quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Caos no Equador serve de alerta para o Brasil

O Globo

Explosão de violência no país é resultado do fracasso do Estado ao enfrentar crime organizado

O caos institucional imposto ao Equador pelas facções do narcotráfico é um alerta para o Brasil e para outros países que enfrentam o poder desafiador de organizações criminosas transnacionais. As cenas de terror que se espalharam pelo país nos últimos dias expõem de forma didática o que pode acontecer quando o Estado falha no combate ao crime organizado e cede terreno à anomia e à barbárie.

violência, já presente no cotidiano da população equatoriana, explodiu depois do último domingo, quando fugiu da prisão o chefe da facção criminosa Los Choneros, vinculada aos cartéis de drogas do México e da Colômbia. Rebeliões eclodiram nos presídios. Ao menos sete policiais foram sequestrados. Grupos criminosos tomaram universidades e hospitais, disseminando o pânico. Homens encapuzados e armados invadiram um estúdio da TV estatal, promovendo cenas de terror transmitidas ao vivo. Explosões e saques tomaram conta das ruas. Os episódios já deixaram pelo menos 13 mortos.

Merval Pereira - Votos contra a polarização

O Globo

Há diversos experimentos, especialmente nos Estados Unidos, para tentar superar a polarização política e fazer com que o resultado das urnas espelhe realmente o desejo amplo dos eleitores.

Num momento em que vivemos uma realidade política radicalizada, que não dá espaço para a expressão de um centro político, calcificando posições extremas, buscam-se caminhos para impedir que o poder do dinheiro, ou de promessas populistas, formem uma “maioria aparente”. Na semana passada escrevi que é uma falácia dizer que a composição da Câmara representa a sociedade brasileira, contrariando uma tese amplamente divulgada para justificar atitudes de deputados, e mesmo resultados de votações.

Há diversos experimentos, especialmente nos Estados Unidos, para tentar superar a polarização política e fazer com que o resultado das urnas espelhe realmente o desejo amplo dos eleitores. Ronaldo Lemos, especialista em tecnologia do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio), lembrou outro dia que a mudança nos critérios de votação para o Big Brother Brasil (BBB) mostra que qualquer eleição pode ser influenciada por diversos fatores que desvirtuam a vontade real da maioria.

Míriam Leitão - As notícias do novo PGR

O Globo

Em sua primeira entrevista após assumir, Paulo Gonet revelou quais serão as suas prioridades do biênio à frente do Ministério Público

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, revelou que vai propor como meta ao Conselho Nacional do Ministério Público “o combate ao crime organizado” porque o país não pode ter “um estado paralelo”. Disse que o Ministério Público tem lições a aprender com os erros da Lava-Jato, mas não pode deixar de combater a corrupção. “Uma sociedade que feche os olhos para a corrupção é uma sociedade que está perdida.” Ele falou que vai reanalisar os casos denunciados pela CPI da Covid. A respeito das investigações sobre os atos golpistas de 8 de janeiro serão levadas às últimas consequências, garante.

— Há muita gente que não percebe que o crime não acontece apenas quando alguém furta o seu celular, entra na sua casa e faz os habitantes de reféns. O crime existe também quando se atenta contra o regime que propicia uma boa vida para as pessoas e esse regime é o regime democrático, é o regime republicano. Quando alguém se insurge de modo violento contra esse regime e essa conduta se encaixa numa hipótese de punição prevista pelo povo, na hora que ele edita a lei, nós somos obrigados a aplicar essa lei.

Malu Gaspar – O Equador (ainda não) é aqui

O Globo

No mesmo dia em que o presidente do Equador, Daniel Noboa, decretou conflito armado interno em razão da onda de violência sem precedentes, o prefeito do Rio de JaneiroEduardo Paes (PSD), pediu ajuda nas redes sociais ao governo federal para lidar com o achaque à empreiteira que constrói um novo parque na Zona Norte da cidade. Segundo a prefeitura, três bandidos foram ao canteiro exigir R$ 500 mil para permitir que a obra continue.

Embora os dois episódios não tenham nem de longe a mesma gravidade — ainda não se viram por aqui líderes de organizações criminosas construindo piscinas ou dando entrevistas coletivas na cadeia, nem invadindo canais de TV armados para falar ao vivo à população —, nossa situação tampouco autoriza ignorar o que se passa no vizinho latino.

