sexta-feira, 29 de julho de 2022

Fernando Luiz Abrucio* - A sociedade civil pela democracia

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

É preciso dar um apoio social às instituições de Justiça e aos políticos que querem proteger a democracia dos ataques bolsonaristas

Todo o poder emana do povo, diz a Constituição brasileira logo em seu início. Mas nem sempre os cidadãos, tomados de forma fragmentada, são capazes de resistir a ações autoritárias de líderes políticos e forças militares. A oposição e outros políticos eleitos podem tentar resguardar o regime democrático, porém parte deles pode aderir ao golpismo e inviabilizar a resistência política. Há ainda as instituições de controle como instrumentos para limitar o poder dos governantes. Só que por vezes elas sucumbem diante do populismo autoritário. Ao final, quando o próprio presidente jura de morte a democracia, o último bastião da liberdade é a sociedade civil organizada.

A democracia brasileira chegou ao seu limite quando o presidente Bolsonaro chamou embaixadores de outros países para deslegitimar o processo eleitoral, dizendo, no fundo, que como candidato à reeleição ele não necessariamente obedecerá às regras do jogo. Assim, ele avisou ao mundo que o voto poderá não ser a forma de definir o próximo governante do país. O sinal do golpe final contra o regime democrático foi dado.

O recado foi entendido pelos países democráticos presentes na fatídica reunião, que disseram duas coisas importantíssimas. Primeira, se o Brasil caminhar para algum tipo de autoritarismo, haverá rechaço internacional em todos os campos (militar, político, econômico etc.), de modo que passaremos de isolados a boicotados. Mas a segunda observação é tão importante quanto a inicial: cabe aos brasileiros definir o seu caminho e defender a sua democracia.

Pedro Doria - Existe um Brasil com que sonhar

O Globo

De certa forma, o bolsonarismo representa o fim da Nova República. Nos próximos anos, um novo país nascerá

Na próxima segunda-feira, o grupo Derrubando Muros — de que faço parte — lançará um e-book gratuito que leva o título “Uma agenda inadiável”. É uma proposta de caminhos para o Brasil. Perante um presidente da República golpista, a defesa da democracia se torna prioritária nesta eleição. Só que isso afasta das conversas durante a campanha um tema também fundamental: o país está num buraco, com inúmeras crises brotando. É preciso ter um projeto, e é a isso que o DM se propôs. O grupo é apartidário, dele faz parte gente com inclinações políticas diversas, que votará em nomes distintos para a Presidência dentre os candidatos democratas. Pelo menos três dos temas interessam diretamente ao Brasil que se preocupa com o futuro digital.

Quem assina cada capítulo é um time de especialistas, pessoas realmente entre os melhores em suas áreas. Segurança ficou a cargo de Ilona Szabó, Melina Risso e Joana Monteiro, do Igarapé. Horácio Lafer Piva se debruça sobre a indústria do futuro. Pedro Hallal, Eduardo Jorge, Robson Capasso e Miguel Lago pensam a Saúde.

Vera Magalhães - Jogo começa para valer em agosto

O Globo

Ex-presidente Lula está disposto a puxar Bolsonaro para o centro do ringue, onde ele sempre hesitou em estar

A entrada de Lula mais efetivamente em campo, a troca da guarda no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na semana que vem, a entrada em vigor dos benefícios da PEC Kamikaze e o esperado ato em defesa da democracia no próximo dia 11 são apenas alguns eventos que definirão os rumos da campanha daqui por diante. Agosto chega, acaba o aquecimento, e o jogo começa para valer.

Lula parece ter enxergado que a oposição deu espaço demais para Bolsonaro crescer e resolveu mudar sua postura. A entrevista ao UOL e a disposição manifestada de conceder outras, bem como de participar de alguns debates, mostram o ex-presidente disposto a puxar Bolsonaro para o centro do ringue, onde ele sempre hesitou em estar.

Além disso, o petista intensificou o trabalho de bastidores. De difícil consecução, dadas as dificuldades históricas e regionais de entendimento, uma aliança com o União Brasil poderia ser a cartada que faltava para assegurar uma coalizão forte o bastante para garantir a vitória dele em primeiro turno. Justamente por ser tão improvável e tão poderosa, é uma costura que deverá ser combatida com todo o peso possível pelo governo federal e por seus aliados no Congresso, com as armas de praxe.

Bernardo Mello Franco - Lula e a reeleição

O Globo

Com ampla vantagem nas pesquisas, o ex-presidente Lula fez um aviso à praça: se vencer a eleição, não pretende se candidatar novamente em 2026. Na quarta-feira, o petista se disse decidido a não disputar um eventual quarto mandato. “Sinceramente, eu não penso em reeleição”, afirmou, em entrevista ao UOL. “Eu não quero. Eu não tenho idade”, concluiu.

Se eleito, Lula subirá a rampa do Planalto aos 77 anos. Será o político mais idoso a assumir a Presidência no Brasil. Hoje o recorde pertence a Michel Temer, que vestiu a faixa aos 75. Quando Getúlio Vargas voltou ao poder, em 1950, uma marchinha de Haroldo Lobo o apresentou como o “velhinho” cujo sorriso faria o povo se animar. O ex-ditador tinha 68 anos, nove a menos do que Lula terá em outubro. No próximo ciclo eleitoral, o petista estará com 81 anos. É um bom argumento para sustentar a tese da aposentadoria voluntária.

Flávia Oliveira - A maior das urgências

O Globo

País vive alívio para abastecer o carro, sufoco para encher o estômago

No país de 33,1 milhões de pessoas em situação de fome e onde seis em cada dez habitantes enfrentam algum nível de insegurança alimentar, segundo o inquérito da Rede Penssan, índices de preços escancaram as prioridades oficiais. No IPCA-15 (IBGE), prévia da inflação oficial, enquanto os preços da gasolina (-5,01%) e do etanol (-8,16%) caíram por cortes tributários impostos pelo governo e pelo Legislativo, o leite longa vida disparou livremente 22,27%, desde meados de junho. No Rio, R$ 10 compram um litro de leite ou quase dois de gasolina. Alívio para abastecer o carro, sufoco para encher o estômago.

Hélio Schwartsman - Desobediência civil

Folha de S. Paulo

Fracasso nas urnas deve empurrar Bolsonaro a não reconhecer resultado

Os números do Datafolha mostram que o pacote de estelionato eleitoral aprovado com o esdrúxulo apoio da oposição ainda não foi capaz de alterar o panorama eleitoral. Lula está 18 pontos percentuais à frente de Bolsonaro (contra 19 em junho). Se a eleição fosse hoje, o petista teria chances de resolver a disputa já no primeiro turno.

A eleição, porém, não é hoje. Penso que Bolsonaro deverá crescer mais alguns pontinhos, à medida que os pagamentos do Auxílio Brasil turbinado forem feitos. Não acredito, porém, que isso reverterá o favoritismo de Lula. A inflação, afinal, corroeu quase todo o poder de compra dos R$ 200 extras.

Bruno Boghossian – O jogo duplo do centrão

Folha de S. Paulo

Líderes do bloco simulam moderação, mas ninguém acredita que Bolsonaro será um democrata em 2023

Os chefes do centrão gostam de circular pelos corredores de Brasília como se fossem responsáveis por frear os impulsos autoritários de Jair Bolsonaro. Volta e meia, a turma que manda na operação política do governo espalha a ideia de que está incomodada com o comportamento golpista do presidente, diz trabalhar pela moderação e argumenta que os ataques à democracia atrapalham a campanha à reeleição.

Pode até ser que o bloco recomende a Bolsonaro um pouco mais de discrição, mas é difícil sustentar que o centrão tenha uma repulsa genuína aos planos do presidente de questionar o resultado das eleições.

Reinaldo Azevedo - O outro golpe que espreita Lula

Folha de S. Paulo

Manifestos têm de virar fórum permanente de defesa das instituições

Se a eleição fosse hoje, Lula (PT) teria 47% dos votos no primeiro turno, contra 29% de Jair Bolsonaro (PL) e 8% de Ciro Gomes (PDT), aponta o Datafolha. Os demais candidatos somariam apenas 5%. O petista poderia vencer a disputa no primeiro turno. No segundo, bateria o atual presidente por 55% a 35%. Muita coisa aconteceu no país em dois meses; na pesquisa, praticamente nada. E isso quer dizer que a democracia segue em perigo, ainda que sem quartelada ou Capitólio caipira.

A propósito: é fácil saber quem dá ou não piscadelas para a ditadura. Cruze os signatários dos dois manifestos em defesa do Estado de Direito —logo será divulgado o das entidades empresariais. Os ausentes ou seriam beneficiários de um regime de força ou coniventes. Em qualquer caso, golpistas também.

Vinicius Torres Freire – A opção de Bolsonaro é barbarizar

Folha de S. Paulo

Datafolha mostra quadro travado, estelionatos eleitorais ainda não fazem efeito

Entre os eleitores que recebem o Auxílio Brasil, 45% consideravam o governo de Jair Bolsonaro "ruim ou péssimo" em maio. No Datafolha deste final de julho, eram 40%. Dada a margem de erro da pesquisa para esse grupo, pode ser que essa variação seja desprezível.

O dinheiro do novo Auxílio Brasil começa a pingar neste mês, com mais um pagamento até o primeiro turno. Ainda que muita gente deva estar informada do aumento do benefício, é possível que o dinheirinho vivo na mão possa fazer alguma diferença no voto. Quanto?

A julgar por outros números do Datafolha, não muita. Se essa era a carta maior que a campanha bolsonarista e seus aliados tinham não mão, vão precisar meter a mão no baralho a fim de mudar votos.

