terça-feira, 12 de agosto de 2025

O espaço da política: entre o ódio e o medo - Paulo Fábio Dantas Neto*

Uma amiga pernambucana, lendo o editorial de O Estado de São Paulo, de 27.07.25 (“A internacional golpista de Trump”), lembrou-se de um slogan de campanha do senador pernambucano Marcos Freire, de saudosa memória, tragicamente morto em 1987, quando era ministro da Reforma Agrária. Aos 56 anos de idade, estava no pleno vigor de um patamar ascendente de uma carreira política temperada pela combinação de firmeza e moderação, típica da política da unidade democrática do tempo mais duro da ditadura, anterior à transição. “Sem ódio e sem medo” havia sido a partitura pela qual chegara à cena nacional, como membro do “grupo autêntico” do MDB, precisamente em 1974, ano em que os eleitores de Pernambuco reconheceram o valor do artesanato político da paciência democrática e o elegeram senador, na memorável eleição que marcou, em todo o país, o começo da inflexão da ditadura.

Considerados os distintos contextos e os respectivos públicos daquele discurso democrático de então e do referido editorial de agora, pode-se mesmo notar uma complementaridade positiva. O tom pluralista, adotado como conceito de fundo pelo Estadão, reduz o atual teor de medo que paralisa ambientes conservadores diante da ingerência despótica de Trump na política brasileira, com a associação espúria e subalterna do bolsonarismo, facção interna da extrema-direita mundial. A firmeza atual de um jornal liberal moderado, insuspeito de ter indisposição com os EUA, tem sentido positivo análogo ao que tinha, há 50 anos, a pregação daquele oposicionista autêntico que, a partir de um lugar de esquerda, pregava a unidade antiditatorial com os liberais e se dedicava a dissipar o teor de ódio polarizante que havia em setores progressistas mais radicalizados, atuantes no mesmo lugar que ele, naquela geográfica política.

Pensamentos digitalizados - Merval Pereira

O Globo

Imortalizadas nos computadores dos acusados, expressões transformaram-se em provas quando confrontadas com a realidade.

Sem saber que adentrava um campo filosófico delicado que marcaria para sempre sua atuação na tentativa de golpe de Estado ocorrida em janeiro de 2023, o general da reserva Mário Fernandes, ex-número 2 da Secretaria-Geral da Presidência de Jair Bolsonaro, afirmou em depoimento no Supremo Tribunal Federal que o plano Punhal Verde e Amarelo feito por ele — que previa o assassinato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), do ministro Alexandre de Moraes e a vigilância de outros ministros do STF — era apenas um “pensamento digitalizado”.

O coronel Flávio Peregrino, assessor do general Braga Netto, candidato a vice de Bolsonaro e um dos autores intelectuais do golpe, diz em documento escrito encontrado pela Polícia Federal:

— Tudo isso para ajudar o Presidente B [Bolsonaro] a se manter no governo, pois sempre foi a intenção dele.

Peregrino alegou que foram “ideias formuladas com base na liberdade de expressão”.

Em Gaza, tragédia na tragédia – Fernando Gabeira

O Globo

Apenas 1,5% das terras agrícolas não foram destruídas. Só a ajuda de fora pode conter a fome

Corações partidos diante de mais de 61 mil mortes e 146 mil feridos encontram-se com uma nova tragédia em Gaza: Israel decidiu ocupar militarmente a região. O principal alvo é a cidade de Gaza, ao norte da Faixa. Mais de 1 milhão de pessoas terão de deixar suas casas de agora até 7 de outubro. Para onde vão, como comerão?

Existem apenas quatro pontos de distribuição de comida. Cerca de 1.400 palestinos foram fuzilados perto desses postos. Apenas 1,5% das terras agrícolas não foram destruídas. Só a ajuda de fora pode conter a fome.

Netanyahu chegou a negar essa fome, mas foi contestado pelo próprio Trump. É impossível ignorar a imagem das crianças esquálidas. O que acontecerá nas próximas semanas não só pode acentuar o isolamento internacional de Israel, como reacender uma importante tradição local: o intenso debate sobre o futuro do país.

Alguns sinais são públicos: o chefe do Estado-Maior do Exército, Eyal Zamir, já expressou sua oposição às novas manobras militares:

— Continuaremos a expressar nossas posições sem medo, de forma pragmática, independente e profissional.

