domingo, 31 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Derrotar facções criminosas exige política nacional

O Globo

Mais de um quarto da população brasileira está sujeito às leis do crime, revelou estudo americano

Durante muito tempo se acreditou que o domínio de vastas extensões do território nacional por organizações criminosas fosse um problema restrito às comunidades e regiões conflagradas do Rio de Janeiro e uma ou outra cidade brasileira. Um estudo recente de pesquisadores das universidades de Chicago e do Wisconsin, publicado pela Cambridge University Press, desfaz esse mito. A pesquisa estima que aproximadamente 26% da população brasileira, entre 50,6 milhões e 61,6 milhões, está submetida às regras das facções do crime organizado — algo como uma Itália sob o jugo das máfias. De acordo com a análise, realizada com base em sondagens do Latinobarómetro, o Brasil é disparado o país com a maior presença de facções criminosas no continente (a segunda colocada é a Costa Rica, com 13% da população sujeita ao governo do crime).

História em espiral, por Merval Pereira

O Globo

“Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la”, disse Edmund Burke, filósofo irlandês do século XVIII

“Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la”, disse Edmund Burke, filósofo irlandês do século XVIII. A frase me veio à mente assistindo na Academia Brasileira de Letras (ABL) à palestra do cientista político e professor associado do IESP-UERJ Christian Lynch sobre o livro “À margem da história da República”, coletânea organizada em 1924 por Vicente Licinio Cardoso, que reflete principalmente as ideias que ganharão hegemonia na organização institucional e na direção intelectual do Brasil de 1920 a 1980.

Para ele, elas contaminaram a esfera pública na década de 20, a partir do governo de Arthur Bernardes, e ganharam materialidade durante a Era Vargas, dando origem ao estado e às concepções de sociedade brasileira que vão durar até a década de 1990, quando desaparece o mundo que lhes deu origem, ou seja, o curto século XX, na concepção do historiador Éric Hobsbawn.

Olhar dos quartéis no tempo presente, por Míriam Leitão

O Globo

Entre membros das Forças Armadas, existe a visão de que o julgamento de Bolsonaro e de 20 militares é um sinal de amadurecimento institucional no país

Não se pode dizer que o julgamento que começa esta semana esteja sendo encarado com naturalidade pelas tropas e pelo oficialato, mas o cumprimento das etapas do devido processo legal deu o conforto de as Forças Armadas irem se acostumando com o que está acontecendo. O ex-presidente Jair Bolsonaro estava há muito tempo na política, porém nesse julgamento ocorre algo inédito. Nunca houve quatro oficiais, que chegaram ao topo da hierarquia militar, sentados no banco dos réus para ouvir suas sentenças de juízes civis. Há ainda um tenente-coronel da ativa, que é o delator. Mesmo assim, com tantos militares envolvidos, o que se ouve nas Forças Armadas é que esta não é uma questão militar, mas “político-jurídica”.

Comédias da vida pública, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Em mais de cinco décadas, cronista comentou eleições, escândalos e guerras sem perder a piada

No Brasil, o fundo do poço é apenas uma etapa. O poder em Brasília é apenas uma forma hierarquizada de solidão. Todo brasileiro é igual perante a lei, contanto que não seja pé de chinelo, porque aí é culpado mesmo. As frases são de Luis Fernando Verissimo, mestre de dizer tudo com poucas palavras. Em mais de cinco décadas na imprensa, ele escreveu sobre eleições, privatizações, guerras e escândalos variados. Sem nunca perder a piada.

O cronista debutou em 1969, tempo de arbítrio e repressão. “Um dia escrevi sobre teoria da evolução do Darwin. A crônica foi censurada. Até hoje não sei se o censor era um criacionista anti-Darwin ou se apenas visse na teoria que somos descendentes de macacos uma alusão a gorilas, logo militares”, ironizou, tempos depois.

