sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

BC faz o certo com sindicância interna sobre caso Master

Por Folha de S. Paulo

Órgão apura eventuais falhas na supervisão que facilitaram a fraude que já deixa custos acima de R$ 50 bi

Diante de sinais de risco perceptíveis, tudo indica que o BC tardou em agir; regulação do sistema deve se modernizar, diante de inovações

É oportuna a instauração de sindicância interna pelo Banco Central para revisar o processo de fiscalização e liquidação extrajudicial do Banco Master, instituição controlada por Daniel Vorcaro e liquidada em novembro de 2025 com evidências de fraude bilionária investigadas pela Polícia Federal.

A iniciativa, conduzida pela corregedoria do órgão, teve início no mesmo novembro. O objetivo é identificar eventuais falhas na supervisão —a demora em prevenir um rombo que já supera R$ 50 bilhões, valor a ser arcado principalmente pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), e a cronologia das decisões sobre as negociações para a venda do Master ao BRB e da liquidação.

Ante sinais de risco perceptíveis desde 2023, ainda na gestão de Roberto Campos Neto, tudo indica que a autoridade monetária tardou em agir com a urgência requerida, permitindo a expansão de captações de recursos por meio de CDBs a taxas acima das de mercado em montantes temerários, que foram em parte direcionados para operações envolvendo fundos de investimento.

Dados os indícios de crimes e as ramificações políticas e policiais do caso, a sindicância interna se torna imperativa. Em um ambiente já marcado por desconfiança, garantir a independência e a qualidade da supervisão é essencial para preservar a credibilidade do BC e evitar que episódios como esse se repitam sob eventuais pressões externas.

O caso Master também traz lições sobre a qualidade da regulação diante da evolução recente do mercado financeiro brasileiro. A multiplicação de fintechs, por exemplo, criou inclusão e competição, mas também fragilidades antes menos evidentes num modelo mais concentrado.

Estruturas que concedem crédito fora do sistema bancário tradicional, conectadas à indústria de fundos de investimento, inseriram vulnerabilidades que precisam ser remediadas.

Além do caso em pauta, portanto, cabe ao BC indagar se a regulação e a atenção das autoridades tardaram em acompanhar essa transformação, subestimando riscos em instituições financeiras classificadas como de baixo impacto sistêmico.

O aprendizado é claro: a bem-vinda inovação não pode avançar sem supervisão proporcional e atualizada, com recursos técnicos e humanos necessários.

É urgente, assim, uma revisão ampla dos processos e hiatos regulatórios. Além da identificação e correção de eventuais falhas internas pelo BC, deve-se buscar maior coordenação com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), especialmente na supervisão da indústria de fundos.

Outras instâncias também têm papel importante a cumprir. Diante das suspeitas de conflitos de interesse e tráfico de influência, a atuação do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Supremo Tribunal Federal (STF) requer máxima transparência para que o sistema financeiro saia fortalecido e não se repitam escândalos.

Truculência do ICE enfim cria embaraços para Trump

Por Folha de S. Paulo

Mais uma morte de cidadão americano pela polícia anti-imigração leva republicano a intervir em operação

Trump e assessor deram explicações irresponsáveis para a morte do enfermeiro; desgaste dificulta aprovação necessária do Orçamento

A brutalidade da polícia anti-imigratória dos Estados Unidos finalmente enredou seu próprio formulador, o presidente Donald Trump. Fatos incontestes sobre as mortes de dois americanos desarmados por agentes federais no estado de Minnesota minaram a vergonhosa defesa da Casa Branca.

Emparedado por contradições e desatinos ao pronunciar-se sobre as mortes, Trump anunciou na quarta (28) intervenção no comando da operação em Minnesota, iniciada em dezembro, afastamento de dois agentes e redução do contingente do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) no estado.

Trata-se da primeira vez em que o atual governo se vê forçado a conter a envergadura de uma operação dessa força. Desde o início de 2025, o ICE tem sido indisfarçavelmente orientado a aplicar com truculência a severa política anti-imigratória de Trump.

Subordinado ao Departamento de Segurança Interna (DHS), o ICE foi aparelhado para a tarefa. A Casa Branca destinou-lhe US$ 30 bilhões no ano passado e permitiu o aumento de seu contingente de 10 mil para 22 mil agentes —notórios pelos rostos encobertos por máscaras pretas.

O recuo de Trump ocorreu poucos dias depois de o enfermeiro Alex Pretti ter sido alvejado por dez tiros disparados por agentes do ICE. Nesse meio-tempo, o republicano havia acusado a vítima de portar arma em público e culpado os líderes democratas de Minnesota pela violência.

Seu assessor Stephen Miller foi além, ao acusar o enfermeiro de ser um "terrorista doméstico" que tentava assassinar agentes federais. Não há dúvida de que o mandatário e seu colaborador se escudaram na versão preliminar do DHS para isentar o ICE. Relatório enviado ao Congresso nesta semana pelo mesmo departamento corrigiu as informações.

Isso não desculpa Trump e Miller pela responsabilidade das declarações públicas —muito menos da insistência em defender o indefensável, como já havia ocorrido na morte da americana Renée Good por soldados do ICE, em janeiro, no mesmo estado.

É pouco provável que essas tragédias motivem o republicano, por iniciativa e consciência própria, a flexibilizar sua política anti-imigratória e a proibir os abusos contra direitos inalienáveis de estrangeiros e americanos.

