sábado, 3 de janeiro de 2026

A economia da percepção. Por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

A economia sentida (pelo cidadão) pesa mais no voto do que a economia medida pelas estatísticas

Como é usual todo início de ano, tentamos enxergar o que nos espera ao longo dos próximos meses. Uns com visões mais otimistas, outros pintando um quadro com cores mais escuras. Mas, algo é comum – a nossa percepção nem sempre corresponde aos fatos e aos dados, principalmente num mundo digital em que as fake news correm à solta.

Para 2026, vamos ter de prestar muito maior atenção nesse aspecto. Se de um lado, EUA e Europa discutem acessibilidade; de outro, o Brasil deve falar de carestia e segurança. Em todos os casos, a sensação de crise avança mais rápido que os indicadores. A mídia internacional e analistas têm discutido a ideia de que há a percepção pública de uma “crise de custo de vida”, mas os números contam uma história; as pessoas no geral e os políticos contam outra.

Nas economias avançadas, a ideia de uma crise de “acessibilidade” se espalha apesar de sinais objetivos de estabilidade. No Brasil, o termo “carestia” volta à moda e a segurança pública domina as preocupações, mesmo com avanços pontuais. O resultado é um cenário em que a percepção de deterioração supera a realidade mensurável, moldando discursos eleitorais e reorganizando prioridades públicas. Mas, por que a vida parece mais cara do que os números sugerem? O dado melhora, o bolso não.

O índice oficial nem sempre capta essa mudança do peso no orçamento. É por isso a sensação de crise é maior do que o indicador. Isso tem implicações políticas poderosas – especialmente em anos eleitorais – porque a economia sentida (pelo cidadão) pesa mais no voto do que a economia medida pelas estatísticas. Políticos amplificam a narrativa porque ela funciona eleitoralmente e sem dúvida moldará as eleições em 2026 na UE, nos EUA e no Brasil.

No caso brasileiro a questão da segurança é um dos principais problemas percebidos pelos eleitores, disputando com temas como saúde e economia. Nesse cenário não importa apenas o dado, importa o ambiente emocional. E isso torna “incerteza” a palavra-chave oculta do debate. Insegurança e carestia são duas faces da mesma experiência emocional: o medo. O maior risco para o eleitor não é ignorar a carestia ou a insegurança – elas são reais e precisam ser enfrentadas. O risco está em quem transforma essas dificuldades em instrumento de manipulação.

A democracia enfraquece não quando reconhecemos nossos problemas, mas quando deixamos que o medo determine as respostas. O cuidado que devemos ter é quando a insegurança real do cidadão vira combustível político, a política deixa de enfrentar problemas e passa a explorá-los.

 

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