Testemunhas silenciosas, por Dorrit Harazim

O Globo

Do ponto de vista dos palestinos, oliveiras arrancadas eram a vida, o sustento, o alimento e a essência da cultura local

O que é uma árvore? O que são 3.100 árvores? A pergunta nada tem de aleatório. No caso em questão, a resposta se bifurca em duas variáveis — depende de “para quem” e “para que” serviam as 3.100 oliveiras arrancadas de uma aldeia palestina na Cisjordânia.

A força bruta naquela região já faz parte da paisagem, por repetir-se há décadas. Colonos judeus fincam novos postos em terras que não lhes pertencem, entram em choque com os aldeões, contam com a cumplicidade ou indiferença das Forças de Defesa de Israel e vão aumentando seu latifúndio.

O episódio da quinta-feira, dia 22, deixou um colono invasor ferido, e 12 palestinos foram presos, com todas as moradias da aldeia devassadas pelos militares. Só que um dos palestinos envolvidos no confronto tinha conseguido escapar. Para facilitar sua captura, a solução encontrada foi desbastar o terreno, eliminando 3.100 oliveiras. Simples assim. Não com motosserras, mas por um exército de vorazes escavadeiras. À luz do dia e sem constrangimento. Vida que segue.

A direita e o pós-Bolsonaro, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Trump e Eduardo Bolsonaro criam um clima de ‘barata voa’ na direita bolsonarista

Jair Bolsonaro chega à reta final do julgamento pelo golpe já derrotado, jurídica e politicamente. Eduardo Bolsonaro está prestes a ser expelido do PL, em favor de Tarcísio de Freitas. Carla Zambelli foi mantida em prisão fechada na Itália. O Congresso avança no PL da adultização e adia a PEC da blindagem a parlamentares. De quebra, Javier Milei despenca nas pesquisas e é recebido com pedras e garrafas em evento na Argentina, depois de escândalo de corrupção.

O que isso tudo significa? Que a extrema direita incensada por Donald Trump não está com essa bola toda pelas nossas bandas, o horizonte é de ascensão de uma direita menos belicosa e, no Brasil, de uma disputa em 2026 entre Lula e Tarcísio, ambos empurrados para o centro, um na centro-esquerda, outro na centro-direita.

Defender a democracia, preservar os limites, por vários autores*

O Estado de S. Paulo

Quando mal calibrada, a democracia defensiva pode se transformar no seu oposto: em vez de conter o autoritarismo, pode vir a legitimá-lo sob outra roupagem

A democracia não é ingênua. Desde a experiência europeia do século 20, marcada pela ascensão de regimes totalitários que se valeram das liberdades para impor-se, compreendeu-se que ela precisa de meios para se proteger. O paradoxo é conhecido: a tolerância ilimitada pode levar ao fim da própria tolerância. Disso nasce a teoria da democracia defensiva, que admite medidas excepcionais para neutralizar ameaças reais e iminentes à ordem constitucional.

No Brasil, essa ideia encontra amparo na Constituição de 1988. Esta, no seu artigo 17, condiciona a criação e o funcionamento de partidos à observância da soberania nacional, do regime democrático e dos direitos fundamentais. Não obstante, é certo que a noção de “democracia defensiva” é mais ampla do que a questão partidária: envolve a possibilidade efetiva de as instituições reagirem aos riscos concretos ao funcionamento regular do Estado de Direito.

A particularidade das tarifas ao Brasil, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Não é do interesse do Brasil introduzir novos ingredientes políticos na negociação com EUA

A abertura de análise sobre retaliação contra as tarifas americanas não ajudará o Brasil a superar a crise com os EUA. Todo país tem direito à reciprocidade. Mas a experiência mostra que esse caminho não leva aos objetivos almejados.

No dia 1.º de fevereiro, o governo Trump impôs tarifa de 10% sobre todos os produtos chineses. A resposta da China veio três dias depois, com 15% de tarifas sobre carvão, gás natural liquefeito, óleo e máquinas agrícolas dos EUA.

