*Karl Marx (1818-1883), Euvres, III, Philosophie, p. 383, citado
em “A democracia contra o Estado”, p.54. Editora UFMG, 1998.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
Opinião do dia - Karl Marx* - Democracia
O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões
COP30 deixa sabor de frustração
Por O Globo
Conferências multilaterais não têm se mostrado à altura do desafio de conter a emergência climática
Nada mais simbólico que o incêndio na Zona
Azul, área oficial da COP30, em Belém. O fogo, felizmente controlado, foi a
última evidência da desorganização que prejudicou a conferência do clima desde
o início — sentida nos preços extorsivos de diárias de hotel e alimentação, na
qualidade sofrível do ar-condicionado (movido a diesel) ou na reprimenda
oficial da ONU aos
organizadores. Tudo isso poderia ser encarado como mero transtorno se a COP30
tivesse obtido sucesso em sua missão principal: gerar instrumentos capazes de
conter outro fogo, o aquecimento da atmosfera que desarranja o clima na Terra.
Mas também nisso ela deixou a desejar.
Era, é verdade, possível prever resultados modestos. A Cúpula dos Líderes que antecedeu a COP30 atraiu pouco mais de 30 chefes de governo e Estado, menos da metade do registrado no ano passado e um terço dos presentes na Rio-92. Entre os ausentes, Donald Trump, presidente do país que mais poluiu desde a Revolução Industrial, e Xi Jinping, líder do maior emissor de gases. Sem aval dos dois, qualquer avanço já seria relativo. Também não compareceram líderes de países como Austrália, Indonésia, Turquia, Argentina ou Japão. A COP30 passou a ser encarada como encontro de “implementação” de decisões tomadas. E, mesmo com metas pouco ambiciosas, as conquistas ficaram aquém do necessário.
A vida nas favelas que o Brasil insiste em não ver, por Preto Zezé
O Globo
O país gosta de apontar o criminoso como
inimigo, mas ignora que ele é produto das próprias omissões
Desde “Falcão — meninos do tráfico” e das
imagens da invasão do Alemão, muita coisa mudou e, ao mesmo tempo, nada mudou.
A pesquisa Raio-X da Vida Real, feita pela Data Favela com quase 4 mil pessoas
envolvidas no crime, revela dinâmicas que o país evita encarar. Não é só
tráfico, é um Brasil que produz, abandona e depois pune seus próprios filhos.
Metade dos entrevistados tem até 26 anos. Na
favela, a juventude é curta porque a oportunidade também é. Para muitos, o
tráfico vira primeiro emprego e primeiro reconhecimento num país onde o Estado
chega tarde com a escola e cedo com a viatura. Estamos formando uma geração que
envelhecerá sem Previdência, renda ou proteção — uma bomba-relógio que nem
entrou no Orçamento.
O crime se nacionalizou, mas a base continua
sendo o cria: o jovem que conhece cada viela e morre primeiro. Nada disso é
novidade. Está nas músicas de MV Bill — “Soldado do morro”, “Falcão, soldado
morto”. O país apenas não quis ouvir.
Cai também o mito da família desestruturada. A pesquisa mostra que 52% têm filhos e metade vive em casal. São famílias reais, com afeto e rotina, vivendo sem direito. Falta proteção, não laço.
Caso Master deixa lições, por Carlos Alberto Sardenberg
O Globo
Empresas e instituições financeiras públicas
são geridas conforme múltiplos interesses políticos
Está no documento da Polícia Federal que levou à liquidação do Banco Master: as letras financeiras (LFs) dessa instituição “não eram atrativas a investidores privados”. O Master oferecia aos compradores dessas letras uma rentabilidade de encher os olhos: 130% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário). E qualquer pessoa mais ou menos informada sobre o mercado financeiro sabe como é difícil bater o CDI. Por que então esse tipo de papel era rejeitado por investidores privados? Três motivos: o prazo excessivo, dez anos; a falta de credibilidade do emissor; e a falta de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Master é um banco político, por Demétrio Magnoli
O Globo
O Brasil é um país de portas giratórias. O
banqueiro patrocinava, oficial ou informalmente, eventos dos grupos de lobby
Tudo o que ronda o escândalo do Banco Master
é estranho, do ponto de vista dos analistas econômicos. Nada no caso, porém,
provoca genuína estranheza entre os analistas políticos.
