quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Governistas buscam capitalizar caso Master, mas cautela deve prevalecer, por César Felício

Valor Econômico

Lista de aliados de Daniel Vorcaro no mundo político é longa e não se limita à oposição

Ainda na parte da manhã desta terça-feira, o escândalo do Banco Master virou pauta para governistas na CPI do crime organizado e na CPMI do INSS, que tomavam depoimentos em salas do Senado. O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), ficou na retórica. Durante a audiência que ouviu o diretor da Polícia Federal Andrei Rodrigues na CPI do crime organizado, pontuou que a operação policial que prendeu o banqueiro Daniel Vorcaro mostrava que a delinquência também estava “na Faria Lima”.

O deputado Rogério Corrêa (PT-MG) foi um pouco além e antecipou a intenção de transformar o Banco Master em mais um dos múltiplos alvos da CPI do INSS. Tomou a palavra para construir um vínculo, para lá de tênue, do banqueiro com o caso.

Correia destacou que Vorcaro é cunhado do empresário e pastor Fabiano Zettel, o maior financiador privado em 2022 das campanhas do ex-presidente Jair Bolsonaro e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Deu R$ 3 milhões para a campanha presidencial e R$ 2 milhões para a de governador. Zettel faz pregações na Igreja Lagoinha do Belvedere, integrante da convenção Lagoinha, da família Valadão. Uma entidade envolvida com a fraude no INSS é suspeita de ter patrocinado um evento de uma igreja da mesma convenção em São Paulo. De concreto, tanto no caso do deputado quanto do senador, está a estratégia de se apostar na ação contra o Master como constrangedora para a oposição. Mas é duvidoso se o fôlego dessa estratégia será longo.

Vorcaro é um financista de múltiplas relações, além do cunhado financiador de Bolsonaro e Tarcísio. No momento em que os problemas de sustentabilidade financeira do Master tornaram-se evidentes, o banqueiro negociou a venda da instituição para o BRB, banco estatal do Distrito Federal, em uma transação vetada pelo Banco Central e que se tornou objeto da investigação da Polícia Federal que resultou em sua prisão.

Entre os políticos que se esforçaram para concretizar esta negociação, esteve o ex-presidente Michel Temer, que teria atuado a pedido do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB). O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), tentou em 2024 ampliar o limite coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

A lista de aliados no mundo é longa e não se limita à oposição. O risco sistêmico que o caso envolve para os três Poderes não está claramente delimitado e a cautela no uso político mais profundo do caso deve prevalecer, arroubos à parte de parlamentares governistas.

No fim do dia, na Câmara, diversos parlamentares governistas, principalmente do Distrito Federal, fizeram alusão ao caso Master para questionar a votação do relatório do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) que endurece o tratamento para organizações criminosas. O parecer de Derrite, em sua sexta versão, dificulta o financiamento à Polícia Federal, protagonista da ação de ontem contra o banqueiro. As linhas gerais do parecer de Derrite, contudo, já estavam delineadas antes da operação da manhã de terça.

 

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