segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Signos sem significado. Por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Os analfabetos veem um texto como uma sequência de símbolos cuja ordem não lhes diz nada

O momento em que se aprende a ler talvez seja, mais que um segundo parto, o real ingresso no mundo

Alguém me falou de um anúncio institucional que a Unesco publicou há tempos para uma campanha pela alfabetização. Consistia de uma frase escrita de trás para a frente —ideia talvez tirada de "Alice Através do Espelho" (1871), o livro de Lewis Carroll em que, por estar "do lado de lá" do espelho, Alice vê tudo ao contrário, inclusive um poema num livro sobre a mesa. É como um analfabeto vê um texto —uma sequência de símbolos cuja ordem não lhe quer dizer nada. Alice resolve o problema botando o poema diante de um espelho. O mundo, no entanto, exige mais: a alfabetização em massa.

Trump e o doux commerce: interdependência, populismo e erosão das regras. Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A teia densificada pela globalização financeira e pelas cadeias produtivas transnacionais pode domesticar o presidente americano?

Sob o americano há uma inversão do padrão clássico de captura do Estado por interesses privados; mas não no Brasil

"Onde os costumes são gentis, há comércio; e onde há comércio, os costumes tornam-se gentis." A máxima de Montesquieu forneceu o mote para a análise de Albert Hirschman em "As Paixões e os Interesses": o comércio é "suave" (doux), civiliza os indivíduos e atenua paixões violentas —guerra, fanatismo, tirania. Ao criar laços e dependências recíprocas, os interesses econômicos substituem a violência por troca, contrato e cálculo, promovendo ordem e paz.

Donald Trump e a hegemonia predatória dos Estados Unidos. Por Roberto Goulart Menezes

Correio Braziliense

Em um ano de governo, Trump tenta impor dominação sobre o mundo e abandona o difícil exercício da hegemonia que foi o que fez dos EUA uma potência mundial

Donald Trump completou um ano do seu mandato à frente da maior potência mundial. E, desde o início da sua presidência, em janeiro de 2025, as políticas externa e comercial dos Estados Unidos têm sido marcadas pela agressividade e pelo unilateralismo. Em seu discurso de mais de uma hora proferido no Fórum Econômico Mundial (Davos, Suíça), em 21 de janeiro, o presidente Trump fez um balanço do seu primeiro ano e discorreu sobre a sua política externa. A plateia, em sua maioria composta por magnatas das finanças, da indústria, das big-techs entre outros, juntamente com a presença de alguns chefes de Estado e de governo de diferentes países, ouviu um discurso sem rodeios, no qual Trump tocou em questões geopolíticas bem delicadas, a começar pela relação com os seus aliados europeus.

Master e o foro privilegiado. Por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

O caso começou a gerar atritos entre instituições federais após Toffoli ‘puxar’ as apurações ao STF

A encrenca do Banco Master, que transbordou das editorias de Economia para as páginas policiais e de Política, reforça a necessidade de se retomar a discussão sobre a aplicação e a abrangência do foro por prerrogativa de função. O caso de fraude financeira começou a gerar atritos entre instituições federais depois que o ministro Dias Toffoli “puxou” as investigações para o Supremo Tribunal Federal (STF), sob a alegação de que os documentos citavam uma transação imobiliária entre o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA) e Daniel Vorcaro, dono do banco. O negócio, que nem sequer foi concretizado, não parece ter relação direta com as fraudes sob investigação.

Mundo tem de rever suas dependências. Por Oliver Stuenkel

O Estado de S. Paulo

Imprevisibilidade de Trump obriga países a reduzir dependência em relação aos Estados Unidos

A atuação errática de Donald Trump produziu um efeito que vai muito além de disputas comerciais pontuais: governos ao redor do mundo estão sendo forçados a repensar o grau de dependência que mantêm em relação aos Estados Unidos. Governos europeus, latino-americanos e asiáticos, principalmente, discutem como reduzir vulnerabilidades estratégicas diante de um parceiro cada vez mais imprevisível. O caso da Alemanha, um dos países mais dependentes de Washington, é especialmente instrutivo – inclusive para o Brasil.

Trump. Por Denis L. Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Com a nova doutrina Trump, alicerçada na força militar, na potência econômica e na diplomacia, a reconfiguração mundial alcança um novo patamar

O mundo geopolítico, tal como o conhecemos desde a 2.ª Guerra Mundial, ruiu. Estamos observando seu desmoronamento, com as instituições que o alicerçavam sendo abaladas em seus fundamentos. De nada adianta recorrer ao “Direito Internacional”, como se fosse algo perene. O próprio conceito de Direito Internacional torna-se problemático, visto que está embasado no acordo entre Estados que assim estabelecem relações jurídicas. Depende da adesão das partes signatárias a tal tipo de contrato, cessando se Estados importantes, tipo grandes potências, se retirarem do acordado.

