terça-feira, 4 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Greve nas federais passou do limite

O Globo

Depois de dois meses, universidades perdem prestígio e competitividade, enquanto alunos são quem mais sofre

A greve de professores e servidores de colégios, institutos e universidades federais completou dois meses sem nenhuma perspectiva de solução. Alunos que perdem aula já veem ameaçadas formatura, obtenção do diploma e a chance de conseguir emprego. Além deles, ninguém parece preocupado. E o governo não tem feito o bastante.

Estima-se que hoje a paralisação afete, em diferentes estados, pelo menos 52 universidades, 79 institutos federais e 14 unidades do Colégio Pedro II. Embora a adesão à greve não seja total, a rotina universitária está irremediavelmente comprometida. Serviços foram suspensos e há casos em que o bandejão deixou de funcionar, prejudicando estudantes mais vulneráveis.

Merval Pereira - Ser humano

O Globo

Nunca, como nos anos recentes, os ministros do Supremo mostraram-se tão humanos na capacidade de cometer erros em consequência de situações pessoais que influenciam suas decisões

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia assume a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com duas missões, uma interferindo na outra. Seu mandato, que se encerra dois meses antes das eleições presidenciais de 2026, terá como objeto principal aprovar normas que protejam os candidatos do uso da inteligência artificial para distorcer informações ou mentir pela boca de adversários com o uso de deepfake.

As medidas tomadas agora terão repercussão não apenas nas próximas eleições municipais. Ao mesmo tempo, porém, ela terá de fazer isso com a moderação que lhe é característica, impedindo que a legislação protetiva termine se transformando em instrumento de polarização política.

Bernardo Mello Franco - 'Algoritmo do ódio'

O Globo

Ministra culpa big techs por "vírus" da desinformação, mas não revela antídoto para combatê-lo

Ao assumir a presidência do Tribunal Superior Eleitoral, Cármen Lúcia prometeu combater o "algoritmo do ódio" nas redes sociais.

A ministra fez uma advertência às chamadas big techs: vai responsabilizá-las pela enxurrada de desinformação que contamina o debate político.

"A mentira espalhada pelo poderoso ecossistema digital das plataformas é um desaforo tirânico contra a integridade das democracias", justificou.

Maria Cristina Fernandes - Discurso cita ‘mentira’ 15 vezes e frustra aposta em brandura

Valor Econômico

Quem esperava que a ministra Carmen Lúcia assumisse o TSE com uma postura mais branda que a de Moraes foi desenganada por seu discurso de posse

Quem esperava que a ministra Carmen Lúcia assumisse o Tribunal Superior Eleitoral com uma postura mais branda do que aquela de seu antecessor, ministro Alexandre de Moraes, foi desenganada por seu discurso de posse. Cotejado com aquele de Moraes, em setembro de 2022, o de Carmen Lúcia foi ainda mais contundente. A brevidade de uma fala de apenas 12 minutos não a impediu de citar “mentira”, por 15 vezes, e, por seis, “ódio”. “A mentira espalhada pelo ecossistema digital é um desaforo tirânico contra integridade da democracia”, disse.

Sem deixar de agradecer, “como cidadã e juíza”, a contribuição de Moraes para a garantia da democracia brasileira, não teve dúvida em interromper o ministro quando ele, ainda na presidência do TSE, quis convidar o diretor-geral do tribunal a lhe dar o termo de posse antes que Carmen Lúcia cumprisse a formalidade de declarar que aceitava o cargo.

Luiz Carlos Azedo - Cármen Lúcia comandará as eleições da inteligência artificial

Correio Braziliense

Uma das maiores dificuldades da Justiça Eleitoral em eleições municipais e proporcionais é julgar em tempo hábil os casos que chegam aos tribunais

A ministra Cármen Lúcia, do STF, assumiu a presidência do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o desafio de comandar eleições municipais que serão um laboratório para o uso político da inteligência artificial (IA) pelos candidatos. A ministra já comandou a Corte, nas eleições municipais de 2012, mas nem de longe as situações são semelhantes: àquela época, não havia a polarização política que existe hoje, embora já houvesse uma insatisfação difusa na sociedade, nem as redes sociais e as fakes news tinham o peso que têm hoje na formação de opinião dos eleitores.

