O Estado de S. Paulo
Se não for por este caminho, será mais do
mesmo em 2026, mas com o dobro do descontentamento manifestado nas ruas em 2013
Dois estudos exigem detida análise para se
decifrar o que vem a ser o Brasil dos anos 20 do nosso século: o levantamento
sobre valores e crenças dos brasileiros, publicado sob o título Brasil no
Espelho (Globo Livros), de Felipe Nunes e O Brasil dos Invisíveis, de Pablo
Ortellado e Stephen Hawking, pesquisa da More in Common, com nova perspectiva
sobre os segmentos políticos.
Não se trata de espelho a refletir apenas a imagem externa, mas de verdadeira tomografia da alma brasileira. Se por uma ideia se morre, mas por uma crença se vive, conforme Ortega y Gasset, é importante decifrar, com perguntas reveladoras das escolhas valorativas, no que crê a nossa gente.
E assim o faz Felipe Nunes, a desvendar os
valores fundantes do brasileiro, por diversos vieses: geracional, religioso,
cor, sexo, escolaridade, região, posição política, perscrutando ambições, medos
e expectativas em face do poder público. E chega a precisas conclusões: o
brasileiro é individualista, desconfiado e conservador, pois, religioso,
acredita num Deus cristão, regente da existência, levando ao vertiginoso
crescimento dos protestantes de diversas denominações.
A frequência ao culto é forma de socialidade
para pessoas desconfiadas como o brasileiro, infenso a trabalhos comunitários,
a esforços coletivos, para quem os outros, especialmente os servidores
públicos, são inconfiáveis.
A família constitui “âncora afetiva e moral”,
de alta centralidade amorosa, diversa da antiga estrutura patriarcal
hierarquizada, sendo uma constância o almoço de domingo. Acima da família só
Deus.
A segurança pública é questão central já há
tempos assinalada, sendo o brasileiro, por medo, punitivista, mas aderente a
práticas realistas. Reconhece a necessidade de inteligência na investigação,
presença territorial, mas opõe-se ao armamentismo.
No plano das escolhas políticas, afirma-se a
presença de um “centro expandido”, prevalecendo o conservadorismo moral e a
cobrança de atuação estatal nos campos da saúde e da educação. Mas pensa que
benefícios sociais devem ser concedidos “a quem merece”, para “não fomentar o
ócio”. Parcela de 37% se diz de centro, avaliando o governo por aquilo que fez,
sem posições preconcebidas.
O conservadorismo se expressa na aprovação da
pena de morte, na condenação à prisão da mulher que faz aborto, no sucesso em
todo o País da música gospel, no entendimento de ser injustificável a
homossexualidade.
Já em O Brasil dos Invisíveis o diagnóstico é
acrescido pela busca de caminhos para a reconstrução da coesão democrática,
sendo preciso reorientar o debate público para a maioria não polarizada: os
invisíveis. Conclui-se que existem seis categorias de pessoas: progressistas
militantes; esquerda tradicional; desengajados; cautelosos, conservadores
tradicionais e patriotas indignados. Os das duas pontas são os mais presentes
nas redes onde muito tonitruam. Relevantes são os grupos intermediários, que
formam, juntos, a “maioria silenciosa que compartilha a desconfiança com o
sistema político, interessada em temas concretos”.
Os “desengajados” são indivíduos para os
quais o que importa é “o que funciona”, clamando pela volta à “normalidade”
social e política. Os “cautelosos” são indivíduos que expressam desconfiança
generalizada em relação à política, à mídia, aos partidos e às instituições – e
consideram “o povo decente e as elites corruptas”.
Esses grupos reúnem uma maioria de pessoas
negras, com renda familiar abaixo de R$ 5 mil e sem ensino superior e compõem
pouco mais da metade (54%) da população do País. São pragmáticos e preocupados
com temas concretos como trabalho, serviços públicos e segurança.
A pesquisa revela um sentimento difuso de
fadiga com o conflito político. Percebem-se mais semelhanças do que diferenças
entre os partidos e deseja-se que trabalhem juntos na solução de problemas.
Assim, em vista de conflitos sem resultados,
perpassa todos os grupos a percepção de que “políticos buscam apenas os seus
próprios interesses e não os do povo”, havendo um “forte consenso (82% da
população) de que os interesses dos ricos são contrários aos do povo”.
Na mesma linha do estudo Brasil no Espelho, a
pesquisa de Ortellado indica dois vieses valorativos presentes em todos os
segmentos: religiosidade e punitivismo. A maioria da população avalia a
religião como pilar moral essencial, devendo até mesmo inspirar a elaboração
das leis. A outra tendência, o punitivismo, defende, por exemplo, a prisão de
menores de idade, com certo tempero por se entender ser a violência questão
social a se enfrentar não apenas com repressão.
Conjugadas, a tomografia da alma brasileira
viabilizada por Brasil no Espelho e a pesquisa O Brasil dos Invisíveis,
apresenta diretrizes para plano de voo de uma candidatura distante dos polos
antagônicos, buscando dialogar a partir de detalhado projeto de administração,
fixando prioridades e os meios para realizar o plano de ação.
Se não for por este caminho, será mais do
mesmo em 2026, mas, com o dobro do descontentamento manifestado nas ruas em
2013.

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