Supersalários são combustível da desigualdade
Por O Globo
Remuneração acima do teto recebida pela elite
do funcionalismo custa R$ 20 bilhões ao ano, conclui estudo
Não é surpreendente, mas nem por isso deixa
de ser estarrecedor o quadro exposto pelo estudo a respeito de supersalários no
poder público realizado pelo pesquisador Sérgio Guedes-Reis para as
organizações da sociedade civil República.org e Movimento Pessoas à Frente. O
gasto brasileiro com pagamentos acima do teto salarial estipulado na
Constituição somou nada menos que R$ 20 bilhões entre agosto de 2024 e julho
deste ano — ou dois terços do que o governo busca para cumprir a meta fiscal do
ano que vem. Por qualquer parâmetro, o Brasil é o país que mais gasta com a
elite do funcionalismo numa amostra de 11 países.
O gasto brasileiro com supersalários — cerca de US$ 8 bilhões pelo critério de conversão adotado — equivale a 21 vezes o que gasta a Argentina, segundo país com mais pagamentos acima do teto. Depois vêm Estados Unidos e México,únicos com gastos acima de US$ 200 milhões. França, Itália, Colômbia, Portugal e Alemanha despendem menos de US$ 4,2 milhões, ao redor de 0,05% do total brasileiro. A distorção é tão grande que o excedente do teto constitucional pago no Brasil a 40 mil servidores públicos daria para financiar um salário mensal de R$ 2.200 a 9,1 milhões de brasileiros — ou 18,8% dos empregados com carteira assinada.
O teto salarial estabelecido na Constituição
para todo o funcionalismo — o salário de um ministro do Supremo — equivale à
remuneração anual de R$ 630 mil. Considerando as informações disponíveis, o
estudo analisa uma amostra de 4 milhões de servidores, num universo estimado em
9 milhões. Pouco mais de 53,5 mil desses recebem mais que o teto — 1,34% da
amostra, ou 0,39% dos servidores estatutários ativos. Para surpresa de ninguém,
a maioria são juízes (21,1 mil, que custaram R$ 11,5 bilhões em ganhos acima do
teto), procuradores (10,3 mil, com excedente de R$ 3,2 bilhões) e servidores do
Executivo (12,2 mil, ao custo de R$ 4,3 bilhões, sobretudo integrantes da
Advocacia-Geral da União).
No Judiciário e no Ministério Público (MP),
os ganhos acima do teto se tornaram regra. “O percentual de juízes e membros do
MP em serviço com remuneração acima dos limites constitucionais
consistentemente ultrapassa 90% do efetivo total”, constata o estudo. A
proporção é estimada em 93,5% para a magistratura; 93% para o MP fluminense;
98,1% para o mineiro; e 98,2% para o paulista. Para efeito de comparação, na
amostra do estudo, recebem supersalários 24,3% dos auditores federais, 30,8%
dos defensores públicos da União e 10,8% dos consultores legislativos.
Quase 20 mil juízes e 8,5 mil procuradores da
amostra estão no topo da pirâmide de renda do Brasil, o 1% que ganha mais de R$
685 mil ao ano. Nessa elite, 11 mil ganham mais de R$ 1,2 milhão por ano (estão
na faixa de 0,4% com maior renda). Um procurador do Rio chegou a receber R$ 5,9
milhões num período de 12 meses. Os dez desembargadores mais bem remunerados de
Rondônia ganharam, em valores corrigidos, R$ 15 milhões em sete anos.
Para comparar: na Alemanha, apenas 16
salários públicos superam o limiar do 1% de maior renda. Em Portugal, 33. Na
França, 47. No Reino Unido, são 139. No Chile, 180. Na Argentina, 880. Nos
Estados Unidos, 360. Na Itália, 1.115. No México, 1.635. Na Colômbia, 2.774. No
Brasil, são 40 mil apenas na amostra. “Pelo menos 2,7% da elite econômica
brasileira é formada por servidores públicos estatutários”, afirma o estudo.