No geral, 71% dos eleitores dizem estar "totalmente decididos" a respeito do seu voto. Entre os que recebem o Auxílio Brasil, a decisão é firme para 69%. Tanto entre os eleitores de Lula da Silva (PT) como entre os Bolsonaro, os que declaram uma decisão irrevogável são 79%.

César Felício - Bolsonaro está entrando na reserva

Valor Econômico

O momento decisivo nas pesquisas deve ser dentro de 30 dias, quando programas sociais criados pelo governo em período eleitoral já terão sido pagos

O presidente Jair Bolsonaro (PL) tinha um grande fator para reduzir neste mês a diferença que separa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas: a redução do preço da gasolina na bomba, efeito tanto da mudança de cálculo do ICMS sobre o produto quanto de toda pressão do governo sobre a Petrobras. A queda do preço da gasolina impacta diretamente na inflação, que é um sangradouro de votos para o incumbente.

O efeito político surpreendentemente foi mínimo, de acordo com a pesquisa Datafolha divulgada ontem. Bolsonaro oscilou de 28% para 29% e Lula manteve-se com 47% no intervalo de um mês.

A gasolina não é a última bala de Bolsonaro, para usar uma analogia do gosto do presidente. Ele ainda tem um trunfo, o pagamento dos benefícios majorados em pleno período eleitoral, como o recalibrado Auxílio Brasil, o dobrado vale-gás e os vouchers para caminhoneiros e taxistas. Tudo isso será pago ao longo do mês de agosto, já com a campanha eleitoral em marcha.

Eliane Cantanhêde - Hora de a onça beber água

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro cutucou a onça com vara curta, a sociedade civil acordou e os militares não viram

Tão orgulhosos e bravos contra o TSE e as urnas eletrônicas, os que mandam atualmente nas nossas Forças Armadas insistem em ser dóceis e submissos quando o presidente Jair Bolsonaro, enquanto distribui empregos e participa de formaturas e rapapés militares, humilha o Exército Brasileiro.

Já presidente e sempre candidato, ele participou de ato golpista com o Quartel General ao fundo, desprezou o Estatuto Militar e o Regimento Interno do Exército ao atrair o general da ativa Eduardo Pazuello para seu palanque, jogou no lixo o estudo da inteligência da Força sobre procedimentos na pandemia e, o pior, desautorizou pela internet três portarias do Exército sobre monitoramento de armas de civis.

Assim como interveio na PF, interveio no Exército e armou sua tropa civil pelo País afora, não se sabe ainda com que intenções. Embaixadores estrangeiros não exageraram ao concluir, após o espetáculo grotesco contra o processo eleitoral e a imagem do País, que a maior ameaça à democracia no Brasil não são as urnas eletrônicas, é o próprio presidente da República.

Laura Karpuska* - Defesa da democracia

O Estado de S. Paulo

Não precisamos do aval dos militares para seguir com as eleições neste ano

Nos seus discursos de 7 de Setembro do ano passado, o presidente Bolsonaro disse que só sairia da Presidência “preso ou morto”. Desde então, ele continuou mostrando pouca propensão a aceitar o processo democrático. Seu discurso é sempre agressivo, e suas ações, corrosivas.

Nos últimos meses, o presidente vem fazendo diversos ataques ao processo eleitoral e às urnas eletrônicas. Esses ataques culminaram em um evento oficial constrangedor no Palácio da Alvorada, em que Bolsonaro disse a embaixadores de vários países que suspeitava do sistema eleitoral brasileiro.

Golpes como os já vistos na história, com tanques e fuzis, não fazem mais parte da nossa realidade. A decadência democrática acontece em sua forma mais clara quando forças políticas não aceitam o processo eleitoral. A eleição não ocorreu ainda, mas Bolsonaro percebe que aumentam as chances de que ele não seja reeleito. Antecipando isso, o presidente continua atacando diretamente a democracia brasileira.

Luiz Carlos Azedo - O establishment se mexe em defesa das urnas

Correio Braziliense

Foi o que conseguiu o presidente Bolsonaro com o seu inusitado e espantoso ataque à Justiça Eleitoral e ao Supremo, na reunião de representantes de quase 70 países, que provocou forte reação 

O encontro do presidente Jair Bolsonaro com diplomatas estrangeiros para falar mal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e levantar suspeitas de que haveria fraudes nas urnas eletrônicas virou uma espécie de “efeito borboleta”, uma variante da Teoria do Caos, que consiste em grandes acontecimentos provocados inicialmente por pequenas alterações. O conceito passou a ser usado quando certas escolhas provocam desastres, principalmente depois do filme Efeito Borboleta, lançado em 2004, pela dupla Eric Bress e J. Mackye Gruber.

