domingo, 4 de janeiro de 2026

É o petróleo, estúpido!. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao justificar derrubada de Maduro, presidente diz que "tomará de volta" o que foi nacionalizado por Chávez

Durou pouco, quase nada, o teatro americano para justificar a intervenção militar na Venezuela. Donald Trump iniciou o pronunciamento de ontem com acusações antigas e não comprovadas de que Nicolás Maduro estaria por trás de um cartel “narcoterrorista”. Minutos depois, escancarou que seu interesse no país é outro. “Vamos tomar o petróleo de volta. Francamente, já deveríamos ter tomado há muito tempo”, declarou.

A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo. A cifra é estimada em 303 bilhões de barris, o que põe o país à frente de fundadores da Opep como Arábia Saudita e Irã. Por décadas, os recursos do subsolo venezuelano foram explorados por petroleiras dos EUA. Isso começou a mudar em 1976, com a criação da estatal PDVSA. E ficou para trás em 2009, com as nacionalizações de Hugo Chávez.

Ao celebrar a derrubada de Maduro, Trump deixou de lado a retórica contra o autoritarismo chavista. Falou muito em petróleo e pouco em democracia. “Nossas grandes empresas petrolíferas americanas, as maiores do mundo, vão entrar, gastar bilhões de dólares e consertar a infraestrutura, que está em péssimo estado”, discursou.

A fala do republicano deixou várias incógnitas e algumas certezas. Ele anunciou que os EUA governarão a Venezuela por tempo indeterminado. Não explicou se o plano é nomear um interventor americano ou apoiar um regime fantoche. Descartou a hipótese de entregar o poder à oposicionista Maria Corina Machado, que havia acabado de festejar a desgraça do arquirrival. “Ela não conta com apoio nem com respeito no país”, desdenhou.

Trump avisou que qualquer tentativa de contestação será respondida com uma onda de ataques ainda mais violentos. Ao ser lembrado de suas críticas às intervenções no Afeganistão e no Iraque, alegou que a tomada de Caracas garantirá segurança energética dos EUA. Isso bastaria para enquadrar a ofensiva no slogan “America First”.

Deposto após quase 13 anos na presidência, Maduro comandava um regime ditatorial, que sufocou a oposição, censurou a imprensa e fraudou eleições. Isso não justifica a invasão dos EUA, que violou o direito internacional e rasgou mais uma vez a Carta das Nações Unidas. O documento só autoriza ataques a países soberanos em legítima defesa ou mediante autorização do Conselho de Segurança. Não houve agressão venezuelana, e o colegiado da ONU não foi sequer consultado sobre o bombardeio a Caracas.

Trump também tratorou a Constituição americana, que exige autorização do Congresso para intervenções militares no exterior. Questionado sobre a ilegalidade, voltou a mostrar desprezo pelas instituições do país. “O Congresso ia vazar. E nós não queremos vazadores”, provocou.

Em dezembro, os EUA divulgaram uma Estratégia Nacional de Defesa à imagem e semelhança do inquilino da Casa Branca. O documento formalizou o objetivo de ampliar a influência de Washington sobre a América Latina. O republicano prometeu resgatar a Doutrina Monroe, que justificou dezenas de invasões e golpes na região desde o século XIX. Na prática, o ataque à Venezuela inaugura a Doutrina Trump, dando nova roupagem ao velho imperialismo. Sai a lei internacional, volta a lei do mais forte.

 

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