Quem acompanha a evolução da crise da segurança no Rio ouviu falar em criminosos cobrando propina de empreiteiras em obras públicas pelo menos desde 2012, quando um grupo de traficantes promoveu até o sequestro-relâmpago de um funcionário para extorquir construtoras que faziam uma ponte nos arredores do Complexo da Maré, também na Zona Norte.

Dani Rodrik* - Os quatro desafios da economia global

Valor Econômico

Não existem modelos prontos de desenvolvimento liderado por serviços que possam ser copiados

Outro ano tumultuado confirmou que a economia global se encontra num ponto de inflexão. Enfrentamos quatro grandes desafios: a transição climática, o problema dos bons empregos, uma crise de desenvolvimento econômico e a procura de uma forma de globalização mais nova e mais saudável. Para abordar cada um deles, precisamos deixar para trás modos de pensamento pré-estabelecidos e procurar soluções criativas e viáveis, reconhecendo que esses esforços serão necessariamente descoordenados e experimentais.

As alterações climáticas são o desafio mais assustador e o desdenhado por mais tempo - a um custo elevado. Se quisermos evitar condenar a humanidade a um futuro distópico, precisamos agir rapidamente para descarbonizar a economia global. Há muito que sabemos que devemos nos afastar dos combustíveis fósseis, desenvolver alternativas verdes e reforçar as nossas defesas contra os duradouros danos ambientais que a inação tem causado. No entanto, tornou-se claro que pouco disso poderá ser conseguido por meio da cooperação global ou das políticas preferidas dos economistas.

William Waack - Assim somos?

O Estado de S. Paulo

O Equador é o mais recente exemplo da expansão do crime em países latino-americanos

Países latino-americanos são muito diferentes entre si e muito similares em pelo menos dois pontos. Não conseguem frear a expansão do crime organizado. Não conseguem promover de forma sustentável a expansão da economia.

A relação entre uma coisa e outra não deve ser estabelecida como causalidade mecânica (do tipo “menos prosperidade na economia significa mais prosperidade do crime organizado”). A complexidade da situação está no fato de serem comuns a esse enorme conjunto de países o desarranjo institucional e a incapacidade das diversas sociedades de se organizarem em torno de desafios percebidos.

José Serra* - Aspectos essenciais da balança comercial

O Estado de S. Paulo

Há muito a fazer para que o saldo comercial se entrelace ao desenvolvimento da economia brasileira

Os vários países que, nos últimos 40 anos, lograram construir trajetórias seguras de desenvolvimento tiveram no saldo comercial um elemento-chave. Isso vale para diversas nações asiáticas. Tanto as da primeira geração, como a Coreia do Sul, como as mais recentes, de segunda geração. O grande saldo comercial em geral expressa um estilo de crescimento integrado ao mercado internacional.

O formato das economias varia, mas o grande eixo é o influxo de moeda externa. Ao mesmo tempo, esse influxo gera renda interna, que se deriva em oportunidade de negócios no mercado interno e investimentos. Mas, talvez mais importante, no capitalismo das finanças em que vivemos, o fortalecimento da posição cambial desses países dá segurança ao cálculo capitalista por ancorar as moedas nacionais. No caso da máquina de crescimento chinesa, não há como negar que esses fatores foram os fundamentos de sua gestação e consolidação.

Maria Hermínia Tavares* - As redes e o extremismo

Folha de S. Paulo

Regulação das redes sociais não basta para conter extremismo doméstico

Na manhã de 19 de abril de 1995, Timothy McVeigh, veterano da Guerra do Iraque, estacionou um caminhão carregado de explosivos d­­iante de um prédio da administração federal, em Oklahoma. Acendeu o pavio e saiu andando. A história do atentado que matou 167 pessoas, entre elas 15 crianças de uma creche, é contada pelo escritor e comentarista político Jeffrey Toobin no livro "Homegrown: Timothy McVeigh and the rise of right-wing extremism" (Criação doméstica: Timothy McVeigh e a ascensão do extremismo de direita).

O autor sustenta que, longe de ser um franco-atirador insano, McVeigh foi produto de uma cultura de extrema direita em formação. Décadas depois, ela alimentaria as fantasias de violência entre os seguidores de Donald Trump e, em seu nome, invadiriam o Capitólio em 2021. Muito antes que as redes sociais os difundissem em tempo real, ­ali já estavam seus elementos definidores: o culto às armas e a plena liberdade de portá-las; o supremacismo branco; o horror ao governo federal; uma versão primitiva de nacionalismo; o fanatismo religioso; a política como conspiração.

Conrado Hübner Mendes* - 8 de janeiro foi contido, não derrotado

Folha de S. Paulo

Estrutura material e ideológica do autoritarismo nem começou a ser desarmada

Existiu algo de cínico e patético nas falas sobre o primeiro aniversário da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. O patético insuperável irrompeu da boca de Aldo Rebelo, para quem "atribuir tentativa de golpe a bando de baderneiros é uma desmoralização da instituição do golpe de Estado". A "instituição do golpe de Estado" realmente se desmoraliza diante de analista assim.

O cínico marcou presença no esforço retórico de simular normalidade e disfarçar a inapetência institucional para responsabilizar perpetradores intelectuais e materiais da violência política.

STF disse apenas que o "tribunal agiu com celeridade e imparcialidade para investigar e responsabilizar os que atentaram contra a democracia". Alexandre de Moraes assegurou que "todos aqueles que tiverem a responsabilidade comprovada, após o devido processo legal, serão responsabilizados." Luís Roberto Barroso prometeu que "estamos enterrando definitivamente o golpismo no Brasil", "para evitar que isso aconteça de novo".

Luiz Marinho* - Ministério do Trabalho: protagonismo na defesa do emprego

Folha de S. Paulo

Pasta reassumiu o seu papel na arena político-econômica brasileira

Em 2023, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) reassumiu o seu protagonismo na arena político-econômica brasileira. Voltou ao posto de principal agente de promoção, mediação, formulação, indução e acompanhamento de políticas públicas para geração de mais e melhores empregos e defesa do trabalho digno e decente.

Os últimos 12 meses foram marcados pela reconstrução de um espaço que começou a ser destruído após o golpe contra a presidenta Dilma. A pauta trabalhista experimentou retrocessos em série, tendência que chegou ao apogeu em 2019, no momento que a própria pasta foi descontinuada.

O trabalho do governo Lula concentra-se então em dar respostas aos diversos anseios da sociedade. Práticas como o trabalho remoto e a jornada de quatro dias surgiram ou ganharam espaço no século 21, porém convivem com chagas que remontam ao período colonial. De janeiro de 2023 até o início de dezembro, o MTE atuou para resgatar pessoas em trabalho análogo à escravidão: foram 3.151 registros, o maior resultado dos últimos 14 anos.

Bruno Boghossian - A Metástase equatoriana

Folha de S. Paulo

Fracasso de políticas de segurança e corrupção levaram a uma situação de equilíbrio entre facções fortalecidas e um Estado fraco

No mês passado, 31 pessoas foram presas numa operação contra o crime organizado no Equador. Entre os alvos estavam juízes, promotores, policiais e um general que havia comandado o sistema penitenciário do país. Todos eram acusados de proteger um chefão do tráfico. A ação foi batizada de Metástase.

A crise da segurança no Equador exibe os sintomas mais agudos do fortalecimento do narcopoder na América Latina. Facções do tráfico se espalham por órgãos da estrutura do Estado, assumem o controle de territórios e postos estratégicos e, com certo desembaraço, usam o terror para desafiar autoridades.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Um engano de apenas R$ 10 trilhões

Deve ter assustado muita gente. Foi  um erro de apenas R$ 10 trilhões. No artigo anterior cometi esse "pequeno (!!!) deslize",  ao registrar  o PIB - Produto Interno Bruto do Brasil  projetado para 2024. Anunciei  (Só pode ser a idade, ou estas malditas teclas!)  - R$ 11 bilhões para o PIB brasileiro em 2024, quando o valor correto estimado seria R$ 11,... trilhões 

Um erro com esse tamanho  é para derrubar qualquer um , até meus editores. Imagine, se o Projeto de Lei do Orçamento (PLO) tivesse sido aprovado com uma vacilada dessas. É possível acontecer. Primeiro, porque o governo deixa o PLO para votar nos último dia da Sessão Legislativa junto com dezenas de outras projetos que  também que ver aprovados: um  pacote para confundir. No caso do Orçamento para  2024, inflado por emendas e excessivos gastos eleitorais, o governo reuniu  diversos projetos de lei destinados a aumentar a  arrecadação de impostos para serem aprovados na rodada.

