domingo, 4 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Tirania de Maduro não justifica ataque de Trump

Por O Globo

Violação da soberania venezuelana estimula pretensões imperiais da Rússia sobre Ucrânia ou da China sobre Taiwan

Não faltariam motivos para os venezuelanos celebrarem a queda do ditador Nicolás Maduro. Ele consolidou o regime bolivariano como autocracia corrupta, subjugou Legislativo e Judiciário, sufocou a imprensa profissional, fraudou as últimas eleições para se manter no poder, foi incapaz de recuperar o PIB venezuelano da queda de mais de 70% durante o chavismo (estima-se que mais de metade da população viva em pobreza extrema) e é com frequência citado como violador contumaz de direitos humanos — a última missão da ONU constatou em dezembro um “padrão de uma década de mortes, detenções arbitrárias, tortura e violência sexual” dirigidas contra opositores do regime. Nada disso, contudo, pode servir de justificativa à incursão dos Estados Unidos que o depôs. Trocar Maduro por um futuro incerto não trará alívio ao povo venezuelano.

Depois de promover uma campanha militar que deslocou 15 mil soldados e deixou pelo menos 42 mortos em 11 ataques nas águas caribenhas desde setembro — alegando combater o tráfico de drogas —, o presidente americano, Donald Trump, anunciou ter capturado Maduro numa “investida de larga escala contra a Venezuela”, que atingiu portos, aeroportos e instalações militares. De acordo com a Casa Branca, Maduro e sua mulher foram transferidos aos Estados Unidos para ser julgados sob acusações ligadas ao narcoterrorismo.

Por mais que houvesse motivos para depô-lo, a ação violenta em solo estrangeiro contra um governante local despertou reação instantânea — e justificada — de repúdio na comunidade internacional democrática. “Os bombardeios em território venezuelano e a captura de seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável”, afirmou em comunicado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.” Posição semelhante foi manifestada pelos governos da Colômbia e do Uruguai. Lula ainda afirmou que a ação “lembra os piores momentos da interferência” externa na América Latina e exortou ao “diálogo” e à “cooperação”.

Em contraste, líderes latino-americanos da ultradireita nacionalista, afinados com Trump, celebraram o ataque americano. O presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, afirmou que foi uma boa notícia para a América Latina. O governo paraguaio classificou Maduro como “líder de uma organização criminosa”. O argentino Javier Milei o definiu como “maior inimigo da liberdade no continente”. Na Europa, contudo, a reação foi menos virulenta. A líder ultradireitista francesa Marine Le Pen, ainda que criticando Maduro, condenou o ataque: “A soberania dos Estados nunca é negociável, qualquer que seja seu tamanho, qualquer que seja sua potência, qualquer que seja seu continente. Ela é inviolável e sagrada”. Oficialmente, a União Europeia reafirmou não reconhecer a legitimidade do regime de Maduro, mas defendeu uma “transição pacífica e democrática”. “Qualquer solução deverá respeitar a lei internacional e a Carta das Nações Unidas”, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen.

O diálogo de bastidores entre americanos e Maduro estava em curso havia meses — e a esta altura é ocioso especular sobre os motivos do fracasso. Com a resposta militar, Trump confirmou na prática os princípios de seu ideário geopolítico que, a exemplo da Doutrina Monroe do século XIX, encara a América Latina como prioridade e alvo legítimo. Por mais que afirme combater o narcoterrorismo, é inegável o interesse americano nos recursos naturais venezuelanos, em especial as reservas de petróleo. Trump alega, com base numa leitura enviesada dos fatos, que tem como objetivo recuperar o que os venezuelanos “roubaram”. A Venezuela nacionalizou sua indústria do petróleo em 1976, compensando as empresas americanas expropriadas. Nos anos 1990, reabriu o setor à participação do capital estrangeiro, mas o regime bolivariano mais uma vez decidiu nacionalizar tudo, e algumas empresas americanas se queixam de não terem sido até hoje devidamente compensadas. É isso que Trump chama de “roubo”.

A incursão americana também abriu um precedente perigoso ao estimular pretensões imperiais de outras nações sobre territórios soberanos. É caso da Rússia, que invadiu a Ucrânia com base em argumentos falaciosos. Poderá, no futuro, ser o caso da China, que até hoje considera Taiwan uma província rebelde e jamais escondeu a intenção de reintegrá-la a seu território. Para Trump, tudo isso pode ser irrelevante. Para o resto do mundo, não é.

