domingo, 4 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Zygmunt Bauman

“Nós nos acostumamos a encarar o ser humano apenas como unidade estatística. Não ficamos chocados ao vermos indivíduos como força de trabalho. O poder de compra de uma sociedade ou a capacidade de consumo tornaram-se critérios cruciais para se avaliar o grau de adequação de um país para se associar ao clube do poder, ao qual aplicamos os sonoros títulos de várias organizações internacionais. A questão de saber se você é uma democracia só se torna relevante quando você não tem nenhum poder e, portanto, deve ser controlado por meio de varetas retóricas ou políticas. Se você é rico em petróleo ou pode consumir ou investir muito, isso o absolve de suas falhas em respeitar a política e as sensibilidades morais modernas ou permanecer comprometido com as liberdades civis e os direitos humanos.

*Zygmunt Bauman (1925-2017), Filósofo polonês, foi o grande pensador da modernidade e deixou uma vasta obra. ‘Mal líquido’, p.191. Editora Zahar, 2019.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tirania de Maduro não justifica ataque de Trump

Por O Globo

Violação da soberania venezuelana estimula pretensões imperiais da Rússia sobre Ucrânia ou da China sobre Taiwan

Não faltariam motivos para os venezuelanos celebrarem a queda do ditador Nicolás Maduro. Ele consolidou o regime bolivariano como autocracia corrupta, subjugou Legislativo e Judiciário, sufocou a imprensa profissional, fraudou as últimas eleições para se manter no poder, foi incapaz de recuperar o PIB venezuelano da queda de mais de 70% durante o chavismo (estima-se que mais de metade da população viva em pobreza extrema) e é com frequência citado como violador contumaz de direitos humanos — a última missão da ONU constatou em dezembro um “padrão de uma década de mortes, detenções arbitrárias, tortura e violência sexual” dirigidas contra opositores do regime. Nada disso, contudo, pode servir de justificativa à incursão dos Estados Unidos que o depôs. Trocar Maduro por um futuro incerto não trará alívio ao povo venezuelano.

Razões mais profundas. Por Merval Pereira

O Globo

Nunca houve uma relação oficial tão explícita com o petróleo como a alegada por Trump para a intervenção militar na Venezuela.

Nunca houve uma relação oficial tão explícita com o petróleo como a alegada hoje pelo presidente Trump para a intervenção militar na Venezuela. Embora o narcoterrorismo seja a base das acusações, a questão econômica foi defendida pelo governo americano como razão fundamental para a ação, desde a alegada compensação pela estatização do petróleo, radicalizada pelo governo Hugo Chávez nos anos 2000, até a necessidade de exploração petrolífera mais eficiente devido à politização da PDVSA, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo.

Ilusionismos. Por Dorrit Harazim

O Globo

Com o mundo recém-estreando 2026 e eleições na agenda, convém lembrar o poder de manipuladores de massas

Quem não gosta de uma boa ilusão? Todo espetáculo do mágico Harry Houdini, fosse qual fosse a novidade apresentada, deixava maravilhadas gerações de crianças e adultos. Húngaro de nascimento e cultuado até hoje por sua arte inimitável, Houdini era simplesmente o maior e melhor de sua época (1874-1926). Uma noite específica se tornou histórica — a de 7 de janeiro de 1918, que reuniu 5.300 espectadores num vasto anfiteatro de Nova York, o antigo Hippodrome Theater. Saíram dali boquiabertos.

É o petróleo, estúpido!. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao justificar derrubada de Maduro, presidente diz que "tomará de volta" o que foi nacionalizado por Chávez

Durou pouco, quase nada, o teatro americano para justificar a intervenção militar na Venezuela. Donald Trump iniciou o pronunciamento de ontem com acusações antigas e não comprovadas de que Nicolás Maduro estaria por trás de um cartel “narcoterrorista”. Minutos depois, escancarou que seu interesse no país é outro. “Vamos tomar o petróleo de volta. Francamente, já deveríamos ter tomado há muito tempo”, declarou.