O tropeço do GPT-5 – Pedro Doria

O Globo

É cedo para dizer se o GPT-5, que a OpenAI lançou na quinta-feira passada, é um modelo ruim de inteligência artificial. Mas é, certamente, o primeiro lançamento desastroso da empresa. Até aqui, a receptividade de cada novo anúncio tecnológico vinha ocorrendo com festa. Desta vez, não foi assim. As críticas começaram a chegar rapidamente. Em horas, enxurradas de clientes pagos do ChatGPT estavam se queixando. Reclamavam, principalmente, dizendo que o modelo anterior dava respostas melhores, mais completas. Será interessante acompanhar como a OpenAI encara esse seu primeiro momento de estar nas más graças do público. É, também, uma oportunidade para suas duas maiores concorrentes — de um lado, Google, com o Gemini; do outro, Anthropic, com o Claude.

Portas fechadas e diálogo suspenso - Míriam Leitão

O Globo

O cancelamento da agenda do secretário americano com Fernando Haddad mostra que o canal de diálogo com os EUA está fechado e é preciso correr com as medidas de apoio às empresas

Todas as portas do diálogo foram fechadas pelo governo dos Estados Unidos. Numa situação assim, tudo o que o Brasil pode fazer é continuar se mostrando aberto à negociação. Por outro lado, é preciso rapidez com as medidas de mitigação de danos para que as empresas que enfrentam esse tarifaço de frente possam se reorganizar. A economia vai crescer menos, o país perderá exportações e 10 mil empresas serão atingidas. Na inflação, o efeito será de redução da pressão nos preços. O mercado prevê menos PIB e menos inflação.

Haddad, Bessent e a inversão do ônus da prova - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

O bolsonarismo cava medidas contra o Brasil, obstrui qualquer tentativa do governo de revertê-las e depois repreende Lula e ministros por não terem acesso a Trump e aos secretários

No dia 21 de julho, o ministro Fernando Haddad repassou à sua chefia de gabinete o pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que marcasse uma conversa com o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent. O pedido foi repassado para seu assessor internacional, Mathias Alencastro. Sua agenda mantinha contatos que não mudaram desde a vinda de Janet Yellen ao G20 e também daqueles que foram acionados para o encontro entre os ministros da economia em 4 de maio em Los Angeles.

No dia 1 de agosto, numa mensagem por WhatsApp, uma assessora do secretário deu sinal verde para o agendamento. No dia 4 de agosto, em troca de e-mails, foi formalizado o pedido de encontro por chamada de vídeo e, no dia seguinte, tudo ficou acertado para que a conversa se realizasse em 13 de agosto. Quinze horas depois, a Fazenda recebeu, por e-mail, o cancelamento do encontro sem nova data. Nesta segunda, Haddad disse à GloboNews que tudo se deveu à ação da “extrema-direita”.

Tarifaço não pode silenciar o debate sobre os juros - Pedro Cafardo

Valor Econômico

Plano Real deixou de eliminar a indexação, o que faz com que inflação passada se reflita na futura

Duas semanas atrás, o Banco Central manteve a taxa básica de juros em 15% ao ano, a mais alta em quase 20 anos. Ela precisaria estar em nível tão elevado?

A resposta a essa pergunta e a discussão desse tema ficaram em segundo plano nos últimos meses, porque o escandaloso tarifaço de Trump atraiu toda a atenção dos agentes econômicos. Também porque o governo atenuou as críticas ao BC depois que um indicado pelo presidente Lula, Gabriel Galípolo, assumiu o comando do banco.

É importante, porém, voltar a falar sobre juros, visto que a manutenção da taxa de 15% é talvez tão prejudicial quanto o tarifaço para a economia do país.

Lá vai, então, um estímulo a esse debate. Esta coluna teve acesso a proposta feita no meio acadêmico, fora do mercado financeiro, portanto, a pedido do Centro de Estudos e Debates Estratégicos da Câmara dos Deputados, que levanta os problemas da condução da política monetária brasileira sob o regime de metas de inflação. O autor é o professor da UnB José Luís Oreiro, combativo economista pós-keynesiano e novo-desenvolvimentista.

Onde está a resistência a Trump? - Dani Rodrik*

Valor Econômico

A Europa tem o poder e a autoridade moral para oferecer liderança global. Em vez disso, hesitou e depois se submeteu às exigências de Trump

Os críticos dos Estados Unidos sempre os retrataram como um país egoísta que joga seu peso para todos os lados com pouca preocupação com o bem-estar dos outros. Mas as políticas comerciais do presidente Donald Trump têm sido tão equivocadas, erráticas e autodestrutivas que até a mais caricatural dessas descrições parece lisonjeira. Ainda assim, de uma forma distorcida, suas loucuras comerciais também revelaram os fracassos de outros países, forçando-os a considerar o que suas respostas dizem sobre suas próprias intenções e capacidades.

