sábado, 3 de janeiro de 2026

Sobre a criminalização do BC. Por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O caso Master não existiria – não como o conhecemos – sem aqueles, os políticos, os eleitos, cujas atividades foram decisivas à prosperidade fraudulenta do banco. Não estamos diante apenas de empreendimento criminoso contra o sistema financeiro. Essa conta não fechará sem corrupções, sem coação – sem gestões de quem controla o poder.

Essa conta avança desviada-distraída, com o Banco Central de repente entre os suspeitos. A desqualificação do BC é estratégia de defesa que se tornou influente. A autoridade monetária não está entre os investigados.

É da ordem da desonestidade intelectual, observada a trama bilionária que compôs a pirâmide do Master, apregoar que o BC teria se precipitado ao liquidar o banco; que haveria solução alternativa. Tentou-se a solução de mercado – aquela por meio da qual o BRB absorveria o Master para lhe diluir as falcatruas.

O BC – isto, sim – terá demorado a agir. O BC, mais ou menos atrasado, não é investigado. Investigadas são a fraude no Master e suas jogadas com o BRB. Esses são os objetos deste caso de polícia. Que não existiria sem as relações que Daniel Vorcaro plantou. Não haveria BRB na parada, para comprar carteiras inexistentes, não fossem os afetos que o banqueiro cultivou.

Paulo Henrique Costa não terá se tornado presidente do BRB por graça do espírito santo. O governador do DF, Ibaneis Rocha, não é – não pode passar por – observador externo dessa barbaridade; nem se isenta de responsabilidade porque trocou o comando do banco. Não é crível que Costa tivesse autonomia para negociar bilhões em papéis do Master.

A isso – a esse apagamento das ordens de comando, a esse deslocamento do eixo responsável – também presta serviços a criminalização do BC.

Desapareceram do noticiário também os rolos previdenciários dos Estados com o Master, sumido da teia o Rioprevidência. Que, contra todos os alertas, botou mais de bilhão de reais dos servidores no castelo de cera, outro que ofertaria ao banco a liquidez que a exposição de sua mentira fazia escoar. Transações que jamais prosperariam somente por vontade de burocrata executivo de fundo.

O burocrata executivo de fundo foi escolhido por alguém. Está sob influência do governador. Claudio Castro não é – não pode ser – observador externo da atrocidade. Não poderia não saber, ainda que talvez seja melhor passar por incompetente desinformado sobre o que corre no próprio governo. O mesmo serve ao padrinho – Davi Alcolumbre – do sujeito que autorizou o lançamento de milhões do fundo previdenciário do Estado do Amapá na perdição do Master.

O Master não seria Master – não teria chegado aonde chegou, não teria contrato milionário com esposa de ministro do STF – sem as relações políticas (incluídas as consultorias de um Lewandowski) que fundamentam exotismos como os do TCU lirista contra o BC; sem as relações que fazem juiz de Corte constitucional perguntar ao fraudador sobre a qualidade do trabalho do órgão que lhe liquidou a fraude.

 

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