A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo. A cifra é estimada em 303 bilhões de barris, o que põe o país à frente de fundadores da Opep como Arábia Saudita e Irã. Por décadas, os recursos do subsolo venezuelano foram explorados por petroleiras dos EUA. Isso começou a mudar em 1976, com a criação da estatal PDVSA. E ficou para trás em 2009, com as nacionalizações de Hugo Chávez.

Lembrai-vos da ‘Pasta Rosa’. Por Elio Gaspari

O Globo

Onde a investigação do Banco Master tem suspeitas e indícios de uma rede de proteção política, no caso da Pasta Rosa eram certezas documentadas

A “Pasta Rosa” foi achada em 1995, no gabinete do banqueiro e ex-ministro Ângelo Calmon de Sá. Com oito centímetros de espessura, ela continha a escrituração do ervanário despejado pela federação dos bancos e pelo Banco Econômico nas últimas eleições à época. Era o sonho do investigador, a clientela da banca ia de Roberto Campos a Antônio Carlos Magalhães. Cerca de 50 políticos passavam pela pagadoria do Banco Econômico.

Onde a investigação do Banco Master tem suspeitas e indícios de uma rede de proteção política, no caso da Pasta Rosa eram certezas documentadas. Nos seus dias de fama, a Pasta Rosa parecia instruir uma faxina nas relações dos políticos com a banca. Ilusão democrática. Aos poucos, a Pasta Rosa foi sumindo do noticiário, até virar História.

O risco do ataque vai além de Caracas. Por Míriam Leitão

O Globo

Mantido por fraude e força militar, Maduro era indefensável, mas a arrogância imperialista de Trump é uma ameaça a qualquer país

Quando alguém se coloca como um poder incontrastável, como fez o presidente Donald Trump, todos estão em perigo. Ele ampliou suas ameaças para além de Nicolás Maduro, capturado. Falou de outros governos, inclusive democráticos. Não por acaso Trump, na entrevista que concedeu para falar do ataque militar à Venezuela, fez referências às cidades e aos estados americanos aos quais impôs o envio de forças federais. Ao falar do Congresso , ele disse não ter comunicado antecipadamente, porque eles “vazariam” a informação. A operação foi contra Maduro, mas a ameaça foi bem mais ampla.

Geopolítica da paz pela força. Por Cristina Soreanu Pecequilo

Correio Braziliense

A Venezuela é um pivô para o efeito demonstrativo da contrarreação dos Estados Unidos à presença da China e de seu projeto da Iniciativa do Cinturão e da Rota (ICR) na América Latina

Em 3 de Janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram uma intervenção militar na Venezuela, retirando do poder e prendendo o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cília Flores. Após meses de deslocamento de embarcações dos Estados Unidos ao Caribe e ações militares marítimas, a operação chegou a termo. Sob acusações de patrocinar o narcotráfico e o terrorismo internacional (o narcoterrorismo), Maduro e Flores seguiram para os Estados Unidos em uma embarcação norte-americana, para enfrentar julgamento. Como compreender essa intervenção? Existem projeções possíveis?

Southern Spear e a Lei da Selva. Por Gunther Rudzit

Correio Braziliense

Cuba foi mencionada nominalmente, o que sinaliza que o episódio venezuelano não deve ser visto como exceção, mas como precedente

A entrevista concedida por membros do governo de Donald Trump, incluindo o próprio presidente, após a operação militar denominada Southern Spear, foi decisiva para compreender o que tende a vir pela frente no sistema internacional e, em especial, no hemisfério ocidental. Mais do que esclarecer detalhes operacionais, o discurso oficial funcionou como mensagem estratégica, dirigida tanto a aliados quanto a adversários.

O Tio Sam está de volta! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ação militar na Venezuela é prenúncio de ingerência política de Trump no Brasil em 2026

O ataque à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro soterram a era chavista no país e abrem uma nova fase de Donald Trump contra o multilateralismo e suas instituições mundo afora. Depois de detonar o sistema internacional de comércio com o tarifaço, ele agora quer impor suas vontades e interesses com armas reais, ou seja, letais, ignorando a ONU, as leis e as regras.