Focos diferentes nos relatos da conversa Lula-Xi Jinping - Assis Moreira

Valor Econômico

Pequim diz que Lula falou do estado da relação com os EUA e mais coordenação com a China no Brics

Depois da conversa entre presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Xi Jinping, ontem à noite, os dois governos divulgaram comunicados que trazem focos diferentes sobre os quase 60 minutos do telefonema.

A nota brasileira sobre a conversa é ultra contida, inclusive sem mencionar explicitamente os EUA, com o qual Brasília tem hoje a maior crise dos últimos tempos. A China, que tinha acabado de obter a renovação da trégua dos EUA na guerra comercial, é que menciona que Lula e Xi falaram sobre as relações com Washington.

Mais pragmatismo e menos ideologia - Rubens Barbosa

O Estado de S. Paulo

Não resta alternativa ao governo Lula senão estabelecer um canal de alto nível com a Casa Branca

O relacionamento entre o Brasil e os EUA passa por um momento de grandes desafios com os desdobramentos da opção feita por Trump de utilizar a lei de emergência econômica (International Emergency Economic Power Act - Ieepa) como fundamento das tarifas aplicadas aos produtos nacionais.

Trump assinou na semana passada ordem executiva baseada na Ieepa que dá poderes ao presidente norte-americano para tomar medidas de modo a afastar as ameaças à economia dos EUA e à segurança nacional. Essa lei tem sido usada como justificativa para as tarifas de todos os países, mas está tendo desdobramentos políticos internos com o Brasil. Por outro lado, para alguns outros países, a base legal para a aplicação das tarifas está amparada pela Seção 232 do Trade Expansion Act de 1962, que trata a questão da segurança nacional sob o ângulo comercial, sem declaração de emergência. No caso da China, a legislação invocada foi a Seção 301 do Trade Act de 1974.

Trump quer guerra - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Fim de papo: Trump e seus subordinados não querem diplomacia e diálogo, querem guerra!

Ao cancelar sem justificativa uma conversa com o ministro Fernando Haddad sobre o tarifaço, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, confirmou que Trump não quer papo com o Brasil real e só quer saber do Brasil alternativo. Se havia alguma dúvida, não há mais. Aquela história de Donald Trump de que Lula “pode falar com ele quando quiser” não passava de mais uma armadilha do seu estoque sem fim.

Além de expor ao ridículo os presidentes de Ucrânia, Volodmir Zelenski, África do Sul, Cyril Ramaphosa, e Suíça, Karin Keller-Sutter, que saiu de Washington sem falar com Trump, o presidente americano mexe com os nervos do Brasil, numa linguagem que não é a da diplomacia e a do diálogo, mas de sanções e ameaças – ou “humilhação”, como identificou Lula.

Sequestros - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A oposição bolsonarista – a que sequestrou as Mesas Diretoras do Parlamento – vem com muita energia, cheia de vontade, para esta nova semana no Congresso. O líder do PL deu o tom da disposição nas redes sociais: “Ninguém pode parar quem carrega a verdade debaixo do braço”.

O cronista, embora jamais a levasse no sovaco, não sabe quem carrega a verdade. Sabe que “quem carrega a verdade” – quem acredita carregar a verdade – abre várias oportunidades. Oportunistas amadores – os da anistia para Bolsonaro – oferecendo oportunidades a oportunistas profissionais. O cronista sabe que “ninguém pode parar” a turma de Arthur Lira quando fareja uma chance.

Bolsonaro é vítima de perseguição?- Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo

Bolsonaro atentou contra as eleições e esteve no centro da mobilização golpista mais grave desde a redemocratização

Desde o primeiro anúncio do tarifaço ao Brasil, Donald Trump o justifica pela perseguição que Bolsonaro sofreria nas mãos do STF (Supremo Tribunal Federal). Não é segredo para ninguém também que, dentre os críticos mais assertivos de Alexandre de Moraes, muitos sejam partidários de Bolsonaro que querem livrá-lo da Justiça e reabilitá-lo para concorrer em 2026. Cabe perguntar então: será que Bolsonaro sofre perseguição? Vou rememorar fatos já amplamente sabidos.

Ao longo de seu mandato e especialmente a partir de 2022, Bolsonaro promoveu ativamente, sempre que pôde, acusações falsas de fraude contra as urnas eletrônicas e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), para dessa forma negar os resultados das eleições caso perdesse, como de fato veio a ocorrer.