Míriam Leitão - Razões da boa notícia do PIB

O Globo

Dados do 1º trimestre mostram crescimento maior do que era previsto. Desemprego e inflação em baixa completam a lista de boas notícias

O primeiro trimestre do ano foi bom, o PIB cresceu 0,8%, mais do que o inicialmente previsto pelo mercado. Além disso, houve queda do desemprego e queda da inflação, dois dados que não costumam cair juntos. Isso é ainda mais notável quando há um aumento da renda, como houve. Entre janeiro e março deste ano, o Brasil exportou US$ 78,3 bi, 3,2% mais do que no ano passado. Tanto a exportação, quanto o saldo de US$ 19 bi, foram recordes. O ano começou melhor do que o esperado, mas deve crescer menos do que o ano passado, ainda que de forma mais distribuída pelo país e pelos setores. A tragédia do Rio Grande do Sul vai ter um impacto forte no segundo trimestre, mas o efeito da recuperação também será sentido este ano ainda.

Luiz Schymura - Com o déficit nominal nas alturas, conta nenhuma fecha

Valor Econômico

Não há como negar que o notável processo de aprimoramento institucional dos últimos 25 anos no front fiscal

Na pauta econômica, o tema que tem tirado o sono do atual governo está no campo fiscal. Se, por um lado, há a necessidade de recursos para financiar tanto o sistema público já em operação como as políticas públicas que foram promessas de campanha, do outro, o Executivo tem que assegurar um resultado fiscal que não comprometa a saúde financeira das contas públicas. Contudo, na visão de muitos analistas, em virtude dos contextos nacional e internacional, o governo federal está errando a mão ao sancionar gastos públicos excessivos.

Luiz Gonzaga Belluzzo - BCs, instituições de planejamento?

Valor Econômico

Salvo pequenos incidentes, a economia no pós-Segunda Guerra deslizou nos trilhos do crédito dirigido, dos controles de capitais entre os países, do gasto público amparado em sistemas fiscais progressivos

Em recente edição, o Valor informou: “MP cobra medidas para identificar eventual desvio de finalidade do Copom”. O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) ofereceu uma representação ao tribunal para “adoção das medidas necessárias a identificar eventuais desvios de finalidade pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central na definição da taxa Selic”.

O subprocurador-geral do MPTCU, Lucas Furtado, assina o documento. Na peça, o subprocurador menciona que as projeções do relatório Focus “exercem grande influência” na decisão do Copom e que as instituições financeiras que respondem à pesquisa “podem ter interesse na manipulação do índice para ganhos próprios e privados indevidos e em prejuízo aos interesses públicos e ao erário”.

Vamos recordar.

Michael Stott - Os desafios diante de Sheinbaum no México são enormes

Financial Times / Valor Econômico

Mexicanos escolheram a promessa da continuidade na cruzada pela justiça social do presidente Andrés Manuel López Obrador

O segredo da vitória esmagadora de Claudia Sheinbaum nas eleições presidenciais do México, no domingo, pode ser resumido em uma palavra: redistribuição.

Os mexicanos mais pobres foram os grandes vencedores no mandato do presidente Andrés Manuel López Obrador, que mais do que duplicou o salário mínimo e expandiu os programas de assistência social, embora a economia mal tenha crescido, em termos per capita, desde a sua posse em 2018.

Os eleitores relevaram os números alarmantes dos crimes violentos e os temores sobre a erosão das instituições democráticas. Preferiram recompensar Sheinbaum, uma aliada próxima do presidente nacionalista de esquerda, pelas promessas de continuar e aprofundar sua cruzada por justiça social em um país com níveis elevados de pobreza e desigualdade.

Depois de 30 anos de livre comércio com os EUA e o Canadá, o norte do México prosperou, mas muito pouco dessa riqueza chegou ao centro e ao sul do país, ou aos grupos de renda mais baixa.

Eliane Cantanhêde - Cármen contra o ódio e o medo

O Estado de S. Paulo.

Fake news proliferam e deixam a incômoda sensação de guerra perdida

Sai a audácia de Alexandre de Moraes e entra a cautela de Carmen Lúcia, mas a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) continua numa batalha contra as fake news e a Inteligência Artificial nas eleições municipais de outubro que passa a incômoda sensação de guerra perdida. Além de o Congresso não ajudar, leis e regras não são suficientes mesmo. A guerra político-eleitoral, que já não é ética nem moral, muitas vezes se torna insana na reta final.

Carlos Andreazza - Haddad assombrado

O Estado de S. Paulo

O governo é Dilma 3 e a despesa – a constante do natimorto fiscal – crescerá sempre

Fernando Haddad vê fantasminhas. O espírito do arcabouço fiscal o ronda. É a alma penada da regra natimorta que o atormenta. Fantasmão, o da credibilidade perdida. Natural que o chame de ruído.

