O Globo
Duzentos cientistas lançaram durante a
reunião da ONU um alerta que não deixa dúvidas sobre a dimensão da importância
da Amazônia, sobre os riscos que ela corre e, portanto, o mundo corre. Avisaram
que é preciosa a proteção que os povos indígenas e as comunidade locais oferecem
à floresta. A Amazônia está à beira do ponto de não retorno, diz o Painel
Científico para a Amazônia, uma espécie de IPCC para a Amazônia, que lançou
durante a Assembleia Geral da ONU o sumário executivo do seu primeiro
relatório.
— A gente já não tem mais tempo. Infelizmente, entre os cientistas, há essa discussão, até alguns autores do relatório acham que já perdemos o sul da Amazônia. Eu acho que não. Se a gente conseguisse zerar o desmatamento, criar programas de restauração de grande escala, a floresta conseguiria se restabelecer. Mas estamos vendo uma enorme degradação em quase dois milhões de Km2 em toda a Amazônia — explica o cientista Carlos Nobre, co-presidente desse painel. O presidente é o economista Jeffrey Sachs, do Sustainable Development Solutions Network das Nações Unidas. O documento todo será divulgado na reunião do clima em Glasgow.
Os cientistas começaram a se organizar para
esse trabalho enorme de produção de conhecimento sobre a Amazônia um pouco
antes da pandemia. O distanciamento obrigou todo mundo a se reunir remotamente
e trabalhar online. Dois terços dos cientistas são dos países amazônicos, mas o
desafio que eles se propuseram era ainda mais difícil na pandemia. Eles
integraram representantes de povos indígenas, alguns deles, cientistas. Estão
convencidos de que a ciência avançará se respeitar o conhecimento ancestral dos
indígenas e os incluir no estudo.
A professora da UnB Mercedes Bustamante,
também parte do Painel, explicou que o estudo científico é também
“socioecológico”.
— O relatório fala da agrobiodiversidade
que foi gerada também pelo trabalho dessas comunidades e populações. E elas têm
toda uma história de perseguição, de exclusão dos seus territórios, de
exclusões sociais, por isso eu acho que o relatório foi feliz de resgatar isso
— afirmou.
A ideia explicada pelos dois cientistas é
que a floresta é o resultado das transformações sustentáveis que os primeiros
povos fizeram ao longo do tempo. Quando os europeus chegaram, havia entre 8 a
10 milhões de indígenas, mais de mil etnias.
— Eles transformaram a Amazônia, mantendo a
Amazônia. Para se ter uma ideia, existem mais de 400 variedades de mandioca no
sudoeste da Bolívia, Peru e Brasil. Isso foi resultado do cultivo das mulheres
nos jardins ou quintais indígenas. Essa é uma coisa muito interessante que
aprendi na preparação do relatório. O conhecimento indígena está se perdendo —
afirmou Nobre.
Na quinta-feira passada eu fiz a mediação
de uma mesa do Global Landscapes Forum com autoridades e líderes comunitários
do Brasil, Peru, Equador e Colômbia sobre bioeconomia. Uma das palestrantes era
a liderança indígena equatoriana Mery Salazar, da comunidade de Kichawa de
Puyupungu. Ela disse que o mais urgente agora é preservar a medicina ancestral
indígena que pode morrer com as mães e as avós.
Na entrevista com Nobre e Bustamante, eles
também falaram da necessidade de proteção desse patrimônio. Mercedes explicou
que há uma correlação entre a proteção desse conhecimento milenar e a
preservação dos idiomas. Tudo isso, disse ela, torna a ideia de que se possa
estabelecer o marco temporal, a data de 5 de outubro de 1988 como o começo de
tudo, uma insensatez. Os povos indígenas estão na região há milhares de anos.
Outro avanço desse estudo foi unir cientistas da PanAmazônia.
— Temos que olhar a Amazônia como entidade regional. Os problemas são
semelhantes, a cadeia de eventos de ilegalidade é a mesma — alertou a
professora.
O modelo de bioeconomia para a região tem
que ser baseado na biodiversidade, gerar riqueza para as populações locais,
avisam. Alertam também que a Amazônia hoje é muito mais suscetível ao fogo e
está ficando menos capaz de gerar a umidade que vai chover em outras partes do
Brasil, até porque os biomas estão todos interligados. A agricultura perderá a
produtividade se esse processo não for detido. “O estudo mostra que 18% da
floresta já foi desmatada e 17% foi degradada em diversos estágios”, diz Carlos
Nobre.
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