domingo, 11 de janeiro de 2026

Parábola. Por Dorrit Harazim

O Globo

Ano começou com o mundo parado à porta da Casa Branca, com o guardião-mor destruindo até mesmo leis que funcionavam mal

Começa assim o conto “Diante da lei”, que Franz Kafka publicou ainda em vida (1915) e foi postumamente incorporado à história de Josef K. no célebre romance “O processo”, do mesmo autor:

— Diante da lei, encontra-se um porteiro. A esse porteiro chega um homem do campo que pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que não pode conceder-lhe entrada naquele momento. O homem então pergunta se poderá entrar mais tarde. “É possível”, diz o porteiro, “mas não agora”.

Na parábola citada, o portão da lei parece estar sempre aberto, e o recém-chegado se inclina para espiar o que há lá dentro. O porteiro percebe e ri.

— Se a tentação é tão grande, tente entrar apesar da minha proibição. Saiba que tenho poder, mas sou apenas o porteiro do escalão mais baixo.

Para além dele, haveria mais salas, cada uma com um guardião mais poderoso que o da sala anterior. O homem do campo não esperava tais dificuldades. A lei deveria ser sempre acessível a todos, pensa ele; mas, ao observar com mais atenção o porteiro em seu casaco de pele, seu nariz grande e pontudo e sua longa e fina barba tártara negra, decide que seria melhor esperar até obter permissão para entrar. O porteiro lhe oferece um banquinho e permite que se sente, do lado de fora do portão. Ali o homem permanece sentado por dias e anos. Faz inúmeras tentativas para ser admitido e cansa o guardião com seus reiterados pedidos de acesso.

O porteiro frequentemente o interroga pró-forma, questionando-o sobre sua terra natal e muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferença. Ao final, sempre repete que ainda não pode deixá-lo entrar. Para conquistar o almejado acesso à lei, o homem vai lhe oferecendo o que levava consigo de mais valor. Este aceita tudo, e ao aceitar, diz:

— Estou levando isto apenas para que você não pense que falhou em nada.

Assim passam meses, anos, muitos anos. Nada muda. O homem observa o porteiro quase continuamente. Esquece os outros porteiros, pois o primeiro lhe parece ser o único, senão o maior obstáculo. E amaldiçoa a infeliz circunstância da situação — em voz alta nos primeiros anos de espera, como murmúrio para si mesmo à medida do envelhecer. Vai se tornando infantil. De tanto estudar o porteiro, ele passa a conhecer até as pulgas que frequentam sua gola de pele, chegando a pedir-lhes que o ajudem a persuadi-lo. Sua visão enfraquece, e ele não sabe se as coisas a seu redor se tornaram realmente mais escuras ou se é enganado pelos próprios olhos. Restando-lhe pouco tempo de vida, tem uma iluminação ao repassar o que vivera e consegue formular a única pergunta que ainda não fizera ao porteiro. Este tem de se curvar bastante para ouvir e falar, pois a grande diferença de altura mudou as coisas em desvantagem para o homem.

— Então, o que você ainda quer saber?

— Todos se esforçam para cumprir a lei. — diz o homem — Então como, em todos estes anos, ninguém além de mim pediu para entrar?

O porteiro vê que o homem está morrendo. Para se fazer ouvir, berra a resposta:

— Aqui ninguém mais pode entrar, já que esta entrada foi designada apenas para você. Vou fechá-la agora.

Fim da parábola.

Existe uma versão de 1962 desse conto, narrada por Orson Welles.

Por que revisitar esse texto centenário, tantas vezes dissecado por pensadores de várias correntes? Porque 2026 começou com o mundo parado à porta da Casa Branca, com o guardião-mor destruindo até mesmo leis que funcionavam mal. Kafka, que estudara Direito em Praga (uma das poucas profissões ainda permitidas a judeus no Império Austro-Húngaro), conhecia o poder destruidor de uma Justiça fugidia e de uma verdade inalcançável.

— Cada pessoa tem seu portão, e ele está aberto. Mas não sabemos que está — escreveu, sobre “Diante da lei”, o filósofo austro-israelense Martin Buber (1878-1965).

Pois é tempo de saber.

 

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