sábado, 3 de janeiro de 2026

O ano de 2026 promete. Por Eduardo Affonso

O Globo

Caso o código de conduta do STF não vingue, a saída pode ser um Supremíssimo, formado por ex-presidentes da Corte aposentados

O ano de 2025 terminou com o pé esquerdo — vide o cancelamento das sandálias que deformam a defesa da democracia, têm cheiro de irresponsabilidade fiscal e não soltam a mão de ninguém (só dos que ousam pensar de forma diferente). É como se os críticos do politicamente correto aprofundassem o gosto pela problematização e, em vez de enxergar racismo, machismo e homofobia em tudo, passassem a farejar viés ideológico. No lugar de Monteiro Lobato, os banidos em 2026 poderão ser Noel Rosa e Vadico — que, com inequívocas segundas intenções, alertaram, 90 anos atrás: Feche a porta da direita/com muito cuidado.

Em 2023 o STF autorizou juízes a atuar em casos envolvendo escritórios de seus familiares. No ritmo em que a coisa vai, não será surpresa se em 2026 o entendimento for ampliado, facultando ao juiz ser patrono do réu. Assim, ele poderá apitar a partida, bater o pênalti, pegar no gol, validar no VAR e ainda comemorar na arquibancada. Mais ou menos como já se vem fazendo, informalmente, na questão do Banco Master.

Sem contrapesos e tendo há muito perdido os freios, é provável que nossa Suprema Corte decida que o impeachment de seus membros só possa ocorrer se o processo for iniciado pelo próprio denunciado — e o quórum para admissibilidade da denúncia no Senado passe a ser de unanimidade mais um.

Caso o código de conduta do STF não vingue, a saída pode ser criar um Supremíssimo — formado por ex-presidentes da Corte, já aposentados — que bote ordem no galinheiro. Porque tem gente abusando do direito de errar por último. O cargo no Supremíssimo duraria até o membro começar a participar de convescotes no exterior, fazer viagens de jatinho com advogados ou ligar insistentemente para o Banco Central.

O ano de 2025 foi aquele em que a turma do “milionário não devia existir” e do “o que é roubar um banco comparado a fundar um?” encontrou um banqueiro milionário para chamar de seu, e 2026 será o momento de defender todas as suas maracutaias — nem que para isso tenha de atacar uma mulher (sororidade tem hora!) que faz corajosamente seu trabalho como jornalista. Sim, a defesa da imprensa livre como quarto poder, denunciando atos ilegais, corrupção e irregularidades, só vale se atender aos interesses dos poderosos e de seus ceguidores.

No ano que passou, Toni Garrido mudou a letra (e estragou a rima) da canção que dizia: A verdade prova que o tempo é o senhor/dos dois destinos/Já que pra ser homem tem que ter/a grandeza de um menino. A grandeza de um homem passou a ser (acredite se quiser) a de uma menina, de uma mulher. Claudia Leitte, por sua vez, trocou “Saudando a rainha Iemanjá” por “Eu canto meu Rei Yeshua”. Foi fiel à métrica e à rima, mas pisou no calo do Ministério Público da Bahia, que a acusou de desprezo, repulsa e hostilidade em relação às religiões afro-brasileiras e exige R$ 2 milhões por dano moral coletivo. Em 2026 — se Zeus, Brahma, Javé, Tupã, Deus, Alá e Olorum nos ajudarem — há de surgir uma vacina contra esse tipo de coisa.

Sendo ano de eleição, talvez se acentue a dicotomia “bandido bom é bandido morto” versus “bandido bom é bandido sorto”. Roga-se que apareça um meio-termo — ou continuaremos a dar adeus à civilização.

 

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