americana tem compulsão por investigar a vida dos candidatos atrás de amantes pretéritas e presentes.

Mas não temos passado bem no teste da escolha religiosa, se ela for qualquer uma que não a católica. O que é preciso, de novo, é fazer a distinção entre o que é assunto público do que pertence especificamente à pessoa do candidato.

A questão do ensino do criacionismo apareceu como um assunto público.

A “Veja” perguntou a ela, em setembro do ano passado, se o criacionismo deveria ser ensinado nas escolas. Ela garantiu que jamais defendeu a ideia de criacionismo como matéria obrigatória. Explicou que a confusão surgiu porque, numa palestra num colégio adventista, diante de uma pergunta se o criacionismo poderia ser ensinado na escola, ela respondeu “desde que ensinem também o evolucionismo.” A pergunta continuou sendo feita em cada entrevista.

Eu particularmente acho que as religiões têm o direito de ensinar, em seus recintos, as suas crenças sobre a origem da vida e do aparecimento do ser humano no Planeta. Mas isso deve ficar restrito ao ambiente religioso. Nas escolas, o que se ensina é ciência. As bíblias católica e protestante, a Torá, o Corão, e outros textos religiosos têm a mesma explicação de um força superior criadora da vida. Se é assim geral, por que só à Marina essa pergunta é feita? Me perguntei tudo isso ao me preparar para entrevistar Marina Silva e decidi que esse tema não estaria entre os que abordaria.

Senti que só poderia fazer para ela perguntas sobre o risco de políticas públicas inspiradas em sua fé se tivesse feito as mesmas perguntas aos outros candidatos, de outras denominações religiosas, que tenho entrevistado em todas as eleições. Não tendo feito a eles, não fiz a ela.

Doente, ex-governador ainda dirige PSDB do Rio

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Mesmo preso à cadeira de rodas, Alencar costurou a aliança com Gabeira

Bernardo Mello Franco de São Paulo

Presidente de honra do PSDB do Rio, o ex-governador Marcello Alencar, 84, não disputa uma eleição há 16 anos. Há oito está preso à cadeira de rodas, sequela de um acidente vascular cerebral que quase o matou.

Apesar da saúde debilitada, ele é o principal responsável pela aliança que livrou o tucano José Serra de ficar sem palanque no terceiro colégio eleitoral do país.

A pedido do presidenciável, Alencar costurou pessoalmente o lançamento de Fernando Gabeira (PV) ao governo fluminense, num delicado palanque duplo com a verde Marina Silva.

A chapa foi definida na sala de estar de seu apartamento, com ampla vista para a praia de São Conrado.

Na semana passada, em meio a uma crise que ameaçava implodir a coalizão, o ex-governador voltou ao circuito para garantir a palavra firmada por quatro partidos.

Como de hábito, sua intervenção quase não foi notada.

Desde que deixou o front eleitoral, ele mantém o mesmo estilo: praticamente não aparece, mas manda como poucos caciques brasileiros.

"Tenho que ter sempre a última palavra. Para ser obedecido ou desobedecido", sentencia o ex-governador.

Alencar assumiu o diretório estadual do PSDB em 1993, quando rompeu com Leonel Brizola (PDT).

Comanda o partido como um Estado absolutista. Os aliados são unânimes: nada é feito sem seu consentimento.

"Na minha idade, acho que não devia me meter em política. Mas não dá", diz ele, lembrando os atropelos da aliança fluminense. "Para não mentir, eu gosto..."

DISSIDENTES

Como no brizolismo, quem ousa desobedecer é convidado a deixar o partido. A lista inclui o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes. Alencar não gosta de falar no assunto. "Meu filho, isso é muito penoso..."

Quem aceita obedecer é brindado por um misto de proteção e rispidez.

No dia em que o ex-governador recebeu a Folha, o deputado Otavio Leite (PSDB-RJ) ouviu uma bronca num ato partidário: "Porra, mas tu sempre chega atrasado!".

Herdeiro do populismo da Baixada Fluminense, o prefeito de Duque de Caixas, José Camilo Zito, chegou a abandonar a legenda.

Foi perdoado. "Ele só me chama de paizão. Na rua, me beija escandalosamente", diverte-se Alencar: "O Rio é um Estado de nariz em pé. Eu gosto do Zito, ele dá uma liga entre o partido e o povão".

Na véspera da entrevista, o ex-governador havia almoçado com Serra, que declarou que o Rio precisava de "um novo Marcello".

"Talvez ele tenha dito isso porque sabe que eu tô na bola sete, na boca da caçapa", debocha o ex-governador: "Quando acabou o discurso, todos os puxa-sacos oficiais vieram atrás de mim".

O escracho volta com um assunto proibido para a maioria dos políticos: o gosto pela bebida, que fez a alegria dos chargistas nos anos 90.

"Eu chegava na zona oeste, e o povo dizia: "Paga uma branquinha pra gente, governador". Aí não tinha jeito, eu tinha que beber", explica-se. "Me chamavam de Velho Barreiro, mas era injustiça, porque nunca fui viciado em nada", diz, sem demonstrar incômodo com o apelido.