Poesia | Aprendizado - Ferreira Gullar

 

Música | Paulinho da Viola - Evocação Nº 2 (Nelson Ferreira/Oswaldo Santiago)

 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Calor recorde expõe urgência de cortar emissões

O Globo

Apesar das temperaturas mais altas já registradas, humanidade tem andado a passos mais lentos do que deveria

A palavra “anomalia” tem um sentido técnico específico em ciência climática. Trata-se do desvio — para mais ou para menos — de uma medição em relação à média esperada. Não é necessariamente uma variação extrema, mas as anomalias de temperatura registradas em 2023 foram anômalas também no sentido mais comum da palavra. Nunca a Terra registrou temperaturas tão acima da média esperada. O ano de 2023 foi, de longe, o mais quente já medido. Recordes foram quebrados repetidas vezes. Junho foi o mês mais escaldante até julho chegar. Depois agosto, setembro... e assim sucessivamente, até dezembro.

O Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, agência europeia do clima, constatou que metade dos dias de 2023 registrou temperatura 1,5oC acima do nível pré-industrial. A média da temperatura global foi de quase 15oC, 0,17oC acima de 2016, até então ano mais quente da História. O cruzamento de dados de satélites com evidências geológicas mostra que 2023 figura como o mais quente dos últimos 100 mil anos. As medições da Nasa, que serão divulgadas ainda nesta semana, deverão corroborar a constatação.

Vera Magalhães - Frente ampla, parte 2

O Globo

Com chapa Boulos-Marta, Lula replica ideia que levou a aliança com Alckmin e mostra maior poder de articulação que Bolsonaro

Desde que começou seu caminho de volta à Presidência, Lula parece ter aprimorado uma qualidade que sempre lhe foi atribuída: promover encontros improváveis na política. Foi um espanto generalizado quando vieram a público as primeiras conversas para a composição da chapa Lulalckmin. Quem se lembrava dos impropérios lançados de parte a parte na eleição de 2006 jurava ser impossível unir o petista e o ex-tucano na mesma chapa. E olha no que deu.

O segundo turno foi pela mesma linha, com a criação da frente ampla que juntou no barco a ex-oponente Simone Tebet, que virou ministra. Na composição do governo, o presidente eleito resolveu exercitar o dom de convencer quem está confortável numa posição a aceitar outra para lá de espinhosa. Funcionou com José Múcio, deu errado com Josué Gomes.

Zeina Latif - Somos melhores do que se pensa

O Globo

A crença de que o país precisa de mais democracia, e não menos, para se tornar mais justo e próspero é de grande valor

Os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 não produziram instabilidade democrática e tampouco contaram com o apoio da sociedade. Uma ampla maioria os reprovou, mesmo entre os eleitores de Bolsonaro. Há muito a celebrar, portanto, especialmente considerando que 72% da população mundial vive em autocracias, segundo o V-Dem.

O Brasil conta com freios e contrapesos que afastam o risco de rupturas democráticas. A tentativa de golpe, porém, não fracassou apenas porque inexiste intenção golpista na cúpula militar ou porque as instituições agiram prontamente para punir os envolvidos.

Um importante antídoto é a própria rejeição da sociedade a retrocessos; um ingrediente fundamental para o bom funcionamento das válvulas da democracia – o que certamente faltou em 1964.

Renata Gil* - ‘Habemus Supremum’

O Globo

Supremo Tribunal Federal se encarregou bem de seu papel de proteção ao Estado Democrático de Direito

A expressão Habemus Papam, que traduz o anúncio público da escolha de um novo Papa, admite uso coloquial e tem perfeito cabimento quando expressa a ocupação de um espaço institucional em momentos de incerteza e insegurança política e jurídica.

No último ano, assistimos com preocupação à crise democrática que se instalou em Israel antes do conflito bélico na Faixa de Gaza, em razão de atos do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para impedir que o Supremo daquele país avaliasse atos do Executivo. Fez isso por meio do Parlamento, por ele controlado, usando leis de caráter eminentemente antidemocrático.

Em julho, em pleno recesso forense brasileiro, conversei com ministros do nosso Supremo Tribunal Federal, pensando em ato de apoio ao Supremo israelense, conduzido por uma mulher, a magistrada Esther Hayut.

Elio Gaspari - É a segurança, senhores

O Globo

As celebrações do 8 de Janeiro tiveram todos os ingredientes típicos dos eventos de Brasília: as enfadonhas nominatas, com os intermináveis registros de presenças e discursos em louvor da democracia. Faltou uma só peça: a discussão dos fatores que permitiram a ocorrência das invasões.

Os ônibus convocados trazendo milhares de pessoas para a “Festa da Selma” chegavam a Brasília desde a véspera. Candidamente, diversos ministros contaram que, no início da tarde, estavam almoçando. Nenhum depoimento revelou alguém que, desde o início da manhã, estivesse organizando qualquer tipo de resistência.