Quanto aos venezuelanos, seu destino é incerto. Trump afirmou que os Estados Unidos “governarão o país até uma transição segura, criteriosa e adequada”. Questionado sobre detalhes, não descartou o envio de soldados, embora não haja tropas americanas em solo venezuelano e, mesmo sem Maduro, chavistas mantivessem controle sobre instituições e infraestrutura. Trump disse contar com apoio da vice-presidente Delcy Rodríguez, que afirmou “supor ser agora presidente”. Num pronunciamento em rede nacional, contudo, Delcy o desmentiu. Declarou que Maduro continuava a ser o único presidente e conclamou o povo venezuelano a resistir à investida americana. A líder da oposição e vencedora do Nobel da Paz, María Corina Machado, celebrou a queda do ditador e disse que o poder deveria ser assumido pelo vencedor legítimo das eleições de julho, o diplomata Edmundo González. Trump descartou, porém, qualquer liderança de María Corina num futuro governo. “Seria difícil, ela não conta com o apoio nem com o respeito de todo o país”, afirmou.

Na realidade, ainda não se sabe o que farão as Forças Armadas, até agora predominantemente leais ao regime bolivariano, embora eivadas de dissidências. O ideal seria o país resgatar a democracia pela via pacífica, sem a presença americana. Cabe à comunidade internacional protestar contra a agressão a soberania venezuelana. A Venezuela já foi exemplo de estabilidade política, e nada impede que volte a ser. Precisaria, para isso, superar o estigma do chavismo. Infelizmente, o ataque de Trump nada faz por isso.

Trump impõe a força sobre a lei na América Latina

Por Folha de S. Paulo

Não fará falta Nicolás Maduro, mas o método civilizado para lidar com tiranos não é a agressão militar

O sistema de freios e contrapesos mais reputado da história não tem sido suficiente para conter o ímpeto intervencionista de Trump

A agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela reinaugura um período sombrio na relação entre a superpotência planetária e seus vizinhos americanos. O presidente Donald Trump manifestou em ato todo o seu desprezo pelo império da lei internacional para impor sua vontade pessoal.

Não que a ditadura de Nicolás Maduro mereça defesa. Ninguém sentirá falta do tirano que encabeçou o regime violento, ilegítimo, perdulário e corrupto. O chavismo empobreceu a nação e promoveu a maior crise humanitária do século nas Américas.

A fome, a perseguição e a falta de perspectivas expeliram cerca de 15% da população venezuelana sob a aventura inaugurada em 1999 por Hugo Chávez.

O fracasso chavista foi tamanho que apodreceu o Estado, encharcado de apaniguados e generais. Só um governo frágil, crivado por venalidade e colaboracionismo, permite que helicópteros dos EUA sobrevoem com tranquilidade os alvos e que as forças norte-americanas extraiam Maduro e a esposa do país.

Há, porém, muitos regimes nefastos no mundo. O método autorizado na carta da ONU para lidar com eles não é a força bruta. Há que respeitar a soberania territorial e a autodeterminação dos povos. Cabe apenas à população nacional decidir sobre o governo, nunca a uma nação invasora.

O que se pode fazer é pressão diplomática, terreno em que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fracassou com o seu convidado de honra Nicolás Maduro, embargos comerciais e denúncias contra malfeitores em cortes internacionais. Estão, portanto, corretas as nações, entre elas o Brasil, que condenaram a brutal intervenção armada dos EUA.

O pretexto apresentado por Trump para capturar o ditador venezuelano, de que Maduro responde a acusações como a de narcoterrorismo, tampouco o autoriza, sob o direito internacional, a invadir e atacar outro país.

O palavrório não passa de estratagema para burlar a obrigação de solicitar autorização do Congresso para operações militares desse porte. Mais realista é seu propósito de fazer empresas americanas voltarem a lucrar com o petróleo venezuelano.

A ação cristaliza o retrocesso das relações internacionais para um quadro parecido com o anterior à Primeira Guerra.

Cada potência confere a si mesma o direito de intervir na vizinhança e dá cheque em branco para outras fazerem o mesmo. Isso é o que a Rússia quer para continuar a agredir vizinhos, a China, para atacar Taiwan, e Israel, para ocupar o que resta da Palestina.