Na Alemanha, nenhum servidor ganha mais que o
presidente da República, teto salarial adotado para o funcionalismo. Em
Portugal, apenas três. Na Colômbia, 12. Na Itália, 46. Na França, 77. No Chile,
749. No Reino Unido, 1.986. Nos Estados Unidos, 4.081 (essencialmente médicos,
dentistas e cientistas em cargo de direção, além dos 12 presidentes regionais
do Federal Reserve). A Argentina é o país que mais se aproxima do Brasil, com
pelo menos 27 mil ganhando mais que o teto. Mesmo assim, isso equivale a metade
dos que ganham supersalários apenas na amostra brasileira.
Nos dez outros países analisados, os salários
mais altos do Judiciário são pagos aos maiores cargos, como presidentes das
Supremas Cortes. “Não é, contudo, o que ocorre no Brasil”, afirma o estudo.
Aqui, a remuneração elevada está ligada “ao acúmulo de diversos adicionais com
pouca ou nenhuma relação a funções de comando, como auxílio-moradia, adicionais
por tempo de serviço ou licença-prêmio”. Noutros países, não há espaço para que
esses “penduricalhos” sejam relevantes. Aqui, além de significativas, essas
verbas indenizatórias são isentas de Imposto de Renda, portanto ficarão fora do
cálculo de tributação mínima para quem ganha mais de R$ 600 mil ao ano,
introduzido na reforma recente. “Alemanha, Portugal, França e Itália
desenvolveram regras claras sobre a questão, notadamente a partir de tabelas
remuneratórias que limitam o tamanho dos adicionais”, diz o estudo.
Chile e México são citados como exemplos de países que promoveram transformações capazes de conter, ainda que parcialmente, os supersalários no setor público, “com, respectivamente, a instituição de uma comissão salarial externa e o estabelecimento de um teto remuneratório universal — ambos fruto de mobilização política de diversos segmentos da sociedade”. A conclusão da pesquisa é singela — e certeira: o Brasil precisa criar com urgência “um sistema eficaz de prevenção e combate aos supersalários”. Medidas adotadas por vários dos países analisados podem servir de inspiração e deveriam ser incorporadas à proposta de reforma administrativa que tramita no Congresso. “Quando aplicadas a todos os setores da burocracia, tais medidas contribuirão para reduzir a participação do Estado brasileiro na manutenção dos elevados níveis de desigualdade social no país.”
Supersalário é a distorção mais visível, não
a única
Por Folha de S. Paulo
Estudo aponta que Brasil extrapola padrões
globais em remunerações acima do teto no serviço público
Estabilidade exagerada também precisa ser
revista; governantes e legisladores se acovardam diante do lobby das
corporações estatais
Graças a avanços de transparência na divulgação
de informações do setor público, o país tem hoje conhecimento amplo e detalhado
da escandalosa prática de pagamento de supersalários em setores variados das
administrações —mas sobretudo nas carreiras ligadas ao sistema de Justiça.
Há diversos indicativos de que tais
privilégios extrapolam em muito os padrões observados tanto em países
desenvolvidos quanto entre os emergentes. Um deles é o custo do Judiciário
brasileiro como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), em torno de
1,2%, sem paralelo nas principais economias do mundo.
Estudo recém-publicado pelas entidades
Movimento Pessoas à Frente e República.org calcula que haja, nos três níveis de
governo, ao menos 53,5 mil servidores
com remuneração superior ao teto do funcionalismo, de R$
46.366,19 mensais —o valor pago ao presidente, aos parlamentares federais e aos
ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Não se encontrou nada parecido em EUA,
Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Portugal, México, Argentina, Colômbia e
Chile, também pesquisados a partir dos limites legais ou dos salários dos
chefes de governo.