Evan Treborn (Ashton Kutcher), um jovem de 20 e poucos anos, em luta contra as memórias traumáticas de sua infância, descobre uma técnica que pode levá-lo de volta ao passado e passa a alterar diversos acontecimentos, com objetivo de mudar para sempre o seu futuro. Porém, o “efeito borboleta” trará consequências inesperadas para sua vida e daqueles que estão ao seu redor. Na tentativa de ficar com a namorada, Kayleigh, cria realidades alternativas que não terminam como gostaria. Entretanto, o que nos interessa não é um “spoiler”, mas o fenômeno ligado à Teoria do Caos.

José de Souza Martins* - O medo no Brasil intolerante

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

A intolerância entre nós, em 2018, transformou-se em poder, por delegação e por usurpação

As muitas, diversificadas e crescentes manifestações de intolerância no Brasil parecem não surpreender nem suas vítimas nem seus espectadores passivamente cúmplices. Ao longo do tempo já havíamos desenvolvido técnicas autoindulgentes de dissimulação da surpresa. É uma das nossas características culturais autodefensivas mais complicadas, não raro utilizada com a complacência e mesmo a conivência da vítima.

É que por trás de quem não tolera e, também, de quem não é tolerado está a força acabrunhante do medo e uma certa consciência de desigualdade social tida como legítima, que, pelo medo, justifica nossa anômala, arcaica e antidemocrática dominação social e política. Essa dominação se atualiza e se “moderniza”. O “bullying” dos valentões de calça curta é manifestação deste nosso atraso.

O medo é historicamente estrutural na formação da sociedade brasileira. Numa carta de meados do século XVI ao rei de Portugal, o culto jesuíta padre Manoel da Nóbrega, referindo-se aos indígenas brasileiros, dizia-lhe que esta gente não podia ser sujeita senão pelo medo.

Fabio Giambiagi - Regra do seguro-desemprego

O Globo

Como consequência, diminuiria a pressão sobre esse tipo de despesa

Este é o décimo terceiro artigo da relação de propostas para o próximo governo. O FAT é o Fundo de Amparo ao Trabalhador, rubrica sob a qual aparece nas contas do governo a despesa do seguro-desemprego, bancado com os recursos desse fundo, oriundos por sua vez da arrecadação federal do PIS/Pasep.

A despesa conjunta com seguro-desemprego, abono e seguro-defeso nas contas do Tesouro Nacional foi de 0,4% a 0,5% do PIB durante muitos anos, a partir da estabilização de 1994, mais precisamente até 2005, quando começou a aumentar. Curiosamente, cabe registrar que isso ocorreu num contexto, na época, de redução da taxa de desemprego, o que era revelador de certas distorções do desenho do instrumento, que não há tempo aqui para expor.

O fato é que, de um modo geral, após aquela alta, a rubrica tem se mantido, grosso modo, no intervalo de 0,7% a 0,8% do PIB ao longo dos últimos anos. A despesa com seguro-desemprego, especificamente, corresponde aproximadamente a dois terços da soma daqueles três itens, englobados na rubrica geral “despesas do FAT”.

Claudia Safatle - A notável virada nas contas das estatais

Valor Econômico

Empresas públicas federais saíram de um prejuízo de R$ 32 bilhões em 2015 para lucro de R$ 187 bilhões em 2021

Foi no governo de Michel Temer que houve a reviravolta nas contas das empresas estatais federais, que saíram de um déficit de R$ 32 bilhões para um superávit de R$ 4 bilhões entre os anos de 2015 e 2016, respectivamente. E está na dimensão financeira o mais notável resultado obtido pelo conjunto dos grandes grupos de empresas controladas diretamente pela União, que registraram um lucro líquido recorde, de R$ 187,7 bilhões no ano passado.

Encerrou-se, assim, o ciclo dos mega prejuízos liderados por Petrobras, Eletrobras, Correios e Infraero. Um dos principais responsáveis por esse resultado negativo foi a política de controle de preços sobretudo dos combustíveis e energia, que começou de fato no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, mas que acentuou-se durante a gestão da então presidente Dilma Rousseff.

Só foram corrigidos os preços no início do segundo mandato de Dilma Rouseff, pelo então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que promoveu um tarifaço nos preços até então sob a tutela do Palácio do Planalto.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Cresce o apoio a ato de repúdio a ameaças de Bolsonaro

Valor Econômico

Manifestações da sociedade civil são um remédio vigoroso contra aventuras liberticidas

A democracia brasileira corre riscos com a intensificação da campanha do presidente Jair Bolsonaro contra urnas eletrônicas, Tribunal Superior Eleitoral e Supremo Tribunal Federal. A ação do presidente teve um de seus pontos mais relevantes e lamentáveis na reunião que promoveu com embaixadores de várias nações, na qual colocou sob suspeita o próprio sistema que o permitiu chegar ao Palácio do Planalto. O ridículo dessa atitude surreal não encobre o fato de que Bolsonaro tenha feito um aviso prévio ao mundo de que não se conformará se esse sistema não for mudado - e não deverá ser, segundo as instituições envolvidas. Os embaixadores entraram no encontro mudos e saíram calados - e alguns, estupefatos.

