Liberdade continua a ser miragem na Venezuela
Por O Globo
Repressão e cerceamento à imprensa persistem,
enquanto próceres da ditadura chavista seguem no poder
São inaceitáveis a repressão e o cerceamento ao trabalho de jornalistas na Venezuela. Embora a perseguição à imprensa seja marca indelével da ditadura chavista, esperava-se comportamento diferente depois da captura do ditador Nicolás Maduro e de sua mulher, Cilia Flores, durante a operação militar deflagrada há uma semana pelos Estados Unidos. O que acontece hoje na Venezuela é de interesse do mundo todo. É natural, portanto, que o país seja procurado por uma legião de correspondentes estrangeiros. Todos deveriam poder trabalhar com plena liberdade.
Sinal eloquente da intolerância foi dado na
posse da presidente interina Delcy
Rodríguez na Assembleia Nacional, no dia 5, quando autoridades
venezuelanas detiveram 14 jornalistas que cobriam o evento — a maioria
trabalhava para agências internacionais. Posteriormente, um dos profissionais
foi deportado, e os demais libertados. A truculência não se restringiu à
detenção. Segundo o Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa (SNTP),
celulares e equipamentos foram apreendidos e mensagens e ligações
inspecionadas, uma afronta à privacidade e à liberdade de imprensa.
Nos últimos dias, outros dois correspondentes
estrangeiros, um espanhol e um colombiano, foram detidos na fronteira entre
Cúcuta e San Antonio e libertados depois. Iniciativas desse tipo servem para
intimidar. Em Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela, jornalistas têm
recebido ordens expressas de agentes venezuelanos para não atravessar a linha.
O clima entre os profissionais é de apreensão. “Trabalhar na Venezuela implica
altíssimo risco. É um cenário de guerra”, disse ao GLOBO Patricia Rodríguez,
diretora do Notícias Ya e integrante da Associação de Imprensa Estrangeira no
país.
Os fatos mostram que pouco ou nada mudou na
turbulenta relação das autoridades venezuelanas com a imprensa. Mais de 400
veículos de comunicação fecharam nos últimos 20 anos de ditadura chavista,
segundo o SNTP. Calar a imprensa profissional era uma forma de impedir a
divulgação dos horrores que afligiam — e ainda afligem — o povo venezuelano,
abafar vozes discordantes e incensar as versões oficiais, cuidadosamente
forjadas para que o chavismo se perpetuasse no poder.
O cerco à liberdade de imprensa, pilar de
qualquer sociedade livre, é só um sintoma de que o poder na Venezuela pode ter
mudado, mas não muito. É verdade que há sinais tímidos, como o anúncio feito
pelo presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, de libertação “de um
número significativo” de presos políticos, incluindo cidadãos estrangeiros. Mas
os homens fortes do regime, como o ministro do Interior e da Justiça, Diosdado
Cabello, ou o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, continuam mandando no
país. E mandando muito.
Não se sabe o que acontecerá na Venezuela
pós-Maduro. O presidente Donald Trump tem
dito que o governo interino de Delcy Rodríguez, formado por aliados do
ex-ditador, tem cooperado com os Estados Unidos, e isso parece satisfazê-lo por
ora. O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que o governo americano
estruturou um plano em três fases. A primeira é de estabilização, a segunda, de
recuperação, e a terceira é voltada à transição política. Não há detalhes ou
prazos, o que torna o cenário incerto. Certeza é que, por enquanto, a liberdade
na Venezuela continua a ser uma miragem.
Avanço
do Congresso sobre recursos do Orçamento persiste sem controle
Por O Globo
Emendas parlamentares de R$ 61,2 bilhões
representam fatia dos gastos da União sem igual em democracias
Ao longo da última década, a captura de
recursos da União por emendas parlamentares alcançou volume nunca visto em
qualquer regime democrático. O Legislativo se converteu em executor de despesas
públicas, subtraindo parcela expressiva dos recursos orçamentários. Num país em
que o Orçamento é engessado por gastos obrigatórios, como saúde, educação,
Previdência ou folha de pagamento, o controle de fatias cada vez maiores pelo
Congresso ameaça a própria capacidade do governo federal de executar políticas
essenciais.