Para a América Latina, em especial, a doutrina trumpista abre perigoso precedente. Esboroou-se uma camada de proteção contra investidas na região. O sistema de freios e contrapesos mais reputado da história não tem bastado para tirar das mãos de um presidente mercurial e antidemocrático os meios de destruição mais aniquiladores já desenvolvidos pelo engenho humano.

Os fins, os meios e o dia seguinte na Venezuela

Por O Estado de S. Paulo

Depor Maduro tira de cena um notório tirano, mas os fins não justificam os meios. E sem transição institucional democrática, a força que derruba ditadores corrói a ordem que alega proteger

A captura de Nicolás Maduro por forças militares dos EUA não desperta lamento quanto ao destino do ditador, mas isso não equivale a endossar os meios empregados pelo presidente Donald Trump. Maduro era um governante ilegítimo, após fraudar eleições, e sustentava seu regime por meio do aparelhamento do Estado, da criminalização da oposição, da repressão violenta da sociedade civil e do colapso deliberado da economia venezuelana. Sua queda, em si, não é o problema. O problema começa quando se supõe que a Venezuela tornou-se um país democrático da noite para o dia.

A política externa é sempre um exercício de tensão entre fins e meios, entre o poder e a legitimidade. Derrubar um tirano pode ser um objetivo defensável. Transformar operações extraterritoriais unilaterais em prática recorrente, conduzidas sem transparência institucional, à margem do Direito Internacional – a rigor, da própria ordem jurídica dos EUA – e anunciadas como espetáculo político, é outra coisa. Bons fins não dispensam prudência; exigem-na. Quando a exceção vira método, o êxito tático cobra seu preço estratégico.

A legalidade, aqui, não é um fetiche jurídico nem um álibi progressista. É um instrumento de contenção do próprio poder. Governos que agem sem limites claros podem vencer batalhas pontuais, mas enfraquecem o sistema que afirmam proteger. A história recente oferece exemplos suficientes de como a eficiência inicial pode ocultar déficits duradouros de legitimidade, corroendo alianças e incentivando respostas oportunistas de adversários. Nesse sentido, causa espanto a intenção declarada por Trump de manter a Venezuela sob governo dos EUA “até que uma transição adequada possa ocorrer”.

O maior teste da operação militar norte-americana está menos no que ocorreu na madrugada de hoje, e mais no que se segue. Quem governa a Venezuela no dia seguinte? Com que autoridade? Sustentado por quais instituições? A queda de um regime em grande medida personalista não dissolveu automaticamente as redes que o sustentavam: militares cooptados, milícias armadas, economias ilícitas e atores externos interessados no vácuo de poder. Libertação sem governança costuma ser apenas uma pausa entre desordens.

Há, é verdade, um dado relevante. Diferentemente de outros colapsos recentes, a Venezuela dispõe de uma oposição com legitimidade eleitoral reconhecida e amplo apoio social. Isso é um ativo raro. Mas ativos políticos não se convertem sozinhos em estabilidade. Transições bem-sucedidas exigem pactos, previsibilidade, reconstrução institucional e justiça – não revanche. Democracias não nascem de operações especiais; nascem de regras aceitas – inclusive, e sobretudo, por quem perde.

No plano global, a questão é ainda mais ampla. A ordem internacional não se desgasta apenas por discursos revisionistas, mas quando práticas excepcionais passam a se repetir sem critérios estáveis. O risco não é apenas erosão gradual do Direito Internacional, mas a substituição brutal de normas por decisões ad hoc, calibradas pela conveniência política do momento. Não surpreende que a primeira reação da comunidade internacional tenha sido de assombro, seguido da defesa de uma “transição pacífica e democrática, com respeito à Carta da ONU”, como pediu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

O argumento oficial do combate ao narcotráfico e da segurança energética tampouco resolve o dilema. Quando esses critérios são aplicados de forma seletiva, conforme a conveniência política, perdem força normativa. Força usada sem coerência produz obediência momentânea, não estabilidade duradoura.

Nada disso equivale a defender o status quo. A Venezuela precisava de uma saída. A questão é se a forma escolhida amplia ou reduz as chances de que essa saída resulte em algo melhor. De um ponto de vista democrático liberal, o juízo final recai menos sobre a audácia da ação, e mais sobre suas consequências institucionais. O que separa uma transição democrática de um novo impasse de consequências imprevisíveis não é a força empregada, mas a capacidade de transformar poder em ordem. Esse é o desafio que começa agora.

