O Globo
O lado sombrio do país tem se projetado com
efeito mais devastador do que a intensa luz do sol iluminando todo esse
processo
Algumas vozes defendem que o escândalo do Banco Master não seja totalmente revelado. Segundo elas, o impacto seria tão grande que o Brasil não aguentaria. É um grande equívoco. Apesar de sua fragilidade, a democracia brasileira não só aguentaria saber de tudo, como poderia usar a revelação de combustível para algumas reformas. O que envenena a convivência democrática é ver o enorme esforço que se faz para abafar o escândalo.
Na verdade, o lado sombrio do país tem se
projetado com efeito mais devastador que a intensa luz do sol iluminando todo
esse processo. A Câmara deu a partida na imensa operação de resgate do Banco
Master quando surgiu de repente um movimento autorizando a demissão de
diretores do Banco Central (BC). Era um projeto antigo que ganhou um
requerimento de urgência assinado pelos líderes do Centrão, representando mais
de 300 deputados. Queriam demitir diretores do BC que trabalhassem contra o
“interesse nacional”. Era um movimento de intimidação dos diretores da
instituição que fiscalizavam o Master e tendiam a decretar sua liquidação.
Na visão de líderes que representam a maioria
da Câmara, interesses nacionais são na verdade interesses do Banco Master.
Embora tenha fracassado, o movimento teve um custo. Quanto foi gasto para
comprar deputados? Apenas os líderes estavam envolvidos?
Depois de o Master ter sido liquidado,
soube-se que o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de
Moraes, tinha um contrato de cerca de R$ 130 milhões com o banco e recebia R$
3,6 milhões por mês. O contrato existe, tanto que o procurador-geral o
reconhece e afirma que é legítimo. A transparência deveria revelar todos os
serviços prestados ao Master para justificar valor tão alto. Não se conhece o
trabalho que justificou tanto dinheiro.
Logo em seguida, o ministro Dias Toffoli,
usando um artifício, chamou o inquérito do Master para o Supremo e decretou
pesado sigilo. Artifício porque ele usou a menção ao nome de um deputado para
tirar o inquérito da instância inferior. Aí já existe algo suspeito. A suspeição
se adensou quando Toffoli queria fazer acareação de dois acusados com um
diretor do BC, como se estivessem no mesmo nível.
Todos esses fatos sugerem que é necessária
uma investigação sobre os vínculos do Supremo com o Banco Master. Quem a fará?
Enquanto não for tudo esclarecido, a Corte fica sob suspeição? Há algo mais
devastador do que ministros de uma Corte suprema sob suspeita de ter negócios
ou levar dinheiro de um banco falido? As redes sociais também foram envolvidas.
Ficamos sabendo que ondas de opinião também se compram.
Dinheiro de aposentados do Rio e dinheiro do
Amapá são apenas alguns exemplos, ao lado de Brasília, de como o Master avançou
numa área onde também é necessário apurar responsabilidades de funcionários do
Executivo.
Enquanto a questão financeira não for
desvendada, muita gente descrerá do Brasil e de suas instituições. À luz do
sol, pelo menos, poderemos achar um caminho.

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