Antes fosse. Lula é coerente e dá materialidade ao espectro. Obstinado por um Estado como alavanca do crescimento. “Não teria aceitado o novo marco fiscal se isso tivesse mudado substancialmente” – disse o ministro da Fazenda ao Valor.

O governo é Dilma 3 e o presidente não pode ser acusado de estelionato eleitoral. A raia fiscal foi improvisada para corridas à larga. Não há rumor. Há constatação tardia.

Bruno Boghossian - Quanto vale uma polícia melhor e mais responsável?

Folha de S. Paulo

Argumento da austeridade fiscal de Tarcísio é verniz para sabotagem de câmeras corporais

Tarcísio de Freitas procurou muitas desculpas para se livrar das câmeras corporais da Polícia Militar. Na campanha, dizia que o equipamento tirava a privacidade dos agentes. Eleito, alegou que as gravações não tinham efetividade na segurança do cidadão. Agora, ele poliu o discurso com um argumento financeiro.

O edital para a contratação de novas câmeras para a PM permite que os policiais deixem o equipamento desligado. Segundo Tarcísio, a gravação contínua "gera muitos custos ao estado pela necessidade de armazenamento". O governador afirmou que o sistema atual gasta dinheiro para guardar um material que, "no final das contas, não serve para nada".

Hélio Schwartsman - Lula afasta centristas

Folha de S. Paulo

Se tivermos em 2026 outro pleito apertado, presidente poderá arrepender-se de não ter cultivado relações mais próximas

Lula foi eleito —por um triz, registre-se— porque parte ponderável do centro político decidiu opor-se a Jair Bolsonaro. Durante a campanha, o petista disse várias vezes que governaria com uma frente ampla. Mas, por razões que não cabe aqui discutir, Lula não quis consolidar e perenizar essa aliança.

A principal figura desse grupo, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que, na transição, chegou a ser apontado como peça-chave do futuro governo, não encontrou muito espaço e anda apagadíssimo. Outra centrista, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, produz propostas que nem sequer são discutidas no entorno de Lula, pois são vistas como muito neoliberais. E nem falo do revisionismo histórico do PT, que gera teses que espantam potenciais aliados, como a de que a corrupção na Petrobras não passou de uma armação ou a de que o problema da Venezuela é excesso de democracia.

Dora Kramer - O delírio sobre Lira

Folha de S. Paulo

Governo erra ao espalhar que Lira é pato manco na presidência da Câmara

Nada mais falso e danoso para o andamento dos interesses do Planalto no Congresso que a disseminação da ideia de que Arthur Lira seja um pato manco na presidência da Câmara.

Desde a virada do ano isso é sussurrado aos ouvidos de analistas permeáveis a qualquer versão vinda do Palácio. Se a história faz algum sentido, e essa até faria fosse outro o personagem, sapecam-lhe o carimbo de "bastidor", e a coisa se espalha por Brasília como tradução da realidade.

No caso específico, essa prática é o pano de fundo do rompimento do deputado com o ministro Alexandre Padilha. Justa ou injustamente, Lira julgou ter identificado no gabinete de Padilha a origem dos sussurros sobre a desidratação de seu poder.

Alvaro Costa e Silva - Presidencialismo de descoalizão

Folha de S. Paulo

Governo refém do Congresso inviabiliza planos de combate à violência

Com quatro meses no Ministério da Justiça e tentando impor um estilo mais discreto e sem embates diretos com a oposição —se comparado ao tempo de Flávio Dino—, Ricardo Lewandowski prepara uma emenda constitucional para ampliar o poder do governo no combate à criminalidade. Uma espécie de SUS que, em vez da saúde, cuidaria da violência.

Criado em 2018, o Susp (Sistema Único de Segurança Pública) só existe no papel. E, ao contrário do SUS, não está na Constituição, a qual determina que segurança é tarefa dos estados. Aí começa o busílis. Alguns governos estaduais veem na atuação da Polícia Militar um palanque político, misturando serviço público com campanha eleitoral. "Queremos uma população segura e não um policial vigiado", disse Tarcísio de Freitas sobre câmeras corporais.

Joel Pinheiro da Fonseca - Trump acaba de ficar mais forte

Folha de S. Paulo

Se vencer, ainda que preso, ex-presidente sairá de cabeça erguida para se sentar no Salão Oval

Os EUA não têm lei da ficha limpa. Trump será candidato a presidente mesmo com sua condenação criminal, e nada poderá impedi-lo, nem mesmo se for preso quando o juiz sentenciá-lo em julho. Mais do que isso: é o favorito e acaba de ficar mais forte.