Trata-se da deformação mais visível, para a
opinião pública, do serviço público nacional. Nos casos mais comuns, tribunais
e instâncias do Ministério
Público concedem a seu membros auxílios, abonos e outras verbas
indenizatórias que não são computadas como salários. Assim, a despesa média
mensal por magistrado ronda os R$ 70 mil.
Há outras distorções graves, porém, a começar
pelo alcance descabido da estabilidade no emprego —garantia que deveria ser
restrita às funções típicas de Estado e no Brasil beneficia nada menos que dois
terços do servidores. Trata-se de desincentivo óbvio à produtividade, pois nem
mesmo a demissão por mau desempenho está regulamentada.
Mesmo nas remunerações que respeitam o teto,
ademais, há exorbitâncias. O Censo 2022 mostrou que o salário médio no serviço
público supera em 72% o do setor privado. Diferentes estudos mostram que
vantagens se verificam mesmo quando se consideram trabalhadores de funções e
qualificações semelhantes, principalmente na esfera federal.
É válido, de todo modo, que os supersalários
sejam o exemplo mais didático a demonstrar a necessidade de uma reforma
administrativa. Eliminá-los, aliás, seria simples do ponto de vista formal,
dado que o teto remuneratório está fixado na Constituição:
basta lei ou jurisprudência que restrinja exceções a poucos casos.
O real obstáculo a qualquer reforma é político:
governantes e legisladores se acovardam diante do lobby poderoso das
corporações estatais, sobretudo as da elite, ou mesmo são coniventes, por
ideologia ou afinidade de interesses. Os resultados são mais desigualdade
social, mais custo para o contribuinte e menos eficiência nos serviços
públicos.
Preservar as árvores do Butantã
Por Folha de S. Paulo
Em boa hora, Justiça interrompe derrubada em
bairro de São Paulo para empreendimento imobiliário
Sem aumento de áreas verdes, que também
ajudam a melhorar a qualidade do ar, maior metrópole do país sofrerá mais com
crise climática
No centro de uma disputa entre construtora,
comunidade local, ambientalistas e a Prefeitura de São Paulo,
encontram-se 384 árvores localizadas na avenida Guilherme Dumont Villares, no
Butantã, zona oeste da capital paulista.
A empresa Tenda busca erguer no local quatro
torres com nove andares cada, totalizando mais de 700 apartamentos. Por meio de
um Termo de Compromisso Ambiental, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) havia
autorizado a derrubada das árvores, entre elas 128 nativas, sob protestos de
moradores.
A derrubada das árvores deve ser
interrompida. Em boa hora, foi essa a
decisão liminar da 4ª Vara da Fazenda Pública na sexta-feira
(28), dois dias depois do início do corte pela construtora.
Provocado por parlamentares do PSOL,
o Ministério
Público de São Paulo acionou o Poder Judiciário alegando que o
processo administrativo que levou ao acordo entre construtora e prefeitura
havia desrespeitado a necessidade de consulta pública, além de violar o meio ambiente.
Apesar de o acordo prever garantias de
compensação, o processo se deu de forma apressada, sem a devida consideração de
demandas locais e proteção ambiental. Prometem-se o plantio de 221 mudas de
espécies nativas na mesma região e a doação de cerca de R$ 2,5 milhões ao Fundo
Especial do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
Sem a ampliação de áreas verdes, a maior
metrópole do país já caminha, segundo especialistas, para o aumento das ilhas
de calor em seu território, agravando
o impacto local da crise climática.
Não se trata do primeiro caso do tipo na
gestão Nunes. No Alto da Lapa, também na zona oeste, moradores têm
protestado contra a retirada de 118 árvores no chamado Bosque
dos Salesianos para a construção de prédios residenciais no local.
"Larga de ser babaca" foi a reação
do prefeito a um manifestante contrário ao projeto no início do mês, revelando
o estado de ânimo das autoridades locais com vozes dissonantes, enquanto grassa
a expansão imobiliária.
