quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Por O Globo

Rigor é essencial ao regular uso de IA nas eleições

TSE precisa aumentar vigilância sobre tecnologias que disseminam mentiras de forma cada vez mais verossímil

Os avanços e o barateamento das ferramentas de inteligência artificial (IA) despertam a cada dia mais preocupação. São impressionantes os vídeos, imagens e áudio sintéticos. Eles se tornaram perfeitamente verossímeis e estão ao alcance de qualquer um munido de ferramentas digitais simples. De tão bem feitos, fica difícil determinar se são mensagens fraudulentas ou fidedignas. É enorme o potencial para abuso, desinformação e crimes eleitorais, com dano evidente à democracia. À medida que a eleição se aproxima, a situação só tende a piorar. Por isso o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão regulador das eleições, precisa aumentar a vigilância e o rigor.

Ninguém fala para o eleitor não polarizado, por Vera Magalhães

O Globo

Derrapadas do bolsonarismo e de Lula têm tudo para afugentar o contingente decisivo de eleitores ainda em disputa

Falta menos de um ano para a eleição presidencial, e um livro lançado nesta terça-feira mostra que existem mais matizes no eleitorado brasileiro do que o termo polarização permite enxergar — e nenhum dos dois lados hegemônicos da política brasileira tem sido eficaz em falar com os grupos ainda não fidelizados. Pelo contrário: as recentes derrapadas de Lula e do bolsonarismo, a maioria delas provocada por barbeiragens próprias, têm tudo para afugentar o decisivo contingente de eleitores ainda em disputa.

Em “Brasil no espelho”, livro do cientista político Felipe Nunes que reúne as conclusões da maior pesquisa já feita pela Quaest para entender as ideias, os valores e as crenças dos brasileiros, fica mais nítida a divisão social do país — e, com isso, também a inclinação política de cada um dos grupos mais expressivos. A pesquisa classifica os brasileiros em conservadores cristãos (27% do total), dependentes do Estado (23%), ligados ao agro (13%), progressistas (11%), militantes de esquerda (7%), empresários (6%), liberais sociais (5%), empreendedores individuais (5%) e a extrema direita (3%).

Alcolumbre avacalha um ritual, por Elio Gaspari

O Globo

Uma crise sem um fiapo de interesse público

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, criou uma crise com o Planalto sem que haja nela um só fiapo de interesse público. Tudo por causa da escolha, por Lula, do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a cadeira vaga no Supremo Tribunal Federal. Alcolumbre queria o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco.

Aos fatos:

A prerrogativa constitucional de nomear ministros do STF é do presidente da República, e só dele. A preferência de Alcolumbre, como o pato ao tucupi, é uma escolha dele. A preferência de Lula por Messias é uma prerrogativa.

Faça-se de conta que Alcolumbre se aborreceu por não ter sido avisado. Essa manha é pueril.

A guerra da sabatina, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Crises fabricadas pelo senador do Amapá independem de currículo dos indicados ao STF

Em 2021, Davi Alcolumbre retardou por longos quatro meses a sabatina de André Mendonça, indicado ao Supremo. Queria forçar o governo Bolsonaro a devolver o controle sobre a distribuição das emendas ao Orçamento.

Em 2025, Davi Alcolumbre marcou uma sabatina a jato para Jorge Messias, indicado ao Supremo. Quer forçar o governo Lula a negociar, mas jura não estar em busca em nenhum “ajuste fisiológico, com cargos e emendas”.

O presidente do Senado mudou a tática, mas joga o mesmo jogo. Usa uma atribuição da Casa, a de avaliar os candidatos à Suprema Corte, para barganhar interesses alheios aos currículos dos indicados.

A crise atual começou a ser fabricada em outubro, quando o ministro Luís Roberto Barroso antecipou sua aposentadoria. Alcolumbre tentou emplacar o aliado Rodrigo Pacheco, mas não foi atendido.