Primeiro, o lado técnico: os EUA já tiveram um candidato à Presidência preso. Era o socialista Eugene Debbs na eleição de 1920. Não tinha a menor chance, mas pôde concorrer e receber quase 1 milhão de votos em sua cela em Atlanta sem problema algum. O mesmo valerá para Trump. E, se pode ser candidato, pode vencer.

Ferreira Gullar conta como escreveu "Poema sujo"

 

Música | Maria Bethânia e Zeca Pagodinho - Amaro a Xerém

 

segunda-feira, 3 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lei é fraca para impedir campanha eleitoral antecipada

O Globo

Dispositivos vagos e punições leves funcionam como incentivo para que candidatos e partidos ignorem proibições

É patente a deficiência da legislação eleitoral para coibir a propaganda antecipada. Ao estabelecer como início oficial da campanha o dia 16 de agosto, logo depois de esgotado o prazo para registro das candidaturas, a intenção da Justiça Eleitoral é garantir um mínimo de equilíbrio de forças entre quem busca reeleição — e detém controle da máquina administrativa — e os opositores. Infelizmente, os termos da lei são inócuos e as punições, multas entre R$ 5 mil e R$ 25 mil, leves demais. Por isso a campanha antecipada se tornou tão frequente. Os processos para investigar propaganda antes do prazo legal já são mais que o dobro do registrado no último pleito municipal — passaram de 329 para 682, segundo levantamento feito pelo GLOBO em Tribunais Regionais Eleitorais.

Entrevista | Bernie Sanders*: Mundo enfrenta mais crises hoje do que em toda minha vida

Por Fernanda Perrin / Folha de S. Paulo

Em entrevista à Folha, senador e ícone progressista americano afirma que Biden precisa ser mais forte na disputa com Trump para deixar claro que defende trabalhadores

NOVA YORK - Bernie Sanders, 82, nem pensa em deixar a política. "O mundo hoje enfrenta mais crises do que em qualquer momento da minha vida", diz. Senador desde 2007, o americano anunciou que vai concorrer a um novo mandato na eleição deste ano —o que motivou imediatamente comparações com o presidente Joe Biden, 81, no noticiário do país.

"Se alguém é meio velho e fraco e não pode fazer o trabalho, acho que é um fator. Mas, cá entre nós, eu não acho que estou tão fraco assim ainda", diz Bernie à Folha ao ser questionado sobre o porquê de a idade ter se tornado um tema tão central nos EUA neste ano.

Principal voz da ala progressista da política americana, ele é uma das esperanças da campanha de Biden para recuperar o apoio do eleitorado jovem, insatisfeito com a economia e com o apoio do presidente a Israel na guerra em Gaza. Judeu, Sanders aceitou o papel, mas não esconde as críticas à aliança com Tel Aviv. Para ele, a Casa Branca não deveria mais enviar dinheiro ao governo de Binyamin Netanyahu.

"Acho que o presidente terá que ser mais forte do que é para deixar claro que defende os trabalhadores", afirma Sanders, sobre o desafio na disputa contra Donald Trump em novembro. Em sua visão, o maior problema de Biden é de comunicação.

Recentemente, Sanders se encontrou com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e com uma delegação de congressistas brasileiros envolvidos na CPI do 8 de Janeiro. O americano elogia a proposta de taxação dos super-ricos defendida pelo país à frente do G20 e, embora afirme que não tem acompanhado o terceiro mandato de Lula, cita o petista como exemplo de líder de esquerda.

Fernando Gabeira - Não vendam nossas praias

O Globo

Com as mudanças climáticas, as áreas marinhas precisam ser ampliadas, e não entregues à especulação

Os senadores garantem que não querem privatizar as praias. Será? A PEC que tentam votar retira da União a propriedade exclusiva não só de praias, mas também de uma faixa de terra chamada “terrenos de marinha”, uma área de 33 metros na margem de rios, lagos e contorno das ilhas.

Ao mesmo tempo que nos garantem que são bonzinhos, empreendimentos como os da empresa Due, associada ao jogador Neymar, anunciam a criação de um Caribe brasileiro, um conjunto de empreendimentos imobiliários numa região de 100 quilômetros entre Pernambuco e Alagoas.