Reduzir a preservação da vegetação a um
ambientalismo pueril, como parece fazer a administração Nunes, é um desfavor à
ciência. Pesquisas apresentam evidências de que mesmo áreas verdes pequenas
contribuem para a melhoria da qualidade do ar em centros urbanos.
Se é legítimo que construtoras queiram erguer edificações e que moradores protestem, cabe à gestão municipal moderação no planejamento da política pública para proteger o ambiente de todos.
Os ultrajantes supersalários
Por O Estado de S. Paulo
O topo do funcionalismo brasileiro é campeão
mundial de privilégios. O País jamais será uma democracia decente enquanto se
deixar saquear por uma elite estatal predatória
Em qualquer democracia madura, o relatório do
Movimento Pessoas à Frente e República.org com dados comparados sobre o teto
salarial no setor público produziria um choque capaz de abalar ministros,
presidentes de tribunais e chefes do Ministério Público. No Brasil, passou
quase despercebido como mais um capítulo da pornografia fiscal que sustenta a
casta que sequestrou o Estado. O documento funciona como biópsia de um
organismo tomado por tumores patrimonialistas tão virulentos que já não é
possível distinguir a doença da instituição.
Cada número é um tapa na cara do
contribuinte. O País gasta R$ 20 bilhões por ano com supersalários. Cerca de
53,5 mil servidores – sendo 31 mil juízes e procuradores – ganham acima do teto
constitucional de R$ 46,3 mil, contra zero na Alemanha e menos de 2 mil na
França, Itália, Portugal, México, Chile ou Colômbia. O Brasil tem mais
superassalariados que os outros dez países analisados somados. A Argentina,
segunda no ranking, tem 27 mil, mas enquanto eles consomem US$ 381 milhões (no
critério de paridade de poder de compra), o Brasil torra US$ 8 bilhões com seus
nababos – mil vezes mais que boa parte das nações europeias.
A perversão é endêmica. Está em todos os
indicadores. Em nenhum dos outros países existem retroativos ilimitados,
indenizações indiscriminadas ou folgas convertidas em dinheiro. Em todos, as
remunerações são definidas ou pelos Parlamentos ou por comissões independentes.
Aqui, corporações predatórias se autoconcedem privilégios e ainda posam de
vítimas quando chamadas a prestar contas.
Um juiz brasileiro pode ganhar até quatro
vezes mais que ministros das Supremas Cortes da Alemanha, da França ou dos EUA.
Em um ano, 11 mil magistrados embolsaram mais de R$ 1 milhão – um patamar de
remuneração inexistente em sete dos outros dez países. Muitos receberam isso
num único mês – cerca de 20 tetos, mais de 300 vezes a média salarial do
funcionalismo e um monumento à depredação moral da República. Cerca de 40 mil
servidores estão no 1% mais rico do País, o maior contingente entre todos os
países analisados.
Nada disso é acidente. É engenharia. É a
corrupção institucionalizada por quem deveria defender a lei. Quando o
mecanismo remuneratório é desenhado pelos próprios beneficiários, parcelas
retroativas acumulam anos de passivos fictícios, e verbas “indenizatórias” –
que deveriam ser excepcionais e ressarcir gastos adiantados pelo profissional –
são fraudulentamente manipuladas para camuflar subsídios permanentes, burlando
não só o teto constitucional, mas também o Imposto de Renda. Os Conselhos do
Judiciário e do Ministério Público, que deveriam conter abusos, subverteram-se
em usinas de penduricalhos. Não contentes com 60 dias de férias – fora os
recessos –, tribunais fabricam “acúmulos de função” que rendem dez dias de
folga mensais – que, por sua vez, se transmutam em mais verbas. A Suprema Corte
posa de “salvadora da democracia”, mas lidera a corporação na vanguarda da
delinquência institucional.