Justiça manca - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Judiciário brasileiro tem muitos e graves problemas, mas não dá para falar em ditadura da toga como fazem bolsonaristas

O Judiciário brasileiro é muito ruim. É moroso, inconsistente e cheio de vieses. Se levarmos em conta o fator preço --gastamos com o sistema de Justiça 1,33% do PIB, contra uma média internacional de 0,3%--, torna-se sério candidato ao posto de um dos piores do mundo.

STF é tudo menos inocente nessa história. É dele que vem muito da instabilidade jurídica que marca nosso sistema. E da politização também. Um ministro conseguiu a façanha de votar de modo diametralmente oposto a si mesmo no mesmo processo. Bastou que mudasse de Dilma para Temer o nome do presidente da República que poderia perder o cargo numa interminável ação na Justiça Eleitoral por abuso de poder que ele julgava.

Vocação para o atraso – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A atração fatal por retrocessos na lei e nos costumes é ainda muito presente nos altos escalões da República

Determinados episódios da cena brasileira expressam a existência de indiscutível vocação para o atraso em setores representativos da República.

No momento assistimos a dois deles: a proposta de revogar a prerrogativa do Supremo Tribunal Federal de abrir ações contra parlamentares sem autorização do Congresso e a construção de área vip no aeroporto de Brasília para afastar ministros do Tribunal Superior do Trabalho do alcance de pessoas "inconvenientes". Falam dos cidadãos sem toga.

'Tarifas de Trump podem reduzir inflação no Brasil e ajudar Lula nas eleições', diz Samuel Pessôa

Thais Carrança / BBC News Brasil em São Paulo

De olho nas eleições de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem incentivos para não retaliar as tarifas impostas por Donald Trump ao Brasil e colher os frutos de uma inflação mais baixa no país, avalia o economista Samuel Pessôa, pesquisador do banco BTG Pactual e do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

"Do ponto de vista puramente do cálculo eleitoral, Lula tem um incentivo a não retaliar, porque, se ele não retaliar, tem aí uma desinflaçãozinha a médio prazo", diz Pessôa, em entrevista à BBC News Brasil.

"A retaliação pode, eventualmente, ser um instrumento de barganha. Mas, se a gente se enxerga com pouco poder de barganha, do ponto de vista do interesse do bem estar brasileiro, é melhor não retaliar", defende.

Para Pessôa, a perspectiva de desinflação no Brasil pouco muda com a possibilidade aventada pelo secretário de Comércio americano, Howard Lutnick, na terça-feira (29/07), de que alguns produtos não cultivados nos EUA, como café e manga, possam ter a tarifa de importação zerada.

Em junho e antes do anúncio do tarifaço de Trump, o economista da FGV havia escrito em sua coluna semanal na Folha de S.Paulo que Lula deve chegar às eleições de 2026 com a economia em boa forma. Agora, mesmo com as tarifas, Pessôa avalia que a economia deve jogar a favor do petista na corrida eleitoral.

"Continuo com o meu cenário, que é um cenário de 'pouso suave'. A economia vai desacelerar — esse ano deve crescer uns 2%, ano que vem deve crescer 1,5%, uma desaceleração com relação aos 3% de crescimento no biênio anterior", calcula.

"Mas essa é uma desaceleração que não chega a machucar muito o mercado de trabalho. E, com as boas safras, a inflação de alimentos está cedendo. Eu acredito que as tarifas de Trump não mudam esse cenário."

Para Pessôa, faz sentido o governo socorrer os setores mais afetados pelas tarifas através de um crédito extraordinário para além dos limites do arcabouço fiscal, ainda que isso piore a situação das contas públicas do país.

Mas, segundo o economista, é fundamental que essa política traga limites claros para seu término, evitando se tornar um "direito adquirido".

"Tivemos recentemente o caso do Perse, programa desenhado para atender as empresas do setor de eventos, muito atingidas pela pandemia. Mas três anos depois do fim da pandemia, a gente estava discutindo no Congresso, até o ano passado, a manutenção do Perse. É uma coisa maluca", afirma.

"No Brasil, a gente transforma tudo em direito adquirido rapidamente. Então, dada essa especificidade nossa, o cuidado maior no desenho desse programa é que a previsão do fim dele tem que estar muito clara."

À BBC News Brasil, Pessôa comentou ainda o acordo entre Trump e União Europeia — ele considera que os europeus "ajoelharam no milho" frente ao americano.

