sábado, 10 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Liberdade continua a ser miragem na Venezuela

Por O Globo

Repressão e cerceamento à imprensa persistem, enquanto próceres da ditadura chavista seguem no poder

São inaceitáveis a repressão e o cerceamento ao trabalho de jornalistas na Venezuela. Embora a perseguição à imprensa seja marca indelével da ditadura chavista, esperava-se comportamento diferente depois da captura do ditador Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, durante a operação militar deflagrada há uma semana pelos Estados Unidos. O que acontece hoje na Venezuela é de interesse do mundo todo. É natural, portanto, que o país seja procurado por uma legião de correspondentes estrangeiros. Todos deveriam poder trabalhar com plena liberdade.

Desafios da nova desordem internacional. Por Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

Intervenções militares marcam abandono do direito entre países

Carta da ONU perde força com retorno da lei do mais forte

A Carta das Nações Unidas, de 1945, surgiu como uma reação à barbárie da Segunda Guerra, na qual mais de 80 milhões de pessoas foram mortas. Mais da metade dessas vítimas eram civis. O objetivo da comunidade internacional com a adoção da Carta e a criação da ONU foi construir uma nova ordem internacional baseada em regras, que contribuísse para a manutenção da paz e a segurança internacional.

Essa nova ordem reafirmou a centralidade dos direitos humanos, a igualdade entre nações grandes e pequenas, a autodeterminação povos e o desenvolvimento como valores. A estabilidade dessa ordem deveria ser buscada com auxílio de instituições multilaterais, que estavam sendo criadas, e pelo respeito às regras do direito internacional.

Veias abertas. Por Jamil Chade

CartaCapital

Trump foi transparente em relação à intenção de saquear os recursos naturais da América Latina

Teotihuacan é o local onde o tempo nasceu. Foi ali que os deuses se reuniram para criar o Quinto Sol. Para os astecas, a Terra havia sofrido quatro criações e destruições anteriores e, graças ao sacrifício dos deuses, o sol que brilhava sobre eles foi criado de novo, precisamente em Teotihuacan.

Hoje, vivemos a criação de um novo sol. Uma nova ordem que parece ter, precisamente na geografia da América Latina, seu primeiro rascunho. A silhueta que ele desenha, porém, nos remete aos dias mais nefastos de nossa história. Uma intervenção armada, o sequestro ilegal de um chefe de Estado e um alerta para toda a região de que sua autonomia será castigada.

Transição pactuada. Aldo Fornazieri

CartaCapital

Diante do fracasso das intervenções no Iraque, no Afeganistão e na Líbia, Trump optou por manter o governo venezuelano

Não há dúvida de que a agressão militar à Venezuela, o sequestro de ­Nicolás Maduro e sua transferência para os Estados Unidos para ser julgado representou uma clara violação do Direito Internacional. O que Donald Trump fez está longe de ser novidade, nem foi a mais drástica das intervenções externas norte-americanas. A guerra do Iraque, a invasão do Afeganistão e a derrubada de Muammar Kadafi na Líbia, com bombardeios da Otan, foram operações muito mais violentas e extensas do que a recente incursão na Venezuela. O singular, nesta ação, é que ela ocorreu em um país da América do Sul.

Destino manifesto. Por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Os desvarios incrustados na história do Irmão do Norte desmentem a excepcionalidade das proezas de Trump

Se há uma lição fundamental a ser aprendida com a política externa norte-americana no último século, é que tentar derrubar até mesmo o regime mais deplorável pode piorar ainda mais a situação”, advertiu o editorial do New York Times, em 3 de janeiro. “Os Estados Unidos passaram 20 anos sem conseguir estabelecer um governo estável no Afeganistão e substituíram uma ditadura na Líbia por um Estado fragmentado. As trágicas consequências da guerra de 2003 no Iraque continuam­ a afetar os EUA e o Oriente Médio. Talvez o mais relevante seja o fato de que os EUA, de forma esporádica, desestabilizaram países da América Latina, incluindo Chile, Cuba, Guatemala e Nicarágua, ao tentarem derrubar governos pela força.”

Golpes de mestre e o caso Master. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

O que surpreende no caso Master não é existência do lobby, mas o fato de ele estar fracassando

Apoio do sistema financeiro ao Banco Central e jornalismo profissional são parte da explicação

O que surpreende no caso Master não é que exista um forte lobby para reverter a liquidação do banco, mas que essa articulação esteja fracassando. Digo isso porque, no Brasil, lobbies funcionam.