Megaoperação no mercado é aval para a PEC da segurança pública, por Raul Jungmann*

Correio Braziliense

O crime organizado no Brasil não é um fenômeno isolado, mas um sofisticado ecossistema transnacional. Trata-se de uma estrutura transversal que exige respostas igualmente amplas

A operação de combate ao crime organizado realizada na última quinta-feira (29) foi, provavelmente, a maior da história do país, tanto pelo seu volume quanto pelo seu impacto estratégico na segurança pública. Seu sucesso deve-se principalmente à integração entre a Polícia Federal (PF), o Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal, além de outros órgãos públicos de diversas esferas. Esse trabalho conjunto foi, sem dúvida, o fator decisivo para o êxito da operação.

Ao todo, foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra 350 alvos, incluindo pessoas físicas e jurídicas, em sete estados. O saldo foi expressivo: 41 indivíduos detidos, 255 empresas investigadas, além do sequestro de R$ 1 bilhão, 1.500 veículos, 192 imóveis, 21 fundos de investimento e duas embarcações de luxo. 

A democracia pede passagem: o cidadão como protagonista no palco das políticas públicas, por Vital do Rêgo*

Correio Braziliense

Em meio à crise de confiança nas instituições, o fortalecimento da participação cidadã se torna essencial para a democracia brasileira. O TCU tem se mostrado grande aliado nesse processo de reconexão entre o Estado e a sociedade

Nascida sob os ventos da redemocratização, a Constituição Federal de 1988 — a nossa Constituição Cidadã — não apenas restabeleceu direitos e garantias fundamentais, como também colocou o cidadão no centro da vida política nacional. Mais do que destinatário das políticas públicas, o brasileiro passou a ser reconhecido como agente ativo, com o direito e o dever de participar, opinar, fiscalizar e transformar.

Quase quatro décadas depois, vivemos um período delicado, no Brasil e no mundo, em que a credibilidade das instituições públicas vem sofrendo um processo de erosão, marcado por desconfiança, desinformação, polarização e consequente afastamento entre governantes e governados.

Decisões e Estruturas – Celso Furtado na fronteira do conhecimento (como sempre), por Alfredo Maciel da Silveira

Nota introdutória

Este artigo reproduz, com pequenas adaptações, parte do capítulo 3 de meu artigo “Planejamento Indicativo – elo perdido do desenvolvimento”, publicado na revista acadêmica “Cadernos do Desenvolvimento” – v. 17, n 32, CICEF 2022.

Assisto com serenidade “as dores do parto”, ou a cena da criança “aprendendo a andar”, como eternizou Elis Regina em “Upa Neguinho”, aqui pensando o “rito de passagem” ora imposto ao povo brasileiro. Eu descobrira tardiamente a confluência de minha pesquisa metodológica dos anos 90, sobre planejamento em economias de mercado, com a pesquisa teórica de Furtado sobre a teoria do desenvolvimento econômico.

Restou-me o remorso por não ter ao menos tentado a tempo lhe dar conhecimento de meu trabalho (SILVEIRA, A. M. As Administrações Públicas no Planejamento Moderno: Modelização da Estrutura, Conflitos e Estratégias. 1993. 205p. Tese (Doutorado em Economia). IE-UFRJ, Rio de Janeiro, 1993).

Um Congresso contra o Judiciário, por Juliana Diniz

O Povo (CE)

Ignorando esse alicerce básico da ordem constitucional, os senadores e deputados desejam neutralizar o controle judicial, esgotando as competências do Supremo

Nossos parlamentares parecem ter uma ideia fixa: evitar, a qualquer custo, a obrigação de prestar contas de seus atos. Mais do que isso: os legisladores têm um apetite crescente por verbas públicas e uma insatisfação imensa com a separação de poderes. Afinal, só um sistema político com o Poder Judiciário independente pode realizar a técnica dos freios e contrapesos, quando um poder atua na observação e controle do outro. Querem o dinheiro, mas preferem que seja gasto sem transparência e sem avaliação de qualidade do gasto.

