Valor Econômico
Filho de Bolsonaro amplia diálogo para tentar
consolidar candidatura após recuo de Tarcísio
A pré-candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem como principal desafio, no momento, abrir caminho em setores que o rejeitam e dialogar “além da bolha bolsonarista” para se consolidar no cenário eleitoral, segundo a avaliação de entusiastas da campanha e aliados que pressionam o senador por movimentos de ampliação.
Lançada em dezembro com o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro - que está preso por tentativa de golpe de Estado -, a pré-candidatura se concentrará nas próximas semanas em contornar resistências e se firmar como alternativa competitiva da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deve tentar a reeleição em outubro pelo PT.
O grupo político de Flávio considerou ter
tido uma vitória política na última semana com as novas declarações do
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), de que seu foco é
a reeleição e qualquer outra possibilidade não passa de “especulação”. A
análise, segundo relatos, é que Flávio passa a ter uma via desobstruída como
representante oficial do bolsonarismo.
Na sexta-feira (23), Tarcísio reiterou apoio
a Flávio e enfatizou que “não vai apresentar uma carta de renúncia” em abril,
prazo para largar a cadeira caso pretenda concorrer à Presidência. Os gestos
vieram após o mal-estar entre Tarcísio e bolsonaristas, por causa do adiamento
da visita do governador ao ex-presidente na prisão, alegando “compromissos a
cumprir em São Paulo”.
Em meio ao ceticismo com a viabilidade de
Flávio, por fatores como a rejeição alta aferida em pesquisas e a frustração de
alas do Centrão e do mercado que têm preferência por Tarcísio, o líder da
oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN), acaba de assumir a coordenação da
pré-campanha. A mudança faz parte de uma estratégia para buscar dar
“musculatura” ao projeto.
“O Flávio já demonstrou que tem capacidade de
tracionar a sua candidatura. Deu uma circulada junto ao mercado financeiro e
fez o dever de casa de mostrar-se à população de forma inicial, [mas] ele herda
também uma rejeição, em função, inclusive, da polarização no país”, afirma
Marinho.
Segundo ele, no entanto, a rejeição está
menos ligada ao presidenciável em si, mas ao que ele “representa na cabeça do
eleitor”, pela associação com o pai. “O Flávio é alguém leve, que conversa e é
da política. A forma como ele tem se posicionado e se apresentado está
dialogando além desse grupo duro inicial que representa o legado do [ex-]
presidente Bolsonaro”, diz.
Marinho, que abriu mão de concorrer ao
governo do Rio Grande do Norte para cuidar da campanha, ressalva que o momento
ainda é de “fase inicial de pré-campanha”, mas “a interlocução com os
presidentes de partidos importantes que já têm conosco uma convergência e
afinidade vem acontecendo de forma cada vez mais amiudada”.
O presidente nacional do PP, senador Ciro
Nogueira (PI), em entrevistas recentes, condicionou um embarque do partido na
candidatura a gestos no sentido oposto ao radicalismo, a fim de atrair
eleitores ao centro. Nogueira disse que o senador precisa deixar claro se sua
candidatura é “para ganhar e unificar o país” ou é “apenas para defender o
legado” do ex-presidente.
Para o cientista político Rafael Cortez, “o
principal problema ainda é de ordem estratégica, ou seja, a definição de quem
será o candidato da oposição e de quais partidos estarão nessa aliança”. Flávio
poderá “ampliar seu mercado eleitoral se for bem-sucedido em desmobilizar novas
candidaturas de oposição”, diz o sócio da consultoria Tendências.
A “suavização” da imagem de Flávio é tratada
como um “ponto de atenção” por profissionais que dialogam com o entorno dele.
Nas palavras de um desses estrategistas, que falou à reportagem sob reserva, a
tarefa será mostrar que “nem sempre é tal pai, tal filho”. Um aliado, que
também pediu para não ser identificado, lembrou que controvérsias do passado do
próprio Flávio deverão ser exploradas por rivais, com potencial de desgaste.
Segundo o empresário Filipe Sabará, que atua
para aproximar a candidatura de agentes econômicos, a “primeira furada de
bolha” do senador tem ocorrido com o mercado financeiro, que “estava com outras
apostas”, como a possível entrada de Tarcísio. “Como agora ele [governador] fez
uma comunicação mais clara sobre isso, acho que o objetivo de unificação da
base política foi alcançado”, diz Sabará, que esteve na campanha de Pablo
Marçal à Prefeitura de São Paulo em 2024.
O colaborador relata ter recebido “muito feedback positivo” dos encontros e almoços “na Faria Lima”. Ele representou o senador em uma agenda na semana passada e disse ter falado com cerca de 20 bancos e gestoras de investimentos. Flávio, que estava em viagem a Israel, deve ter outras conversas com o mercado a partir de fevereiro, segundo Sabará. Procurado via assessoria, o senador não respondeu.

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