A bestialidade moral é ainda mais violenta
que a fiscal. Mais da metade dos servidores ganha até R$ 3,3 mil. Professores,
policiais e enfermeiros sobrevivem a pão e água, enquanto o pouco mais de 1% do
funcionalismo que acumula R$ 20 bilhões acima do teto opera como senhores
feudais impermeáveis ao País real. São justamente as carreiras que engendram
suas próprias regras, intimidam parlamentares e obliteram reformas. O teto
virou ficção; a exceção, método; o privilégio, “direito adquirido”. O Estado
perverteu-se em uma máquina de transferência de renda às avessas; um Moloc
regular, previdente e obeso que devora o dinheiro do Brasil que trabalha e
produz: pobre paga imposto regressivo, a oligarquia estatal extorque
retroativos multibilionários.
Não há espaço para evasivas. Ou a sociedade
civil empareda seus representantes eleitos para que extirpem o tumor –
redefinindo regras, eliminando penduricalhos, impondo transparência ao abrigo
do teto constitucional – ou será asfixiada pela hipertrofia parasitária das
corporações estatais. O Brasil jamais se tornará uma democracia decente
enquanto tolerar que sua elite burocrática viva como dona do Estado e não como
servidora dos cidadãos.
Congresso em dívida contumaz com País
Por O Estado de S. Paulo
Morosidade no andamento do PL que visa a
combater a sonegação deliberada de impostos por empresas fere o princípio
parlamentar fundamental de legislar em defesa da sociedade
A Câmara dos Deputados já tinha maioria
declarada – como mostrou levantamento do Estadão – pela aprovação da medida que aperta
o cerco contra empresários sonegadores antes da operação policial que teve como
alvo Ricardo Magro, dono do Grupo Refit, classificado pela Receita Federal como
o maior devedor contumaz do País. Mas foi necessária a investida da Receita e
de Ministérios Públicos de cinco Estados e do Distrito Federal escancarando as
fraudes do grupo, num total de mais de R$ 26 bilhões, para o presidente da
Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), retirar o projeto da gaveta.
O rame-rame da matéria no Congresso não é de
agora, se arrasta há cerca de oito anos e só experimentou celeridade em agosto
passado, em outra circunstância cuja semelhança não é mera coincidência: as
três operações policiais simultâneas que revelaram o escândalo das conexões da
facção criminosa PCC com empresas de combustíveis e instituições financeiras em
arranjos de sonegação e lavagem de dinheiro. O Senado, onde a matéria mofava
havia cerca de três anos, rapidamente se movimentou e em cinco dias o texto,
com regras ainda mais rígidas, foi aprovado por unanimidade.
Com o projeto de volta à Câmara, após as
alterações, a aprovação do regime de urgência parecia indicar que, enfim, o
calvário seria encerrado, mas foi só jogo de cena antes de o projeto voltar
para a gaveta. Não se pode condenar quem veja na procrastinação o efeito de
lobbies interessados em manter abertos os diversos caminhos por onde desviar
obrigações tributárias. Tendo em vista que se trata de um projeto
especificamente voltado ao combate à bandidagem – tanto a de arma em punho
quanto a de colarinho branco –, o texto deveria receber mais interesse dos
parlamentares que se dizem tão empenhados em enfrentar o crime.
A Operação Poço de Lobato, em torno do Grupo
Refit, serviu para destravar o projeto na Câmara e angariar mais apoio à
medida. Se antes a sondagem do Estadão havia
apurado 260 votos favoráveis, logo após a operação o total subiu para 285, ou
55,6% dos 513 deputados, mais do que suficiente para a aprovação. Mas não deixa
de ser estranho que uma matéria de tamanho interesse para a sociedade, para a
governabilidade e para a própria economia necessite de gatilhos externos para
caminhar no Congresso Nacional, algo que tem ocorrido com perturbadora
frequência.
