domingo, 30 de novembro de 2025

Chega de intermediários! Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Grande vitorioso com a prisão de Bolsonaro, Centrão se torna principal adversário de Lula

O grande vitorioso com a prisão de Jair Bolsonaro é o Centrão, que se descola do ex-presidente e pega em armas contra o presidente Lula no Congresso para fazer jus ao próprio apelido, tornar-se alternativa à polarização política e aventurar-se por mares nunca dantes navegados: a disputa da Presidência da República. Chega de intermediários! É hora de candidatos próprios.

Assim, o grande adversário de Lula em 2026 deixa de ser o bolsonarismo e passa a ser o Centrão, que nada mais é do que direitão e ocupa o vácuo eleitoral criado pela prisão, soluços e delírios de Jair Bolsonaro, a beligerância antipatriótica de Eduardo Bolsonaro e o salve-se quem puder na turma e na família.

A senha para a debandada de Bolsonaro, que já deu o que tinha de dar, foi do PL, partido do capitão, que nem esperou esfriar a “comoção nacional” pela prisão do ex-presidente, até porque comoção não houve, para demiti-lo e cortar seu salário de R$ 46 mil. “É a lei”, justificou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, que já está em outra: no futuro. Para ele, o futuro está no Centrão.

A centro-direita é a barreira contra a extrema direita, como lembra Antônio Lavareda, craque da análise política, citando exemplos que se espalham pela Europa: o PSD contra o Chega em Portugal, o Partido Popular contra o Vox na Espanha e a CDU de Angela Merkel contra a AfD na Alemanha. No Brasil, a centro-direita é o Centrão, e a extrema direita, o bolsonarismo.

O Centrão não é um partido, é um conjunto de siglas que emergiu na Constituinte de 1988, concentra seu poder no Congresso e no “toma lá dá cá”, amplia sua presença nos municípios e se pendura no governo em Brasília, não importa a ideologia. Foram da base de FHC, Lula, Dilma e Temer, continuam na de Lula 3. Pôs as garras de fora no impeachment de Dilma Rousseff e aboletou-se na Casa Civil de Bolsonaro, mas não aderiu ao golpe da extrema direita, uma ação de militares, não de políticos.

O núcleo duro do Centrão inclui Republicanos (de Tarcísio de Freitas), PP (de Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil de Bolsonaro), MDB (onde sempre cabe mais um), União Brasil (saco de gatos de PFL e PSL), Podemos e PSD (“dono” do maior número de prefeituras). E tem reforço para sucessivas derrotas do governo no Congresso.

O grito de guerra, assumido pelo próprio Tarcísio, forte candidato a candidato do Centrão: “A prioridade é tirar o PT”. Os desafios, porém, são enormes. Livrar-se de Bolsonaro mantendo seu eleitorado, pesquisas favoráveis a Lula e os dados favoráveis da economia. E como lapidar a imagem, com o Supremo avançando contra autores de emendas esquisitonas e a PF buscando digitais em escândalos como Master e Refit?

 

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