Ciência e soberania, Por Roberto Medronho

O Globo

O domínio de tecnologias críticas é decisivo para reduzir a dependência externa em setores estratégicos

O conceito de soberania evolui historicamente. Frequentemente, está associado ao controle do território, à capacidade militar e à autodeterminação política. Entretanto, no século XXI, a soberania não é garantida apenas com fronteiras bem protegidas, nem com a afirmação da personalidade independente do Estado, de sua autoridade plena e governo próprio. Em tempos de interdependência global e rápidas transformações científicas, a verdadeira soberania de uma nação depende, cada vez mais, da educação, da ciência, da tecnologia e da inovação.

O domínio de tecnologias críticas é decisivo para reduzir a dependência externa em setores estratégicos como saúde, energia, defesa e agricultura. Durante a pandemia de Covid-19, o mundo presenciou episódios que demonstraram de maneira cabal essa vulnerabilidade.

‘Vidas Secas’, o elo perdido entre o craque Reinaldo e o ator Wagner Moura, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O craque não participava de organizações de esquerda, era apenas um dos maiores atacantes de sua geração e comemorava seus gols com o punho cerrado

A decisão da Comissão de Anistia de reconhecer o ex-jogador José Reinaldo de Lima, ídolo do Atlético Mineiro e da Seleção Brasileira, como vítima da perseguição política da ditadura militar ilumina uma faceta menos lembrada, porém decisiva, da repressão brasileira: a violência cotidiana, difusa, que atingia não apenas militantes clandestinos, mas qualquer cidadão que ousasse romper o enquadramento simbólico e disciplinador imposto pelo regime.

Reinaldo não conspirava, não participava de organizações de esquerda. Era apenas um dos maiores atacantes de sua geração, um jovem negro, carismático, que comemorava seus gols com o punho cerrado, marca dos movimentos de direitos civis norte-americanos, que simbolizava autoestima, dignidade e autonomia. Para os generais e para a cúpula da antiga Confederação Brasileira de Desportos, aquele gesto era uma mensagem perigosa para os torcedores e demais jogadores.

1% mais rico concentra 37,3% da riqueza declarada no IR, aponta relatório da Fazenda

Por Bruna Lessa / O Globo

Levantamento integra informações da Receita Federal e da PNADC para medir a desigualdade de renda e patrimônio no país

A parcela equivalente ao 1% mais rico da população deteve 37,3% da riqueza declarada à Receita Federal em 2023, apontou relatório divulgado nesta segunda-feira pela Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda. O estudo consolida informações do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) e combina esses dados com pesquisas domiciliares para medir a distribuição de renda e patrimônio no país.

De acordo com o relatório, quando se observa somente a riqueza declarada ao IRPF, a concentração é ainda mais acentuada do que na renda. Entre os 10% mais ricos, a fatia chega a 64,2% do total do patrimônio informado pelos contribuintes. Já os 5% mais ricos concentram 54,7%.

Esses números, segundo a SPE, ainda podem subestimar a desigualdade real. Isso porque o estudo classifica os grupos a partir da renda declarada — e não do patrimônio acumulado —, o que pode deslocar parte dos contribuintes com grande volume de bens, mas baixa renda tributável, para faixas inferiores da distribuição.

Objetivos e consequências da estratégia de Michelle, por Fernando Exman

Valor Econômico

Lula é o principal beneficiário do racha na família Bolsonaro e, consequentemente, dentro no PL

Michelle Bolsonaro movimenta-se para obter, como enumera um arguto observador da política nacional, o segundo de dois requisitos para quem pretende concorrer à Presidência da República ou pelo menos interferir nas discussões sobre a vaga de vice.

O primeiro requisito, uma base eleitoral robusta, em tese ela já possui. Segundo pesquisas de opinião, a ex-primeira-dama apresenta uma potencial massa de votos maior do que a dos enteados. Personifica, portanto, a maior probabilidade de a família Bolsonaro estar na chapa vitoriosa nas próximas eleições presidenciais.