Foi preciso, por exemplo, que uma operação
policial no Rio de Janeiro deixasse o espantoso saldo de 122 mortos para que o
Projeto de Lei Antifacção, de combate ao crime organizado, retomasse
visibilidade e fosse aprovado pela Câmara dos Deputados. Foram muitas as
alterações no texto original em seis diferentes versões do relatório, mas a
aprovação por um placar folgado não deixou dúvidas sobre a importância do
projeto. O que ocorreu no Senado, até a aprovação do projeto de repressão ao
devedor contumaz, seguiu modelo semelhante.
Na Câmara, Hugo Motta não havia sequer
escolhido o relator da matéria até a investida do Fisco. Ao Estadão, Motta atribuíra o
atraso à disputa dos partidos pela relatoria. Instantes depois de virem a
público os detalhes e a gravidade das fraudes, Motta anunciou Antonio Carlos
Rodrigues (PL-SP) como relator.
União e Estados prejudicados pelas fraudes do
Grupo Refit atuaram juntos na investigação, que uniu adversários políticos na
campanha pela aprovação do projeto – e, claro, pela paternidade da operação. A
Motta, que dias antes havia anunciado o rompimento formal com o líder do PT na
Câmara, não restou alternativa a não ser reativar a tramitação, suspensa havia
quase três meses.
É notório que a crise entre Executivo e
Legislativo vem escalando aceleradamente, mas nenhuma divergência pode servir
de desculpa para afastar da pauta parlamentar questões de grande interesse
nacional. Coibir a delinquência recalcitrante de empresários que atuam à margem
da legalidade é mandatório. Pode-se dizer que o Congresso tem sido devedor
contumaz na sua relação com os interesses dos eleitores. Chegou a hora de
pagar.
Água jogada fora
Por O Estado de S. Paulo
Brasil desperdiça 40,3% da água tratada que
produz, um monumental insulto econômico e ambiental
O desperdício de água tratada no País subiu
de 37,8% em 2022 para 40,3% em 2023, de acordo com um estudo realizado pelo
Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, por sua vez baseado em
dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa).
Mal encerrada a COP-30, em Belém, a
publicação evidencia que, muito além da busca por mais recursos financeiros
para a proteção ambiental, é essencial que a qualidade da gestão e da operação
de serviços como os de abastecimento de água esteja a contento. Infelizmente,
não é o que se observa no Brasil, já que, antes mesmo que chegue às torneiras,
o equivalente a 6.346 piscinas olímpicas de água tratada é desperdiçado
diariamente, algo que a presidente-executiva do Trata Brasil, Luana Pretto, chamou
de “exemplo alarmante de ineficiência”.
A ineficiência é generalizada. Embora Alagoas
(69,9%), Roraima (62,5%) e Acre (62,3%) liderem o infame ranking de
desperdício, mesmo Estados que aparecem entre os que menos perdem água tratada,
como São Paulo (32,7%), estão descumprindo a meta de 25% definida pela Portaria
490/2021, do Ministério do Desenvolvimento Regional (atual Ministério das
Cidades). Goiás, com desperdício de 25,7%, é a unidade da Federação mais bem
posicionada no levantamento.
Por região, a Norte, cujas virtudes e mazelas
foram expostas ao mundo durante a COP de Belém, é a que mais sofre com o
desperdício de água, estimado em 49,8%.
O Brasil também fica mal na foto quando
comparado a outros países, ricos ou pobres. Enquanto as perdas na distribuição
de água por aqui superavam os 40% em 2023, em países desenvolvidos esse
porcentual era de 15%, de acordo com dados do Banco Mundial de 2006, o que
permite inferir que a distância entre o Brasil e as nações desenvolvidas,
quando se trata de desperdício de água, piorou nos últimos anos.
Mas mesmo países pobres como Bolívia (27,80%)
e Equador (39,94%) desperdiçam menos água que o nosso, segundo dados da
Asociación de Entes Reguladores de Agua Potable y Saneamiento de las Americas
(Aderasa) de 2020. Ainda que diferenças metodológicas e de disponibilidade de
dados devam ser consideradas, a realidade brasileira é escandalosa sob qualquer
ângulo que se observe.
