O Globo
O presidente dos Estados Unidos parece ter
esquecido, ou não se dá conta, é de que sem uma democracia estabelecida é
difícil, quase impossível, fazer negócios que exigem muitos investimentos de
longo prazo.
Quando a criação do ministério da Segurança Pública volta a ser uma possibilidade, diante da crise de violência que assola o país, e o domínio do crime organizado torna-se uma ameaça explícita, vale a pena lembrar, e lamentar, que há mais de 20 anos essa mesma discussão dominava a política nacional. O então todo poderoso ministro Chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, declarava sua vontade de ser nomeado o “czar antidrogas”, e numa manhã de novembro de 2003, em reunião com políticos, empresários e investidores em Campos de Jordão, deu um choque na plateia ao afirmar que se a América do Sul não se unisse no combate das drogas, os Estados Unidos poderiam invadir a Colômbia e, a partir dela, assumir o controle da Amazônia.
O que parecia um delírio de Dirceu, e assustou
os participantes do IV Foro Iberoamericano, hoje é uma realidade diante do
avanço do narcotráfico na América Latina e a invasão da Venezuela pelo governo
Donald Trump, inicialmente sob alegação de combate ao narcoterrorismo, mas na
verdade com a intenção de, através do controle do fluxo internacional do
petróleo daquele país, impor sua hegemonia no que chama de “meu hemisfério.
Também a Colômbia, que continua sendo o
principal ponto de distribuição de drogas no continente, está sob ameaça dos
Estados Unidos, alegadamente pelo tráfico internacional de drogas, mas na
prática com o objetivo geopolítico de dominar a região, que voltaria a ser “o
quintal” dos Estados Unidos.
A retomada da Doutrina Monroe gerou o
“corolário Roosevelt” em 1904 - a política do “big stick”-, e agora é sucedido
pelo “corolário Trump”, que considera os limites das leis do direito
internacional dependentes de sua interpretação pessoal. Naquela manhã de 2003,
José Dirceu reforçou a ideia de que a relação com os Estados Unidos é essencial
para o Brasil, mas não poderia ser uma ligação subalterna, com a imposição da
hegemonia americana.
A necessidade de uma indústria militar de
proteção na América do Sul se inviabilizou no tempo devido às divergências
ideológicas dos principais países da região, mas foi retomada em termos
internos nos dias recentes, quando o que era um ativo brasileiro, o de não ter
inimigos em suas fronteiras, passou a ser desafiado por conflitos em outros
países fronteiriços, como a tentativa da Venezuela de ocupar a região de
Essequibo, na Guiana, rica em petróleo e outros minerais; a invasão dos Estados
Unidos na Venezuela, tudo em torno do petróleo.
As vulnerabilidades da segurança nacional
estão sendo levantadas por diversos estudiosos, entre eles os embaixadores
brasileiros Jório Dauster e Rubem Barbosa, cujo recente artigo na revista
Inteligência já foi analisado aqui na coluna. Eles destacam a inexistência de
meios adequados para assegurar a soberania nacional na defesa das fronteiras,
para proteger as plataformas de petróleo no pré-sal do mar territorial, para
derrotar eventuais ambições externas sobre os grandes recursos biológicos,
minerais e hídricos na Amazônia, para defender o país de ataques cibernéticos e
para preservar as comunicações privadas e governamentais (inclusive militares)
dependentes de satélites operados por companhias estrangeiras.
A figura de Trump tornou-se imperativa na
geopolítica internacional, que está sendo reescrita por enquanto de acordo com
o pensamento expansionista do atual governo americano. O que o presidente dos
Estados Unidos parece ter esquecido, ou não se dá conta, é de que sem uma
democracia estabelecida é difícil, quase impossível, fazer negócios que exigem
muitos investimentos de longo prazo. As companhias petrolíferas americanas já
avisaram ao governo Trump que os investimentos para reerguer a indústria de
petróleo venezuelano necessitam de garantia de uma base política sólida e
estável.

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