Desigualdade vira fetiche no debate público. Por Irapuã Santana

O Globo

A ciência nos mostra que o bem-estar psicológico de um país não se conquista apenas achatando o topo da pirâmide

Durante as últimas duas décadas, consolidou-se no debate público uma espécie de dogma inquestionável: a ideia de que a desigualdade econômica é uma “toxina social” que adoece a mente das populações. De editoriais a discursos políticos, a narrativa era que o abismo entre ricos e pobres seria causa direta da depressão, da ansiedade e da erosão do bem-estar. No entanto um estudo recente publicado na revista Nature, por Nicolas Sommet e sua equipe, acaba de pôr em xeque essa crença.

O trabalho é uma síntese estatística de grandes proporções, que analisou 168 estudos abrangendo mais de 11 milhões de pessoas em 38 mil unidades geográficas. Os pesquisadores concluíram que a desigualdade de renda, isoladamente, não tem efeito significativo sobre o bem-estar ou a saúde mental.

Quem desmoraliza o STF? Por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Quem mais tem a explicar é o próprio Dias Toffoli. Mas cabe ao Supremo analisar o comportamento de seus ministros

O presidente do STF, Edson Fachin, gastou quatro parágrafos para descrever as funções do Banco Central, da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do próprio Supremo. O resumo desse trecho da nota divulgada pelo ministro na semana passada é o seguinte: o BC cuida do sistema financeiro, a PF é “indispensável” na apuração de crimes, a PGR denuncia, e o STF garante a Constituição.

Óbvio, não é mesmo? Nas bem traçadas linhas, o sistema parece uma máquina em funcionamento harmônico, com todos cumprindo suas funções constitucionais de modo exemplar, incluindo o ministro Dias Toffoli.

O carro usado de Toffoli. Por Miguel de Almeida

O Globo

Ele nunca desfrutou os momentos heroicos protagonizados por Xandão

Por vezes, no meu travesseiro, sou atormentado pela dúvida: no mercado, qual seria o deságio para desembaraçar os produtos vendidos por Toffoli? É do jogo: quando seu nome perde confiança, nada o salva. O ostracismo de Toffoli encontra na fase complicada de Xandão um ombro amigo. Os dois se protegem mutuamente e trocam passes. Mas Toffoli nunca desfrutou os momentos heroicos protagonizados por Xandão. Longe disso: sempre foi visto como um encostado do PT, premiado pela amizade com José Dirceu e por serviços prestados ao partido. Sem brilho intelectual ou de retórica. Como seu time do coração, o Palmeiras, não tem o Mundial entre as sumidades do Direito.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Desordem promovida por Trump enche o Brasil de dólares

Por Folha de S. Paulo

Até 21 de janeiro, estrangeiros injetaram R$ 12,35 bi na Bolsa brasileira, 46% do total de 2025

Republicano alimenta insegurança; Brasil, grande exportador de petróleo, minério de ferro e produtos agrícolas, beneficia-se diretamente

A política "America First" (em primeiro lugar) de Donald Trump, que prometia fortalecer os EUA, tem se revelado, paradoxalmente, "America Last" (por último) no universo dos ativos financeiros.
Enquanto Wall Street oscila neste início de ano em meio a incertezas, a Bolsa brasileira vive dias efervescentes, com entrada maciça de capital estrangeiro.

Até 21 de janeiro, investidores não residentes injetaram R$ 12,35 bilhões na B3, quase a metade do total aportado em todo o ano de 2025 (R$ 26,87 bilhões). Com esse impulso, o Ibovespa já subiu mais de 9% neste mês, superando S&P 500, Nasdaq e mesmo o índice de emergentes. Entre os principais mercados, é o americano que fica para trás.

Poesia | Não há amor feliz ("Il n'y a pas d'amour heureux”), de Louis Aragon

Nada é definitivo na vida de um homem
Nem a sua força nem a sua fragilidade nem o seu coração
Quando acredita abrir os braços num abraço
A sombra é a de uma cruz
Quando acredita agarrar a felicidade descobre uma ferida
A vida é um estranho e doloroso divórcio

Não há amor feliz

A  vida é um soldado sem armas
Fardado para outros destinos
De pouco serve acordar cedo
Quando ao fim da tarde se é assaltado pelas incertezas
E dizer as palavras Minha Vida para calar as lágrimas

Não há amor feliz

Música | Roberta Sá - A Rosa (Chico Buarque)