A tentativa de golpe vinha sendo articulada havia semanas. Hoje culpa-se o culpado, e seu nome é Jair Bolsonaro. Contudo, se um sujeito tem uma joalheria, e ela é assaltada, a culpa é do ladrão, mas o dono da loja deveria ter pensado na proteção de seu patrimônio. O que houve em Brasília foi o colapso do sistema de segurança pública, que está bichado em todo o país.

Fernando Exman - Cotadíssimo, Lewandowski circula em Brasília

Valor Econômico

Expectativa é de que a substituição dê uma nova cara ao ministério

Personagem que atrai olhares por onde passa em Brasília, Ricardo Lewandowski chegou na segunda-feira (8) ao Congresso Nacional ladeado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Flávio Dino. A dupla logo chamou atenção.

Afinal, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) é considerado favoritíssimo para substituir Dino, que está prestes a deixar a pasta para assumir uma cadeira na Corte. Nos bastidores, o anúncio é considerado iminente.

Lewandowski seguiu com desenvoltura pelo Salão Nobre do Senado, onde integrantes das cúpulas dos três Poderes se reuniam privadamente antes da solenidade que seria realizada no saguão ao lado. Em pouco tempo, ocorreria a cerimônia em memória à reação institucional que impediu um golpe de Estado no dia 8 de janeiro de 2023.

Cristovam Buarque* - Hora do educacionismo

Correio Braziliense

A história mostra que, além da educação, é preciso liberdade para fazer florescer a criatividade, que a cooperação internacional é necessária para aproveitar recursos externos, e a democracia, para corrigir rumos errados

Na última edição de 2023 do Correio Braziliense, o jornalista Luiz Carlos Azedo provocou nominalmente este leitor a refletir sobre o papel da educação na construção do futuro do Brasil. Entre envaidecido e comprometido, respondo que apenas educação não é suficiente, mas é absolutamente necessária para construir um país rico, democrático, justo, sustentável e pacífico. A his tória mostra que, além da educação, é preciso liberdade para fazer florescer a criatividade, que a cooperação internacional é necessária para aproveitar recursos externos, e a democracia, para corrigir rumos errados, mas a educação é o eixo central para enfrentar cada problema brasileiro e construir o progresso, especialmente nestes tempos em que a economia é baseada no conhecimento.

Vera Rosa - O crocodilo de Múcio

O Estado de S. Paulo

PT e ministérios preparam ações pelos 60 anos do golpe de 1964 e militares ficam de orelha em pé

Passado o ato para lembrar um ano da barbárie do 8 de Janeiro e celebrar a democracia, uma nova preocupação toma conta das Forças Armadas. É que o PT e a Fundação Perseu Abramo, ligada ao partido, preparam debates, exposições e documentário para marcar os 60 anos do golpe de 31 de março de 1964, que deu início à ditadura militar no Brasil. Além disso, o Ministério dos Direitos Humanos articula com outras pastas uma série de iniciativas para lembrar a data.

Nos bastidores, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, já começou o trabalho na caserna para evitar “provocações”.

Paulo Delgado* - Mistério e mística na economia

O Estado de S. Paulo

Um círculo vicioso de claudicantes melhoras, insegurança, surpresas estressantes e a contínua fragilidade das ideias educacionais, liberais e democráticas

Melhor ser dono de um centavo do que escravo de um real é só um bonito ditado. Financiamento, crédito, política social, consignado, subsídio, isenção, incentivo, Refis, Mover, Desenrola, Selic, benefício-privilégio, qual o motor da prosperidade? Nenhuma lei da economia vai conseguir trazer igual alívio para o precavido, o protegido, o abandonado.

A relação informal entre o governo e o Banco Central se ajustou com o arcabouço fiscal. Um monitora as contas públicas para evitar descontrolado endividamento. Outro vai derrubando de 0,5% em 0,5% a Selic para chegar a 8% no fim do ano. Mantido o bom gosto do governo por reservas internacionais altas, o conceito de dívida deve ser o de dívida bruta menos reservas. O volume e liquidez do entesourado nos protege do risco de endividamento total.

Bruno Boghossian - Repatriação de Marta Suplicy

Folha de S. Paulo

Lula faz ajuste de rota para recuperar periferias e buscar renovação tardia na esquerda

Lula recebeu Marta Suplicy para um almoço em agosto de 2012. Numa conversa de duas horas, o então ex-presidente enterrou desentendimentos com a ex-prefeita e convenceu a aliada a embarcar numa missão: ajudar Fernando Haddad na eleição municipal de São Paulo, em especial nos bairros da periferia.