A reação às ameaças presidenciais também subiu de tom, com a preparação de uma carta-manifesto em defesa da democracia e do sistema eleitoral a ser lido em ato público na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo no dia 11 de agosto. Em um par de dias, 300 mil pessoas a assinaram.

Mas a preparação contra jogadas autoritárias do presidente, que repetirá em 7 de setembro seus ataques ao sistema eleitoral e ao Supremo, convocando seus adeptos “pela última vez”, provou uma resposta de um setor que historicamente preferiu a discrição, com raras exceções: entidades empresariais e do setor financeiro. Mais ainda, trouxe a rara concordância das centrais sindicais com as patronais no apoio à manifestação.

Poesia | Fernando Pessoa - É fácil trocar as palavras

 

Música | Centenário de Zé Keti com Rabicho e Convidados (2/2/2021)

 

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Maria Cristina Fernandes - A turma do acordão entra em campo

Valor Econômico

Com chances reduzidas de reeleição e blefe escancarado pela falta de respaldo militar, Bolsonaro fica sem poder de barganha para salvo-conduto

 “Ouvi ontem que o pessoal dele está discutindo uma PEC para que ex-presidente não possa ser preso, vire senador vitalício. Eu sou contra. Do que esse cidadão tem medo?” O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva trouxe à tona, ao UOL, a constatação que domina Brasília: ficou mais difícil, para Jair Bolsonaro, conseguir um salvo-conduto, tenha este o nome de mandato vitalício, indulto ou anistia.

Este é um tema que acompanha seu mandato, visto que, desde a posse, deixou claro que não se elegera para governar. Ainda faltam 65 dias para o veredito de sua excelência, o eleitor, mas o que aconteceu nesta semana tornou improvável para Bolsonaro uma aposentadoria na Barra da Tijuca tomando cerveja com contrabandistas de fuzis.

As primeiras pesquisas pós-benesses e a deflagração de dois compromissos democráticos, dos ministros de defesa do continente e do PIB nacional, puseram fim às ilusões. Tanto o caminho para a reeleição se estreitou quanto o presidente perdeu poder de barganha para negociar uma saída. Sem as Forças Armadas, o que lhe restaria? Os policiais militares, que já demonstraram obediência aos seus comandantes no ano passado, terão redobrados incentivos para reprisá-la. A aposta em clones de Jorge Guaranho em nada mudaria uma eventual derrota nas urnas e só complicaria a situação jurídica de seu patrocinador.

Vinicius Torres Freire - Quem não subscreve a democracia

Folha de S. Paulo

Quem não der um basta ao golpe vai se juntar ao novo e grande partido autoritário

Os manifestos pela democracia do 11 de Agosto criam dificuldades importantes para os avanços do golpe em curso e para uma tentativa de institucionalização autoritária, caso Jair Bolsonaro e cúmplices cheguem às vias de fato.

Quanto mais adesões tiverem, mais empecilho. Mas uma tentativa de contenção, apenas. Há muita gente que subscreve o programa autoritário, com ou sem Bolsonaro; se não em 2022, depois. Há uma corrente social e política grande, profunda, a favor do regresso, da reação e da violência, institucional ou direta, na rua. Os omissos vão se juntar a quem subscreve a carta antidemocrática.

Não é uma crise circunstancial. Grupos, categorias, classes, o nome que se dê, acharam conveniente defender seus interesses e reclamar mais poder ou a representatividade que julgam merecer por meio de Bolsonaro ou se identificam com o que pensa.

Thiago Amparo - Os manifestos e o pato da democracia

Folha de S. Paulo

O dia D está a poucas semanas nos esperando nas urnas e as tropas estão à espreita do golpe

De um lado, manifestos pela democracia são, como foto, um registro histórico no qual as ausências escandalizam mais. De outro lado, como parte do filme do golpe em curso, expõem com nitidez cinematográfica os movimentos das tropas anti e pró-democracia. O dia D está a poucas semanas nos esperando nas urnas e as tropas se colocam na praia à espreita do golpe, que será tentado —disso já sabemos, porque já está a ser televisionado.

É digno de nota que os dois manifestos pela democracia —iniciativas louváveis, aliás— ora em circulação advenham justamente de duas das classes, a jurídica e a empresarial, que sustentam o bolsonarismo. A eficácia destes manifestos é diretamente proporcional ao poder de seus signatários de frear avanços golpistas entre os seus próprios campos: quando o bolsonarismo acenar com regalias, poderemos controlar os mercenários entre nós?