O tema também pontua sua avaliação sobre o presidente. "Eu sei que o Lula gosta do que é bom. Trocou a cachaça pelo uísque..."

Na juventude, uísque e cigarro eram "companheiros de guerrilha" do advogado que defendia presos políticos. Fumou até cinco maços por dia, mas parou. O álcool segue em doses moderadas.

Ao comentar a última descoberta, Alencar exibe a empolgação de um estreante na política. Descreve Gabeira, de 69 anos, como "um jovem muito talentoso, com propostas para o futuro".

"O Gabeira está muito mais próximo de nós do que do PV", orgulha-se. "Ele já é um tucano de bico largo!"

País maravilha: Vítimas da chuva no NE disputam lixo

DEU EM O GLOBO

Desabrigados de Barreiros, em Pernambuco, se instalaram nas margens das rodovias e, no meio da lama podre, disputam comida e destroços.

Restos viram alimentos, e escombros, barracos

Às margens de rodovia estadual, vítimas das chuvas no interior de Pernambuco reviram montes de destroços

Letícia Lins

BARREIROS (PE). Mais de uma semana após o começo das chuvas e um dia após a visita do presidente Lula à região devastada em Pernambuco, um batalhão de desabrigados ocupava ontem as margens das rodovias para matar a fome, a sede e tentar refazer suas vidas.

Entre os escombros cobertos de lama podre, no meio do lixo, procuravam comida, separavam colchões e lençóis e até pedaços de madeira para reconstruir seus barracos.

Terreno às margens de rodovia torna-se lixão Um dos terrenos laterais da rodovia estadual PE-060 transformouse num lixão, onde estão sendo despejados escombros que sobraram da enchente do Rio Una, que cobriu a cidade de Barreiros, a 110 quilômetros da capital. Enfrentando o mau cheiro, sem luvas e quase sempre descalços, adultos e crianças disputavam os destroços atirados pelas caçambas.

— Estou procurando um taquinho de tábua para ver se ajeito um barraquinho. Desde segunda-feira procuro os pedaços no meio dessa lama, para ver se faço uma casinha para minha filha. Ela perdeu tudo na cheia e agora não tem onde morar com os três filhos — contou o desempregado José Amaro de Souza.Ao seu lado, Maria José da Silva, com três dos oito filhos, conseguiu achar roupas, colchão, dois travesseiros e um pacote de biscoitos. Tudo coberto de massa negra e fedorenta.

— O biscoito estava embrulhado, dá para comer. O resto a gente lava, dá para aproveitar — disse Maria José.

Maria Lourdes Ferreira, de 35 anos, acreditava que conseguiria fazer alguns trocados com o que tirava das montanhas cinzentas: — Minha casa valia R$ 8 mil, mas dela só ficou a terra. Perdi todos os móveis. Estou procurando plástico, alumínio, qualquer coisa que possa vender.

Não tenho mais nem documento.

— afirmou Lourdes, que, como Maria José, morava num bairro totalmente inundado.

Centenas de pessoas encontramse ao relento às margens da PE-60, perto da ponte sobre o Rio Una que dá acesso ao Centro de Barreiros. Até ontem, tinham recebido apenas água e pães com mortadela. Alguns se acomodaram num imóvel próximo à sede de uma usina, e outros improvisaram barracas de lona. Um bebê de um mês só contava com um estoque de 200 gramas de leite.

Depois de perder a casa, Maria José Alves da Silva mora sob uma barraca, cujas paredes são a carroceria abandonada de um caminhão, com seus quatro filhos, inclusive um bebê de um mês. A mobília se resume a uma cama, uma cadeira e um fogão de duas bocas.

— Meu mesmo, aqui, só tem o botijão de gás. O resto é emprestado — disse ela.

Arranjar comida é “uma guerra”, diz desabrigada Zorilda Oliveira da Silva, de 48 anos, andava na sexta-feira com um saco plástico amarrado no pescoço.

— Foi a herança que a enchente deixou, esse saco com meus documentos.

Do outro lado da rodovia, sob uma lona negra, cinco famílias aguardavam por doações.

Maria de Fátima da Silva, de 39 anos, contou tem sido “uma guerra” arranjar comida: — Quando chega alguma coisa avançam em cima. .

Perto dali, Cícera Maria da Silva, de 54 anos, com uma vassoura, lavava o chão de cerâmica dos quartos e terraço daquilo que ela provavelmente sonhava ainda ser uma casa.

Das paredes, só restou metade.

Parte de portas e janelas foi levada pela correnteza.

O número de municípios atingidos pelas enchentes subiu para 67, segundo a Comissão de defesa Civil de Pernambuco.

Destes, 29 encontram-se em situação de emergência e nove em calamidade, com decreto homologado pelo Governador Eduardo Campos (PSB).

Entre eles, encontram-se Barreiros, Água Preta e Palmares, visitada na quinta-feira por Lula.

Entre desabrigados e desalojados, o estado soma 83.912 pessoas. O número de mortos permanece 17. O número de casas derrubadas é de 11.748, com 4.334 quilômetros de rodovias danificadas, e 10 mil quilômetros de estradas vicinais destruídas. As pontes que ruíram já são 132, segundo o governo do estado.