O Globo
Luiz Antonio Simas, autodefinido como historiador das miudezas, estuda, escreve, ensina sobre foliões anônimos, bêbados líricos, jogadores de futebol de várzea, clubes pequenos, caminhoneiros, retirantes, devotos, iaôs, ogãs, feirantes, motoristas, capoeiras, jongueiros, pretos velhos, cordelistas, meninos descalços, goleiros frangueiros, romances de subúrbio. O rol está em “Pedrinhas miudinhas – Ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros” (Mórula, 2013), que voltei a folhear pensando no meu próprio inventário de virada de ano.
Fértil de acontecimentos para a História foi 2025. Teve a posse de Donald Trump para um segundo mandato regado a tarifas e sanções, ora copiados por outros países e blocos econômicos. Foi tempo de um inédito julgamento, que levou à prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus aliados de alta patente, por atentarem contra a democracia. Num Brasil quase indiferente, consolidou-se a epidemia de violência contra meninas e mulheres, expressa em assédio, violação sexual, agressões verbais e físicas, feminicídio. O desemprego foi o menor da série histórica; a renda, a maior. Nunca, segundo o IBGE, tantos brasileiros ocupados; com carteira assinada; com trabalho autônomo; no serviço público.
O racismo religioso,
perverso, se travestiu de reverso para atacar a gente de matriz africana,
historicamente perseguida. E o mar, em rara ressaca, se ergueu para mostrar em
honra de quem se construiu o maior réveillon do mundo, segundo o Guinness Book.
Foi para louvar Iemanjá, orixá das águas grandes, mãe de todas as cabeças, que
Tata Tancredo, sacerdote de umbanda, convocou terreiros para as areias de
Copacabana no último dia do ano. A manifestação de fé dos macumbeiros, forjada
nos anos 1950, tornou-se festa e encantamento, trabalho e renda, cultura e
diversão de uma cidade.
Foi duro o 2025, que viu 122 homens, entre
eles, cinco policiais, tombarem nos Complexos do Alemão e da Penha, por ação do
Estado, sob pretexto de prender um chefe do crime organizado que, até hoje,
ninguém sabe, ninguém viu. Os morros seguem dominados e, por suspeita de
envolvimento com o Comando Vermelho, um deputado estadual está preso e o
presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, afastado. No ano
passado, morremos com Angela
Ro Ro, Arlindo
Cruz, Célia Felisberto, Francisco
Cuoco, Gilsinho, Haroldo Costa, Hermeto Pascoal, Jards Macalé, Leo
Batista, Lô Borges, Luis
Fernando Verissimo, Mãe Carmen de Oxaguiã, Marceu Vieira, Maria
Augusta, Nana
Caymmi, Preta Gil,
Sebastião Salgado, Tainara Souza Santos.
Não houve trégua no macro, mas alento no
micro. Nas coisas miúdas me aferro para seguir. No ano que passou, dancei
“Sorriso negro” abraçada a familiares e amigos numa apresentação do Cortejo
Afro, em Salvador. Minha Beija-Flor
de Nilópolis foi campeã homenageando Laíla, se despedindo de Neguinho.
Festejei o Oscar de “Ainda estou
aqui” em plena Marquês de Sapucaí. Ouvi e ouvi e ouvi e ouvi “Dominguinho”,
premiadíssimo álbum de João Gomes, Jotapê e Mestrinho. Vi Jorge Benjor cantar
com Gilberto
Gil na despedida da turnê “Tempo Rei”, no Rio. E Maria
Bethânia salvar Iemanjá diante das imagens de um mar esplendoroso, no
show pelos 60 anos de carreira. Ela disse que pensou em mim quando cantou.
Estive na Cidade do
México, experimentei meu drinque favorito e descobri que a margarita que eu
preparo não deixa a desejar. Comi gafanhoto frito. Tomei a benção de Dona
Queta, a guardiã do primeiro altar público de Santa Muerte, em Tepito. Encarei
uma invasão de formigas voadoras, na Serra fluminense. Lancei sementes de
tomate ao léu e, meses depois, colhi os frutos. Cozinhei a mandioca retirada da
terra com minhas mãos. Testei receita de arroz de coentro. Plantei mudas de
coroa-de-São-Jorge. Pisei descalça na grama molhada; tomei banho de mar e de
chuva. Na COP30, vi a sociedade civil marchar pela proteção ao meio ambiente.
Mergulhei no Rio Guamá, de água doce e fundo enlameado; comi e comi e comi e
comi filhote; dancei tecnobrega; me apaixonei irremediavelmente por Belém (PA).
Vi Wagner
Moura no teatro (“Um julgamento”) e no cinema (“O agente
secreto”). Assisti a Zezé Motta em
seu primeiro monólogo. Fui retratada por Helena Kozu. Li “Meridiana”, de minha
querida Eliana Alves Cruz. Entrevistei com Isabela, minha filha e companheira
de podcast, Lázaro Ramos, na Flipelô, e Raull Santiago, na Flup sob o Viaduto
de Madureira.
Na Flipetrópolis, vi Sueli Carneiro receber o Troféu Juca Pato de intelectual
do ano. Com amigos, cantei parabéns para Conceição Evaristo na virada dos seus
79 anos. Conheci Ekedi Sinha e Chico Batera. Cantei com Dona Áurea Martins.
Abracei os amigos.
No réveillon, vi meu neto chorar de emoção,
porque era ano novo e ele já tem 5 anos. Nas miudezas, a vida presta.

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