Maria Hermínia Tavares* - Pobreza e populismo

Folha de S. Paulo

Na luta contra a miséria, uma década foi pelo ralo

No começo de 2013, o país parecia decidido a reduzir a pobreza e acabar com suas formas mais extremadas. Em lugar disso, vieram, entrelaçadas, a recessão de 2014, a crise política e a ascensão da dupla Bolsonaro-Guedes. Foi um retumbante retrocesso. Hoje, a renda per capita dos 20% mais pobres da população se assemelha à de 2012. Pior: caiu abaixo à do ano em que a economia entrou em parafuso. O mesmo ocorreu com a porcentagem dos extremamente pobres. Na luta contra a miséria, uma década foi pelo ralo.

Esses dados deprimentes estão esmiuçados no texto "A evolução da pobreza monetária no Brasil do século 21" de autoria do mais que competente sociólogo Pedro Ferreira de Souza, recém-publicado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Bruno Boghossian - Lula em território hostil

Folha de S. Paulo

Ex-presidente ajusta discurso para tratar de militares, centrão, empresários e evangélicos

Apesar de ter aberto canais com segmentos potencialmente hostis, a campanha de Lula ainda tenta calibrar a relação com alguns desses grupos. O próprio ex-presidente tem feito ajustes no discurso para tratar de quatro classes consideradas sensíveis pelo PT: militares, o centrão, empresários e evangélicos.

A entrevista de Lula ao UOL nesta quarta-feira (27) deu sinais nessa direção. O petista traçou uma linha no chão ao dizer que os militares não devem "ficar dando palpite sobre urna" e reafirmar que pretende indicar um civil para o Ministério da Defesa. Mas aproveitou a deixa para também declarar confiança nas Forças Armadas e lembrar investimentos feitos por seu governo na área.

Conrado Hübner Mendes* - Corrupção bolsonarista, capítulo 7

Folha de S. Paulo

Não só viagra superfaturado infla potência espoliatória do militarismo acima da lei

Malandro não vacila. As Forças Armadas do Brasil se habituaram a invocar a "honra institucional" para ameaçar e processar críticos. "Honra institucional" não é bem jurídico tutelado em regimes liberais. Honra é direito individual, não atributo de instituição republicana. Mas é bem primário reivindicado por instituições autoritárias. E armadas, nesse caso.

A respeitabilidade de uma instituição costuma ser inversamente proporcional ao quanto desfila virtudes, esconde vícios e dribla controle. O orgulho-ostentação da magistocracia e da milicocracia se exibe de graça e amiúde. Enquanto conservarem rituais declaratórios de autoimportância, permanece seu ridículo ético e estético. Sem falar da deformidade jurídica.

William Waack - A inversão dos medos

O Estado de S. Paulo

Jair Bolsonaro é o grande fator de neutralização do antipetismo

Principal cabo eleitoral de Lula, Jair Bolsonaro está criando a frente ampla dos sonhos de seu maior adversário político. As adesões aos manifestos em defesa da democracia vêm de setores relevantes da economia, academia, entidades da sociedade civil, mundo cultural e várias correntes políticas. Mas seu significado é ainda mais abrangente do que a diversidade de seus signatários.

A conduta política de Bolsonaro ampliou a noção, sobretudo em setores de elites dirigentes, de que a questão não é de forma, mas de conteúdo. Talvez pela primeira vez desde que assumiu, o presidente é entendido em círculos mais amplos como grave ameaça às regras do jogo democrático, e não como um “espontâneo” que vocifera truculências.

José Serra* - A liberdade é a gênese da democracia

O Estado de S. Paulo

É exasperante ouvir e observar os ataques violentos que nossa Carta Magna tem sofrido diuturnamente.

Os regimes autocráticos conhecidos pela humanidade culminam em ditaduras, governos opressores, violentos e que reduzem os direitos civis. Restringem – quando não aniquilam – as liberdades individuais. Em 1947, na Câmara dos Comuns, Winston Churchill, então primeiro-ministro do Reino Unido, afirmou, acertadamente, que “a democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros”. Principal, mais confiável e participativo modelo de governo criado há 2.500 anos pelos gregos, a democracia mantém íntegra a Nação, mesmo que hoje ainda haja quem conteste sua eficiência.

É no mínimo curioso, portanto, que políticos eleitos democraticamente pelo voto coloquem em xeque as normas e procedimentos que os levaram aos respectivos mandatos, sobretudo quando estes proporcionaram inúmeras e abusivas mudanças de regras do jogo em benefício próprio.

A história do mundo e do Brasil mostra que caminhos similares já percorridos resultaram em anos de restrição de liberdades individuais e comprometimento dos direitos humanos, ampliaram a pobreza, a ignorância e o atraso. É falacioso vociferar que os métodos e regras democráticas são frágeis ao mesmo tempo que se finge defender a democracia. É contraditório avocar o princípio da liberdade colocando em suspeição as eleições. É perigosa a persistência de falsas premissas para sustentar o livre pensamento.

Eugênio Bucci* - E a caneta BIC?

O Estado de S. Paulo

Para o tal – este mesmo em quem você pensou, este que aí está –, a escolha da BIC é uma forma de declarar que a caneta vale menos que uma arma de fogo.