No Orçamento deste ano, estão previstos R$
61,2 bilhões para as emendas parlamentares, 262% a mais que os R$ 16,9 bilhões
de 2005 (em valores corrigidos). Em razão do calendário eleitoral, quase dois
terços delas deverão ser pagos no primeiro semestre. O total inclui emendas
individuais, de bancada, de comissão, emendas Pix e até emendas paralelas
(formalmente sob controle do Executivo, mas na prática executadas pelo
Congresso). Em termos reais, deputados e senadores comandam o triplo dos
recursos do que há uma década. O dinheiro é destinado a suas bases
parlamentares em geral de acordo com critérios paroquiais, e não técnicos. Vai
para localidades e projetos com as melhores conexões em Brasília, e não para
quem mais precisa.
O avanço do Congresso sobre o Orçamento
coincide com governos sem base parlamentar sólida. Em troca de apoio, o
Planalto se viu obrigado a fazer concessões sucessivas e a abrir mão do
controle que deveria exercer sobre a execução do Orçamento, como manda a
Constituição. Entre 2011 e 2014, o total de emendas não chegava a 0,5% da
receita líquida da União. No biênio 2015-16, alterações constitucionais as
fizeram saltar para 1,2%. Boa parte se tornou impositiva, com obrigação de
pagamento. Nos anos seguintes, elas não pararam de crescer e estão hoje na
faixa de 3%. Do dinheiro que o governo federal tem liberdade para gerenciar, as
emendas parlamentares representavam menos de 10% em 2014. Em 2022, alcançaram
30%. No atual governo, estão entre 20% e 25% — uma aberração sob qualquer ponto
de vista.
A falta de transparência levou, em 2022, o
Supremo Tribunal Federal (STF) a declarar inconstitucionais as emendas de
relator e a impor mecanismos de controle. Mas isso não impediu que os
parlamentares usassem de criatividade para preservar o controle sobre o
dinheiro (a mais recente são as emendas paralelas, que saltaram de R$ 8,2
bilhões em 2025 para R$ 12,1 bilhões neste ano). O ministro Flávio Dino,
relator das ações sobre as emendas no STF, tem tomado medidas cautelares para
tentar discipliná-las.
O ministro da Casa Civil, Rui Costa, declarou que o governo não pagará pelo menos R$ 11 bilhões em emendas porque o valor está “além do combinado”. Ora, não se trata de mero “acerto financeiro” entre os Poderes. Emendas são gasto público, é preciso que sigam regras sensatas. Espera-se que o julgamento dos processos no plenário do Supremo estabeleça tais regras, impondo limites ao avanço do Legislativo sobre o Orçamento.
Ainda há obstáculos para concretizar acordo
Mercosul-EU
Por Folha de S. Paulo
Pacto foi endossado pelo Conselho Europeu,
mas resistência protecionista pode retardar implementação
Esforços dos dois lados servem como resposta
aos tarifaços de Donald Trump; eventuais novos entraves resultarão em vantagens
perdidas
O acordo de livre comércio entre o Mercosul e
a União
Europeia, em negociação desde 1999, foi
endossado nesta sexta (9), em Bruxelas, por 21 dos 27 países do
bloco europeu. A opção da maioria do velho continente a uma integração
transatlântica, porém, não desarma a artilharia protecionista da agricultura
nem o oportunismo de alas políticas extremistas.
A incerteza ainda prevalece. O acordo depende
de sua aprovação pelo reticente Parlamento
Europeu até abril, o que ofusca sua assinatura na próxima
semana no Paraguai. Mesmo vencida nessa etapa, a França de Emmanuel
Macron e as demais vozes contrárias preparam-se para submeter o
arranjo ao Tribunal de Justiça da UE, em um processo que pode demorar anos.