E explicou por que o presidente chinês, Xi Jinping, pode ser mais duro nas negociações com Trump do que seus pares de países democráticos; além de discordar respeitosamente do Nobel de Economia Paul Krugman, que em entrevista recente à BBC News Brasil, defendeu que o Brasil tem pouco a perder retaliando Trump.

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

O mundo não é uma máquina - João Pereira Coutinho

Folha de S. Paulo

O problema do mal não tem resposta e essa é a resposta mais honesta

Se você só conhece os conservadores brasileiros —quase sempre mais reacionários que conservadores—, que tal olhar para fora? Que tal olhar para Kemi Badenoch, a líder dos Tories no Reino Unido?

É mulher. É negra. É ateia, como explicou recentemente à BBC. Acreditar em Deus deixou de ser uma opção depois do caso judicial de Joseph Fritzl, confessou ela.

Relembro —em 2008, Fritzl, então com 73 anos, foi preso na Áustria e condenado à prisão perpétua por manter a própria filha no porão durante 24 anos. Apesar das preces contínuas da vítima, foram 24 anos de cativeiro e abusos sexuais que geraram sete filhos. Um morreu, três viveram com a mãe no porão e os outros três com o avô.

Como acreditar em Deus diante de tamanha maldade? Como justificar o Seu silêncio?

A arte dos sambistas de Mangueira mora na filosofia - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

As relações de Carlos Cachaça e Heráclito, Nelson Cavaquinho e Sêneca, Cartola e Montaigne

"A gente compunha assim: a letra vinha com a música, um monstro que íamos aperfeiçoando. Com o Carlos Cachaça tudo dava certo", explicou Cartola.

Adolescente ao chegar a Mangueira, ele conheceu o parceiro seis anos mais velho que se tornaria amigo da vida inteira. Juntos fizeram mais de 50 sambas, mas boa parte se perdeu. Destacam-se três obras-primas: "Alvorada", "Quem me Vê Sorrindo" e "Não Quero mais Amar a Ninguém". Menos conhecida, "Silêncio de um Cipreste" espanta pela simplicidade e complexidade: "Todo mundo tem o direito/ De viver cantando/ O meu único defeito/ É viver pensando".

Crônica | Divagação sobre as ilhas, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Roberta Sá e Velha Guarda da Portela - Onde a dor não tem razão - Lenço

 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Trump abala confiança nos EUA ao pressionar Fed

O Globo

Por ora, ele parece ter desistido de demitir Powell. Mas seus atos revelam desprezo pelo equilíbrio institucional

A pressão de Donald Trump sobre o Federal Reserve (Fed), o banco central americano, tem ganhado contornos preocupantes. Trump não esconde sua intenção de se livrar do presidente do Fed, Jerome Powell, que ele próprio indicou ao cargo em 2017, mas que hoje considera “tardio” demais para reduzir os juros. Por lei, ele não pode demitir Powell, cujo mandato só termina em maio de 2026. Mas alguém com os instintos autoritários de Trump não se deixaria intimidar por esse tipo de detalhe.

Ganhou corpo nas hostes trumpistas a ideia de usar como pretexto para a demissão o custo exorbitante da nova sede do Fed, orçada inicialmente em US$ 1,9 bilhão, mas que não sairá por menos de US$ 2,5 bilhões. Depois de uma visita de Trump ao canteiro de obras, parlamentares republicanos decidiram denunciar à Justiça irregularidades atribuídas ao projeto, afirmando que Powell mentiu sobre ele em seu último pronunciamento ao Congresso. Uma demissão antes do fim do mandato seria fato inédito, que por certo despertaria um processo judicial e teria consequência imediata nos mercados.

Trump contra a globalização - Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Todos os países fazem um jogo de perdedor: protecionismo contra protecionismo. Fica tudo mais caro

No dia em que entraram em vigor as tarifas globais, Donald Trump escreveu em sua rede social:

— Bilhões de dólares estão agora fluindo para os Estados Unidos.

Ele acredita que o país exportador de algum modo paga as tarifas. Repete essa tese, digamos, toda vez que anuncia uma nova taxa. Por exemplo:

— A Suíça vai ter de nos pagar 39%.

É bem o contrário. O nome da coisa é tarifa de importação, logo, e caminhando pelo óbvio, quem paga é o importador americano, que passará esse custo adicional ao consumidor local. O hambúrguer e o suco de laranja ficam mais caros.

Digamos que o importador absorva todo esse custo, tirando de sua margem de lucro. Mesmo assim, quem paga é o próprio importador americano. O fluxo de bilhões de dólares vai do bolso americano para os cofres do Tesouro americano, do setor privado para o governo. Tanto é assim que Trump não perde oportunidade de comemorar os dados sobre o aumento de receita das importações. É contraditório, mas quem diz que Trump se importa com isso? Na verdade, ele nem percebe a contradição — como têm dito os analistas com um mínimo de noção.

