O Globo
Ao justificar derrubada de Maduro, presidente
diz que "tomará de volta" o que foi nacionalizado por Chávez
Durou pouco, quase nada, o teatro americano
para justificar a intervenção militar na Venezuela. Donald Trump iniciou o
pronunciamento de ontem com acusações antigas e não comprovadas de que Nicolás
Maduro estaria por trás de um cartel “narcoterrorista”. Minutos depois,
escancarou que seu interesse no país é outro. “Vamos tomar o petróleo de volta.
Francamente, já deveríamos ter tomado há muito tempo”, declarou.
A Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo. A cifra é estimada em 303 bilhões de barris, o que põe o país à frente de fundadores da Opep como Arábia Saudita e Irã. Por décadas, os recursos do subsolo venezuelano foram explorados por petroleiras dos EUA. Isso começou a mudar em 1976, com a criação da estatal PDVSA. E ficou para trás em 2009, com as nacionalizações de Hugo Chávez.
Ao celebrar a derrubada de Maduro, Trump
deixou de lado a retórica contra o autoritarismo chavista. Falou muito em
petróleo e pouco em democracia. “Nossas grandes empresas petrolíferas
americanas, as maiores do mundo, vão entrar, gastar bilhões de dólares e
consertar a infraestrutura, que está em péssimo estado”, discursou.
A fala do republicano deixou várias
incógnitas e algumas certezas. Ele anunciou que os EUA governarão a Venezuela
por tempo indeterminado. Não explicou se o plano é nomear um interventor
americano ou apoiar um regime fantoche. Descartou a hipótese de entregar o
poder à oposicionista Maria Corina Machado, que havia acabado de festejar a
desgraça do arquirrival. “Ela não conta com apoio nem com respeito no país”,
desdenhou.
Trump avisou que qualquer tentativa de
contestação será respondida com uma onda de ataques ainda mais violentos. Ao
ser lembrado de suas críticas às intervenções no Afeganistão e no Iraque,
alegou que a tomada de Caracas garantirá segurança energética dos EUA. Isso
bastaria para enquadrar a ofensiva no slogan “America First”.
Deposto após quase 13 anos na presidência,
Maduro comandava um regime ditatorial, que sufocou a oposição, censurou a
imprensa e fraudou eleições. Isso não justifica a invasão dos EUA, que violou o
direito internacional e rasgou mais uma vez a Carta das Nações Unidas. O
documento só autoriza ataques a países soberanos em legítima defesa ou mediante
autorização do Conselho de Segurança. Não houve agressão venezuelana, e o
colegiado da ONU não foi sequer consultado sobre o bombardeio a Caracas.
Trump também tratorou a Constituição
americana, que exige autorização do Congresso para intervenções militares no
exterior. Questionado sobre a ilegalidade, voltou a mostrar desprezo pelas
instituições do país. “O Congresso ia vazar. E nós não queremos vazadores”,
provocou.
Em dezembro, os EUA divulgaram uma Estratégia
Nacional de Defesa à imagem e semelhança do inquilino da Casa Branca. O
documento formalizou o objetivo de ampliar a influência de Washington sobre a
América Latina. O republicano prometeu resgatar a Doutrina Monroe, que
justificou dezenas de invasões e golpes na região desde o século XIX. Na
prática, o ataque à Venezuela inaugura a Doutrina Trump, dando nova roupagem ao
velho imperialismo. Sai a lei internacional, volta a lei do mais forte.

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