Não bastassem tais obstáculos, a possível
inclusão no texto de salvaguardas adicionais à importação de produtos agrícolas
do Mercosul, avalizada pelo Parlamento Europeu em dezembro, dificilmente será
acatada sem a extração de outras concessões pelo bloco sul-americano.
Reabrir as negociações, de forma abrangente,
equivaleria a lançar de novo o acordo em um terreno pantanoso. Não há dúvidas
de que ambos os lados já trabalham para evitar tal hipótese, especialmente
depois do aval do Conselho Europeu ao texto.
Por si só, esse foi um fato notável. O
fracasso da tentativa de dezembro, quando a Itália somou-se ao
grupo avesso ao pacto, desdobrou-se em empenho da Comissão Europeia
para reverter a obstrução. A tarefa envolveu concessões custosas.
O acesso antecipado da agropecuária europeia
a € 45 bilhões (R$ 286 bilhões) em subvenções da Política Agrícola Comum (PAC)
e o alívio na taxa de carbono sobre fertilizantes importados garantiram o
retorno da Itália à esfera da sensatez.
A medida expôs a convicção da UE sobre sua
necessidade imediata de avançar em uma integração com parceiros confiáveis. Há
poucos meios alternativos para o continente enfrentar seu processo de
desindustrialização em um contexto de dissolução das regras do comércio internacional
e de ameaça latente da Rússia.
Os tarifaços dos Estados
Unidos, a agressividade exportadora da China e
a competição mundial por minerais estratégicos certamente empurraram ambos os
lados em 2025. A elaboração do texto final, entretanto, não descuidou das
sensibilidades industriais do Mercosul e agrícolas da UE.
O prazo de 15 anos para a total liberalização
de 91% da pauta comercial e os mecanismos restritivos inseridos por ambos os
lados evidenciam o quão desarrazoada é a insistência de França, Polônia, Hungria, Áustria e
Irlanda em sabotar o tratado em nome do protecionismo.
Novos entraves à implementação do acordo, que
envolverá 722 milhões de consumidores e um PIB total
de US$ 22 trilhões, resultarão em vantagens econômicas perdidas em nome de um
uma visão geopolítica míope.
Inflação em queda, a duras penas
Por Folha de S. Paulo
IPCA volta a ficar abaixo do teto da meta em
2025, graças a juros que estão entre os mais altos do mundo
Lula elevou sacrifício com irresponsabilidade
fiscal, e Trump ajudou involuntariamente com queda do dólar; BC resiste a
pressões políticas
A um custo elevadíssimo, o Banco Central conseguiu
levar a inflação de
volta a patamares considerados aceitáveis pela política monetária. O IPCA
fechou o ano passado em 4,26%, ainda acima da meta de 3%, mas dentro
do intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.
O custo é a
taxa de juros de 15% anuais, mais de 10% acima da variação dos
preços, a segunda maior do mundo em termos reais, atrás apenas da Turquia.
Foi o necessário a fazer para desacelerar o crédito e a demanda na forma de
consumo das famílias e investimentos das empresas.
Por amargo que seja o remédio, é preciso
tomá-lo. A inflação é desastrosa para a renda da população, sobretudo a mais
pobre —e negligenciar seu controle produz danos muito maiores à frente.
A mesma Turquia o demonstra de forma
dramática. Em 2021, quando o mundo vivia um surto inflacionário após o impacto
da pandemia, o banco central do país decidiu, a partir de teorias exóticas e
pressões do governo autocrático, reduzir os juros.
O resultado foi uma inflação que ultrapassou os 60% e hoje ainda está acima de
30% anuais.
A história brasileira é pródiga em
experiências do tipo. No caso mais recente, sob Dilma
Rousseff (PT), a tentativa de usar
as políticas fiscal e monetária para impulsionar na marra o crescimento
econômico produziu a trágica estagflação de 2015 —a combinação de inflação de
10,67% e recessão com queda de 3,5% do PIB.