A operação de venda do Master ao Banco de
Brasília (BRB) foi anunciada em março, mas apenas em setembro barrada
unanimemente pelo BC. Há tempos, o radar detectava objetos estranhos no céu. O
banco de Daniel Vorcaro cresceu, ao longo dos últimos anos, oferecendo CDBs com
taxas de juros muito superiores às dos concorrentes.
— O Master vinha apresentando problemas desde
o ano passado, pois tinha ativos incertos e passivos certos. O BC realmente
dormiu no ponto e só acordou agora — registra o ex-diretor do BC Carlos Eduardo
de Freitas.
Por que a demora, diante da pilha de evidências do esquema de alavancagem radical?
Uma semana para provar que assunto nunca falta, por Bruno Carazza
Valor Econômico
Banco Master, COP30, Messias no STF, reação
de Alcolumbre, recuo de Trump no tarifaço e prisão de Bolsonaro: de tédio a
gente não morre
Há sete anos recebi o convite improvável de
Maria Cristina Fernandes para ser colunista do Valor. Depois do impensado
impulso de aceitar (“a hora do ‘sim’ é o descuido do ‘não’”, já cantava
Vinicius de Moraes), dois pensamentos passaram a me aterrorizar.
Acima de tudo estava a responsabilidade de escrever num espaço que, desde o lançamento do jornal, havia sido ocupado por grandes analistas políticos como Fernando Limongi, Marcos Nobre, Renato Janine Ribeiro, Luiz Werneck Vianna, Fábio Wanderley Reis e Fernando Abrucio. Como se isso não bastasse, ainda havia a pressão da periodicidade: será que eu teria repertório para um texto semanal, numa publicação com um público tão qualificado e exigente?
Cenário de divisão da direita sem Bolsonaro é provável
Valor Econômico, por César Felício
Preso e sem perspectivas de socorro, ex-presidente tem pouco estímulo para transferir eleitorado a liderança de fora da família
A antecipação da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro abre portas para um cenário de consolidação da divisão da direita na eleição presidencial de 2026. Bolsonaro mantém como ativo a força eleitoral, hoje com viés de baixa, não de alta. Encarcerado, sem perspectivas de construção de uma saída política no Congresso para anular sua condenação, mesmo com pressão dos Estados Unidos, não há estímulos para a transferência do legado.
Especialistas em pesquisas eleitorais e em
marketing político já calculam o que é reserva de mercado do bolsonarismo puro
dentro do eleitorado antipetista, avaliado em cerca de 50% do total nacional.
Há unanimidade entre eles de que o ex-presidente representa a faixa majoritária
dos que se dizem de direita, mas não tem mais as exclusividade deste
contingente, o que tende a torná-lo mais radical.
“Pesquisa nossa feita depois da condenação judicial mostra que 35% do eleitorado brasileiro se classifica como sendo de direita e 63% nominam Bolsonaro como principal liderança. Isso no eleitorado total indica 22% de bolsonaristas puros”, comenta o cientista político Antonio Lavareda, diretor do Ipespe, que avalia ser esse o potencial de transferência.
Aliados de Bolsonaro veem crescer favoritismo de Tarcísio, por Andrea Jubé e Joelmir Tavares
Valor Econômico
Governador de São Paulo é visto como nome que
une centro, direita e bolsonaristas
Aliados do núcleo principal de Jair Bolsonaro avaliam que o episódio da prisão preventiva, que revogou a domiciliar e remanejou o ex-presidente para uma cela na sede da Polícia Federal, dificulta as comunicações, mas não interdita as discussões sobre quem será o herdeiro político do líder da oposição. A percepção é de que o fato fortalece o favoritismo do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ao mesmo tempo em que esvazia a possível candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Um desses aliados disse ao Valor que Tarcísio continua sendo o nome que une o centro, a direita e o bolsonarismo, especialmente se for ungido pelo ex-mandatário como o seu candidato à Presidência. Na visão desta fonte, a retirada de Bolsonaro do regime domiciliar deverá alertá-lo para a importância de ele escolher o nome mais competitivo de seu campo político para ganhar o seu apoio e enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na eleição de 2026.