Sequestro de Maduro por Trump é ruptura geopolítica

Por Correio Braziliense

Trata-se de uma sinalização inequívoca de que a América Latina volta a ser vista como zona de tutela estratégica, em linha com uma releitura agressiva da velha Doutrina Monroe

O sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos, anunciado com naturalidade por Donald Trump em uma coletiva de imprensa, marca uma ruptura geopolítica sem precedentes na América Latina desde o fim da Guerra Fria. Não se trata apenas de mais um capítulo da longa crise venezuelana, mas de uma inflexão estratégica que recoloca a intervenção militar direta como instrumento explícito da política externa norte-americana no hemisfério.

Ao capturar um chefe de Estado estrangeiro, bombardear alvos estratégicos em Caracas e declarar a intenção de governar a Venezuela até uma transição "criteriosa", Washington ultrapassa limites que vinham sendo, ao menos formalmente, respeitados desde o trauma das intervenções do século 20 na América Latina. O discurso de Trump — reforçado pelo secretário de Estado Marco Rubio e pelo secretário de Defesa Pete Hegseth — deixa pouca margem a interpretações benevolentes. A operação militar, descrita com detalhes técnicos e orgulho bélico, foi apresentada como modelo de eficiência na "caça a terroristas", equiparando um presidente latino-americano, por mais contestado que seja, a um inimigo militar.

Mais grave ainda foi a associação explícita entre a intervenção e o controle do petróleo venezuelano, com a promessa de entrada de grandes empresas americanas para "consertar" a infraestrutura e "gerar lucro". A linguagem é colonialista. Não à toa, Trump estendeu ameaças veladas a outros países da região. O presidente colombiano, Gustavo Petro, foi advertido em público, Cuba foi citada como próximo "assunto" e a ideia de tropas americanas em solo venezuelano foi tratada como algo já consumado.

Trata-se de uma sinalização inequívoca de que a América Latina volta a ser vista como zona de tutela estratégica, em linha com uma releitura agressiva da velha Doutrina Monroe. O sequestro de Maduro, nesse sentido, sim, encerra um ciclo político venezuelano; porém, inaugura outro, muito mais instável, tanto para a Venezuela quanto para os governos latino-americanos com os quais Trump tem diferenças ideológicas. A experiência de intervenções norte-americanas ao redor do mundo, porém, mostra que os êxitos militares não significaram sucesso político, econômico e social, como vimos no Iraque, na Síria, na Líbia, no Afeganistão, na Nigéria e em outros países.

Nesse contexto, é relevante a posição do Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por uma postura de defesa da não intervenção, da paz e age com cautela institucional, em consonância com a melhor tradição da política externa brasileira. A reunião de emergência no Itamaraty, a preocupação com a segurança da fronteira e a recusa em endossar aventuras militares refletem uma visão de Estado democrática: crises regionais não se resolvem com ocupação estrangeira, mas com diplomacia, mediação e soluções multilaterais.

Essa posição não significa complacência com autoritarismos nem indiferença ao sofrimento do povo venezuelano. Significa, sim, o reconhecimento de que a força bruta tende a produzir colapsos políticos, crises humanitárias e efeitos transbordantes, especialmente para países vizinhos como o Brasil, o Chile, a Guiana e a Colômbia. O próprio governo brasileiro avalia que uma ofensiva desse tipo pode aprofundar o caos social e gerar impactos diretos sobre a estabilidade regional.

Ao defender a paz e a soberania, o Brasil reafirma um princípio histórico: a América do Sul não pode ser palco de disputas imperiais nem laboratório de soluções armadas. O sequestro de um presidente, a promessa de administrar um país estrangeiro e a apropriação explícita de seus recursos naturais configuram uma ruptura geopolítica que ameaça não apenas a Venezuela, mas todo o equilíbrio regional. Diante desse cenário, devemos insistir no multilateralismo, no direito internacional e na recusa à lógica do "fato consumado". Essa posição pode parecer discreta, porém, é estratégica: quando a força substitui o direito, ninguém está realmente seguro.