De lá para cá, a diferença é que o BC ganhou
autonomia e resiste às pressões da administração petista, mesmo com uma
diretoria de maioria indicada por Luiz Inácio Lula da
Silva. Já na área do gasto público foi retomado o expansionismo inconsequente.
Os juros seriam menores se as despesas
federais, excluindo encargos da dívida pública, não tivessem crescido 15% acima
da inflação, de R$ 2,095 trilhões em 2022 para R$ 2,412 trilhões nos 12 meses
encerrados em novembro, dos quais R$ 57,4 bilhões não cobertos pelas receitas,
segundo dados do Tesouro corrigidos.
Os impactos da irresponsabilidade fiscal só
não foram ainda piores graças à ajuda involuntária de Donald Trump.
A enxurrada de decisões abiloladas do presidente americano fez desabarem as
cotações do dólar no
mundo, e a queda de 11,2% no Brasil favoreceu o controle dos preços.
Resta muito esforço a fazer para levar o IPCA à meta, o que não deve ser conseguido neste 2026. Espera-se que o próximo governo, qualquer que seja o vencedor das eleições, compreenda a necessidade de fazer a sua parte.
Um teste decisivo para o multilateralismo
Por O Estado de S. Paulo
Após décadas de negociações, acordo de livre
comércio entre União Europeia e Mercosul é aprovado em meio à mudança da ordem
internacional e às pressões protecionistas internas do bloco europeu
Após 25 anos de negociações, a União Europeia
(UE) finalmente aprovou a assinatura de um acordo comercial com o Mercosul,
que, quando formalizado, constituirá a maior zona de livre comércio do mundo.
A despeito da ferrenha oposição liderada pela
França, a Itália, que frustrou a assinatura do acordo em dezembro passado,
rendeu-se à realidade, garantindo a maioria qualificada entre os 27
Estados-membros da UE para que o acordo fosse aprovado. Com o “sim” italiano,
chegou-se ao quórum mínimo de representantes exigido para a assinatura de
tratados, formado por 65% da população do bloco europeu.
A expectativa agora é de que a presidente da
Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, venha à América do Sul na semana que
vem para assinar o acordo. Tanto ela como o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva classificaram o sinal verde da UE como “um dia histórico para o
multilateralismo”. De fato, a aprovação de um acordo de livre comércio dessa
envergadura representa o triunfo da diplomacia, da racionalidade e das relações
internacionais baseadas em interesses comuns. Em um cenário de desmantelamento
acelerado da ordem internacional vigente pelo menos desde o fim da 2.ª Guerra,
sem falar dos múltiplos ataques do presidente dos EUA, Donald Trump, ao
comércio global, a defesa do multilateralismo nunca foi tão necessária como na
atual quadra histórica.
Nesse contexto, um acordo de livre comércio
entre dois blocos regionais no qual vivem mais de 700 milhões de pessoas, que
por sua vez respondem por cerca de um quarto do PIB global, é realmente
notável.
Mas, embora a sinalização positiva que a UE
deu ao tratado com o Mercosul seja inegavelmente digna de celebração, o caminho
para que suas disposições sejam implementadas ainda passará por muitas etapas –
e desafios.
Mesmo que seja assinado na semana que vem, o
acordo ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento Europeu, o que, em uma
perspectiva otimista, poderia ocorrer até o final de abril. Já se antecipa,
porém, uma oposição ferrenha do lobby agrícola europeu, que pelo menos na França
é extremamente poderoso, da esquerda à direita.
Tragada por suas disputas internas de poder,
da França só se pode esperar mais ataques virulentos aos produtos do Mercosul,
especialmente aos agrícolas, nos quais os países sul-americanos são
extremamente competitivos. Não será surpresa se protestos e campanhas contra a
carne do Brasil e da Argentina, por exemplo, intensificarem-se nas próximas
semanas. Nesse sentido, é fundamental que o competente agronegócio
sul-americano não dê qualquer motivo para que os europeus posterguem ainda mais
a implantação do acordo.