Invasão à Venezuela impõe nova era à América do Sul. Por Lucas Pereira Rezende

Folha de S. Paulo

Para o Brasil, fica claro que não será aceito o papel de mediador em questões locais prioritárias para Trump, prejudicando sua liderança regional

Não existe mais em Washington qualquer visão sobre democracia liberal; é a política do poder em sua pura expressão

Muda-se tudo na política sul-americana a partir dos fatos ocorridos neste sábado (3). Mas, mais do que isso, muda-se mais ainda no xadrez da política internacional.

Donald Trump, com a invasão à Venezuela e o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Floresambos ilegais sob quaisquer legislações que se escolha, e independentemente do quão urgente fosse o fim do regime autoritário venezuelano, já tem uma guerra —e uma vitória— para chamar de sua.

Minhas regras para a eleição de 2026. Por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Aconselho não dar ouvidos a ninguém que não as respeite na campanha deste ano

Proponho regras para assegurar que o debate de ideias seja proveitoso na próxima campanha

Graças ao fracasso do bolsonarismo na eleição de 2022, ao fracasso do bolsonarismo no golpe de 2022-2023, ao fracasso do bolsonarista Luiz Fux no STF e ao fracasso do bolsonarismo na tentativa de mobilizar Donald Trump contra a democracia brasileira, o Brasil terá eleições livres para presidente no final deste ano.

Nessa primeira coluna de 2026, proponho regras para assegurar que o debate de ideias seja proveitoso na próxima campanha.

Uma instituição que se decompõe. Por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Câmara tornou-se instrumento de abolição dos valores republicanos em benefício de irmãos e parentes

Seres vivos e civilizações morrem, assim como regimes e instituições, incapazes de autorreflexão: elas não pensam, e sim os indivíduos que as compõem

Ao sancionar o Orçamento de 2026, o presidente da República sanciona também a obscena transição no poder do velho patrimonialismo clientelista para o tribalismo predatório e extrativista das novas gerações, atraídas por Bolsa e fortuna política, agora acoitadas no Parlamento. O império da desfaçatez não comporta uma ética da vergonha na cara: os cortes nas verbas da Capes e do CNPq foram redirecionados para completar os R$ 61,2 bilhões em emendas. Escândalo que passa batido.

As desventuras em série do clã Bolsonaro. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

'Seu Jair' e família colecionam perdas cavadas pelas próprias mãos e a poder de reiterados tiros nos pés

A presença do sobrenome na eleição presidencial seria o último refúgio dos campeões de danos autoinfligidos

Uma das várias questões em aberto sobre a eleição deste ano é se Flávio Bolsonaro (PL) manterá sua candidatura à Presidência da República. Outra diz respeito ao grau de influência do sobrenome do ex-presidente nas disputas país afora e uma terceira tem a ver com o volume de perdas que atingem a família e companhia.

O pai, preso sem chance por ora de cumprir pena em regime domiciliar e apontado nas pesquisas como responsável pelos próprios erros; o primogênito, alvo de enorme rejeição, arrisca-se a perder a renovação quase certa do mandato de senador pelo Rio de Janeiro.

Quem manda agora na Venezuela? Por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Trump disse que acertou transição com vice, Delcy Rodríguez, para quem a luta continua

Os subs de Maduro, Delcy, general Padrino e Cabello, continuavam no poder até sábado de tarde

Donald Trump diz que os EUA vão "administrar" a Venezuela até uma transição "segura, adequada e criteriosa". Trump entraria em um pântano tal qual Afeganistão e Iraque? Improvável, pois a base popular dele detesta a ideia, que de resto custaria caro.

Como seria, então? Trump disse apenas que Marco Rubio, seu secretário de Estado, ferrabrás da direita, havia conversado com Delcy Rodríguez, vice-presidente de Nicolás Maduro, presidente-ditador até sexta passada (2). Faz sentido?

Importa, até para discutir consequências do ataque. Por ora, sabe-se que: 1) O império fora da lei de Trump levou Maduro; 2) Houve "recado", como disse Rubio: Trump "não está para brincadeira", alerta para outros governos, pelo menos para aqueles que não têm armas, como as têm China e Rússia; 3) A América Latina pode levar bomba como um Irã e deveria entrar na linha, indicam os americanos.

Poesia | O menino que carregava água na peneira, de Manoel de Barros

 

Música | Roda Viva - Chico Buarque