Julgamento de Bolsonaro é recado para candidatos a ditador, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Democracia precisa provar que tem mira melhor que a do fascismo

No próximo dia 2 começa o julgamento de Jair Bolsonaro. Ele é culpado.

Se tivesse sido bem-sucedido, seus adversários não estariam em uma mansão paga pelo PL esperando julgamento: já teriam perecido nos porões sob tortura. Suas tornozeleiras seriam as cordas do pau-de-arara.

Mas o julgamento não é só sobre a democracia brasileira, muito menos sobre as manobras dos pré-candidatos a presidente em 2026.

Desde que Trump declarou guerra ao Brasil por causa do julgamento, o mundo notou que somos um campo de batalha importante na luta internacional pela democracia.

Um convite à bandidagem, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Fora do alcance da Justiça, o Parlamento serviria de esconderijo aos infiltrados do crime organizado

O presidente da Câmara traduziu com precisão o espírito da coisa, quando disse que a chamada PEC da blindagem revelava "o espírito da Casa". Espírito do corpo em estado bruto é do que falou Hugo Motta (Republicanos-PB), num ato de franqueza.

Já numa demonstração de fraqueza deixou que a confusão tomasse conta da reunião de líderes que engendrava a votação à sorrelfa da noite adentro na quarta-feira (27), aceitando um texto apócrifo que propunha ampliar ainda mais a proteção de deputados e senadores de ações na Justiça.

Brasil não ganha nada com retaliação contra os Estados Unidos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Fora a China, países mais poderosos recuaram e tentam se reorganizar para lidar com Trump

Apenas a China reagiu à agressão comercial de Donald Trump. O Canadá ensaiou contra-ataque, mas recua. O restante do mundo por ora aceitou armistício em condição subalterna.

O Brasil ensaia retaliação. O governo toma providências para que possa contra-atacar, com base na Lei de Reciprocidade, que, por falar nisso, tramitou porque o agro queria meios para reagir a restrições comerciais da União Europeia motivadas por critérios ambientais.

O que o Brasil vai ganhar com isso? Nada, com risco de perder. O governo diz que tal reação pode ser meio de induzir os americanos a conversar. Não explica de onde tirou tal ideia. A desinformação a respeito do que quer Trump é total, como diz gente do governo brasileiro, em conversa reservada.

Um sopro de voz à esquerda, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

O desvario trumpista é momento para uma rearticulação de mercados e de objetivos

Num arroubo cândido, Lula se disse inclinado a ser "mais esquerdista". Antes, um rumor desse tinha bastado para que o temor ganhasse vozes públicas. Tudo ao vento, tão flutuante é o sentido de esquerda. Leve e solta, a palavra é como liberdade sem o vetor da pretensa libertação. "Liberdade de expressão" passa por direito de uso de miséria moral contra a dignidade alheia, senão de cogitação golpista para o assassinato de autoridades. Já esquerda, como flutuação de ânimo, é ingresso no imaginário da política

Os sonâmbulos, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro destrincha detalhes da eclosão da Primeira Guerra Mundial; há paralelos com o mundo de hoje

"Aqueles que não lembram o passado estão condenados a repeti-lo", escreveu George Santayana. Tenho sérias dúvidas em relação à validade universal da máxima. No mínimo, "condenados" é um termo forte demais.

Acompanho, porém, o filósofo na ideia mais geral de que conhecer o passado é uma coisa positiva. Mesmo que não funcione como vacina contra erros pretéritos, o conhecimento da história nos ajuda a entender o presente, o que pode ou não afetar o futuro.

Luis Fernando Verissimo foi o artista que retratou o Brasil, por Frei Betto

Folha de S. Paulo

Escutava mais do que falava, e, quando se pronunciava, vinha a frase curta, seca, tão exata que parecia ensaiada por séculos

Conheci Luis Fernando Verissimo na casa de seus pais, Mafalda e Érico Veríssimo, no arborizado bairro Petrópolis, em Porto Alegre, em 1974, ao sair da prisão. Fui agradecer a Érico as várias caixas repletas de livros enviadas por ele, a meu pedido, à biblioteca da penitenciária de Presidente Venceslau, em São Paulo, onde a ditadura me isolou, entre presos comuns, por quase dois anos.

Interessado em reler "O Tempo e o Vento", que se encontrava em poder de Pedro, vizinho à minha cela, passei semanas insistindo que terminasse de lê-lo. Um dia me confessou que protelava o repasse do livro porque havia gostado tanto que comprara grossos cadernos para copiar à mão cada volume da trilogia. Fiquei tão impactado que narrei o fato em carta ao Érico. Semanas depois ele fez chegar à penitenciária caixas contendo livros seus e de outros autores.

Luis Fernando Verissimo falava muito pouco, mas fazia o Brasil inteiro rir, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Cronista criou estilo único inspirado nos mestres americanos e conquistou com a sua observação elegante do absurdo cotidiano

Luis Fernando Verissimo surgiu no Caderno B do Jornal do Brasil ao mesmo tempo em que, nos Estados Unidos, Woody Allen, já famoso no cinema, se revelava como humorista pela New Yorker. O ano era 1974 e, para alguns, a identidade de estilos era óbvia.

Assim como Woody, Verissimo se punha na posição do observador que via o ridículo ou o absurdo com grande naturalidade. Também como Woody, ele não buscava a gargalhada, mas o riso silencioso. E seus personagens, assim como os de Woody, eram homens e mulheres nascidos não para, mas um contra o outro.

Crônica | Leia três Crônicas de Luis Fernando Verissimo (1936-2025)

Épico

O Globo, 26/09/2013

O futebol de calçada era com narração, e o próprio jogador fornecia a narração. Jogava e descrevia sua jogada ao mesmo tempo, e nunca deixava de se autoentusiasmar. “Sensacional, senhores ouvintes!” (Naquele tempo os locutores tratavam o público de “senhores ouvintes”).

“Sensacional! Mata no peito, põe no chão, faz que vai mas não vai, passa por um, por dois... Fáu! Foi fáu do béque! O juiz não deu! O juiz está comprado, senhores ouvintes!”

Fáu era “foul” e béque era “back”, na língua daquela terra estranha, o passado. E o juiz, claro, era imaginário. Tudo era imaginário no futebol de calçada, a começar pela nossa genialidade. A bola era de borracha, quando não era qualquer coisa remotamente redonda. O bola número cinco oficial de couro ganha no Natal não aparecia na calçada, tá doido? Estragar uma bola de futebol novinha jogando futebol?

Mas éramos gênios na nossa própria narração.

“Lá vai ele de novo. Cabeça erguida! Passa a bola e corre para receber de volta... Que lance! O passe não vem! Não lhe devolvem a bola! Assim não dá, senhores ouvintes ... Só ele joga nesse time!”

A narração dava um toque épico ao futebol. Lembro que na primeira vez em que fui a um campo, acostumado a só ouvir futebol pelo rádio, senti falta de alguma coisa que não sabia o que era. Tudo era maravilhoso, o público, o cheiro de grama, os ídolos que eu conhecia de fotografias desbotadas no jornal ali, em cores vivas... Mas faltava alguma coisa. Faltava uma voz me dizendo que o que eu estava vendo era mais do que estava vendo. Faltava a narrativa heróica. Faltava o Homero.

Na calçada éramos os nossos próprios heróis e os nossos próprios Homeros.

“Atenção. Ele olha para o gol. Vai chutar. Lá vai a bomba. O goleiro treme. Ele chuta! A bola toma efeito. Entra pela janela. E lá vem a mãe, senhores ouvintes! A mãe invade o campo. Ele tenta se esquivar. Dá um drible espetacular na mãe. Dois. A mãe pega ele pela orelha. Pela orelha! E o juiz não vê isso!”

Mesmo se nem tudo merecesse o toque épico.

Poesia | Metanáutica, de Geir Campos

 

Música | Célia - Ternura Antiga (Dolores Duran