Ary Oswaldo, Itamar e a festa errada, por Lu Aiko Otta

Valor Econômico

O risco de o ano legislativo acabar sem votação do projeto que detalha a parte administrativa da reforma tributária está no radar do governo

Homem de hábitos refinados, Ary Oswaldo Mattos Filho soltava um raro e envergonhado palavrão, dos brandos, quando falava sobre o destino da reforma tributária que elaborou, a primeira pós-Constituição de 1988. O trabalho estava na reta final quando o então presidente da República, Fernando Collor, renunciou para escapar do impeachment. Era dezembro de 1992. Como se sabe, a reforma não andou.

Quatro anos atrás, quando a reforma tributária dava sinais de que poderia finalmente decolar, a coluna quis saber a opinião de Mattos Filho. Ele estava pessimista quanto ao andamento daquela proposta, como de outras reformas econômicas.

“É o presidente errado, com a maioria errada no Congresso, e com uma percepção errada de que só mexendo do lado da receita a coisa anda”, afirmou.

O retrocesso patrocinado por Motta, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Ministério Público pede socorro ao Senado: Câmara aprovou medida que ajuda os bandidos

Não adianta dizer que se trata de narrativa. Ou de que tudo é invenção do Planalto. Hugo Motta e os açodados deputados que votaram o projeto de lei Antifacção e buscam impor o mesmo ritmo frenético aos senadores deveriam ler o artigo do procuradorgeral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, e dos promotores Lincoln Gakiya e Aluisio Antonio Maciel Neto, do Ministério Público de São Paulo, publicado no Blog do Fausto Macedo.

Primeiro porque, entre os autores, estão alguns dos responsáveis pelas mais importantes ações contra o crime organizado no País. Não é à toa que Gakiya tem a cabeça a prêmio pelo PCC. Eles elogiam os avanços do projeto. Listam a ação civil autônoma de extinção de domínio, a criação do crime de domínio social estruturado, a repartição entre União e Estados dos bens apreendidos, o endurecimento da progressão de regime carcerário e os instrumentos de cooperação e inteligência. Só então abordam o retrocesso patrocinado por Motta.

Não é o Estado que estabelece a verdade, por Nicolau da Rocha Cavalcanti

O Estado de S. Paulo

Criticar o Poder Judiciário é um direito, mesmo que as críticas sejam duras ou injustas. Não cabe criminalizar a opinião

Ficamos todos um pouco obnubilados – incrédulos, há de se reconhecer – com a atividade de metalurgia artesanal de Jair Bolsonaro, curioso com sua tornozeleira eletrônica. Tenha qual sido o real motivo, o uso do ferro de solda sobre o dispositivo eletrônico conferiu legitimidade à prisão preventiva decretada horas depois por Alexandre de Moraes.

Mas a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) não falava apenas em violação da tornozeleira eletrônica como fundamento para a prisão. Dizia: “As manifestações do filho do réu no referido vídeo revelam o caráter beligerante em relação ao Poder Judiciário, notadamente o Supremo Tribunal Federal, em reiteração da narrativa falsa no sentido de que a condenação do réu Jair Bolsonaro seria consequência de uma ‘perseguição’ e de uma ‘ditadura’ desta Suprema Corte”.

Desaforo fiscal, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Se todos os gastos previstos saírem do papel, o ajuste exigido a partir de 2027 terá de ser muito maior

O cenário para o risco fiscal do Brasil em 2026, ano da eleição presidencial, é o seguinte: os investidores vão seguir aceitando desaforos nas contas públicas, com o governo jogando “lixo” para debaixo do tapete, ou seja, manobrando para colocar gastos extras para fora dos limites fixados no arcabouço fiscal, enquanto sonham com um robusto ajuste a partir de 2027.

É o que se deduz dos juros reais de 7,3% que o governo está pagando pelos títulos públicos com prazo de dez anos. Nessa taxa, já está precificada pelos investidores muita notícia ruim na área fiscal, com a expectativa de aceleração na trajetória da dívida pública. O problema é que há um risco concreto para surpresas negativas, o que poderá fazer com que os juros reais de dez anos retornem, em 2026, aos patamares exorbitantes do início deste ano, quando a taxa desses papéis chegou perto de 8%.

