quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Opinião do dia - Jürgen Habermas*

“Os direitos humanos formam uma utopia realista na medida em que não mais projetam a imagem decalcada da utopia social de uma felicidade coletiva; antes, eles ancoram o próprio objetivo ideal de uma sociedade justa nas instituições de um Estado constitucional.

Naturalmente, essa ideia transcendente de justiça introduz uma tensão problemática no interior de uma sociedade política e social. Independentemente da força meramente simbólica dos direitos fundamentais em muitas das democracias de fachada da América do Sul e de outros lugares, na política dos direitos humanos das Nações Unidas revela-se a contradição entre a ampliação da retórica dos direitos humanos , de um lado, e seu mau uso como meio de legitimação para as políticas de poder usuais, de outro.”

*Jürgen Habermas (1929), é um filósofo e sociólogo alemão, ‘Sobre a Constituição da Europa’ (2011), pp. 31-2, Editora Unesp, 2012

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Campanha eleitoral não terá como evitar tratar de crise fiscal

Por O Globo

Escalada do endividamento público no atual governo criou armadilha incontornável para o próximo

Ao longo de três anos de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva só demonstrou preocupação com a questão fiscal no plano da retórica. E, mesmo assim, incontáveis vezes defendeu aumento de gastos, como se as despesas, mesmo em setores prioritários como educação, saúde ou segurança, não exigissem lastro na realidade orçamentária. O novo arcabouço fiscal implementado pelo ministro Fernando Haddad se revelou uma quimera, tantas foram as exceções abertas às regras. A preocupação é ainda maior neste ano eleitoral. Lula mais uma vez concorrerá ao Palácio do Planalto e, diante dos previsíveis gastos eleitoreiros, tudo indica que o quadro fiscal tende a piorar.

A política do porrete. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Após atacar a Venezuela, republicano faz ameaças a Colômbia, Cuba, México, Groenlândia...

Donald Trump deixou claro: não pretende parar na Venezuela. Depois de ordenar o bombardeio de Caracas e o sequestro de Nicolás Maduro, o presidente dos Estados Unidos mostrou os dentes para mais três países da América Latina. Ameaçou atacar a Colômbia, derrubar o governo de Cuba e “fazer alguma coisa” com o México.

No domingo, o republicano retomou outra de suas obsessões. “Precisamos da Groenlândia”, disse, como se estivesse fazendo a lista de compras no mercado. Ontem a Casa Branca confirmou que ele avalia “várias opções” para abocanhar o território autônomo da Dinamarca. “Recorrer ao Exército é sempre uma alternativa à disposição do comandante em chefe”, acrescentou a porta-voz Karoline Leavitt.

O nome do jogo é Cuba. Por Elio Gaspari

O Globo

Ele teve dias de general latino-americano

Donald Trump conseguiu o imaginável (sequestrou Nicolás Maduro) e o inimaginável (a vice chavista Delcy Rodríguez assumiu a Presidência da “República Bolivariana”, prometendo priorizar “uma relação respeitosa e equilibrada com os Estados Unidos”). Vice virando casaca não é novidade, mas a calma bolivariana surpreendeu. Num de seus primeiros atos, Delcy expulsou dois diplomatas franceses depois que o presidente Emmanuel Macron expressou sua preferência pela oposicionista María Corina Machado, que acabou de ganhar o Prêmio Nobel da Paz.

Fraturas exposta na Venezuela. Por Guilherme Casarões

O Globo

Lula terá de se opor àqueles que querem ver o Brasil se tornar satélite de uma potência estrangeira, por qualquer razão que seja

Estamos diante de uma nova era na América Latina. Renasce a Doutrina Monroe, principal fundamento da hegemonia norte-americana sobre o Hemisfério, agora somada ao Corolário Trump, que manifesta o desejo do atual governo de controlar os fluxos de pessoas, drogas e ativos estratégicos.

Esse movimento é sintoma de uma transformação global mais profunda. Voltamos à geopolítica do século XIX. O mundo, hoje, é partilhado entre três grandes potências: Estados UnidosChina e Rússia, cada qual buscando assegurar controle sobre vastas esferas de influência, muitas vezes com a conivência cínica dos demais.