A volta da censura - Miguel de Almeida

O Globo

No rastro do esdrúxulo conceito de Escola Sem Partido, pais conservadores buscam interferir no conteúdo didático

Nos últimos meses, escrevo um livro sobre a censura na época do regime militar: um show de horrores, felizmente dinamitado pela volta da democracia. Além de centenas de canções, cerca de 500 títulos foram proibidos de chegar ao público — como o romance “Zero”, de Ignácio de Loyola Brandão, e os contos de “Feliz ano novo”, de Rubem Fonseca. Em geral, o argumento, quando havia, era ferir “a moral e os bons costumes”.

Na São Paulo de 2025, 40 anos depois do final da ditadura, a Prefeitura da cidade reinstituiu a censura ao arrepio da lei. São vários os casos. Cinco dias antes de seu início, a 7ª Flipei (Feira Literária Pirata das Editoras Independentes) recebeu comunicado da Fundação Theatro Municipal de que o evento fora cancelado. O diretor Abraão Mafra não dourou a pílula: a proibição ocorria “em razão do uso político por parte dos organizadores”.

Lei Magnitsky é soberana? - Irapuã Santana

O Globo

Problema é político, com reflexos no mundo do Direito, e não o contrário, porque, juridicamente falando, não há para onde correr

Muito tem se falado sobre os efeitos da Lei Magnitsky nas últimas semanas. Sua essência reside na imposição de sanções a indivíduos e entidades estrangeiros considerados responsáveis por violações graves de direitos humanos ou atos de corrupção significativos.

Um ponto central é a natureza da decisão de aplicar as sanções. A inclusão do nome de qualquer pessoa na lista da Lei Magnitsky é um ato privativo do presidente dos Estados Unidos, com base no interesse nacional. Portanto, sua legitimidade está ligada somente à ordem jurídica americana.

A soneca dos governadores - Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidenciáveis, Tarcísio e Caiado tentam culpar Lula por tarifaço articulado pelo filho do capitão

Na tarde em que extremistas de direita invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, o governador do Distrito Federal estava fora do ar. Ibaneis Rocha não atendeu o telefone enquanto a multidão de verde e amarelo destruía os palácios e urrava por golpe e ditadura. Mais tarde, escreveu a um amigo que estava tirando uma soneca.

Responsável pela segurança pública em Brasília, Ibaneis ignorou alertas de que os bolsonaristas preparavam atos violentos. Também rejeitou ajuda da Força Nacional de Segurança, oferecida na véspera pelo Ministério da Justiça. O emedebista foi afastado pelo Supremo por “omissão dolosa”, mas conseguiu voltar ao cargo dois meses depois. Nesta quinta, reapareceu no noticiário como anfitrião de um encontro de governadores.

O perfil dos amotinados no Congresso e seus riscos - Bruno Carazza

Valor Econômico

Dados revelam que líderes bolsonaristas na insurreição da semana passada preocupam-se mais em tumultuar do que em propor soluções

"Sinceramente, Bruno, as métricas que você utiliza para avaliar o quão ruim é o Congresso atual comparado com os anteriores, para dizer que não é tão mau assim, depois de ontem foram para o vinagre!”

Recebi a mensagem acima na quinta, vinda do meu amigo Leandro Novais, professor de direito econômico da Faculdade de Direito da UFMG. Obviamente, ele se referia à tomada do controle do Congresso Nacional à força pelos bolsonaristas em reação à decretação da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

A agitação durou trinta horas e ligou o sinal de alerta sobre o grau de ameaça que paira sobre a democracia brasileira no momento em que um Poder se mobiliza para colocar outro contra a parede.

Boas e más ideias para o crédito imobiliário - Alex Ribeiro

Valor Econômico

Governo prepara medidas para revitalizar o sistema de crédito habitacional


 O dinheiro barato da caderneta de poupança para o financiamento imobiliário está acabando, e o governo prepara medidas para revitalizar o sistema de crédito habitacional. Há uma má ideia circulando: fazer a liberação dos depósitos compulsórios para turbinar os empréstimos no curto prazo, às custas de riscos à estabilidade.

Clientes que, ultimamente, buscaram crédito conseguiram financiar apenas metade do valor do imóvel. É um racionamento. Os bancos captam dinheiro para emprestar na poupança, mas o depositante está sumindo.