Talvez por ser o país com as maiores reservas
de água doce do mundo, o Brasil entenda que pode se dar ao luxo de jogar fora
um recurso natural tão importante. Lamentável engano, ainda mais quando 34
milhões de brasileiros ainda não têm acesso a água tratada.
Ao desperdiçar recursos hídricos como vem
fazendo, o País coloca pressão desnecessária sobre seus rios e mananciais, e
isso num momento de grandes transformações climáticas. Vive-se então um círculo
vicioso, que demanda mais investimento, mais manutenção e mais captação de água
em sistemas hídricos que, muitas vezes, já estão sob estresse.
Se o Brasil, que aos trancos e barrancos acaba de sediar o mais importante evento ambiental do planeta, quiser se mostrar realmente comprometido com estratégias de adaptação climática, reduzir a vergonhosa perda de água tratada seria um bom começo.
A hora e a vez do devedor contumaz
Por Correio Braziliense
Para punir esses sonegadores profissionais e
proteger os contribuintes honestos, o governo defende a aprovação de uma
legislação capaz de fornecer instrumentos adequados de repressão
Três meses depois de a Operação Carbono
Oculto revelar a extensão financeira do crime organizado, em um esquema que
mantinha uma ampla cadeia de negócios ilícitos com venda de combustível e o
envolvimento de fintechs em plena avenida Faria Lima, o país tomou conhecimento
de um novo ardil. A operação Poço de Lobato trouxe à luz um esquema de
sonegação fiscal e lavagem de dinheiro novamente no setor de combustíveis, além
de evasão de divisas e ocultação de patrimônio. O alvo da vez é o grupo Refit,
apresentado à nação como um dos maiores devedores do Fisco: R$ 26 bilhões em
impostos não recolhidos.
É importante sublinhar os valores envolvidos
nas duas operações. Os agentes da Carbono Oculto identificaram que a facção
criminosa investigada movimentou cerca de R$ 50 bilhões entre 2020 e 2024, por
meio de uma engenhosa rede que incluía empresas de fachada, lavagem de dinheiro
e uso de fundos de investimento. No caso da Poço de Lobato, as atividades
ilícitas também giram na casa dos bilhões de reais, e as diligências indicam
uma relação do grupo Refit e o esquema construído pelo Primeiro Comando da Capital.
Na quinta-feira, mais de R$ 10 bilhões em bens dos envolvidos foram bloqueados
pelas autoridades.
Além de revelar uma nova fronteira de crimes
econômicos, a operação Poço de Lobato reforçou, de forma empírica, a urgência
de aprovar a legislação a um tipo de contraventor: o devedor contumaz. Trata-se
de empresas criadas com o intuito deliberado de sonegar impostos. As
autoridades do Fisco estimam cerca de mil contribuintes com essa conduta
criminosa, entre as mais de 20 milhões de empresas no Brasil. "É uma
pequena minoria, mas que causa um estrago enorme em determinados setores",
afirmou o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas.
Para punir esses sonegadores profissionais e
proteger os contribuintes honestos, o governo defende a aprovação de uma
legislação capaz de fornecer instrumentos adequados de repressão. É com esse
propósito que o Senado, no início de setembro, aprovou o Projeto de Lei
Complementar 125/2022, que institui o Código de Defesa do Contribuinte. De
autoria do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), a proposta define como devedor
contumaz aquele contribuinte que, em âmbito federal, acumula dívida
injustificada superior a R$ 15 milhões e correspondente a mais de 100% do seu
patrimônio conhecido. Há também tipificações para devedores em nível estadual e
municipal.