Na Europa, os oposicionistas ao tratado de
livre comércio, que não raro lançam acusações descabidas à produção do
Mercosul, estarão mais atentos do que nunca a quaisquer eventuais falhas que
eles possam enquadrar como violação de regras ambientais. Do lado
sul-americano, a rara união que se vê em torno do tratado com a UE, em que
pesem as diferenças ideológicas entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai,
deve seguir prevalecendo. Essa postura é fundamental diante da fragmentação
europeia.
Pressionada por Trump e pelo avanço até agora
imparável da China sobre o comércio europeu, sobretudo o de produtos
industrializados, a Europa não tem motivo algum para seguir dando as costas ao
Mercosul.
Do mesmo modo, os países do bloco
sul-americano, que têm na China seu principal parceiro comercial, têm vivido
relação cada vez mais assimétrica com o gigante asiático, que acaba de impor
tarifas de exportação de 55% para a carne do Brasil e da Argentina que excederem
as cotas determinadas por Pequim.
Uma vez em vigor, os benefícios do acordo
entre o Mercosul e a União Europeia se materializarão de forma progressiva, à
medida que as tarifas forem reduzidas ao longo dos anos. Justamente por isso,
cabe aos países sul-americanos agir com pragmatismo e coesão para impedir que
resistências políticas e corporativas retardem ainda mais sua implementação.
Protelar o acordo não atende a interesses legítimos: apenas priva consumidores
e economias de ambos os lados do Atlântico de ganhos concretos em
competitividade, crescimento e integração em um mundo cada vez mais
fragmentado.
O essencial direito à palavra
Por O Estado de S. Paulo
Relatório da Comissão Interamericana de
Direitos Humanos evidencia que a defesa da democracia não pode prescindir de
freios claros ao poder estatal e de respeito à liberdade de expressão
A liberdade de expressão não é acessória na
democracia. Tampouco uma concessão do Estado aos cidadãos. Trata-se de um pilar
estruturante do regime democrático, condição indispensável para o debate
público e para a fiscalização do exercício do poder. Não por acaso, a
Constituição a consagrou de forma enfática, vedando a censura prévia e
estabelecendo que eventuais restrições só podem ocorrer em situações
excepcionais, claramente delimitadas e justificadas.
É com esse espírito que deve ser lido o Relatório especial sobre a situação da
liberdade de expressão no Brasil, publicado pela Comissão
Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) no final do ano passado. O documento
reconhece que o País dispõe de “instituições democráticas fortes e eficazes” e
não ignora a gravidade dos ataques à ordem constitucional que culminaram no 8
de Janeiro. Contudo, a CIDH alerta para o uso reiterado de medidas judiciais de
caráter excepcional e seus potenciais efeitos corrosivos sobre a liberdade de
expressão.
A convite do governo federal, a delegação da
Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da CIDH, chefiada por Pedro
Vaca Villarreal, esteve no Brasil em fevereiro de 2025 e ouviu políticos de
diferentes matizes ideológicos, magistrados e representantes da sociedade
civil. O diagnóstico é claro: a defesa da democracia não pode servir de
pretexto para restrições desproporcionais que desbordam em censura. Ao mesmo
tempo, a liberdade de expressão tampouco pode ser instrumentalizada para
acobertar crimes. O desafio está justamente em equilibrar esses dois
imperativos sem sacrificar garantias e direitos fundamentais dos cidadãos.
O relatório reconhece o papel central
desempenhado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na reação institucional aos
ataques às sedes dos Poderes e às tentativas de deslegitimação do processo
eleitoral. Mas não fecha os olhos para a concentração excessiva de poder na
Corte e para a transformação de medidas emergenciais em mecanismos permanentes
de controle do debate público. Precedentes criados em contextos excepcionais,
lembra a CIDH, podem ser utilizados no futuro por governos ou maiorias
circunstanciais menos comprometidos com os princípios democráticos.
