sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Pacote da retaliação, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Assustados com investigações, deputados articulam retrocesso em causa própria

A Câmara prepara um pacote de medidas para blindar parlamentares de investigações. O objetivo é mudar a Constituição para deixar deputados e senadores fora do alcance da Justiça. Se possível, bem longe do Supremo Tribunal Federal.

A votação estava prevista para a noite de quarta, mas foi adiada por risco de derrota. Se depender de Hugo Motta e de seu padrinho, Arthur Lira, voltará à pauta na próxima semana —ou quando os ventos de Brasília soprarem a favor. A articulação não é nova, mas ganhou força com o avanço dos inquéritos que apuram desvios em emendas parlamentares.

O pacote anti-STF une a oposição bolsonarista e o Centrão. O cientista político Cláudio Couto definiu essa tabelinha como uma aliança de extremistas com corruptos. A iniciativa também conta com simpatizantes na esquerda, embora o Planalto e os líderes de siglas como PT e PSOL se digam empenhados em barrá-la.

A principal medida no forno é a chamada PEC da Blindagem, que exige aprovação do Congresso para a abertura de processos contra parlamentares. O pacote também extingue o foro especial e limita as hipóteses em que políticos podem ser presos em flagrante.

O Supremo é o principal alvo da ofensiva, mas não o único. Se a boiada passar, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal também ficarão esvaziadas.

Defensores do pacote argumentam que o texto original da Constituição exigia autorização das casas legislativas para processar deputados e senadores. É verdade, mas em 1988 o país havia acabado de se livrar de uma ditadura que fechou o Congresso e cassou mandatos por delitos de opinião.

Com o tempo, ficou claro que a imunidade parlamentar havia se transformado numa garantia de impunidade. Sob pressão da sociedade, a regra foi alterada em 2001. Agora suas excelências querem emplacar um retrocesso de mais de duas décadas em causa própria.

Na quarta, o presidente da Câmara afirmou que o pacote “trará mais independência” e “atende ao espírito da Casa”. Sob suspeita de empregar fantasmas no gabinete, Motta disse que a Justiça estaria “transgredindo limites”, mas negou que as medidas sejam “uma retaliação a quem quer que seja”.

Imagine se fossem.

 

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