Correio Braziliense
Mas falta direção
estratégica. Falta o movimento político mais profundo do que a agitação
radical, que permita avançar na modernização em bases democráticas
A percepção de que há uma corrida mundial
para reinventar o Estado não é nova, mas nunca foi tão flagrante e urgente. As
mutações tecnológicas, a reconfiguração das subjetividades na chamada
“sociedade líquida” e a crise dos mecanismos tradicionais de representação,
como os partidos, o parlamento e a imprensa, colocaram os países diante de
escolhas dramáticas. No turbilhão, democracias representativas parecem correr
atrás dos acontecimentos, enquanto regimes autoritários, por concentrarem
poder, reprimir dissensos e eliminar freios e contrapesos, conseguem produzir respostas
mais rápidas e, em certos casos, mais eficazes à necessidade de modernização.
A Arábia Saudita talvez seja o exemplo mais eloquente dessa contradição: moderniza sua economia com velocidade quase futurista, mas à custa de liberdades civis, participação política e direitos humanos. Já no Ocidente, democracias centrais como a França se contorcem diante da pressão das ruas, da polarização ideológica, da erosão de partidos tradicionais e da incapacidade de produzir reformas que mobilizem consenso.
Nesse cenário, a ascensão vertiginosa da
China redefine o tabuleiro global. O país saltou etapas decisivas das
revoluções industriais e se impôs como potência tecnológica, comercial e
militar sem realizar a abertura liberal-democrática que muitos analistas consideravam
inevitável. Ao contrário: Xi Jinping consolidou um regime mais fechado,
nacionalista e vigilante.
Poucos anteciparam que, simultaneamente, o
próprio Ocidente caminharia para uma guinada reacionária. A volta de Donald
Trump ao poder, que consolidou o trumpismo como fenômeno político-cultural,
transformou as big techs em eixo de poder equivalente, ou até superior, ao
velho complexo militar-industrial do pós-guerra. A democracia mais influente do
planeta tornou-se o centro difusor de um tipo de populismo autoritário que
inspira líderes na Europa, na América Latina e na Ásia. Para perplexidade
geral, a maior democracia do Ocidente passou a liderar uma onda reacionária
global.
É nesse contexto que o Brasil atravessa o
esgotamento de um ciclo político. Nosso Estado democrático foi submetido ao
teste mais duro desde 1988, culminando na condenação de Jair Bolsonaro e de
oficiais-generais por tentativa de golpe – um fato inédito, que rompeu o tabu
do pacto tácito entre civis e militares desde a transição. Parecia ali o fim de
uma polarização política na qual um ex-líder operário e um capitão
indisciplinado que se alternaram como polos de mobilização política desde o
início do século.
Acontece que um vazio geracional e o
esgarçamento institucional impedem que o ciclo se encerre. A nova geração
política não viveu nem a ditadura nem a transição democrática, carece de
memória histórica e se forma num ambiente global em que o mundo parece marchar
para trás, na direção das autocracias orientais e dos populismos reacionários
ocidentais.
Duas rotações
Como ressaltou o cientista político Marco
Aurélio Nogueira, ontem, no artigo publicado no Estado de São Paulo, o país
gira em falso, como no diagnóstico de Joaquim Nabuco sobre os “dois movimentos”
políticos: aquele que fazemos parte sem perceber e aquele que parte de nós
mesmos, porém, confundido com pura agitação improdutiva. No Brasil, predomina o
segundo: hiperatividade sem direção, energia política desperdiçada em conflitos
estéreis, incapacidade de produzir consensos estruturantes.
O Congresso é a expressão mais ambígua desse
momento. Salvou a democracia em 8 de janeiro, talvez mais por instinto de
sobrevivência da maioria de seus líderes, diante da experiência de 1964, do que
por convicções ideológicas. Entretanto, foi tomado por uma lógica perversa de
poder, baseada na manipulação orçamentária, na chantagem e num pragmatismo sem
limites. No Senado, ainda resiste algum freio republicano; na Câmara, bancadas
inteiras operam desconectadas da sociedade, blindando seus próprios interesses
– inclusive de parlamentares envolvidos em escândalos ou atores ostensivos de
aventuras golpistas.
Como bem lembrou Nogueira, nada disso
significa que o Brasil esteja em regressão. Ao contrário: mantém uma democracia
resiliente, avanços científicos e sociais importantes, setores econômicos
dinâmicos e uma cultura vibrante. Mas falta direção estratégica. Falta o
movimento político profundo – e não a agitação superficial – que permita abrir
um novo ciclo histórico, protagonizado por uma nova geração de políticos. Como
na passagem bíblica da travessia do deserto, os hebreus que haviam sido
escravos não tinham cabeça para construir uma sociedade livre, era preciso que
outra geração o fizesse, como disse Moisés.
O país se move lentamente, mesmo dispondo de
vastos recursos materiais e humanos, o que aumenta a defasagem em relação ao
que acontece no mundo. O problema fiscal permanece crônico; a desigualdade
estrutural, intacta; a transição energética, atrasada; a violência urbana,
explosiva; e os serviços públicos, apesar de avanços notáveis como o SUS,
demandam inovação e mais eficiência. Os Poderes vivem em conflito permanente, a
política perdeu apelo e criatividade, e a sociedade civil patina em capacidade
de mobilização.
Às vésperas de 2026, o vazio é visível. Falta
um projeto que organize expectativas e convoque a população para algo que não
seja o confronto destrutivo e tóxico. É preciso construir uma ampla frente
democrática, com uma agenda progressista, de caráter social-liberal e
exequível.

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