Correio Braziliense
O primeiro dia do ano não revela nada além do
que vinho e espumante permitem sonhar
Quem dividiu o tempo em parcelas trabalhou com muita inteligência. A cada vencimento de ano, as pessoas renovam esperanças na expectativa de que um novo tempo se inicia. Na verdade, o tempo é contínuo, homens e mulheres caminham irreversivelmente para o fim, coisa difícil de imaginar, perceber e sentir. Melhor não pensar nisso. Ficamos todos mais velhos com o simples andar do relógio. Meia-noite, novo tempo, nova idade e novas expectativas que se baseiam nas realidades anteriores. É melhor ter esperança do que se angustiar com a realidade.
O Brasil de 2026 vai viver dois momentos
importantes. O primeiro em junho, a Copa do Mundo de Futebol, que será
disputada nos Estados Unidos, México e Canadá. Os brasileiros fizeram um
esforço inédito para tentar chegar ao sexto título. Contrataram o campeoníssimo
Carlo Ancelotti, italiano, técnico supervitorioso, que, supostamente, trouxe
sua vasta experiência para reciclar os brasileiros nos últimos conceitos da
escola europeia de futebol. Ninguém sabe se vai dar certo. O mister é várias
vezes campeão, mas o esporte tem uma larga faixa de imponderável e de ação do
Sobrenatural de Almeida, na definição genial de Nelson Rodrigues. Enfim, será
necessário ter engenho, arte e sorte, muita sorte para vencer.
O resultado da Copa do Mundo vai influenciar
diretamente o humor do brasileiro que irá depositar seu voto em outubro de
2026. Vai escolher o novo presidente da República, além de deputados e
senadores. O ex-presidente Jair Bolsonaro, que está preso por ter incentivado
um golpe de estado no Brasil para instalar uma ditadura, passou o bastão para
seu filho Flávio, "entrego o que tenho demais sagrado, meu filho",
disse em comunicado redigido a mão com tons dramáticos e até religiosos.
Bolsonaro não demonstrou ter percebido, durante seu governo, o sofrimento de
quem teve covid. Ele ridicularizou os doentes, imitou a falta de ar em mensagem
pública, recomendou remédios ineficazes e assistiu sem mover um músculo à morte
de mais de 700 mil brasileiros. Não visitou um único hospital.
Seu governo foi um deserto de ideias. Nenhum
projeto, nenhuma obra importante. Ele se contentava em criticar seus
adversários e falar mal de opositores para os jornalistas confinados no famoso
cercadinho na porta do Palácio da Alvorada. Ele não deixou nada, nenhuma ideia,
subsídio ou projeto. Seu filho, Flávio, assumiu a postura de candidato apenas
por ser ungido pelo pai. Não anunciou nenhum plano de governo, não disse que o
pretende fazer se for eleito, nem revelou projeto econômico ou de política
externa. Ele imita o pai. Seu repertório é criticar adversários e improvisar
porque os bolsonaros não gostam de ler, passam longe das lições da história,
não possuem grupo, nem dispõem de assessores qualificados. Seus principais
assessores eram os militares golpistas, que estão quase todos presos. São
arrivistas no melhor sentido da palavra. Não têm nada a oferecer e tudo a se
beneficiar.
O grupo de oposição, naturalmente, ainda vai
se organizar. Seus dirigentes sabem que a candidatura de Flávio Bolsonaro é
música para os projetos de Luiz Inácio Lula da Silva. Vencer opositor tão pouco
representativo é relativamente fácil. O atual presidente está disposto a
concorrer ao quarto mandato presidencial. Diz que está com boa saúde, magro,
bem disposto e com mulher nova. Enfim, ele está esfregando as mãos para
concorrer de novo e vencer mais uma vez. Não é impossível. Lula trabalhou bem
para não deixar florescer nenhuma possível candidatura dentro de seu partido. O
PT não tem alternativa. Ou é Lula ou é Lula. Bom trabalho político. Ele
embaralhou também a direita.
Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo,
é o preferido pelos homens do dinheiro e pelas lideranças do agronegócio. Se
for candidato, terá como plataforma o estado mínimo, privatização de empresas
estatais, recuperação fiscal do país e aumento vertiginoso de exportações.
Menos governo e mais participação de empresários no crescimento nacional. É uma
plataforma poderosa, com apoio significativo de diversos recantos do território
nacional, sobretudo nas áreas produtivas do Sul e do Centro-Oeste. Mas Tarcísio
de Freitas não pretende ser candidato à Presidência da República. Prefere
disputar o Governo de São Paulo, onde poderá ter uma eleição tranquila, sem ter
os bolsonaros por perto. E não pretende bater de frente com Lula. Ele é jovem.
Pode esperar quatro anos e pensar na eleição de 2030.
O primeiro dia do ano não revela nada além do
que vinho e espumante permitem sonhar. A oposição, também chamada de direita,
pode apresentar outros candidatos. O tempo é curto. O enigma tem que se
resolver no primeiro semestre. Os brasileiros vão se unir na Copa do Mundo e se
dividir em outubro no momento da eleição. Emoções não vão faltar. Mas o país,
como sempre acontece, sairá mais forte após os dois pesados testes públicos,
que mostrarão o Brasil e os brasileiros em estado puro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário