CartaCapital
Trump foi transparente em relação à intenção
de saquear os recursos naturais da América Latina
Teotihuacan é o local onde o tempo nasceu.
Foi ali que os deuses se reuniram para criar o Quinto Sol. Para os astecas, a
Terra havia sofrido quatro criações e destruições anteriores e, graças ao
sacrifício dos deuses, o sol que brilhava sobre eles foi criado de novo,
precisamente em Teotihuacan.
Hoje, vivemos a criação de um novo sol. Uma nova ordem que parece ter, precisamente na geografia da América Latina, seu primeiro rascunho. A silhueta que ele desenha, porém, nos remete aos dias mais nefastos de nossa história. Uma intervenção armada, o sequestro ilegal de um chefe de Estado e um alerta para toda a região de que sua autonomia será castigada.
Donald Trump foi transparente: quer o petróleo e o controle do hemisfério. Nem sequer
citou a palavra “democracia” ao comentar a incursão militar na Venezuela, durante
uma coletiva de imprensa. Apenas confirmou o que Eduardo Galeano já havia
alertado sobre o fato de o percurso da América Latina ser la historia del
despojo de los recursos naturales.
Numa era digital, globalizada e virtual, ao
contrário do que poderíamos imaginar, o controle de territórios volta a ser
fundamental e estratégico. A inteligência pode ser artificial, mas está no
subsolo sua massa cinzenta. E, assim, nossa região deixa de ser irrelevante.
Para seu desespero.
É no triângulo entre Chile, Argentina e
Bolívia que estão 60% das reservas de lítio do mundo. A Venezuela está erguida
sobre um tesouro repleto de ouro e petróleo. O Brasil tem a segunda maior
reserva de terras-raras do mundo, atrás apenas da China, principal rival dos
EUA. Metade da prata do mundo vem da América Latina, assim como 40% do cobre,
22% do zinco e 10% do níquel. A Amazônia faz parte de qualquer equação que
possa determinar o futuro da sobrevivência da espécie humana no planeta. Temos
um terço da água doce do mundo.
Marco Rubio, ao explicar a intervenção dos EUA em Caracas, não mediu
palavras para alertar que seu governo não vai tolerar que tamanha riqueza seja
cobiçada por outras potências. Invertendo a canção, a ideia é de que, sim,
podem comprar o sol, podem comprar a chuva.
Antes mesmo de assumir a Presidência, o
movimento de ultradireita nos EUA havia já mapeado todos os pontos estratégicos
da região que estavam nas mãos de potências estrangeiras, principalmente a
China. A conclusão é que tal cenário seria inaceitável para a segurança
nacional norte-americana.
Quando a nova estratégia de segurança
nacional dos EUA foi publicada, em dezembro, essa conclusão ganhou um
componente de política pública: a Casa Branca vai declarar sua ambição e
interesses por esses pontos estratégicos do continente, inclusive por meios
militares. Uma das instruções foi para que a CIA atuasse diretamente na
identificação de áreas de recursos naturais estratégicos aos EUA na América
Latina. Tudo isso estava escrito.
Antes, contavam histórias, inventavam
narrativas para justificar intervenções. Hoje, sem pudor, abandonam o teatro,
apenas para explicitar que tudo não passa de uma ofensiva por instrumentos para
garantir um espaço de hegemonia no século 21.
Retomam a ideia de protetorados,
inclusive quando não precisam disparar uma só bala e contam com o entreguismo
de uma ala da elite latino-americana, ávida por ser recompensada pela traição.
No caso brasileiro, a depender do resultado das eleições deste ano, Trump não
precisará sequer usar seu arsenal militar ou de sanções. Tudo será devidamente
entregue de bandeja. São poucos os países que podem dar-se ao luxo de ter a
presença de harpias, o maior predador dos céus e a mais poderosa ave de rapina.
Não por acaso, seu nome é inspirado na mitologia grega, símbolo de espíritos
malévolos do vento, com rosto humano e corpo de abutre.
Parecem ecoar de novo pelos vales do
continente as frases de Galeano. “Ahora América es, para el mundo, nada más que
los Estados Unidos: nosotros habitamos, a lo sumo, una sub América, una América
de segunda clase, de nebulosa identificación. Es América Latina, la región de
las venas abiertas”, alertou.
Não é só o petróleo. O riquíssimo subsolo da
região, com grandes jazidas de lítio, cobre, terras-raras e outros minerais
estratégicos, despertou o apetite das rapinas do Norte
As veias seguem abertas. Após a queda de
Maduro, Trump nem sequer disfarça sua ambição em seguir com sua diplomacia das
canhoneiras. Para atender à base mais radical de seu governo, a ofensiva cumpre
ainda uma missão ideológica: encerrar com qualquer foco de resistência ao
sistema capitalista ou à hegemonia dos EUA.
Cuba, portanto, está na mira, e Havana parece
ser destinada a viver mais uma vez um capítulo central na história do
continente. A capital da ilha nunca foi apenas mais uma cidade. Seria ingênuo
dizer que ela tem uma história. Havana tem uma biografia. Foi
protagonista do fim do império espanhol, da construção da superpotência
norte-americana. Foi o palco de uma tensão que deixou o planeta sem saber se
teríamos um amanhã. Mas também embalou o mundo com suas melodias.
Em cada uma de suas ruelas, é como se o caleidoscópio
de Alejo Carpentier penetrasse uma nova imagem no imaginário coletivo
latino-americano. Ele dizia que hablar de revoluciones, imaginar
revoluciones, situarse mentalmente en el seno de una revolución, es hacerse un
poco dueño del mundo.
Agora, Havana pode voltar a ocupar esse
lugar. O modelo, esgotado e sem o petróleo venezuelano, está ameaçado. No
Malecón, qualificado como o divã mais eloquente do mundo em desenvolvimento,
basta chegar mais perto de onde as ondas quebram para descobrir que, ali, o ar
tem outro gosto. Ali, a espuma, a água e a luz explodem em sete
cores. Hoje, aqueles que circulam pelo local, em algum lugar de suas
almas, sabem que as ondas parecem trazer, sem negociação, uma ameaça
irresistível.
A ofensiva ainda ocorre num momento em que o
projeto de integração regional está enterrado. No domingo, a Comunidade de
Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) nem sequer conseguiu chegar a um
consenso sobre o maior ato de agressão à América Latina em décadas. O Mercosul
mantém-se em silêncio e, na terça-feira 6, a Organização dos Estados Americanos
(OEA) transformou-se em uma plataforma de acusações mútuas, com a
extrema-direita regional agindo para proteger Trump.
Maduro é, em muitos aspectos, indefensável.
Mas a história não é sobre ele. Nesta semana, o trágico caminho do continente
ganha mais um capítulo infausto, como se quisessem tentar nos provar,
teimosamente, que somos um hemisfério condenado. “Não temos tido sequer um
minuto de sossego”, diria Gabriel García Márquez, ao receber, em 1982, o Prêmio
Nobel de Literatura, em um discurso no qual ele percorre a história de
fantasias e dramas da região.
As veias abertas da América Latina continuam
sangrando. A esperança, ainda assim, é de que elas também resistam, como diria
Galeano.
Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.

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