De setembro até aqui, passaram-se quase três
meses. Somente na semana passada, pressionado e impressionado pelo volume da
criminalidade tributária praticada no Brasil, o presidente da Câmara dos
Deputados anunciou o nome do relator do PLP 125. Há uma expectativa de que o
tema seja definido na reunião de líderes da Casa desta semana. Descontando-se o
oportunismo rasteiro de resgatar um tema que estava esquecido no Legislativo
somente após mais uma operação de peso contra grupos sob fortes suspeitas de
grave contravenção fiscal, espera-se que os deputados atuem, pelo menos desta
vez, em favor do interesse do país.
Está evidente que a asfixia financeira e o combate à sonegação são instrumentos poderosos contra o poder do crime organizado, muito mais prejudiciais às facções do que uma carnificina em praça pública.
O "coração da Cidade" é entregue à
população
Por O Povo (CE)
Um dos principais cartões-postais da capital
cearense, a Praça do Ferreira foi apresentada ao público na semana que passou,
após quatro meses fechada para reformas. Com nova iluminação, fonte interativa
e intervenções nos quiosques, as obras fizeram parte de um investimento de R$ 8
milhões, numa parceria entre a Prefeitura de Fortaleza e o Governo do Estado.
Iniciadas em 8 de julho deste ano, as obras
têm projeto assinado pelo arquiteto Fausto Nilo e incluíram mudança completa do
piso, requalificação dos passeios com foco em acessibilidade, construção de
novos quiosques, instalação de travessias elevadas para pedestres, instalação
de paraciclos, reforma dos bancos, instalação de novos postes e reforma da
fonte da histórica Coluna da Hora - monumento erigido em 1991 que busca
resgatar a essência da primeira Coluna, inaugurada em 1933. O projeto
arquitetônico foi concebido pelos arquitetos Fausto Nilo e Delberg Ponce de
Leon.
Segundo o prefeito Evandro Leitão (PT)
afirmou no dia da entrega, "esse é o início do resgate do Centro da
Cidade". Acrescentou que outras obras devem ser realizadas também na Praça
Clóvis Beviláqua (comumente chamada de Praça da Bandeira) e na Praça dos
Mártires (conhecida como Praça do Passeio Público), além de um complexo a ser
entregue na rua Senador Pompeu.
É bastante louvável a ideia de "devolver
o Centro para os fortalezenses", de mostrar à Cidade que há uma atenção
com o seu patrimônio, que é público e que, por isso, precisa ser cuidado por
todos que dele usufruem. A iniciativa de realizar reformas que visem à
modernização e ao bom uso dos equipamentos precisa ser uma preocupação
constante dos gestores. Há, desse modo, uma preservação de áreas históricas ao
tempo em que se reforçam os laços afetivos da população com os espaços.
Torna-se desafio garantir que haja manutenção
para o logradouro como área buscada por moradores e turistas. Neste momento de
festas natalinas, a Praça do Ferreira se transforma em palco para o encantador
concerto do projeto "Ceará Natal de Luz". É natural que haja uma
movimentação maior no lugar, o que deve ser estimulado. Assim, faz-se urgente
que essa preservação ocorra agora e se torne uma prática contínua, com o apoio
da população que usa o local.
Além disso, os gestores municipais e
estaduais precisam olhar para outras áreas de Fortaleza que igualmente carecem
de esforço de restauração. Um exemplo é a área do entorno do Dragão do Mar, que
também precisa ser devolvida à Cidade. É necessário que haja ações direcionadas
àquele espaço para que ele possa ser desfrutado pela população com
entretenimento e segurança. Com obras iniciadas em julho de 2024, a área da
praça Almirante Saldanha, que contorna o Centro Dragão do Mar de Arte e
Cultura, tem inauguração prevista para janeiro de 2026.
Festejemos, por ora, a nova Praça do Ferreira, o "coração da Cidade", um corredor de passagem intensa durante o dia, uma testemunha de conversas pacientes nos bancos à tardezinha e um relevante palco de acontecimentos políticos, culturais e econômicos que interessam a Cidade.

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