Esse risco se materializa de forma
particularmente preocupante no interminável inquérito das fake news, instaurado em 2019 para
apurar ameaças e ataques ao STF, a seus ministros e familiares. Prestes a
completar sete anos, o inquérito segue aberto por tempo indeterminado,
concentrando poderes investigativos, acusatórios e decisórios nas mãos do
ministro Alexandre de Moraes, sem balizas claras e sem perspectiva concreta de
encerramento. Trata-se de uma anomalia institucional em tudo incompatível com o
devido processo legal e com a segurança jurídica que se espera de qualquer
democracia madura.
A CIDH chama a atenção, ainda, para a
necessidade de distinguir com clareza condutas ilícitas de críticas legítimas
aos Poderes, sobretudo quando estão em jogo manifestações políticas e a atuação
de jornalistas profissionais. Restrições cautelares à liberdade de expressão e
de imprensa, como já impôs o STF, devem ser proporcionais e temporárias, quando
indispensáveis. O prolongamento indefinido de investigações não raro sigilosas
alimenta a incerteza e fragiliza a confiança nas instituições democráticas, em
particular no próprio STF.
Especial preocupação recai sobre as
restrições impostas ao uso de redes sociais, que incluem remoção de conteúdos,
bloqueio de contas, proibição de novas publicações – o que configura censura
prévia – e até a vedação à criação de novos perfis por cidadãos. Medidas desse
jaez, por óbvio, só podem ser admitidas em situações extremas, com
fundamentação rigorosa, transparência e garantia do contraditório. Em muitos
casos, não é o que se observa no País.
A democracia brasileira já demonstrou
resiliência diante de graves ataques. Justamente por isso, não se pode aceitar
como normal o prolongamento indefinido de expedientes excepcionais sob
quaisquer pretextos. A liberdade de expressão, como lembra a CIDH, deve ser
ainda mais protegida em tempos de crise, não menos. Defender a democracia
implica, necessariamente, respeitar seus fundamentos – e nenhum deles é mais
essencial do que o direito à palavra.
Ordem no Anhangabaú
Por O Estado de S. Paulo
Prefeitura proíbe eventos no local após as 23
horas, o que traz sossego para o centro da metrópole
Moradores do centro de São Paulo poderão,
enfim, dormir em paz a partir de 2026. Pouco antes da virada do ano, o prefeito
Ricardo Nunes notificou a concessionária Viva o Vale, responsável pela
administração do Vale do Anhangabaú, da proibição de eventos no espaço depois
das 23 horas. A correta decisão da Prefeitura foi tomada após uma apresentação
do DJ alemão Boris Brejcha começar na noite do dia 19 de dezembro, uma
sexta-feira, e só terminar na madrugada do dia 20, sábado. Não foi uma exceção.
Muitos foram os episódios de perturbação do silêncio e da ordem ao longo do ano
passado em razão de shows, festas e festivais no Anhangabaú.
Houve atividades que se estenderam por
horários inconvenientes e, não raro, vararam a madrugada, o que causou
desconforto aos moradores do entorno, cujas residências foram literalmente
invadidas, seja pelo alto ruído das apresentações musicais, seja pelos fortes
canhões de luzes dos espetáculos. O Castro Festival, voltado para o público
LGBTQIA+, em junho, e o festival de música eletrônica Aniversário da Sereiona,
em julho, por exemplo, desligaram as caixas de som apenas às 5 horas. É fácil
inferir que foram noites muito difíceis para quem escolheu o centro da
metrópole para viver. O barulho e a iluminação dos eventos acabaram com a paz
de trabalhadores, aposentados e estudantes, privando-os de algo sagrado: o
direito ao sossego e a uma noite de sono.
Ciente da poluição sonora e visual, a
Prefeitura em boa hora agiu. Em nota, a administração municipal informou que
representantes da Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB) e da Viva o
Vale “discutem periodicamente medidas para minimizar os incômodos” aos
frequentadores e vizinhos causados por grandes eventos no Anhangabaú. Com isso,
a gestão Nunes demonstrou preocupação com o bem-estar dos moradores do coração
da região central da capital paulista.