Miguel de Almeida - O Brasil visto por Einstein

O Globo

Aos olhos dele, o comportamento dos brasileiros se explica pelo clima

Foram necessários apenas cinco minutos e 13 segundos, o tempo do eclipse em maio de 1919, para que as teorias de Albert Einstein fossem comprovadas. Sobral, no interior do Ceará, e a ciência seriam outras a partir dali. De Londres, Einstein e uma plateia de estudiosos analisavam os dados enviados por cientistas desde um laboratório precariamente instalado na cidadezinha cearense. Diante do eclipse às 9 da manhã, parte da população de Sobral, assustada com o repentino escurecimento, escondeu-se dentro da igreja. Poderia ser o anunciado fim de mundo. Atordoados, os galos da vizinhança voltaram a cantar com a chegada da inesperada noite.

Bruno Carazza - Bem ou mal, as instituições continuam funcionando?

Valor Econômico

Livro de Marcus Melo e Carlos Pereira apresenta explicação para resiliência e ineficiência da democracia brasileira

N a semana passada, o Congresso impôs uma acachapante derrota de 366 a 137 votos na apreciação do veto do presidente Lula ao projeto que proíbe a “saidinha” de presos. Não foi a primeira vez.

“Como seria possível um líder político dos mais experientes e tido como sagaz na arte de negociar estar sofrendo tantos reveses no Legislativo a ponto de se colocar na posição de refém de exigências das principais lideranças do Congresso e dos seus novos (velhos) aliados do Centrão?”

A pergunta é feita pelos cientistas políticos Marcus André Melo e Carlos Pereira no penúltimo capítulo de “Por que a Democracia Brasileira não Morreu?”, que acaba de chegar às livrarias.

Alex Ribeiro - BC precisa repensar sua comunicação sobre o juro

Valor Econômico

Declarações em reuniões fechadas, comunicado só com pontos consensuais são alguns dos problemas

A pior notícia que o Banco Central teve nos últimos meses foi a alta das expectativas de inflação de 2026, de 3,5% para 3,58%, depois de 46 semanas de estabilidade. Este é um horizonte de tempo muito distante para ser afetado pelas decisões que estão sendo tomadas agora sobre a taxa Selic, e até lá se presume que todos os choques que pressionam a inflação podem se dissipar sozinhos ou com a ajuda da política monetária. Trata-se, portanto, de um questionamento frontal dos especialistas de mercado financeiro à credibilidade da política monetária.

A maior parte da responsabilidade se deve ao voto dissidente de todos os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) indicados pelo presidente Lula em favor de uma baixa mais forte de juros. Mas falhas na comunicação de política monetária do colegiado também pioraram as coisas. Algumas delas não são, exatamente, novas. Será preciso debatê-las para corrigi-las.

Marcus André Melo - Populismo econômico

Folha de S. Paulo

Neste governo, a situação é mais complexa porque não quer repetir o estelionato eleitoral de Dilma pelos custos políticos

"Se um governo tentasse um ponto de equilíbrio, procurando ser trabalhista no Ministério do Trabalho, liberal no Ministério da Economia e conservador no Ministério das Finanças, deixaria de ser governo para se transformar num conflito".

O prognóstico do ideólogo do trabalhismo getulista, o senador Alberto Pasqualini, ilumina a dinâmica intragoverno sob Lula 3.

Pasqualini recorre a uma falácia recorrente entre nós sobre a incompatibilidade dinâmica entre equilíbrio fiscal e gasto social: "Reconhecemos como justa a política social, mas praticamos uma política financeira, monetária e fiscal que lhe está em absoluta contradição" (idem).

Deborah Bizarria - Câmeras corporais desligadas

Folha de S. Paulo

Tarcísio desfaz avanços na segurança pública e subverte o que se mostrou efetivo

As câmeras corporais na Polícia Militar de São Paulo foram introduzidas com um objetivo claro: aumentar a transparência e conformidade no trabalho policial, reduzindo a letalidade e os abusos de poder.

No entanto, as recentes alterações propostas pela gestão de Tarcísio de Freitas representam uma mudança de foco que compromete os avanços alcançados até agora.

O programa anterior integrava-se a iniciativas mais amplas da própria PM que visavam aprimorar o treinamento —as imagens eram utilizadas para reforçar os procedimentos nas sessões.

Além disso, diversos estudos, como o de Tricia Bent-Goodley, apontam uma forte relação entre a redução da letalidade policial e o aumento da confiança da população nas forças de segurança, fundamental para o combate ao crime.

Diogo Schelp - Fake news, crime?

O Estado de S. Paulo

Criminalizar a desinformação é uma péssima ideia. Melhor seria aprovar o PL das Fake News

Jair Bolsonaro se elegeu em 2018 com a ajuda de fake news e governou espraiando fake news – contra vacinas, contra as urnas eletrônicas, contra adversários, contra o que fosse.