A caderneta paga cerca de 8,5% ao ano, apesar da isenção de impostos. É um mau negócio e, graças à maior educação financeira, as pessoas estão percebendo. Com a Selic a 15% ao ano, outras aplicações rendem pelo menos 11,5% ao ano, depois de pagar o imposto.

Provocar para romper - Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Fica claro que a missão de Gabriel Escobar é provocar o Brasil e obter a própria expulsão

Em plena era digital, ainda se utiliza a expressão “telegramas” (cables, em inglês) para se referir às comunicações oficiais entre o governo de um país e suas embaixadas e consulados ao redor do mundo. No mundo pré-internet, era exclusivamente por meio desses comunicados, geralmente confidenciais, que os diplomatas informavam aos seus chefes no ministério de relações exteriores o que estava acontecendo nos países onde atuavam e recebiam as ordens sobre como se posicionar publicamente sobre questões referentes à relação bilateral.

O Brics em tempos de Trump - Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Em um cenário global fragmentado e volátil, a aposta mais segura é o alinhamento múltiplo

A volta de Donald Trump teve um efeito inesperado: dar novo fôlego ao Brics. Com sua retórica errática, tarifas punitivas, ameaças contra o grupo e disposição de interferir na política interna de países do bloco, ele reforçou a necessidade de diversificar parcerias e reduzir a dependência de Washington.

Enquanto os antecessores de Trump ignoraram o grupo, os ataques do atual presidente representam, paradoxalmente, um elemento unificador. Até na Índia, que vinha estreitando laços com os EUA, as tarifas reforçaram a percepção de que é arriscado depender demais de um aliado volátil, levando Nova Délhi a valorizar a estratégia de alinhamentos múltiplos como um seguro geopolítico.

Os defensores da democracia - Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Limites devem ser estabelecidos, sob pena de a defesa da democracia tornar-se uma arma que pode miná-la

O Brasil precisa se defender dos defensores da democracia! Cuidado! O terreno está minado! O número de falsos personagens que se arvoram em defensores das liberdades é propriamente assustador. O País está rumando para uma crise institucional de proporções importantes, com as instituições se desagregando internamente, para além dos conflitos cada vez mais visíveis entre elas, enquanto os responsáveis políticos nada mais fazem do que defender seus interesses eleitorais, corporativos, de privilégios e outros, como se o bem coletivo pudesse ficar à deriva.

Bolsonaro e seu filho Eduardo só se preocupam com uma anistia generalizada que os beneficiaria, usando para isso, sem quaisquer limites, todo e qualquer meio, inclusive as tarifas impostas, que contrariam os interesses nacionais. Fazem o jogo dos EUA em prejuízo de seu próprio país, algo inaceitável para um ex-presidente. Agir contra a própria nação é propriamente um crime. Do ponto de vista eleitoral, tanto mais inexplicável é, uma vez que sua própria base foi prejudicada, em particular o agronegócio, seu pilar de sustentação. Se o deputado tinha alguma pretensão presidencial, ela simplesmente esvaiu-se. Entre o Brasil e os EUA, optaram por esse último, sob o pretexto de estarem defendendo as nossas liberdades! Ora, o País sofreu um imenso tarifaço e eles defenderam que o presidente americano tenha ingerência no Judiciário brasileiro. Pasmem, declaram defender as liberdades.

O STF e o foro - Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Proposta restaura o statu quo pelo qual a Câmara controlará a licença e estenderá no tempo os processos

Antes do início do julgamento da denúncia do PGR sobre Bolsonaro, escrevi aqui neste espaço que o saldo líquido para a corte seria negativo em qualquer cenário. "O julgamento será fatalmente percebido como hiperpolitizado —seu custo proibitivo— em um momento crítico para a democracia brasileira". O pior cenário materializou-se. E a intervenção de Trump no processo representa um choque no sistema. Ela altera o equilíbrio perverso entre parlamentares e juízes no qual há interdependência: a ameaça de impeachment é a contrapartida de ameaças de condenação em ações penais.

Congresso corre para aprovar Código Eleitoral - Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Novas regras vão impactar na composição das Casas Legislativas

Apesar das tentativas de deputados e senadores ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro de barrar o retorno dos trabalhos legislativos na última semana, o segundo semestre promete ser agitado no Congresso Nacional.

A urgência em pautar temas relevantes para os próprios congressistas, especialmente as regras para as eleições de 4 de outubro de 2026, que são regidas pelo princípio da anualidade, deve dar o tom nas próximas semanas.