Só a busca por blindagem une o bolsonarismo e o Centrão, por Maria Cristina Fernandes
Valor Econômico
Grupo político mais renhido do entorno de
Bolsonaro parece ter visto uma senha para a resistência
A perspectiva de que viesse a perder a possibilidade de uma prisão domiciliar, pelo indício de fuga, é suficiente para o ex-presidente ter mudado a versão sobre sua motivação para a violação da tornozeleira de “curiosidade” para “alucinação”. Se a mudança de versão não lhe devolverá, tão cedo, a chance de ficar preso em casa, tampouco será suficiente para arrefecer a resistência do bolsonarismo a uma candidatura única do campo da direita.
Por mais desmoralizante que a história da tornozeleira possa parecer, e o silêncio dos advogados sobre a violação é reveladora, a “paranoia” da qual Jair Bolsonaro se diz possuído reforça a vitimização como narrativa. Um dos poucos a se pronunciar sobre o tema, a partir do depoimento do ex-presidente na audiência de custódia, foi o influenciador Paulo Figueiredo.
Antecipação de prisão pode forjar aliança do Centrão com bolsonarismo, por César Felício
Valor Econômico
A possibilidade de um alinhamento pleno entre
os dois blocos levou deputados de esquerda a baixarem a euforia com a tão
esperada prisão
As notas em redes sociais do ex-presidente da
Câmara, deputado Arthur
Lira (PP-AL), e do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, em defesa do
ex-presidente Jair
Bolsonaro, preso preventivamente nesse sábado (22), são as mais
sugestivas das primeiras consequências políticas de um evento esperado desde o
início do ano. O Congresso Nacional deve retomar os trabalhos esta semana com
uma aliança tácita entre
o Centrão e
o bolsonarismo para
beneficiar o líder condenado.
Lira ainda mantém em mãos muitas das rédeas que operam as emendas parlamentares na Câmara e é a eminência parda na gestão do sucessor, o presidente da Câmara Hugo Motta (PP-PB). Com a centena de parlamentares da "União Progressista" (PP mais União Brasil) alinhada à oposição, Kassab é o fiel da balança que forja uma maioria parlamentar.
Prisão rara indica robustez institucional, por Carlos Pereira
O Estado de S. Paulo
Democracias têm enorme dificuldade em julgar e impor penas de prisão a chefes do Executivo
A prisão de Jair Bolsonaro e a perspectiva de início de cumprimento de uma pena severa têm produzido interpretações polares — para uns, justiça; para outros, perseguição. Reações semelhantes ocorreram quando Lula foi preso e, depois, solto. Como demonstrei no artigo escrito com André Klevenhusen, In Court we Trust? Political Affinity and Citizen’s Attitudes Toward Court’s Decision, a forma como indivíduos avaliam decisões judiciais é amplamente afetada por vieses políticos e afetivos.
Mas o ponto central é outro: democracias encontram enorme dificuldade em julgar e impor penas privativas de liberdade a chefes do Executivo. Quando conseguem fazê-lo, demonstram força institucional – não fragilidade.
Bolsonaro preso, mas a página não foi virada, por Joel Pinheiro da Fonseca
Folha de S. Paulo
Um espectro sempre acompanhou o bolsonarismo,
o de que a força pode se impor sobre as instituições
Realisticamente, contudo, ele ainda detém uma
carta poderosa: a escolha de seu sucessor em 2026
Foi um anticlímax. Veio num momento em que
ninguém esperava, cedo da manhã
do sábado, dias antes do aguardado "transitado em
julgado". Flávio
Bolsonaro conclamara os militantes
para uma vigília, uma "luta" espiritual pedindo ao
"Senhor dos Exércitos" que corrija os erros da Justiça humana.