Quem tem alguma dúvida não precisa fazer mais do que olhar para as contas públicas. Os gastos tributários da União e de estados bateram 6,5% do PIB em 2025 e devem chegar a 7,1% este ano. Estamos falando de quase R$ 1 trilhão. É claro que nem todas as isenções e reduções de alíquota são injustificáveis, mas boa parte delas resulta muito mais de ações orquestradas de grupos de interesse do que de interesse público genuíno.

O momento é decisivo para o futuro da democracia. Aqui e no mundo. Por Paulo José Cunha

Correio Braziliense

Se a democracia foi ameaçada num único país chamado Brasil, ela está sendo literalmente pisoteada na que se considerava, até outro dia, a mais importante democracia do mundo

O planeta está vivendo um desses momentos decisivos para o futuro, quando as instituições são instadas a se pronunciar com firmeza e usar seu poder de coerção para barrar aventuras autoritárias. Um ano atrás, o Brasil — logo o Brasil, que já enfrentou duas ditaduras! — deu uma lição ao mundo aplicando punição exemplar aos que tentaram dar um golpe de Estado para perpetuar no poder um dos piores presidentes que já tivemos e que, justamente por liderar a intentona golpista, está cumprindo pena de 27 anos de cadeia.

O xerife está de volta. Por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Trump decidiu elevar o já fabuloso orçamento de defesa dos Estados Unidos. Ou seja, ele quer mais: Groenlândia, Panamá e até Canadá o aguardam.

No artigo publicado após o Natal, afirmei que o governo brasileiro previa a invasão da Venezuela pelos norte-americanos logo depois da virada do ano. A previsão foi absolutamente correta. Os brasileiros reforçaram os mecanismos de acolhida na fronteira com o país vizinho na expectativa de que haveria uma explosão de migração em Roraima. Não aconteceu. A operação norte-americana foi auxiliada de dentro. Alguém, com poder, decidiu entregar o ditador todo poderoso à custa da morte de seus guarda-costas cubanos e alguns venezuelanos. Tudo correu com o menor derramamento de sangue possível numa situação extrema, como foi o ocorrido nos céus de Caracas e arredores. Maduro perdeu o poder, mas curiosa e estranhamente, seus principais auxiliares continuam a dar as ordens, respaldados pelo governo de Washington.

CPI para o ‘gabinete do ódio’ do Master. Por Roseann Kennedy

O Estado de S. Paulo

Banqueiro tem relações com políticos de diversos partidos; governistas não assinaram pedido

A liquidação do Banco Master, que já teve até cena de novela, com banqueiro sendo preso prestes a viajar de jatinho para o exterior, virou assunto popular nas redes. Mas não aleatoriamente. O que as investigações sobre o caso apontam é que houve uma ação coordenada para atacar instituições e autoridades, com pagamentos milionários. Ou seja, o banqueiro Daniel Vorcaro contou com um verdadeiro gabinete do ódio agindo a seu favor.

Para que serve a imprensa. Por Thaís Oyama

O Globo

Ao contrário dos influenciadores da internet, jornalistas trabalham com um sistema de regras, com revisão e checagem

A jornalista Malu Gaspar, do GLOBO, revelou que influenciadores da internet receberam ofertas de até R$ 2 milhões para fazer um servicinho em favor do encrencado banqueiro Daniel Vorcaro. O job consistia em divulgar nas redes sociais, como quem nada quer, que a liquidação do Banco Master havia sido uma precipitação do Banco Central — e não resultado de uma sequência de fraudes financeiras que lesaram mais de um 1,5 milhão de investidores. No dia seguinte à publicação da reportagem do GLOBO, a Folha de S.Paulo mostrou que ao menos 42 perfis nas redes sociais passaram a atacar investigadores envolvidos na liquidação do Master. Os ataques foram simultâneos, e a grande maioria dos perfis não era especialista em assuntos financeiros, como revelam seus nomes prosaicos — Futrikei, Divas do Humor e Festa da Firma. Assim, é de supor que, se uns poucos influenciadores optaram por denunciar a proposta, feita por agências de marketing, de alugar seus teclados para lustrar a emporcalhada imagem de Vorcaro, muitos outros a aceitaram.