Em 2021, vetou a inclusão de um artigo no Código Penal que tipificava “comunicação enganosa em massa” como crime que poderia ser punido com um a cinco anos de reclusão e multa.

Parecia, com razão, que Bolsonaro estava agindo em causa própria.

Na semana passada, o Congresso finalmente analisou esse veto, entre outros. Bolsonaro entrou em cena para convencer parlamentares a mantê-lo. O governo Lula orientou pela derrubada, ou seja, a favor de criminalizar a disseminação de fatos inverídicos que pudessem “comprometer a higidez do processo eleitoral”, como dizia o trecho cortado.

Denis Lerrer Rosenfield - Sentimentos morais

O Estado de S. Paulo

O Rio Grande do Sul expôs sentimentos morais em ato, fazendo predominar a ajuda ao próximo, para além de qualquer tipo de clivagem partidária

Há eventos, na História e em vivências pessoais, que trazem à tona facetas e propriedades da natureza humana que estavam adormecidas, sufocadas ou simplesmente desconsideradas, seja por não serem solicitadas, seja por não serem cultivadas. No entanto, irrompem em momentos em que são necessárias, o que pode ocorrer em situações extremas, como em guerras ou calamidades, a exemplo da tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul.

Luiz Carlos Azedo - Para nossos jovens, a elite política fracassou

Correio Braziliense, Publicado em 02/06/2024 - 16:25 

Em grande parte, o desinteresse dos jovens pela escola é resultado da má qualidade do ensino, fenômeno que chegou às universidades federais, com altos índices de evasão

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil é o segundo país em proporção de jovens entre 18 e 24 anos que não estudam nem trabalham, atrás apenas da África do Sul, num total de 37 países analisados. Os motivos desses jovens estarem sem estudar e sem trabalhar variam conforme a renda familiar, porém, se encontram nessa condição principalmente os mais pobres. Jovens que não estudam, não trabalham e nem procuram emprego majoritariamente moram nas periferias das cidades brasileiras.

A Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, do Ministério do Trabalho e Emprego, avalia que dos 207 milhões de habitantes do Brasil, 17% são jovens de 14 a 24 anos, dos quais 5,2 milhões estão desempregados. Ou seja, são 55% das pessoas que procuram emprego e não acham, num universo de 9,4 milhões, dos quais 52% são mulheres e 66% são pretos e pardos. Aqueles que nem trabalham nem estudam e nem procuram emprego — os chamados nem-nem — somam 7,1 milhões, sendo que 60% são mulheres, a maioria com filhos pequenos, e 68% são pretos e pardos.

Elimar Pinheiro do Nascimento* - A sustentabilidade já era

Revista Será? Edição de 24/05/2024

As condições atuais são tão desfavoráveis aos humanos que a simples postura em defesa da sustentabilidade não tem mais o efeito que se imaginava há 30 ou 40 anos atrás. Não é mais suficiente. Por isso, Francisco Nilson Moreira está coberto de razão quando diz em seu Ted X ESMPU: “A sustentabilidade já era. Hoje temos que ser regenerativos”.1 E o Rio Grande do Sul está aí para provar.

Por milênios, os homo sapiens têm habitado a terra destruindo-a. Alguns, os menos informados, imaginam que tudo começou com a revolução industrial nas dobras dos séculos XVIII/XIX, como também imaginam que o movimento ambientalista começou com a Conferência de 1972 em Estocolmo (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente Humano). Antes desta conferência, Rachel Carson2 já havia publicado Primavera Silenciosa, com enorme impacto sobre o nascente movimento ambientalista, e o mundo já conhecia a criação de áreas protegidas, o Brasil inclusive3. Antes da revolução industrial, os Sapiens já haviam dizimado os Neandertais, enfraquecidos pelos fortes efeitos da era glacial na Eurásia, como também os megamamíferos, os mamutes, entre 50 e 10 mil anos atrás. Incluindo o Brasil, onde foram extintos os tigres dentes de sabre, as preguiças gigantes e os toxodontes, entre outros.

Claudia Sheinbaum é 1ª mulher eleita presidente do México, diz projeção oficial

Mayara Paixão / Folha de S. Paulo

Analista vê possibilidade de 'governo descafeinado' após seis anos de López Obrador; atraso na divulgação da contagem rápida gera críticas a órgão eleitoral, cansaço e suspeitas

CIDADE DO MÉXICO - Claudia Sheinbaum vai suceder a Andrés Manuel López Obrador, seu padrinho político, e será a primeira mulher na história a governar o México, indica projeção oficial dos resultados.