Munições descontroladas. Por Antônio Rangel Bandeira

O Globo

O criminoso leva as armas consigo, mas os cartuchos deflagrados ficam no local e podem ser rastreados se estiverem marcados

Até que enfim a segurança pública, maior preocupação do brasileiro, passou a ser discutida nacionalmente — nem sempre, porém, em bases científicas. Fala-se muito no controle das armas, mas quase nada sobre munições, tratadas como aspecto secundário. No entanto, já em 1993, o senador e sociólogo norte-americano Daniel Patrick Moynihan defendia o aumento do preço das balas, lembrando que “armas não matam, balas matam” e ironizando o sofisma armamentista segundo o qual “quem mata são as pessoas”. É realista lembrar que armas sem munição perdem sua função letal.

Ofensiva contra a liquidação do Banco Master não é uma flor do recesso. Por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A institucionalidade do sistema financeiro está sendo posta em xeque, apesar das consequências de uma ruptura nessa ordem institucional para toda a economia

O caso do Banco Master não é uma flor do recesso do Congresso, as conexões políticas do banqueiro Daniel Vorcaro são da pesada e estão por trás dos questionamentos à decisão do Banco Central (BC) para anular a liquidação. Nesta terça-feira, o Banco Central (BC) recorreu ao Tribunal de Contas da União (TCU) para contestar a decisão monocrática do ministro Jhonatan de Jesus que autorizou a realização de uma inspeção nas dependências da autoridade monetária.

Crime superorganizado. Por Cristovam Buarque

Correio Braziliense

A corrupção passou a ser vista como um simples incômodo: uma "gripe de consciência". Há um sentimento geral de que tudo o que é legal pode ser feito, mesmo que não seja decente

As epidemias biológicas contagiam pelo contato; as epidemias morais contaminam pelo exemplo. O comportamento dos líderes espalha a corrupção ao ponto de a honestidade, que era um valor ético generalizado, passar a ser mania de poucos excêntricos que ainda a praticam. Em vez de servir à comunidade, os agentes públicos, especialmente mas não apenas os políticos, passaram a priorizar os próprios interesses, usufruir das funções, sem respeito aos interesses nem à opinião pública. As eleições perderam o propósito de escolher quem apresenta as melhores propostas para o país e passaram a eleger quem oferece vantagens pessoais ao eleitor. Tal como nas epidemias biológicas, ao contaminar a maior parte da população, a corrupção passou a ser vista como um simples incômodo: uma “gripe de consciência”.

Trump pode apequenar queda de Maduro. Por César Felício

Valor Econômico

Influência dos EUA nas eleições brasileiras e colombianas deve se dar por outra forma

Há algum tempo, desde o início da colonização das redes sociais pela direita, política externa tornou-se um assunto da política doméstica brasileira, e o repúdio a Nicolás Maduro, o ditador venezuelano capturado pelos Estados Unidos no último sábado, é quase uma unanimidade nacional. Ele deixa a esquerda, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por tabela, em uma saia justa por unir em sua pessoa socialismo, autoritarismo, corrupção e debacle econômica.

‘8 de janeiro deve permanecer como advertência histórica’

Tiago Angelo e Giullia Colombo / Valor Econômico

Para presidente do Supremo, punição aos envolvidos nos ataques aos Poderes reafirma que governantes e governados estão “sujeitos às regras do jogo democrático”

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, disse ao Valor que “o 8 de janeiro deve permanecer como advertência histórica” e que a atuação da Corte para punir envolvidos nos ataques aos Poderes reafirma que governantes e governados estão “sujeitos às regras do jogo democrático”. Fachin preparou para esta quinta-feira (8), data em que os atos golpistas completam três anos, um evento para relembrar a invasão das sedes da Corte, do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto.

Lula enxerga Venezuela como ‘trunfo’. Por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Presidente vai ressuscitar na campanha discurso nacionalista que salvou o governo após tarifaço

A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, com a captura do ditador Nicolás Maduro, virou tema de disputa eleitoral no Brasil. Mas, ao contrário do que a direita apregoa, no Palácio do Planalto a avaliação é que a ofensiva do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre o país vizinho pode se tornar um “trunfo” para a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva ao quarto mandato.

O diagnóstico foi feito pelo próprio presidente, em conversas reservadas com amigos. Para Lula, a crise na Venezuela é preocupante, sim, mas o tiro dos pré-candidatos à sua cadeira sairá pela culatra.

