Folha de S. Paulo
Lapso verbal de Lula é acidente de percurso
que deixa claro que o problema da droga é também de linguagem
As estruturas burocráticas de repressão
travam uma guerra de enxugar gelo contra a narcocracia internacional
Todo homem de Estado comete gafes. O chanceler
alemão Friedrich Merz disse estar "contente" por
deixar Belém e
retornar a seu país, que "é lindo". Fez feio. Em Bolsonaro, a frase
"eu não sou estuprador, mas se fosse não iria estuprar porque ela não
merece", a propósito de uma parlamentar, não é gafe, mas exposição de um
"self" maligno: ele próprio foi uma gafe republicana.
Lula é reincidente. A sua última merece discussão por um possível mal-entendido. Ele deixou escapar algo como "traficante é vítima do usuário". Literalmente, a frase é um absurdo para o senso minimamente ciente do mal que o narcotráfico inflige à sociedade e às famílias. Cansaço ou falta de concentração prejudicam o processamento mental, levando a lapsos de linguagem.
Mas basta trocar "vítima" por
"cúmplice" para que a frase seja recolocada num contexto próximo, de
onde talvez provenha o lapso. De fato, o consumo da droga tipifica um crime em
que a vítima, pela adesão voluntária ao ato, se torna cúmplice do criminoso. É
grande o peso do livre arbítrio na decisão de pôr em risco a si mesmo, até um
ponto de não-retorno.
Há causas, de natureza social e psicológica.
Mas também uma metamorfose despercebida: as modificações antropológicas
extensivas a todo o mundo capitalista desde as grandes Guerras Mundiais. São as
mesmas inclinações sadomasoquistas, tidas como elemento essencial da
antropologia fascista, em que os indivíduos são livres para seguir os
instintos, tanto os violentos contra os outros como contra si mesmos. Liberados
de sujeição social, podem tornar-se seguidores fanáticos de um regime político
ou fanáticos devotos de seu próprio ego. O progressivo afastamento de uma
sociabilização comunitária (família, escola, trabalho, amigos) leva à perda de
acesso aos sentimentos.
A narcomania de ricos e pobres responde, em
uns, pela adequação à vida vertiginosa e, em outros, pela ilusão de amenizar a
insuportabilidade do mundo tal e qual se apresenta. Instantes de falsa
felicidade, num mundo sem alegria, um suicídio sem pressa. Disso se alimenta
uma narcocracia internacional, contra a qual estruturas burocráticas de
repressão travam uma guerra de enxugar gelo. A gangrena social resultante só
faz aumentar.
Daí a inutilidade da guerra às drogas com
banhos de sangue e justificativas enviesadas para as ações policiais. A
equiparação do tráfico ao terrorismo por Trump é uma deslavada estratégia
intervencionista no hemisfério. Disso está ciente o líder inconteste do Sul
Global, Lula. Como governante, ele, assim como seus predecessores, subestimou a
magnitude do crime organizado, sem encontrar na esquerda posição realista sobre
o problema.
Agora, alarmado, o governo começa a avançar em planos de segurança pública com uma retórica de combate sem violência e terror, em meio a obstáculos internos que evidenciam o quanto a narcocracia já penetrou nos aparelhos de Estado brasileiros. Quanto a Lula, para quem se esgoela em cinco pronunciamentos em dois dias na COP30, em Belém, lapso verbal é acidente de percurso: deixa claro que o problema da droga é também de linguagem.

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