Lei da alienação parental em xeque

Por Folha de S. Paulo

Em 15 anos, aplicação da norma deu margem a distorções que podem ser injustas e colocar crianças em risco

Segundo o Conselho Federal de Psicologia, o diploma pode acirrar conflitos familiares e tem base científica pouco sólida

A lei da alienação parental mostra como apenas boas intenções de parlamentares são insuficientes para alcançar os resultados pretendidos. Mas também é um lembrete para o fato de que normas que não passam no teste da realidade podem e devem ser rediscutidas pelo Legislativo.

O diploma, sancionado em 2010, visa conter a "interferência na formação psicológica da criança" promovida por um dos genitores contra o outro —desqualificando um dos pais ou dificultado a convivência com o filho, geralmente durante processos de separação do casal.

Nesses 15 anos, porém, na prática deu margem para aplicações desproporcionais pelo Judiciário e, portanto, merece ser revista.

É nesse sentido que caminha o Congresso Nacional. Em dezembro, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a revogação da lei. Caso não haja recurso para votação no plenário, o texto irá ao Senado e, se aprovado, extinguirá o diploma.

Os processos de alienação parental dispararam na pandemia, chegando a 10.950 ações em 2020 —alta de 171% ante 2019, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça. Maior convivência familiar, escassez financeira e o aumento da violência doméstica são fatores relacionados aos números.

Para os críticos, entre eles o Conselho Federal de Psicologia, a base científica de lei é pouco sólida e sua aplicação pode acirrar conflitos familiares, em vez de apaziguá-los. Ademais, ao exigir análise psicológica das partes, cria-se um mercado lucrativo para especialistas, desvirtuando o propósito de proteção à criança.

A punição a infratores pode ir de advertência e multa, passando por alteração da guarda, até a suspensão da autoridade parental.

Pais reclamam que são afastados dos filhos após serem alvo de acusações infundadas de abuso sexual, e, por sua vez, apresentam a alegada falsa denúncia como base para abrir processo de alienação parental contra mães.

Estas alertam para os riscos de a Justiça delegar a guarda de crianças a abusadores, o que por óbvio deveria ser inadmissível. Mesmo que a lei tenha sido alterada em 2022 para impedir concessão de guarda compartilhada a quem seja investigado ou processado por crimes contra menores de idade ou violência doméstica, já há regras no Código Civil e no Estatuto da Criança e do Adolescente, entre outros dispositivos legais, que protegem os mais jovens e preveem critérios para o exercício do poder familiar.

Com distorções que colocam em risco o bem-estar de crianças que a lei busca proteger, é de fato preciso colocá-la em xeque.

Um ano decisivo para o Brasil

Por O Estado de S. Paulo

O ‘Estadão’, que hoje faz 151 anos, chama a atenção para os temas centrais das eleições de 2026: das contas públicas ao reequilíbrio institucional, será um pleito crucial para o futuro do País

Ao completar 151 anos hoje, O Estado de S. Paulo renova o compromisso firmado com a sociedade brasileira em sua edição inaugural: servir ao interesse público e defender o Estado de Direito e a democracia liberal, independentemente de governos, maiorias circunstanciais ou pressões ideológico-partidárias.

O aniversário deste jornal coincide com o início de um ano decisivo para o País. Em 2026, milhões de cidadãos irão às urnas. Não se trata de um pleito ordinário. Se toda eleição é importante, desta vez o Brasil estará diante de escolhas capazes de definir seu futuro institucional, econômico e social por décadas à frente.

É cedo para afirmar quem serão os candidatos aos cargos em disputa, mas não há incerteza quanto aos temas mais prementes que devem orientar o debate público e, sobretudo, instruir o voto consciente. O primeiro é a situação das contas públicas. O País se aproxima perigosamente de um ponto de colapso fiscal. Dados da Instituição Fiscal Independente, do Senado, mostram que mais de 90% do Orçamento já está comprometido com despesas obrigatórias, como Previdência, pagamento do funcionalismo e custeio de benefícios sociais. Assim, resta margem cada vez menor para investimentos em infraestrutura, saneamento básico, inovação e crescimento sustentável.

Esse quadro de engessamento é agravado pela queda da arrecadação em proporção ao PIB e pela notória aversão do atual governo à contenção de gastos. Em nome de sua reeleição, a disposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é de ampliar despesas sem qualquer lastro fiscal. O risco de um “apagão fiscal” a partir de 2027 é real: o Estado poderá não dispor de dinheiro sequer para manter serviços básicos, que dirá investir. Ignorar essa ameaça ao longo do debate eleitoral é condenar o Brasil à mediocridade, com efeitos especialmente perversos sobre os mais pobres.

