domingo, 30 de novembro de 2025

Uma gafe muito instrutiva, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Lapso verbal de Lula é acidente de percurso que deixa claro que o problema da droga é também de linguagem

As estruturas burocráticas de repressão travam uma guerra de enxugar gelo contra a narcocracia internacional

Todo homem de Estado comete gafes. O chanceler alemão Friedrich Merz disse estar "contente" por deixar Belém e retornar a seu país, que "é lindo". Fez feio. Em Bolsonaro, a frase "eu não sou estuprador, mas se fosse não iria estuprar porque ela não merece", a propósito de uma parlamentar, não é gafe, mas exposição de um "self" maligno: ele próprio foi uma gafe republicana.

Lula é reincidente. A sua última merece discussão por um possível mal-entendido. Ele deixou escapar algo como "traficante é vítima do usuário". Literalmente, a frase é um absurdo para o senso minimamente ciente do mal que o narcotráfico inflige à sociedade e às famílias. Cansaço ou falta de concentração prejudicam o processamento mental, levando a lapsos de linguagem.

Mas basta trocar "vítima" por "cúmplice" para que a frase seja recolocada num contexto próximo, de onde talvez provenha o lapso. De fato, o consumo da droga tipifica um crime em que a vítima, pela adesão voluntária ao ato, se torna cúmplice do criminoso. É grande o peso do livre arbítrio na decisão de pôr em risco a si mesmo, até um ponto de não-retorno.

Há causas, de natureza social e psicológica. Mas também uma metamorfose despercebida: as modificações antropológicas extensivas a todo o mundo capitalista desde as grandes Guerras Mundiais. São as mesmas inclinações sadomasoquistas, tidas como elemento essencial da antropologia fascista, em que os indivíduos são livres para seguir os instintos, tanto os violentos contra os outros como contra si mesmos. Liberados de sujeição social, podem tornar-se seguidores fanáticos de um regime político ou fanáticos devotos de seu próprio ego. O progressivo afastamento de uma sociabilização comunitária (família, escola, trabalho, amigos) leva à perda de acesso aos sentimentos.

A narcomania de ricos e pobres responde, em uns, pela adequação à vida vertiginosa e, em outros, pela ilusão de amenizar a insuportabilidade do mundo tal e qual se apresenta. Instantes de falsa felicidade, num mundo sem alegria, um suicídio sem pressa. Disso se alimenta uma narcocracia internacional, contra a qual estruturas burocráticas de repressão travam uma guerra de enxugar gelo. A gangrena social resultante só faz aumentar.

Daí a inutilidade da guerra às drogas com banhos de sangue e justificativas enviesadas para as ações policiais. A equiparação do tráfico ao terrorismo por Trump é uma deslavada estratégia intervencionista no hemisfério. Disso está ciente o líder inconteste do Sul Global, Lula. Como governante, ele, assim como seus predecessores, subestimou a magnitude do crime organizado, sem encontrar na esquerda posição realista sobre o problema.

Agora, alarmado, o governo começa a avançar em planos de segurança pública com uma retórica de combate sem violência e terror, em meio a obstáculos internos que evidenciam o quanto a narcocracia já penetrou nos aparelhos de Estado brasileiros. Quanto a Lula, para quem se esgoela em cinco pronunciamentos em dois dias na COP30, em Belém, lapso verbal é acidente de percurso: deixa claro que o problema da droga é também de linguagem.

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