sábado, 3 de janeiro de 2026

Admiráveis novos terrores. Por Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

Nosso enredo é esse. Lá fora é diferente, e há quem se atreva a dizer que é um pouco pior

A partir de agora, em pleno ano eleitoral, o enredo é conhecido. Se os políticos de centro não forem capazes de encontrar um candidato sério, competente e competitivo, Lula, docemente constrangido, aceitará ser reeleito e quem sabe até pleitear um terceiro e um quarto mandato, como vem se tornando regra na América Latina e até nos Estados Unidos. O quilômetro zero da loucura que estamos vivendo foi lá atrás, em 2002, quando Lula, em vez de celebrar o controle de uma série de superinflações que já duravam 33 anos, qualificou-a como a “herança maldita” de Fernando Henrique Cardoso.

Se começarmos a cair de verdade, talvez, quando estivermos descendo a ladeira, quiçá até possamos dar um alô para uma ascendente Argentina, se Milei lograr tal milagre. Não garanto nem descarto: apenas constato. Tendo chegado, nas primeiras décadas do século, à condição de um dos países mais ricos do mundo, com uma renda per capita comparável à da Alemanha e superior à da Itália, a Argentina despencou e não voltou a botar a cabeça para fora. Isso, como sabemos, principalmente depois de 1943, quando Juan Domingo Perón, recém-saído da Escola Militar, se fez aceitar pela corriola golpista que havia anos só pensava naquilo. E tanto fez que conseguiu. Mesmo com seu incomparável estoque de gado, em condições de fornecer carne para mais da metade do mundo, e seu pampa inacreditavelmente fértil, a política falou mais alto. Com um populismo violento e sem saber para onde deveria ir, a Argentina parou de chorar por Evita e passou a chorar por si mesma.

Descer, no nosso caso, é inconcebível, porque significa um Produto Interno Bruto (PIB) crescendo menos de 2,5% durante muitos anos, o gasto previdenciário crescendo à medida que nossos cabelos embranquecem e nossos prefeitos deleitando-se a cantar aquela canção dos Beatles que recomendava contar o número de buracos nas ruas. O número dos que não conseguem ler os letreiros dos ônibus também poderá aumentar, isso já está no preço. Mas, convenhamos, tudo na vida tem um lado bom. Lula sempre se convencerá de que seus gastos eleitorais enriquecem os pobres, estes também se convencerão disso, pois afinal foi ele quem disse, e assim todos ficarão felizes.

Nosso enredo é esse. Lá fora é diferente, e há quem se atreva a dizer que é um pouco pior. Estados Unidos, Rússia e China são mais ricos do que nós, mas o que mais os envaidece é a qualidade de seus governantes. E, realmente, é possível que Trump, Putin e Xi Jinping sejam notavelmente talentosos. Trump, rápido como um raio, conseguiu se desviar da bala quando aquele rapaz lhe acertou a orelha. O que ainda não se sabe é se conseguirá se desviar dos tiros que vem disparando contra seus próprios pés, ou seja, contra os pés da outrora exemplar América.

Vladimir Putin, para chegar aonde chegou, deve ter feito uma carreira brilhantíssima no Comitê de Segurança do Estado (KGB). Deve estar saltitando de felicidade por ter uma segunda chance de invadir a Ucrânia. Digo “segunda” e apresso-me a lembrar, caso alguém tenha esquecido. No inverno de 1932/1933, Stalin (de stahl, homem de aço) ordenou a invasão da Ucrânia e o confisco de todo o trigo. Quando digo “todo”, é isso mesmo que quero dizer – todo –, tanto assim que o episódio ficou conhecido em ucraniano como Holodomor, isto é, “deixar morrer de fome”. Poupar munição, deixar morrer de fome. Se os soldados russos encontrassem objetos de ouro ou prata, escultura e outros objetos valiosos, trouxessem também para não deixar desapontados eventuais turistas que dessem o ar de sua graça em Moscou.

Uma lei sociológica infalível é a de que, depois de um estadista, não surgirá outro estadista. Vocês, caros leitores, devem ter pensado que desta vez a lei iria falhar. Depois de Deng Xiaoping, que fez o país pegar no tranco, veio Xi Jinping; por que ele não seria outro estadista? Com Deng, o PIB c hi nês a t i ngi u taxas anuais estratosféricas. Agora parece estacionado em torno de 5% ao ano. Mas o que impede Jinping de o fazer crescer outra vez a taxas iguais ou superiores a 8%? A resposta é que é pouco provável. A China já é uma economia “madura”. Já construiu toda a infraestrutura de que precisará até onde a vista alcança. Precisa é estimular o consumo, proporcionar serviços de saúde e previdenciários adequados e, por último, mas não menos importante, incorporar a metade da população que é obrigada a viver no interior e nas áreas rurais, necessitando de autorização individual para viajar a uma das grandes cidades.

E aqui voltamos ao nosso Xi Jinping. A crer nos jornais, ele está fazendo justo o contrário do que deveria. Mantendo as mesmas dezenas de bilhões de dólares na manutenção da polícia secreta, para vigiar cada cidadão. Investindo imensas somas em megaempresas, mas megaempresas não são necessárias para produzir macarrão ou sorvetes. E mandando cavar silos – muitos silos. Vocês sabem o que é um silo? É aquele buraco profundíssimo, com paredes fortemente construídas com pedra e aço, cuja função precípua é guardar mísseis intercontinentais com ogivas atômicas.

 

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