Outro tema central será a segurança pública. A violência urbana afeta de forma particularmente cruel as camadas mais vulneráveis da população, transformando a vida cotidiana num inferno e corroendo a confiança nas instituições. A esquerda, ao insistir em uma leitura ideologizada da criminalidade, fracassou em oferecer respostas. Ao relativizar a violência e transformar o criminoso em “oprimido”, acabou por abandonar justamente aqueles que mais sofrem com o abandono do Estado. A direita, por sua vez, instrumentaliza o medo legítimo dos cidadãos ao oferecer soluções tão simplistas quanto perversas, baseadas na força bruta e na retórica da morte. Nenhum desses caminhos serve ao Brasil.

No plano institucional, 2026 será marcado pela renovação de dois terços do Senado. Trata-se de uma eleição particularmente relevante. É previsível a proliferação de candidaturas que tenham como plataforma central o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal. Até recentemente, essa agenda estava restrita ao bolsonarismo. Hoje, porém, o desconforto com abusos recorrentes e comportamentos incompatíveis com a sobriedade exigida dos membros da Corte ultrapassou as fronteiras ideológicas.

Esse mal-estar, contudo, não pode ser confundido com tentativas de deslegitimação do Supremo. A defesa da Constituição exige simultaneamente respeito à instituição e cobrança firme por autocontenção, transparência e regras claras de conduta, como demonstra o crescente apoio da sociedade civil à adoção de regras básicas de comportamento para ministros da Corte. Conter excessos é fortalecer a democracia, não o contrário.

Por fim, os eleitores devem prestar atenção à qualidade de sua representação no Congresso. O Legislativo tem alimentado a antipatia popular ao se fechar em interesses corporativistas, ampliar o controle sobre o Orçamento por meio de emendas sem transparência e blindar seus membros de mecanismos de responsabilização. Ainda assim, a depuração institucional não passa pela negação da política, mas por seu exercício mais qualificado.

O Brasil chega a 2026 exausto da polarização estéril entre Lula e o eventual preposto de Jair Bolsonaro. O País é livre para escolher outro caminho. Cabe aos cidadãos transformar o fastio em discernimento. E cabe à imprensa profissional cumprir sua missão de iluminar o debate público. O Estadão segue fiel a esse propósito.

Irresponsabilidade municipal

Por O Estado de S. Paulo

Cidades atrasam contas e empurram despesas, enquanto queimam repasses federais

Um levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) indicou o grau de estrangulamento das contas públicas das cidades brasileiras. Quase um terço delas está com o pagamento de seus fornecedores em atraso e não terá verba para quitar suas despesas neste ano. Das 4.172 cidades mapeadas, que representam 75% do total de municípios, nada menos do que 1.202 (29%) admitiram ter contas em aberto e 1.293 (31%) afirmaram que vão deixar restos a pagar para 2026. Com um detalhe: as prefeituras vão empurrar suas despesas sem ter uma fonte de recurso suficiente para honrá-las.

Claro que, a depender das justificativas dos gestores municipais, o inferno sempre são os outros. Ao Estadão, o presidente da Confederação Nacional dos Municípios, Paulo Ziulkoski, apressou-se em culpar o governo federal e o Congresso por criarem despesas que deverão ser arcadas, em breve, pelas prefeituras. Citou a aposentadoria integral e paritária para os agentes comunitários de saúde, o piso salarial dos enfermeiros e a implementação das escolas em tempo integral. Segundo Ziulkoski, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva “não para de criar pepino”.

Que o petismo é uma máquina de gastança ninguém duvida, mas a atual situação de insolvência de muitas prefeituras não tem a ver apenas com decisões erradas do atual governo. Como mostrou recentemente um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), mais de um terço dos municípios já está em situação fiscal difícil ou crítica. Isso porque, segundo o Índice Firjan de Gestão Fiscal (IFGF), essas cidades são incapazes de se sustentar com recursos próprios.