Mas o mesmo governo municipal que agora
limita o horário dos eventos no Vale do Anhangabaú incentivou uma série de
medidas que flexibilizaram o Programa Silêncio Urbano (Psiu). Recorde-se que,
no fim de 2024, Nunes sancionou uma lei que derrubou o limite de barulho para
shows e eventos de grande porte, aqueles com público de 5.001 a 40.000 pessoas.
A profusão de queixas de barulho fora de hora só prova a impertinência da
mudança. Não tardou e a lei foi questionada na Justiça, que a mantém suspensa
por ora.
Desde que foi entregue à iniciativa privada, em 2021, após uma ampla reforma, o Vale do Anhangabaú passou a abrigar os mais variados eventos. No espaço ocorrem cerca de 5 mil atividades por ano, evidenciando a retomada de sua vocação cultural, mas também econômica. Para o bem do centro, o espaço público foi ocupado por paulistanos e visitantes que buscam música, arte, diversão e lazer, o que, sem dúvida, é benéfico e desejável para a vida na metrópole. Mas todos esses benefícios não são salvo-conduto para transformar a vida dos vizinhos num inferno. Uma cidade viva e plural tem como base a convivência dos cidadãos no espaço público. Mas isso não dispensa ordem – a impõe.
Acordo comercial histórico é escudo contra
protecionismo
Por Correio Braziliense
Em momento de forte pressão protecionista
protagonizada por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, há de se
comemorar o bater do martelo entre União Europeia e Mercosul
Vinte e seis anos depois das primeiras
tratativas, a maioria dos países da Europa aprovou o acordo comercial com o
Mercosul, que reúne Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina e Bolívia e demais
países associados. A decisão, anunciada no início da manhã de ontem, dará
origem à maior zona de livre comércio do mundo, para um público de 721 milhões
de consumidores. Em momento de forte pressão protecionista protagonizada por
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, há de se comemorar o bater do
martelo.
Há a leitura, inclusive, de que a ofensiva
estadunidense contra a Venezuela ajudou a destravar o acordo histórico. A
polêmica operação evidenciou a dificuldade do republicano em privilegiar o
diálogo, acendendo ainda mais o alerta em uma União Europeia com relações
comerciais abaladas com a gestão Trump. Abrir novos mercados é urgente. E o que
se vislumbra do outro lado do Atlântico soma US$ 22,3 trilhões em Produto
Interno Bruto (PIB), considerando todas as economias.
Na próxima segunda-feira, a presidente da
Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deverá se encontrar com o presidente
do Paraguai, Santiago Peña, hoje à frente do Mercosul, para assinar o tratado
comercial. "Esse acordo marca uma nova era de comércio e cooperação com
nossos parceiros do Mercosul. Mas também é uma prova da resiliência e da força
de nossa relação com a América Latina e um passo que nos aproximará ainda
mais", afirmou a líder europeia.
No mesmo sentido, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva disse que o tratado "amplia alternativas para exportações
brasileiras, investimentos produtivos europeus e simplifica regras comerciais
para os dois lados". Para o chefe do Executivo, foi "uma vitória do
diálogo, da negociação e da aposta na cooperação e na integração entre os
países e blocos". A expectativa do governo brasileiro é de que ele entre
em vigor ainda neste ano.
Há etapas a serem cumpridas, como a aprovação
do pacto comercial pelo Congresso de cada país do Mercosul e pelo Parlamento
Europeu. Dificuldades começam a surgir do lado de lá — cerca de 150 dos 720
eurodeputados pretendem recorrer ao Judiciário para impedir o acordo e o
presidente francês, Emmanuel Macron, antecipou que votará contra.