Depois que tudo isso acabar – e uma hora ou outra isso tudo vai acabar, vai ter de acabar –, o que terá sido da imagem da velha caneta BIC? Ela, com seu corpo em plástico transparente sextavado, sua tampinha azul, quem é que vai resgatá-la do lixo da História? O uso insistente e ofensivo que o presidente da República vem fazendo da pobrezinha, existirá saída para tamanho enxovalho?

Que destino dilacerante foi sobrar para ela. A toda cerimônia oficial, essas que são emolduradas pelo mármore branco do Palácio do Planalto, com as cores do Brasão da República ao fundo, ou ao lado, ou acima, ou abaixo, lá vem o sujeito espalhafatoso e falastrão, arreganhos como se fossem sorrisos, sacando uma BIC do bolso para assinar isto e mais aquilo, diante de todo mundo. Tem sido assim com tanta frequência, com tanta desfaçatez, que a gente morre de dó, de constrangimento e de vergonha.

Adriana Fernandes - Arma eleitoral do crédito

O Estado de S. Paulo

É preciso cobrar regulamentação que proteja da agiotagem os beneficiários

A medida hoje mais esperada pela população de baixa renda é a liberação do empréstimo consignado para os beneficiários do Auxílio Brasil. É uma “bala de canhão” para turbinar o crédito com a marca do governo Bolsonaro na véspera da eleição. Será disparada no auge da campanha em que o presidente busca reeleição e já garantiu o aumento de R$ 400 para R$ 600 do piso do Auxílio Brasil.

Numa estratégia política planejada antecipadamente, o governo editou em março a MP (com efeito imediato) que permite o consignado para os beneficiários dos programas sociais e amplia a margem de comprometimento da renda, mas não regulamentou até agora.

Celso Ming – Conflito de prioridades

O Estado de S. Paulo

O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) não é a única autoridade global que enfrenta crises de prioridades.

Nesta quarta-feira, 27, aumentou os juros em mais 0,75 ponto porcentual, para o intervalo de 2,25% a 2,50% ao ano  – o maior patamar desde dezembro de 2018, dando a entender que seu principal objetivo é atacar a inflação. Mas não chega a convencer.

Durante meses os dirigentes do Fed passaram o recado de que a inflação era temporária e que recuaria por si só. Foi quando deram força ao ataque à recessão, risco que vinha sendo alimentado pela covid-19 e pela desarticulação dos fluxos de produção e distribuição.

Lu Aiko Otta - A semente da nova crise fiscal nos Estados

Valor Econômico

Estados argumentam que crescimento da arrecadação de 2021 foi episódico e que corte abrupto do imposto prejudicará a governabilidade

Sejamos sinceros: é bom abastecer o carro com o litro da gasolina na faixa dos R$ 6,00, depois de ter pago perto de R$ 8,00. É, porém, aquela alegria de diabético em ceia de Natal, insustentável e produtora de sérias consequências para a saúde.

No caso, na saúde das finanças públicas. Embora a artilharia tenha se voltado contra os Estados, sobrarão efeitos também nas contas dos municípios. E no pé do próprio governo federal.

Por trás da queda nos preços das bombas, estão duas leis recentemente aprovadas pelo Congresso Nacional que reduziram o peso do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), o principal tributo dos Estados. A primeira determinou que a taxação será calculada não sobre o preço atual do combustível, mas sobre o preço médio dos últimos cinco anos, que é bem menor (Lei Complementar 192).

Malu Gaspar - Bolsonaro perde aliado em tribunal militar

O Globo

Indicado por Dilma Rousseff, novo presidente do STM é considerado mais reservado e ‘neutro’ que o seu antecessor no cargo

A dois meses das eleições, o Superior Tribunal Militar (STM) vai passar por uma troca de comando na próxima semana que deve produzir reflexos para além da caserna. Aliado do presidente Jair Bolsonaro, o general Luís Carlos Gomes Mattos se aposentou e deixou o tribunal na última quarta-feira (27), passando o bastão para outro general, também do Exército: Lúcio Mário de Barros Góes.

Barros Góes é considerado por colegas militares um nome “muito equilibrado”, discreto, de perfil conciliador – e politicamente “neutro”, pelo menos até hoje.

O general foi indicado ao STM em 2012 pela então presidente Dilma Rousseff e assume a chefia do tribunal em 3 de agosto, na próxima quarta-feira. Até lá, um ministro interino vai comandar a Corte.

De saída do STM, Gomes Mattos é um general alinhado aos interesses do Palácio do Planalto. Na semana passada, ele compareceu à controversa reunião em que o presidente Bolsonaro levantou suspeitas infundadas contra as urnas eletrônicas – um sistema eletrônico de votação que está em vigor desde 1996, sem nenhuma acusação de fraude comprovada até hoje.

Míriam Leitão - A Rússia vence a guerra econômica?