São dois os principais projetos nessa temática que vão dominar a agenda: o novo Código Eleitoral e a decisão sobre a manutenção ou derrubada do veto presidencial ao projeto de lei que prevê aumento de 513 para 531 cadeiras na Câmara, além de regras para garantir a proporcionalidade entre a população dos estados e o número de representantes.

O projeto de lei complementar (PLP) 112/2021, que atualiza o Código Eleitoral, tramita no Senado desde setembro de 2021.

A catedral orgânica – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Como o brasileiro pode amar a floresta e protegê-la se não é educado para entendê-la como central para o mundo?

"O Brazil não conhece o Brasil/ O Brasil nunca foi ao Brazil// O Brazil não merece o Brasil/ O Brazil tá matando o Brasil// Do Brasil, SOS ao Brazil/ Do Brasil, SOS ao Brazil". São versos de Mauricio Tapajós e Aldir Blanc em "Querelas do Brasil", que Elis Regina lançou em 1978 e, hoje, quase 50 anos depois, às vésperas da COP30, soam com assombrosa atualidade.

Reencontrei esse alerta na entrevista do cineasta João Moreira Salles e da ativista indígena e colunista da Folha Txai Suruí a Rosiska Darcy de Oliveira no último número da indispensável Revista Brasileira, publicada pela Academia Brasileira de Letras e dirigida por Rosiska.

Para Bolsonaro, salvar a pele equivale a desmontar instituições - Bernardo Carvalho

Folha de S. Paulo

Extrema direita precisa inverter o sentido de coisas e palavras para se manter no poder

Outro dia ouvi que o único erro de Eduardo Bolsonaro foi não ter pedido a Trump para deixar de fora o nome de sua família na punição ao Brasil. Tudo bem que taxista não conta, mas é mau sinal que a esta altura chamar os Bolsonaro de câncer, neoplasia social, soe pueril e inócuo, como me dei conta ao responder. Segundo pesquisa do Datafolha, 46% dos brasileiros são contra a condenação do ex-presidente.

Contra a Justiça brasileira, Bolsonaro diz que só obedece à lei de Deus —o seu, é claro, como sempre. Vale-se da versatilidade da escusa que lhe permitiu cometer atos gravíssimos aos olhos de qualquer deus, incluindo o que ele costuma chamar de seu, para seguir bravateando como se não fosse réu.

Música | Moacyr Luz - Atravessado

 

domingo, 10 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Impacto do tarifaço no Brasil pode não ser tão dramático

O Globo

Qualquer programa de ajuda do governo precisa ter foco e, sobretudo, ser temporário

Não era apenas bravata. O Brasil foi alvejado por Donald Trump com a maior punição em seu tarifaço, uma sobretaxa de 50% nas exportações aos Estados Unidos (se até o fim do mês a Índia não ceder à pressão para que pare de comprar petróleo russo, será o único país sujeito a taxação igual). A fúria tarifária de Trump, vale lembrar, tem escala planetária. Como tarifas subiram para praticamente todos os parceiros comerciais americanos, o resultado será um rearranjo da economia global. Para reduzir os danos aos exportadores brasileiros, o governo federal terá de analisar caso a caso suas demandas.

O Tesouro não tem recursos sobrando, e o Executivo não deveria aumentar ainda mais o endividamento para socorrer todos os que passarem por dificuldade. Qualquer programa de ajuda deve ter foco e, sobretudo, ser temporário — afinal, sabe-se lá quanto tempo durarão as tarifas. Para vários segmentos, o sobressalto agudo poderá ser passageiro. O deslocamento das mercadorias para o mercado interno é sempre uma saída, e há dezenas de compradores externos além dos Estados Unidos.

Exportadores de café estão entre os que sem dúvida conseguirão encontrar novos mercados. Há escassez nos estoques mundiais, e a demanda se mantém inalterada. O setor tem tudo o que é preciso para buscar alternativas: tradição exportadora, contatos em vários países e mão de obra especializada em comércio internacional. Esse também é o caso da indústria de carnes. Com atuação marcante de grandes grupos empresariais, ela na certa tem mais capacidade de enfrentar as adversidades.

Em setores como a indústria têxtil, de calçados, frutas ou pescados, a situação é outra. Há grande participação de pequenas e médias empresas, mais suscetíveis a problemas como falta de capital de giro. As próximas semanas e meses serão desafiadores, em especial para empresas que trabalham com produtos perecíveis. Mesmo para essas, porém, o governo não deve antecipar linhas de socorro, sob o risco de desestimular a procura por novos mercados. Com o rearranjo no comércio global, é provável que oportunidades surjam.