O Fundo de Participação dos Municípios (FPM), irrigado com dinheiro da União, é que dá sobrevida a muitas cidades. Só em 2024 foram repassados R$ 177 bilhões, o maior volume da história. E, no final de 2025, o Congresso, apontado como vilão pelos próprios municípios, aprovou o adicional de 1% sobre o valor do fundo para socorrê-los. Soma-se a isso o montante bilionário de emendas parlamentares que chega às cidades. Não menos importante, vale lembrar que, durante a pandemia da covid, o governo de Jair Bolsonaro promoveu uma avalanche de repasses. Segundo o Banco Central, as prefeituras tinham saldo de R$ 45,7 bilhões em agosto de 2022. Em fevereiro de 2024, o rombo já era de quase R$ 15 bilhões. Como se vê, não faltou nem falta dinheiro.

Mesmo cada vez mais dependentes de recursos federais, haja vista que são incapazes de gerar receitas, os municípios brasileiros têm contratado uma crise atrás da outra, que em geral sobra para o sucessor. Prova disso é o aumento dos gastos permanentes, com a distribuição de reajustes salariais e a contratação de novos servidores, inchando ainda mais a máquina pública. Com isso, mais da metade dos municípios (54%) operavam com déficit desde meados de 2025, e 30% atrasaram o pagamento a fornecedores. São decisões equivocadas tomadas pelos gestores municipais que levaram a essa situação periclitante das contas públicas. A esse conjunto de escolhas políticas inconsequentes dá-se o nome de irresponsabilidade fiscal.

O bom momento do turismo brasileiro

Por O Povo (CE)

O Brasil confirmou, neste primeiro dia de 2026, combinado com o último de 2025, sua condição de um dos melhores destinos turísticos do mundo, atualmente, quando se trata de comemorar a passagem de ano. Há poucos outros países com capacidade igual de gerar momentos realmente marcantes numa data que é comemorada, no plano global, com igual intensidade, mas que, cada vez mais, atrai visitantes de fora para as nossas cidades devido à forma peculiar de celebração que aqui é possível encontrar.

Há o caso emblemático da cidade do Rio de Janeiro, que, inclusive, acaba de receber um certificado de reconhecimento à força de sua festa de Réveillon com a inclusão no livro dos recordes, o Guiness. Calcula-se que 5,1 milhões de pessoas foram mobilizadas nos eventos organizados para a noite da última quarta-feira, madrugada de quinta, claro que contados moradores e visitantes. Para se ter uma ideia da força econômica deste fenômeno, a rede hoteleira da capital fluminense teve, durante o período, 90% de sua capacidade de leitos ocupada.

É animador, dentro disso, que Fortaleza tenha consolidado seu calendário para a data, inserindo-se entre as cidades brasileiras que realizam as maiores festas. A Prefeitura estimou em 1,5 milhão o número de pessoas mobilizadas pelo evento que realizou, valendo registrar o acerto de descentralizá-lo, organizando shows também no Conjunto Ceará e Messejana, que se somaram àquele já consagrado que acontece na Praia de Iracema.

A verdade é que somos um País com muitos problemas, destacando-se entre os primeiros a insegurança pública que, infelizmente, prevalece nos grandes centros urbanos. Pois bem, mesmo sendo tudo isso uma realidade que não nos cabe negar que exista, continuamos como escolha preferencial de muita gente mundo afora para comemoração de uma data de muitos significados.

O momento do turismo brasileiro é excepcional e o que aconteceu nas festas de passagem de ano apenas confirma tal realidade. A temporada de 2025 chegou ao fim com um recorde de pessoas que visitaram o País e este novo êxito certamente contribuirá para que, no futuro, mais gente inclua nossas cidades entre as opções de viagem.

Em números, para quantificar a fase excepcional que experimentamos, foram 9 milhões de turistas no ano passado, representando 40% mais do que os 6,7 milhões do ano anterior, performance que permitiu ao Brasil registrar o maior crescimento global do período. Estima-se que o impacto nas receitas tenha chegado a US$ 7,2 bilhões, beneficiando diretamente um setor que emprega 8,2 milhões de pessoas.

São números que, embora expressivos, ainda parecem longe do potencial real de que dispomos, a partir de situações como a que acabamos de experimentar com a temporada de Réveillon. Eis um tema que, talvez, seja possível colocar acima das polarizações e gerar uma chance rara de unidade nacional em torno de um objetivo comum.