Às 3h de Brasília (0h local), o Instituto Nacional Eleitoral (INE), órgão autônomo, estimou que a governista teria de 58,3% a 60,7% dos votos. Na sequência, a opositora Xóchitl Gálvez marcaria entre 26,6% e 28,6%.

É a chamada contagem rápida do INE, um procedimento previsto no regramento eleitoral mexicano no qual uma equipe técnica projeta o resultado com base em uma amostra da contagem obtida nas "casillas", como são chamados os centros de votação. A confiança é de 95%.

Se confirmados esses números, Sheinbaum seria a presidente eleita com mais votos na história do país.

Os opositores —Xóchitl e Jorge Álvarez Máynez, azarão do Movimento Cidadão que teria obtido em torno de 10%— reconheceram a derrota.

Poesia | João Cabral de Melo Neto - O sertanejo falando

 

Música | Mastruz Com Leite - São João de Todos os Tempos

 

domingo, 2 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Desemprego em queda é reflexo de reforma trabalhista

O Globo

Mudanças de 2017 são principal fator para ampliação de vagas formais. Educação responde por maior renda

No trimestre encerrado em abril, o desemprego ficou em 7,5%, 1 ponto percentual abaixo do registrado há um ano e quase metade do resultado em 2021 (14,7%). É o menor número para o período desde 2014. E tem mais: a melhora no mercado de trabalho acontece enquanto o rendimento médio continua subindo. Em um ano, ele deu um salto de 4,7%, revelam dados do IBGE. No pior momento da pandemia, ninguém previa uma recuperação tão forte.

Os altos e baixos do desemprego são cíclicos, mas algo aparentemente distinto parece acontecer desta vez. Tem crescido também a proporção de empregos formais, que garantem mais direitos aos trabalhadores e paridade na competição entre as empresas. No primeiro trimestre, foram firmados mais contratos com carteira assinada que no mesmo período nos dois anos anteriores. Em abril, o saldo de empregos formais, segundo o Ministério do Trabalho, alcançou 240.033 postos, melhor resultado para o mês desde 2013. O contraste com a recuperação depois da recessão entre os anos 2014 e 2016 é evidente. Na crise anterior, a retomada foi puxada por empregos informais.

Paulo Fábio Dantas Neto* - Quantas e quais direitas vamos ver em 2026?

O que ocorre, ou ocorrerá, no amplo campo da direita brasileira até as eleições (presidenciais e parlamentares) de 2026 é tema que, gradativamente, ganha espaço no colunismo político e nos blogs especializados em política. É questão de tempo passar a frequentar, também assiduamente, o espaço público mais abrangente do noticiário de imprensa e a contribuir para a algazarra das redes sociais.

A maior e mais intensa circulação do tema não garante que ele será tratado em sua complexidade. Pode ser perfeitamente absorvido como tópico da polarização extrema que predomina no ambiente político. O caminho mais curto para isso é reformular a pergunta e passar-se a discutir o que fará a extrema-direita ou - ainda mais simplificadamente – quem Bolsonaro apoiará na sucessão de Lula. Questões simétricas às que circulam a respeito do outro lado, desde que o atual governo começou: se esse é um governo de coalizão ou se o lulo-petismo é que manda; quem Lula apoiará, em 2026, ou depois.

No mundo simplificado das redes digitais, perguntas tais e quais parecem confirmar o diagnóstico recente, feito pelo presidente, de que a política brasileira se resume hoje à disputa pessoal entre ele e Bolsonaro. Fora desse enquadramento seria ocioso e mesmo bobo falar em esquerda, centro e direita, ou em situação e oposição. Lula é a esquerda, Bolsonaro, a direita. Já o centro, é um ninguém. Quem apoia o governo é lulista, quem faz oposição, bolsonarista e quem não se alinha, oportunista ou ingênuo.

Uma interpretação menos tosca e mais realista do cenário no qual direita, esquerda e centro, o governo e oposições atuam vê o governo presidencialista no Brasil resultando de diversas interações do presidente. De um lado, com os governados (eleitores), relação mediada por um conjunto de formadores de opinião atuantes nas múltiplas e distintas esferas da sociedade civil e por formuladores e operadores de estratégias de comunicação política. De outro lado, com uma complexa teia institucional.