O presidente acaba de sacar o mesmo trunfo 12 anos depois. Lula costurou a volta de Marta ao PT e sua indicação como vice de Guilherme Boulos para a disputa deste ano. A ideia é que a ex-prefeita empreste três atributos à chapa do deputado do PSOL: experiência administrativa, uma imagem razoável na elite paulista e conexão com a periferia.

Martin Wolf* - O liberalismo está abalado, mas ainda não quebrado

Folha de S. Paulo

Liberais compartilham a confiança de que seres humanos podem decidir as coisas por si mesmos

A ideia central da democracia —de que os governos são responsáveis perante os governados— ainda é valorizada em grande parte do mundo. De que outra forma explicar o fato de que mais da metade da população mundial vai votar este ano?

No entanto, o mundo também tem passado por uma "recessão democrática", como Larry Diamond, da Universidade Stanford, chama, há quase duas décadas.

O poder da autocrática China tem aumentado. Vladimir Putin sufocou a democracia na Rússia. O autoritarismo está triunfando em muitos países. A reeleição de Donald Trump, após sua tentativa de derrubar o resultado da última eleição presidencial dos Estados Unidos, também seria uma mudança decisiva na democracia mais influente do mundo.

No entanto, o que está acontecendo não é principalmente uma perda de confiança nas eleições em si. Afinal, os autoritários frequentemente usam as eleições para consagrar seu poder.

Wilson Gomes* - Agenda para a esquerda deve incluir realismo político

Folha de S. Paulo

A militância, tão feroz e vocal, precisa aprender a baixar as armas e lembrar que o setor progressista venceu por pouco

Prosseguindo com minhas sugestões para a esquerda no Ano-Novo, destaco a necessidade de reconsiderar uma atitude específica da militância: é preciso baixar as armas.

Compreendo que de 2015 a 2021 a esquerda brasileira comeu o pão que o diabo amassou. A sua presidente recém-eleita levou um impeachment que de isento e republicano não teve nem o odor, o antipetismo virou o mais importante eleitor do país, a extrema direita saltou do seu pico de 3% de votos para mais da metade dos eleitores, a Lava Jato se engajou na destruição do PT como uma missão religiosa, o maior líder político e eleitoral da esquerda foi trancado em um cárcere em Curitiba.

Hélio Schwartsman - Buracos reinam soberanos

Folha de S. Paulo

Questões locais e não nacionais tendem a dar o tom da disputa em pleitos municipais

As eleições municipais deste ano se darão sob o signo da polarização? É pouco provável. De um modo geral, são os problemas locais que pautam as disputas para as prefeituras e Câmaras de Vereadores. É claro que em algumas praças, normalmente cidades grandes, em que pelo menos um dos candidatos se identifique fortemente com um dos grandes blocos políticos, poderemos ver ecos do lulismo contra o bolsonarismo, mas na grande maioria dos 5.570 municípios é o buraco na rua e não a posição do Brasil em relação à guerra na Ucrânia que dará o tom. Essa pelo menos tem sido a tendência nos últimos ciclos eleitorais.

Paul Krugman* - Por que Donald Trump vai começar a atacar o Fed em breve

Folha de S. Paulo

Ciclo de baixa na taxa de juros vai atrair acusações de uso político do banco central americano

As taxas de juros devem começar a cair. Talvez não hoje, e talvez não amanhã, mas em breve, e pelo resto deste ano (pelo menos).

Por quê? Porque existem razões muito boas para o Federal Reserve, que controla as taxas de juros de curto prazo —é assim que ele faz política monetária— começar a reverter os aumentos acentuados das taxas que realizou a partir de março de 2022.

Há um debate acirrado sobre se esses aumentos das taxas foram excessivos, o que não vou discutir aqui. Independentemente do que você pensa sobre a política passada, o argumento para cortes no futuro é muito forte, e espero que o Fed aja com base nesse argumento.

O que eu não sei é se o Fed está preparado para a tempestade política que está prestes a enfrentar, e se resistirá à pressão para manter as taxas muito altas por muito tempo.

Porque é uma previsão segura que Donald Trump e seus apoiadores vão reclamar que os próximos cortes nas taxas fazem parte de uma conspiração do "deep state" para reeleger o presidente Joe Biden.