Mas não deu tempo
de colocar as tropas em posição. As câmeras da mídia também não
estavam prontas. A prisão de Jair
Bolsonaro em nada lembrou o espetáculo da prisão de Lula em
abril 2018 na sede dos metalúrgicos, quando uma multidão veio defender o
ex-presidente e dificultar o trabalho da polícia.
A ordem de Alexandre de Moraes foi correta. A aglomeração de defensores fora do condomínio poderia gerar tumulto e violência. Além disso, Bolsonaro tentou violar a tornozeleira com um ferro de solda. Não está claro se houve algum plano mirabolante ou se —o que é mais provável— foi puro fruto de um surto psiquiátrico. Seja como for, o mais seguro para todos os envolvidos —especialmente Bolsonaro— é o que aconteceu: sua transferência para a superintendência da PF com o devido acompanhamento médico constante.
Direita não precisa mais de Bolsonaro, Camila Rocha
Folha de S. Paulo
Pá de cal foi jogada pelo próprio Jair, que derreteu sua
tornozeleira e seu capital político
Candidaturas alternativas de direita ainda têm longo caminho e
grande pedra chamada PF
Jair
Bolsonaro derreteu sua tornozeleira e seu capital político. Se
antes era a direita que precisava do bolsonarismo, agora o cenário mudou.
Há meses o bolsonarismo estava em crise. O número de apoiadores em
protestos de rua declinou, assim como seu impacto nas redes sociais. Para
piorar, o fim do tarifaço para produtos agrícolas enterrou de vez a estratégia
de Eduardo
Bolsonaro para salvar o pai.
O fracasso retumbante de Eduardo fez com que passasse o bastão para o irmão mais velho, Flávio Bolsonaro. Porém, após o fiasco de uma caminhada promovida em outubro, na qual compareceram 2.000 pessoas, Flávio tentou reacender o ânimo dos apoiadores, mas apenas acelerou o enterro político de sua família.
Prisão de Bolsonaro é ponto fora da curva entre democracias em crise, por Ana Luiza Albuquerque
Folha de S. Paulo
Independência do Judiciário garantiu prisão de líder autoritário
populista condenado
Medida não é suficiente para mudar condições que permitiram sua
chegada ao poder
Jair
Bolsonaro é o primeiro dos grandes líderes da leva de
autoritários populistas do século 21 a ser
preso por atentar contra a democracia. Seus aliados
internacionais seguem não apenas livres, mas firmes.
Nos Estados
Unidos, Donald Trump voltou
à Presidência antes que o julgamento de seus processos atrapalhasse seus planos
eleitorais. Na Hungria, Viktor Orbán se
prepara para uma difícil eleição, mas os 15 anos que acumula no poder podem ser
um trunfo para garantir sua permanência como primeiro-ministro.
Enquanto isso, Bolsonaro passará seus dias, ao que parece, em
uma sala da
Superintendência da Polícia
Federal em Brasília.
Cabe perguntar: por que o ex-presidente teve um destino diferente dos seus
pares?
Em primeiro lugar, a manutenção de uma Suprema Corte independente foi fundamental para fazer valer a lei e punir a ameaça democrática. Cientistas políticos que estudam a qualidade das democracias costumam identificar o Judiciário como o último bastião frente aos avanços de um autocrata.
Dulce/Márcia, por Ivan Alves Filho
Um nome inspirado por alguma canção popular
mexicana, dir-se-ia. Um nome bonito demais da conta, como falariam os mineiros.
Um nome que ela, devido à luta clandestina, tinha que omitir de quase todo
mundo.
Tendo convivido com ninguém menos do que Luiz Carlos Prestes em Moscou, atuou politicamente com Salomão Malina e Givaldo Siqueira, Dulce/Márcia foi ainda amiga pessoal de Gregório Bezerra, cujas memórias datilografava na antiga União Soviética. Dela, pode-se dizer que pautou sua vida pela defesa intransigente da Democracia, tanto no plano político quanto no social. E pagou por isso um preço muito alto, traduzido por clandestinidades e exílios.