Gaudêncio Torquato - A tecnopolítica e as enchentes de ódio

Folha de S. Paulo

Nas eleições, pouco adiantará o expurgo legal de perfis mentirosos

Um apreciável conjunto de instrumentos se insere na seara da política para influenciar seus rumos, criar perfis para novos protagonistas e recriar imagens de figurantes tradicionais, situação que se apresenta extremamente impactante nos ciclos eleitorais. Basta enxergar seu (mau) uso nos EUA e no Brasil, países que vivenciam o clima de eleições. As ferramentas escolhidas fazem parte das plataformas nas redes sociais e constituem a nova infraestrutura da arte e da técnica de fazer política na era digital.

Os meios ancoram-se na trollagem —comentários racistas, sexistas, homofóbicos, denúncias contra desafetos etc.—, com evidente propósito de gerar aplausos para alguns figurantes e desmontar a identidade de outros. A falsidade é a bússola de fontes e receptores das redes. Seu objetivo é expandir a desinformação. Para tanto, haverá uma imersão na deepfake, com a produção de vídeos bombásticos para difamar perfis. O mergulho profundo no oceano das fraudes sinaliza intensa conflituosidade na política.

Celso Rocha de Barros - Plano fiscal de Tarcísio

Folha de S. Paulo

Editoriais mostram governador fazendo o que Haddad já faz

Nos últimos dias, os três maiores jornais do país, inclusive esta Folha ("Plano de SP prevê o que todos deveriam fazer", dia 24 de maio), O Globo ("São Paulo mostra a Brasília como fazer ajuste de gastos", 27 de maio) e O Estado de S. Paulo ("São Paulo aponta o caminho das pedras", 24 de maio), escreveram editoriais apoiando o plano de ajuste fiscal anunciado pelo governador Tarcísio de Freitas e contrastando-o com um suposto desinteresse do governo Lula pelas contas públicas.

Esse contraste é falso.

Bruno Boghossian - Quanto vale uma boa polícia?

Folha de S. Paulo

Argumento da austeridade fiscal de Tarcísio é verniz para sabotagem de câmeras corporais

Tarcísio de Freitas procurou muitas desculpas para se livrar das câmeras corporais da Polícia Militar. Na campanha, dizia que o equipamento tirava a privacidade dos agentes. Eleito, alegou que as gravações não tinham efetividade na segurança do cidadão. Agora, ele poliu o discurso com um argumento financeiro.

O edital para a contratação de novas câmeras para a PM permite que os policiais deixem o equipamento desligado. Segundo Tarcísio, a gravação contínua "gera muitos custos ao estado pela necessidade de armazenamento". O governador afirmou que o sistema atual gasta dinheiro para guardar um material que, "no final das contas, não serve para nada".

Hélio Schwartsman - O peso da natureza

Folha de S. Paulo

Livro que analisa impacto da mudança climática em nossos cérebros prevê homem mais violento, burro e ansioso

O Brasil experimenta em primeira mão o drama das perdas humanas e econômicas do aquecimento global, fenômeno que deverá intensificar-se. E esse é só um pedaço da conta. Em "The Weight of Nature" (O Peso da Natureza), o neurocientista convertido em jornalista Clayton Page Aldern mostra que a mudança climática também deverá nos deixar mais burros, violentos, ansiosos e paranoicos.

A era liberal em risco

O Estado de S. Paulo

Países líderes estão mais intervencionistas

Alerta Sem um quadro institucional para a cooperação, será mais difícil lidar com os desafios do século 21

Na berlinda Organizações multilaterais estão cada vez mais acuadas e não conseguem responder às atuais demandas mundiais

À primeira vista, a economia mundial parece ser de uma resiliência tranquilizadora. Os Estados Unidos cresceram mesmo com a escalada da guerra comercial com a China. A Alemanha resistiu à perda do fornecimento de gás russo sem sofrer um desastre econômico. A guerra no Oriente Médio não trouxe nenhum choque petrolífero. Os rebeldes Houthi, que disparam mísseis, mal afetaram o fluxo global de mercadorias. Em porcentagem do PIB mundial, o comércio se recuperou da pandemia e se prevê que cresça de forma saudável neste ano.

Mas, olhando mais profundamente, vemos a fragilidade. Durante anos, a ordem que governou a economia global desde a Segunda Guerra Mundial foi corroída. Hoje, está perto do colapso. Um número preocupante de fatores precipitantes poderá desencadear uma descida à anarquia, onde quem pode, manda, e a guerra é mais uma vez o recurso das grandes potências. Mesmo que nunca chegue a haver conflito, o efeito na economia de uma quebra das normas poderá ser rápido e brutal.