Pouso suave do PIB vai pesar menos, com inflação contida e emprego ainda forte, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

IBGE divulga nesta quinta número de crescimento da economia no terceiro trimestre

Afora aberrações, resultado não deve alterar estimativas de alta de uns 2,1% no ano

Até agora, não há indício de que a economia brasileira não vá crescer uns 2,1% neste ano. No ano passado, o PIB cresceu 3,4%, o melhor desempenho desde 2011 (descontada a distorção causada pela variação excessiva da epidemia). Depois da Grande Recessão (2014-2016) e antes da epidemia, de 2017 a 2019, a taxa média de crescimento havia sido a miséria de 1,4% ao ano. Vai ser pouso suave.

Nesta quinta-feira (4), o IBGE divulga o PIB no terceiro trimestre e eventuais revisões. Pelo que se chuta de modo mais ou menos informado, o número trimestral não deve alterar a previsão para o ano.

O bolsonarismo sobrevive sem Bolsonaro? Por Wilson Gomes

Folha de S. Paulo

A prisão abre disputa, mas não destrói a identidade construída em uma década

Mesmo tendo se organizado em torno de um indivíduo, ele não é só um personalismo

E agora —com Bolsonaro fraco, preso e sem um herdeiro ungido—, o que será do bolsonarismo? A identidade política que moldou a direita na última década se dissolve? Fragmenta-se entre os filhos que tentam manter a marca como patrimônio familiar e os políticos que disputam o espólio eleitoral?

A dúvida só faz sentido porque nem todos estão convencidos de que o bolsonarismo exista como fenômeno substantivo ou que resista com o seu líder nessa condição.

Essas leituras minimalistas ignoram o que sabemos sobre identidades políticas. A psicologia social —especialmente a Teoria da Identidade Social— mostra que adesões duráveis não se reduzem ao carisma de um líder nem se desfazem automaticamente quando ele cai ou morre.

Uma identidade pode se organizar de muitas maneiras.

Pastores no Senado, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Apoiadores de Messias querem levar clérigos ao Congresso para pressionar por aprovação

Lógica religiosa, que opera com absolutos morais, não combina bem com lógica da política, que privilegia negociações

Deu na Folha que aliados de Jorge Messias pretendem abarrotar o Senado de pastores para pressionar os parlamentares a aprovarem seu nome para o STF.

Messias é evangélico e seus apoiadores imaginam que a assembleia de clérigos poderá amainar a resistência de senadores a seu nome, que é muito mais política do que religiosa, curricular ou pessoal.

Misturar religião com política é uma combinação complicada. O ideal, na democracia, seria separar inteiramente as duas esferas. Mas é impossível fazer isso pela simples razão de que ambas as atividades são exercidas por humanos. E todo humano tem uma identidade religiosa. Mesmo eu, ateu irredutível e desprovido de qualquer traço identificável de espiritualidade, ocupo um lugar no espectro da religiosidade, que vai da descrença absoluta à devoção compulsiva.

Morada de transgressões, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

O passivo de infrações à lei e ao regimento se acumula sem que o presidente da Câmara se oponha

Hugo Motta não é permissivo sozinho: tem a colaboração da Mesa Diretora e do colégio de líderes

Como chefe da Câmara, o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) tem se mostrado um compassivo presidente de agremiação corporativa conivente com ilícitos —legais e regimentais— em defesa de seus filiados.

Do mais grave ao mais imperdoável na escala de inadmissível tolerância, temos os casos de descumprimento de ordem judicial até a impunidade de promotores de motim, passando pela convivência pacífica com deputado em exercício no exterior.

Poesia | De que serve a bondade, Bertold Brecht

 

Música | Roberta Sá & Moreno Veloso - Um passo à frente