Considerando a disputa eleitoral no Brasil
deste ano, a expectativa é de um aval ainda neste semestre. "Não dependemos
da Argentina, do Paraguai e do Uruguai para já entrar em vigência",
antecipou o vice-presidente, Geraldo Alckmin. O país está entre os maiores
produtores de alimentos — grãos e carnes — do mundo. E os agricultores rurais
familiares e do agronegócio terão de respeitar o meio ambiente para se
beneficiarem com o pacto comercial. Nesse sentido, será essencial conter
o desmatamento, preservar os cursos d'água, evitar queimadas e outras agressões
ao patrimônio ambiental que concorrem a favor das mudanças climáticas.
Não se discute que a preservação ambiental e a busca por processos sustentáveis elenca entre as prioridades brasileiras. Mas a prática ainda deixa a desejar. Vencido as duas décadas e meia de negociações palacianas, o meio rural brasileiro precisa afinar a produção para conquistar um espaço expressivo no mercado europeu, livrando-se da pressão de tarifaços ou de outras medidas protecionistas que garantem lucro apenas aos que impõem esse regime.
A maior zona de livre comércio do mundo
Por O Povo (CE)
União Europeia e Mercosul assinam acordo
comercial depois de mais de duas décadas de negociação
Após negociações que duraram um quarto de
século, o Conselho Europeu, composto por diplomatas dos 27 países do bloco,
aprovou o tratado comercial entre União Europeia (UE) e Mercosul, em reunião
ocorrida nesta sexta-feira, em Bruxelas (Bélgica). A decisão foi possível
depois de a proposta ter recebido os 15 votos necessários para representar 65%
da população dos Estados-membros.
Para alcançar a maioria qualificada para a
aprovação, foram feitas novas concessões aos produtores agrícolas europeus, que
temem a concorrência de quatro países do Mercosul: Brasil, Argentina, Paraguai
e Uruguai. A Itália, cujo voto era essencial para a aprovação, reivindicou um
mecanismo para sustar importações a partir de um determinado patamar.
O acordo foi formalizado por escrito pelos
governos dos países que integram a UE, mas ainda terá de ser aprovado no
Parlamento Europeu. No entanto, analistas não veem dificuldade nessa etapa,
pois basta alcançar a maioria simples entre os integrantes do bloco para
referendar a decisão.
O bloco Mercosul/UE criará a maior zona de
livre comércio do mundo, com mais de 700 milhões de consumidores. E o pacto é
mais do que um arranjo comercial para eliminar tarifas de importação e
exportação. Prevê também diálogo político em torno de temas como democracia e
direitos humanos, além de cooperação em assuntos relativos ao meio ambiente e
desenvolvimento sustentável.
Por óbvio, a decisão a que chegaram a UE e o
Mercosul não representa uma resposta ao unilateralismo do presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, que põe o mundo sob ameaça. Porém, os países
europeus e sul-americanos deram um belo exemplo de como é possível chegar a um
bom resultado, mesmo nas situações mais complexas, por meio da negociação e do
diálogo, um processo mais demorado, mas que respeita as leis internacionais e
os costumes democráticos, dispensando a violência.
Mas o acordo, quando estiver em pleno
funcionamento, contribuirá para ambos os blocos reduzirem a dependência das
grandes potências, como Estados Unidos e China, abrindo uma grande janela para
a diversificação de parceiros comerciais. O acerto, como referido acima, não se
limita ao comércio, mas representa uma aproximação das relações políticas,
entre a Europa e a América do Sul, em um contexto que se faz cada vez mais necessários,
apontar na direção de um mundo multipolar, em que o poder seja distribuído de
forma mais equitativa.
Um dos chefes de Estado que mais batalharam
pelo sucesso do tratado foi o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Porém,
tremendo novos adiamentos, esperou até a confirmação oficial do acordo para
manifestar-se, comemorando “um dia histórico para o multilateralismo”.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pretende levar o acordo para ser assinado na próxima semana, em reunião no Paraguai, que exerce a presidência rotativa do Mercosul. A demora nas negociações poderia agora ser compensada agilizando-se os procedimentos para pôr em prática o tratado.

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