 

Fuerza bruta en Venezuela

POR El País (ESPANHA) Editorial

Editorial El Pais (Espanha), 4/12/2026

La intervención militar de Estados Unidos contra el régimen autoritario de Maduro vulnera el derecho internacional; es necesaria una desescalada inmediata para una solución democrática y pacífica

La captura del presidente Nicolás Maduro tras una operación militar de Estados Unidos en Venezuela que vulnera las leyes internacionales abre un escenario peligroso. El riesgo de este momento es doble. Por un lado, que se pretenda presentar una operación militar ilegal como sinónimo de liberación democrática. Por otro, que el chavismo utilice la intervención extranjera y la captura de su líder como coartada para cerrar filas, militarizar aún más el país y justificar una represión sin límites bajo el discurso de la defensa nacional. Ninguna de las dos narrativas resiste un análisis serio. La violencia, venga de donde venga, no construye instituciones ni restituye derechos.

La decisión de Donald Trump culmina un año de política exterior impulsiva, personalista, que ignora las normas multilaterales. Trump no actúa aquí como garante de la democracia, sino que sitúa la fuerza por encima del derecho. Otras potencias tomarán nota de las nuevas reglas cuando miran a Taiwán o a Ucrania. Señalarlo no es una defensa del régimen venezolano, sino una advertencia: la democracia no se exporta a golpe de misil ni se impone desde el aire. Mucho menos cuando quien la invoca ha mostrado reiteradamente su desprecio por las instituciones.

Esa deriva quedó aún más clara cuando el propio Trump afirmó que Estados Unidos “dirigirá” Venezuela hasta que haya una “transición segura”, asumiendo de facto el control del país y sin mencionar en ningún momento a la oposición democrática venezolana. La afirmación es inaceptable. No existe transición legítima bajo tutela extranjera ni democracia posible si el futuro de un país se administra desde fuera como un protectorado.

A esa pretensión política se suma otra no menos alarmante: el anuncio de que compañías estadounidenses se harán cargo de la industria petrolera venezolana para “hacer dinero”, lo que refuerza la percepción de que la intervención no busca restituir derechos, sino administrar poder y riqueza. Aunque se invoque la reconstrucción de una infraestructura devastada, se trata de una apropiación externa por la fuerza de los recursos naturales que confunde ayuda, inversión y dominación económica.

Son horas de confusión en cuanto al liderazgo real del régimen venezolano. Pero una hipotética transición solo será legítima si es pacífica, ordenada y pactada. En ese sentido, la decisión de la líder opositora María Corina Machado de no llamar a la salida a la calle en medio de la escalada militar, sino a la espera y a la contención, apunta en la dirección correcta. No es un gesto de debilidad, sino de responsabilidad política de quien en 2024 ganó las elecciones con Edmundo González como candidato. No hay atajos duraderos. América Latina conoce bien las consecuencias de las soluciones impuestas por la fuerza. Condenar la operación militar no legitima a Maduro, un presidente ilegítimo tras años de fraude electoral, represión, anulación de la separación de poderes y persecución de la disidencia.

La prioridad inmediata debe ser una desescalada urgente y descartar cualquier operación militar adicional como ha amenazado Trump. La comunidad internacional, empezando por Europa y los países de la región, debe ser coherente: condenar cualquier violación del derecho internacional y, al mismo tiempo, reconocer con claridad dónde reside hoy la legitimidad democrática en Venezuela. Ese problema no es coyuntural ni táctico: se llama autoritarismo, corrupción y narcotráfico. El respeto a las normas internacionales y la exigencia de que se respete el mandato expresado en las urnas por los venezolanos hace un año no son objetivos incompatibles. Son, de hecho, inseparables.

Para el chavismo, este momento marca un punto de inflexión histórico. Lo más responsable que pueden hacer quienes aún sostienen el régimen es deponer la violencia y aceptar que el ciclo está agotado. La ciudadanía ya habló en las urnas. Dejar que triunfe la democracia no significa entregarse a un líder extranjero ni someterse a una agenda ajena, sino reconocer que ningún proyecto político puede sostenerse indefinidamente contra su propio pueblo.

En medio de la confusión y la propaganda cruzada, hay una certeza que no debería perderse: no habrá democracia sin reglas, ni reglas sin contención de la fuerza. La desescalada inmediata es el primer paso indispensable. El siguiente es abrir un proceso de transición que respete el resultado electoral de julio de 2024, cierre de verdad la etapa del chavismo autoritario y devuelva a los venezolanos algo que les ha sido negado durante demasiado tiempo: la posibilidad de decidir, sin miedo y sin tutelas, el destino de su país.

 


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