Poesia | Amigo | Pablo Neruda

 

Música | PORTO DA PEDRA Carnaval 2024 - Samba Enredo

 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais /Opiniões

Eleições tornam urgente regulação das redes sociais

O Globo

Congresso deve reduzir riscos trazidos por desinformação e inteligência artificial às campanhas

No primeiro aniversário da tentativa de golpe de 8 de janeiro, é salutar o país avaliar o que foi feito nos últimos 12 meses para evitar novos ataques à democracia e urgente destacar o que falta fazer. Um ponto parece unir as principais autoridades da República: a necessidade de regular as redes sociais, principais focos de conspirações golpistas.

Em entrevista ao GLOBO, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes foi categórico: “A prioridade é impedir a continuidade dessa terra sem lei das redes sociais”. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), também defendeu a regulação em entrevista recente: “Esse movimento de uma vida paralela, não analógica, uma vida digital muito rápida, vai exigir de nós, congressistas, que algumas modificações aconteçam”.

Faltando sete meses para o início da propaganda eleitoral, o Congresso deve dar atenção ao tema. Passou da hora de deputados e senadores deixarem de ser reféns das fabulações espalhadas pelas grandes plataformas digitais. A falta de regras transformou as redes sociais e os aplicativos de comunicação em centros de disseminação de desinformação. Repetidas vezes, as empresas de tecnologia falharam. Quando vídeos, áudios ou memes fraudulentos são removidos, milhões já os viram, e o estrago já está feito.

Merval Pereira - Polarização corrói a democracia

O Globo

Na noite em que Tancredo Neves se internou em Brasília e ficou claro que não poderia tomar posse no dia seguinte como presidente da República, quem decidiu que o vice José Sarney assumiria foi o general Leônidas Pires Gonçalves, já escolhido como novo ministro do Exército.

Os juristas se dividiam entre Sarney e o presidente da Câmara, deputado Ulysses Guimarães, e Leônidas desempatou. O senador Pedro Simon perguntou, indignado, a Ulysses por que ele não reagira àquela decisão:

— Não podia, meu Pontes de Miranda estava me cutucando com a espada dizendo que seria o Sarney.

Trinta e oito anos depois, na baderna insurrecional que tomou conta da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, houve uma reunião em que ficou decidido que seria aberto um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar a tentativa de golpe.

Míriam Leitão - A dúvida entre punir e apaziguar

O Globo

O que os discursos e as conversas de bastidores mostraram é que há necessidade de punir os responsáveis antes de se superar esses atos

Estive ontem nos dois eventos que lembraram a tentativa de golpe de um ano atrás. O que ficou das conversas de bastidores e dos discursos é que há muito a fazer para garantir que agressões como as de 8 de janeiro de 2023 não se repitam. A sensação que colhi foi que é preciso esclarecer muita coisa e punir muita gente antes de se considerar que o risco passou. Foi muito caro mobilizar tantas pessoas, trazê-las do país inteiro, manter acampamentos por dois meses, com infraestrutura, e coordenar atos daquela dimensão, além de bloqueios em diversas estradas e refinarias do país. O que se sabe até agora da origem do grosso do dinheiro é muito pouco.

O presidente do Superior Tribunal Militar, brigadeiro Joseli Camelo, me disse que militares que forem condenados a mais de dois anos pela Justiça Federal serão também julgados pela Justiça Militar. E podem ser condenados à “indignidade para o oficialato” e expulsos das Forças Armadas.

Vera Magalhães – Risco de politizar ato é que haverá o dia seguinte

O Globo

Atos como o desta segunda-feira, para marcar efemérides históricas, sejam elas virtuosas ou infames, como o 8 de Janeiro, são benéficos para a Histórica e educativos para a sociedade. Assim, feriados em datas de grandes tragédias ou guerras, ou museus como o do Holocausto, o de Hiroshima ou de diferentes ditaduras mundo afora têm o caráter de evitar que esses eventos sejam esquecidos, minimizados ou repetidos.

O grande problema é quando o caráter cívico e institucional descamba para a partidarização, porque isso tisna o objetivo e dá munição aos que tentam desvirtuar os fatos. A solenidade desta segunda-feira teve o mérito de se inscrever na primeira modalidade, mas teve momentos em que incorreu na armadilha da politização.

Malu Gaspar - Bolsonaro é sujeito oculto dos discursos de Moraes e Lula

O Globo

Embora não tenham mencionado diretamente Jair Bolsonaro em seus discursos, tanto Lula como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STFAlexandre de Moraes procuraram deixar claro em suas falas, no ato realizado no Congresso Nacional para lembrar o 8 de janeiro, que não desistiram de responsabilizar o ex-presidente da República por seu envolvimento nos atos golpistas.

