Folha de S. Paulo
Lula disse várias vezes ao longo da campanha
de 2022 que seria presidente de um só mandato
Obrigar legalmente candidatos a cumprir
promessas não funcionaria, mas eleitor deveria punir pelo voto quem abusa de
falsidades
Às 8h21 do dia 25 de outubro de 2022, o perfil oficial de Lula no X (@LulaOficial) cravou: "Eu se eleito serei um presidente de um mandato só. Os líderes se fazem trabalhando, no seu compromisso com a população". Essa, me parece, foi a mais "oficial" das promessas de Lula de que não disputaria a reeleição, mas não a única. Em entrevistas e em outros posts, deu várias declarações com esse mesmo teor. Devemos exigir de políticos que cumpram suas promessas?
Se Lula fosse um comerciante, poderíamos
ameaçá-lo com o Código de
Defesa do Consumidor (CDC). O artigo 30 do diploma estabelece que
toda informação ou publicidade sobre produto ou serviço apresentada por
qualquer forma ou meio de comunicação cria obrigações para o fornecedor e
integra o contrato que vier a ser celebrado. Basicamente, se o CDC valesse para
políticos, Lula estaria legalmente impedido de concorrer.
Numa chave mais elevada, temos Kant. O filósofo
prussiano insistia, com base no imperativo categórico, que
estamos sempre obrigados a cumprir promessas e a dizer a verdade, mesmo que
isso implique revelar a um assassino o paradeiro de sua vítima inocente.
Apesar do CDC e de Kant, acho que a lei faz
bem em não impor a políticos uma obrigação tão estrita de ater-se à própria
palavra.
A primeira razão é material. Ao contrário de
produtos e serviços, cujas características são de antemão conhecidas por quem
os comercializa, a política é repleta de imponderáveis. Situações mudam. O que
foi dito sob determinado conjunto de condições pode tornar-se impraticável sob
outro.
A segunda razão é, por assim dizer,
sonhática. Políticos vendem não só programas de governo mas também ilusões,
compreendidas como um conjunto de aspirações compartilhadas que, embora pouco
ou nada realistas, são importantes para forjar a identidade de uma comunidade.
Isso dito, penso que o eleitor (e não a
Justiça) faria bem se punisse pelo voto políticos que recorrem anormalmente a
promessas falsas e abusam de mentiras.
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