Sinais de resistência. Por Flávia Oliveira

O Globo

Dos Estados Unidos também surgem os primeiros sinais de corajosa insatisfação popular

Um bem-vindo soluço do multilateralismo se deu quando, após um quarto de século de vaivém, a maioria dos países da União Europeia se posicionou a favor do acordo com o Mercosul. Em tempos do protecionismo galopante instituído por Donald Trump, o tratado só foi possível graças a um generoso pacote de salvaguardas e desbloqueio de € 45 bilhões para a política agrícola dos europeus, numa prova de que bancada do boi não é exclusividade dos trópicos. A ratificação do que se configura como a maior zona de livre-comércio do mundo, com cerca de 700 milhões de habitantes, foi ponto positivo de uma semana em que a América do Sul flertou com o apocalipse.

Ladrões, marinheiros e galinhas. Por Eduardo Affonso

O Globo

Há os que conseguem festejar a queda do ditador Nicolás Maduro e condenar a ação absurda do protoditador Donald Trump

Reelaborando a sabedoria popular, Machado de Assis escreveu que não é a ocasião que faz o ladrão:

— A ocasião faz o furto; o ladrão já nasce feito.

As tias do zap seriam golpistas latentes, à espera de uma oportunidade para atacar as instituições, os edifícios públicos e os fatos. Sem um catalisador, passariam a menopausa e a “melhor idade” entretidas com hidroginástica e receitas de remédios caseiros — que provocariam, no máximo, ataques de riso na Anvisa.

Os riscos de um mundo sem lei. Por Juliana Diniz

O Povo (CE)

A operação na Venezuela e o caso do PL da Dosimetria mostram que a lei, quando ignorada, se transforma numa ficção, e o que temos como resultado é uma anomia que aniquila qualquer possibilidade de prosperidade ou tranquilidade social

Gostaria de convidar os leitores a pensarem sobre os riscos da erosão do estado de direito, a partir da associação de dois eventos desconexos, a operação americana na Venezuela e a aprovação do PL da dosimetria no Parlamento brasileiro. Nos dois casos, temos um exemplo de violação à legalidade e às instituições que a asseguram. Quando ignorada, a lei se transforma numa ficção, e o que temos como resultado é uma anomia que aniquila qualquer possibilidade de prosperidade ou tranquilidade social.

A Pax Americana: o império sem máscara. Por Roberto Amaral *

“Vamos recuperar nosso quintal”
Peter Hegseth, Secretário de Guerra dos EUA

Há escassa novidade por trás dos fatos: raramente o processo histórico se manifesta de forma tão coerente, clara e reveladora como nos últimos eventos que se abateram, se abatem e por muito tempo ainda se abaterão sobre a Venezuela e a América do Sul (passando pelo Brasil, ninguém se iluda), prolongando a tragédia do país vizinho, levado à miséria por ser naturalmente rico. 

País soberano — ao menos no formalismo arcaico do direito internacional, sem forças de efetividade, portanto inútil, como é hoje a ONU, reduzida a mero fórum de debates sem consequência —, a República Bolivariana da Venezuela caminha de volta ao quadro colonial dos maus tempos espanhóis. Paga a pena de abrigar o maior estoque de reservas de petróleo bruto do mundo, nada menos que 303 bilhões de barris (cerca de 1/5 das reservas mundiais), superando Arábia Saudita e Irã. E superando, de longe, os EUA (detentores de algo entre 45 e 55 bilhões de barris), o que começa a explicar muita coisa.

Tudo pelo Bicho: Os Donos do Jogo, por Giovana Freire*

A série “Os Donos do Jogo” constrói uma narrativa densa e moralmente ambígua sobre o submundo do bicho carioca, onde o poder é herdado pela violência e sustentado pela hipocrisia. A trama se desenrola a partir da chegada de Jefferson, o Profeta, ao Rio de Janeiro, após um assalto a maquininhas de apostas ligadas à Cúpula, organização que controla o jogo ilegal no Estado. A partir desse ponto, as engrenagens da contravenção se misturam ao drama humano, compondo um retrato sociopolítico da corrupção e da masculinidade como ferramentas de dominação.

Poesia | Diálogo de todo o dia, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Moacyr Luz & Samba do Trabalhador, com Zeca Pagodinho - Vida da minha vida