O Globo

Europa paga o preço pela dependência do gás russo, mas a Rússia corre risco de virar um país de segunda classe no comércio mundial

Essa é a grande pergunta que tem sido feita a respeito da guerra da Ucrânia. A resposta parece sim, porque afinal a Europa pode entrar em recessão, e alguns países se preparam para racionar energia quando chegar o inverno. Mas não é isso que pensa um grande especialista no tema, o economista Jeffrey Schott, pesquisador sênior do Peterson Institute. Olhando além da conjuntura, ele acha que a Rússia terá problemas duradouros por causa da guerra. Se por um lado os europeus podem entrar em recessão no curto prazo, pelo aumento dos preços da energia, por outro, a economia da Rússia está sendo corroída por dentro e isso terá impacto de longo prazo sobre o futuro do país.

Luiz Carlos Azedo - Simone Tebet completa a fila de largada da campanha

Correio Braziliense

Nenhuma grande alteração na polarização Lula versus Bolsonaro deve ocorrer até o horário eleitoral; até lá, a prioridade dos candidatos é a consolidação dos seus palanques regionais

A confirmação da candidatura de Simone Tebet, ontem, pela convenção nacional do MDB e da coligação que a apoia, integrada pela federação PSDB-Cidadania, completou a fila de largada das eleições deste ano. O cenário mantém como tendência principal a polarização entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 44% das intenções de voto, e o presidente Jair Bolsonaro (PL), com 35%, segundo a pesquisa XP/Ipespe divulgada na segunda-feira. O que pode alterar esse quadro, ou consolidá-lo, será a propaganda eleitoral de rádio e tevê, que começa em 16 de agosto.

O ex-ministro Ciro Gomes (PDT), com 9%, a senadora Simone Tebet (MDB), com 4%, e André Janones (Avante), com 2%, são os candidatos mais bem posicionados para construir uma terceira via, alternativa muito difícil. Nenhum dos três, até agora, definiu o vice. Simone contava com o apoio do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), mas o tucano histórico, mais uma vez, movimenta-se em função da política do Ceará. A senadora Eliziane Gama (Cidadania-AM) pleiteia a vaga. Pablo Marçal (Pros) e Luiz Felipe d’Avila (Novo) têm 1%. Vera Lúcia (PSTU), Sofia Manzano (PCB), Luciano Bivar (União Brasil), Eymael (DC) e Leonardo Péricles (UP) completam a fila de largada, com menos de 1% cada.

Cristovam Buarque* - Salvem o agro

Correio Braziliense

Faltando poucas semanas para as eleições, não se veem propostas dos candidatos para salvar o agronegócio de três ameaças que sofrerá no futuro. A primeira é a ameaça ecológica. O agronegócio não sobreviverá às mudanças climáticas que ele ajuda a provocar. A destruição das florestas fatalmente afetará a produção da agricultura local, por isso a necessidade de regras para conservar as matas é indispensável para o agronegócio. Além disso, os impactos do desflorestamento afetam o clima em escala planetária, provocando consequências desestabilizadoras de todo o sistema agrícola: o agronegócio brasileiro não ficará imune. Muitos produtores, com lógica imediatista, ignorando filhos, netos e o Brasil, não veem a conservação florestal como parte da produção agrícola. No máximo, limitam as preocupações às matas dentro de sua propriedade.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Editoriais / Opiniões

Manifesto da USP é antídoto contra ataques antidemocráticos de Bolsonaro

O Globo

Carta com mais de 100 mil assinaturas defende democracia e lisura do sistema eleitoral brasileiro

Em tempos de ameaças ao regime democrático, é louvável a iniciativa da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), a São Francisco, de divulgar um manifesto em defesa da democracia e do resultado das eleições de outubro. Reunindo mais de 100 mil assinaturas de professores, alunos, empresários, banqueiros, juristas, ex-ministros, trabalhadores, acadêmicos, artistas e representantes de um diversificado arco da sociedade brasileira, a “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros” é uma das mais contundentes e firmes respostas dadas até agora aos arroubos golpistas do presidente Jair Bolsonaro e a seus ataques às urnas eletrônicas, ao sistema eleitoral e à própria democracia. Reação que infelizmente tem faltado a ocupantes de postos-chave da República.

A força do manifesto, que será lido na data simbólica de 11 de agosto, não é medida apenas no número de assinaturas ou no peso das adesões que unem as mais diversas correntes do pensamento nacional. A inspiração é a histórica “Carta aos Brasileiros”, lida pelo jurista Goffredo da Silva Telles Junior também nas arcadas do Largo de São Francisco em 8 de agosto de 1977. Exigia-se então o fim da ditadura militar, a volta do Estado de Direito e da democracia. “Ditadura é o regime que governa para nós, mas sem nós”, disse Goffredo num dos momentos mais marcantes da luta pela volta do regime democrático. A democracia só voltou na década seguinte, mas aquele momento deu início à derrocada da ditadura.