segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Desigualdade vira fetiche no debate público. Por Irapuã Santana

O Globo

A ciência nos mostra que o bem-estar psicológico de um país não se conquista apenas achatando o topo da pirâmide

Durante as últimas duas décadas, consolidou-se no debate público uma espécie de dogma inquestionável: a ideia de que a desigualdade econômica é uma “toxina social” que adoece a mente das populações. De editoriais a discursos políticos, a narrativa era que o abismo entre ricos e pobres seria causa direta da depressão, da ansiedade e da erosão do bem-estar. No entanto um estudo recente publicado na revista Nature, por Nicolas Sommet e sua equipe, acaba de pôr em xeque essa crença.

O trabalho é uma síntese estatística de grandes proporções, que analisou 168 estudos abrangendo mais de 11 milhões de pessoas em 38 mil unidades geográficas. Os pesquisadores concluíram que a desigualdade de renda, isoladamente, não tem efeito significativo sobre o bem-estar ou a saúde mental.

Mas como passamos tanto tempo acreditando no contrário? A resposta reside no que os cientistas chamam de “viés de publicação”. O estudo revelou que a literatura acadêmica anterior estava saturada de pesquisas pequenas e estatisticamente ruidosas, que tendiam a reportar efeitos negativos exagerados. Esses resultados “politicamente convenientes” encontravam caminho fácil para as revistas, enquanto os estudos que não encontravam correlação acabavam esquecidos em gavetas. Ao corrigir os desvios com rigor metodológico, o efeito da desigualdade na saúde mental simplesmente evaporou.

A análise foi submetida a um “teste de estresse” por meio de 768 modelos analíticos diferentes. Em 95% das vezes, a conclusão foi a mesma: o efeito da desigualdade isolada é nulo sobre o bem-estar da população. Além disso, uma das ferramentas revelou que 80% dos estudos anteriores sobre o tema tinham um risco “alto” ou “muito alto” de viés, falhando em controlar variáveis básicas, como a renda individual.

Isso significa que a desigualdade é irrelevante? De forma alguma. A grande contribuição do estudo é mudar o prisma: a desigualdade não é a causa raiz, mas sim um catalisador contextual. Os dados mostram que ela só se torna um problema psicológico sob condições específicas: em grupos de baixa renda ou em lugares onde a inflação é alta. Isso porque, do outro lado, em países economicamente estáveis (com inflação baixa), a população tende a interpretar a riqueza dos outros como evidência de que a ascensão social é possível e de que o sistema recompensa o esforço. Nesses casos, a desigualdade pode até gerar aumento no bem-estar subjetivo, já que alimenta o otimismo sobre o futuro.

Para o Brasil, o recado é urgente. O fetiche em torno da desigualdade relativa muitas vezes nos tira o foco do que realmente importa: a erradicação da pobreza absoluta e a busca pela estabilidade econômica, e não apenas observar e apontar, com ansiedade, a distância entre o topo e a base da pirâmide.

No fim das contas, a ciência nos mostra que o bem-estar psicológico de um país não se conquista apenas achatando o topo da pirâmide, mas assegurando que ninguém, em nenhuma circunstância, seja deixado para trás no subsolo da economia.

 

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