Bomba-relógio na França. Por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Nível da dívida, que já atinge 117,4% do PIB, e instabilidade política estão por trás de crise que ameaça país

Muitos analistas passaram a descrever a situação financeira na França como uma bomba-relógio, diante da escalada dos juros pagos pelo governo para vender seus títulos públicos, do crescente déficit fiscal e do impasse político que resultou na troca de primeiro-ministro três vezes apenas em 2025. O equilíbrio econômico e político é tão frágil neste momento que qualquer choque – interno ou externo – poderá provocar uma grave crise de confiança do mercado.

Digo, logo existo. Por Basilio Jafet

O Estado de S. Paulo

A questão é que, ultimamente, no Brasil, estamos com medo de falar e de escrever. Tememos a patrulha

Tempos em que dizer o que se pensa se tornou arriscado autorizam a variação da famosa máxima filosófica “penso, logo existo”, de René Descartes, para “digo, logo existo”.

Enquanto o “penso” estabelece a certeza da existência do sujeito a partir da consciência da sua própria atividade mental (o pensamento e a dúvida), a afirmação “digo” pode ser interpretada sob perspectivas que enfatizam a importância da linguagem e da interação social na constituição da existência humana.

Ataque de Trump à Venezuela foi um 'Piratas do Caribe' com menos graça. Por Rui Tavares

Folha de S. Paulo

Entramos num mundo muito mais perigoso, e toda a gente vai ter de se adaptar

Cenário faz com que não haja atividade mais humilhante no mundo do que a de quem tenta justificar o americano

Em tempos houve uma distinção entre piratas e corsários. Os piratas atacavam barcos e cidades costeiras, roubavam, pilhavam e faziam mil malfeitorias, ilegalmente, e portanto eram feios, porcos e maus. Os corsários faziam tudo isso, mas com uma carta outorgada por um soberano, e portanto eram belos, bravos e legais.

O que aconteceu esta semana na Venezuela é como se no século 17 um desses monarcas tivesse decidido acabar com o fingimento dizendo: "Pessoal, não há diferença entre piratas e corsários, é tudo a mesma coisa. Os soberanos já não precisam fingir fazer o bem, podem pilhar como se fossem piratas, e admiti-lo."

Trump, um ideólogo sem convicções. Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidente americano prefere se acertar com chavistas a entregar poder à oposição venezuelana

Precedentes do Iraque e da Líbia fazem com que ele relute em alijar quem controla polícia e exército

Donald Trump é um caso a ser estudado por cientistas políticos, psicólogos e neurologistas. Representante máximo da extrema direita planetária, ele próprio apresenta pouco ou nenhum apego a cartilhas ideológicas. Faz o que acha que lhe renderá dividendos. Se suas ações estiverem em consonância com as posições da direita, tanto melhor, já que arrancará mais facilmente os aplausos de sua base.

Lula se equilibra em corda bamba entre Donald Trump e Delcy Rodríguez. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Desafio do presidente é defender a soberania da Venezuela sem prejudicar as boas relações com Washington

Ambiguidade de posições não resistirá ao tempo nem aos acontecimentos que exigirão definições claras

Dias de contorcionismo político aguardam o governo brasileiro neste período que sucede à derrubada de Nicolás Maduro e a permanência do chavismo na Venezuela sob a pretendida —e ainda não explicada— administração de Donald Trump.

Ao presidente Luiz Inácio da Silva (PT) e sua equipe se impõe o delicado exercício de equilíbrio entre a defesa da soberania de Estados nacionais, a precaução a respeito do precedente intervencionista sobre a América Latina e a necessidade de preservar as relações entre Brasília e Washington.

Os eixos que balizarão a campanha presidencial. Por Gaudêncio Torquato

Folha de S. Paulo

Segurança pública, economia e polarização política, além de valores sociais e identitários, devem influenciar corrida

Desafio será conquistar o eleitor cansado do conflito, que deseja estabilidade sem renunciar às mudanças

campanha presidencial de 2026 começa a se desenhar muito antes do calendário oficial. Como ocorre em ciclos de alta polarização, os grandes temas do debate público vão se consolidando de forma antecipada, orientados menos por programas detalhados e mais por percepções, medos, expectativas e sentimentos difusos do eleitorado.

Já é possível identificar os principais eixos temáticos que estruturarão a disputa e servirão de referência para estratégias, discursos e narrativas dos candidatos. Entre elas, a avaliação do atual governo e a ideia de continuidade ou ruptura.

Poesia | Soneto CXVI, de William Shakespeare

 

Música | Quarteto em Cy - Se a gente grande soubesse