Moraes disse que "não haverá impunidade, apaziguamento ou esquecimento" aos envolvidos na trama golpista, e que "não haverá qualquer tipo de anistia aos personagens envolvidos nos ataques".

Já Lula afirmou que "não haverá perdão para quem atenta contra a democracia, seu país e contra seu próprio povo”, em um discurso em que falou o tempo todo do antecessor.

“Adversários políticos e autoridades constituídas poderiam ser fuziladas ou enforcadas em praça pública, a julgar por aquilo que o ex-presidente golpista pregou em campanha e seus seguidores tramam nas redes sociais”, disse o petista.

Carlos Andreazza - Crítica construtiva, ministro

O Globo

Alexandre de Moraes deu entrevista ao GLOBO. Um ano do 8 de Janeiro. Documento já histórico; em que justifica o afastamento de governador com o argumento de “evitar que pudesse ocorrer algo extremista em outros estados, eventualmente outro governador apoiar movimento golpista”.

Ibaneis Rocha, eleito, afastado para dar exemplo; para que, o Supremo monocrata se antecipando a pretenso “efeito dominó”, nenhum outro governante se animasse. E tudo bem. Pela democracia, à margem do Direito.

Não ornará, não em linguagem compatível com a República, um arranjo em que, para desmontar o 7 de Setembro permanente de Bolsonaro, prospere este estado de vigília; que, sob a inatacável defesa das instituições democráticas, legitime medidas de exceção e interdite o debate público — a ser fascista, trabalhando pela volta do capeta, aquele que criticar o governo Lula e as extravagâncias xandônicas.

Pedro Cafardo - O papel das missões na nova política industrial

Valor Econômico

Plano de reindustrialização do país deve envolver cooperação entre governo e setor privado, pautando-se por direções, prioridades e instrumentos para alcançar objetivos econômicos e sociais no longo prazo

Não há mais muitas divergências nem conflitos ideológicos significativos sobre a necessidade de lançamento de uma nova política industrial no país. Ficou para trás a ideia de que o setor de serviços, apesar de sua importância na estrutura produtiva, viria a comandar o crescimento econômico. E isso é um entendimento global.

A discussão do problema da desindustrialização e das formas de correção desse processo maligno se tornou dominante nas economias, inclusive nos países desenvolvidos. O pensamento majoritário sugere que a indústria de transformação continuará sendo a principal propulsora do crescimento econômico e difusora do progresso tecnológico.

Andrea Jubé - O encontro re-marcado de Haddad com o diálogo

Valor Econômico

Ministro tem recebido críticas veladas até de aliados

A primeira coluna do ano é sobre ódio, diálogo e esperança. O ódio foi tema de uma carta de Clarice Lispector ao amigo Fernando Sabino em maio de 1956, na qual ela confidenciou seu especial interesse no conto “O búfalo”, que havia acabado de escrever. O texto continha “uma violência que me faz tremer”, descreveu.

A escritora revelou que tomada por um “ódio muito forte”, sentimento que lhe era incomum, sentiu necessidade de criar aquela história. A protagonista é uma mulher abandonada que decide fazer uma visita ao Jardim Zoológico para aprender com os animais enjaulados como odiar.

Em sua busca, subitamente, a mulher se depara com um búfalo negro e imponente, e ambos passam a se encarar. “Ela não olhou a cara, nem a boca, nem os cornos. Olhou seus olhos... Olhos pequenos e vermelhos a olhavam... Lentamente a mulher meneava a cabeça, espantada, com o ódio com que o búfalo, tranquilo de ódio, a olhava”. A personagem então conclui que a busca chegou ao fim, até que sua mão alcança o punhal que guardava no bolso do sobretudo.

César Felício - Ataques golpistas permitiram a Lula ultrapassar barreiras da polarização

Valor Econômico

Documentários mostram participação decisiva de Janja na rejeição à GLO

Um traço marcante dos dois documentários divulgados nesse domingo (7) sobre o 8 de Janeiro, com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi o bastidor sobre a decisão do governo de rejeitar na ocasião uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO). Tanto na produção levada ao ar pela GloboNews quanto na peça publicada pelo site do jornal “Folha de S.Paulo” destaca-se o papel decisivo da primeira-dama Rosângela Silva, a Janja, de ter afastado o presidente dessa solução, em reunião feita na Prefeitura de Araraquara (SP), onde o presidente estava por ocasião dos ataques em Brasília.