A violência em Minnesota, porém, tornou-se instrumental para a oposição. Desta vez, a bancada democrata no Senado tem munição para forçar Trump a negociar —impedir a aprovação do Orçamento até esta sexta (30) e provocar nova paralisia de seu governo.

Copom faz bem em adotar cautela diante da incerteza

Por O Globo

Levando em conta cenários interno e externo, BC acerta ao manter Selic em 15%, com perspectiva de corte futuro

Ao manter em 15% ao ano a taxa básica de juros, a Selic, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) demonstrou cautela. Corte, pelo comunicado emitido depois da reunião de quarta-feira, apenas a partir de março. Vários indicadores, como dólar ou preço dos combustíveis, sugeriam uma oportunidade para antecipar o início do ciclo de queda dos juros. Mas há que reconhecer o acerto na postura comedida do Copom. Não pode haver açodamento quando se trata de política monetária.

Os diretores do BC afirmaram que a projeção de inflação para o terceiro trimestre de 2027, horizonte relevante de política monetária, está em 3,2%, perto do centro da meta de 3% em 12 meses. Mantida em 15% desde junho, a Selic encareceu o crédito, desestimulou consumo e investimentos, mas contribuiu para o controle da inflação. Com a política monetária restritiva, os preços esfriaram. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) recuou de 5,13% em agosto para 4,26% em dezembro e, pela primeira vez no atual governo, a inflação fechou o ano abaixo do teto da meta (4,5%). Nem todos os sinais, porém, são positivos. A prévia da inflação de janeiro, o IPCA-15, mostrou que há focos de preocupação. Ele acumulou alta de 4,5% em 12 meses, acima dos 4,41% registrados no mês anterior.

Ainda que a Selic caia em março, é pouco provável que o corte nos juros seja acelerado. O comunicado do Copom constata que “o ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais”. Com suas idas e vindas, ameaças de ataques comerciais e bombardeios, Donald Trump é fator incontornável de instabilidade, com reflexo negativo na inflação global. No plano interno, o Copom reconheceu outros fatores que merecem atenção. O mercado de trabalho se mostra resiliente, e as previsões de inflação seguem acima da meta (4% ao fim do ano e 3,8% em 2027, de acordo com a última pesquisa Focus de janeiro).

Por tudo isso, a cautela é adequada. O ano de 2026 trouxe muitas indefinições. No Brasil, as eleições de outubro tendem a segurar a alta dos combustíveis em função de cálculos políticos do governo. Na terça-feira, a Petrobras reduziu o valor da gasolina para as distribuidoras em 5,2%. Com o dólar no menor nível em anos, o real também tem se fortalecido. Mantidas essas condições, as importações ficarão mais baratas, com efeitos positivos na inflação.

Mas, por enquanto, reina a incerteza. Depois de Trump dizer não se preocupar com o declínio do dólar, decorrente de suas próprias políticas, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou ser favorável a uma política de moeda forte e negou rumores de intervenção no mercado de câmbio. Trump não esconde seu desdém por Jerome Powell, cujo mandato na presidência do Fed, o banco central americano, acaba em maio. Nem seu desejo de cortes agressivos nos juros. A decisão do Fed de mantê-los inalterados depois de três reduções sucessivas foi correta diante do cenário econômico, mas amplia o desgaste político. Em cenário com tantas dúvidas, o BC faz bem em manter-se cauteloso.

Regulação da ‘Cannabis’ medicinal representa avanço para a saúde

Por O Globo

É cruel impor a pacientes acometidos por distúrbios graves esforço adicional para obter alívio à dor

Apesar da demora, foi acertada a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de estabelecer regras sensatas para ampliar o acesso à Cannabis medicinal. A agência atualizou a regulamentação atendendo a determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Entre as mudanças relevantes, estão a autorização para cultivo da planta sob condições restritas, a possibilidade de manipulação do canabidiol e a ampliação dos meios de administração da substância ao usuário. A Cannabis medicinal tem sido usada para tratar casos de doenças como epilepsia, dores crônicas ou distúrbios neuropsiquiátricos.

Um dos maiores avanços é a permissão para empresas, instituições de ensino e pesquisa reconhecidas pelo MEC, institutos públicos e indústrias farmacêuticas cultivarem a planta com finalidade exclusivamente medicinal. Tudo sob normas rígidas de controle e fiscalização, como autorização especial, inspeção sanitária, rastreabilidade, vigilância 24 horas e acesso restrito. Associações de pacientes, que hoje realizam o cultivo mediante autorização da Justiça, ainda dependerão da abertura de chamamento público e terão de apresentar projetos para justificá-lo. A expectativa é haver queda no preço.

É bem-vinda a permissão para farmácias manipularem o canabidiol. Foi permitida ainda a venda de produtos para uso bucal, sublingual e dermatológico, além do oral e inalatório. A publicidade, antes proibida, será autorizada apenas para profissionais que prescrevem e farmacêuticos, ficando restrita às informações de rótulo e ao folheto informativo, ambos aprovados pela Anvisa. Outro avanço diz respeito aos produtos com teor de tetrahidrocanabidiol (THC) acima de 0,2%, antes permitidos apenas para pacientes “em situações clínicas irreversíveis ou terminais” e, agora, também para “portadores de doenças debilitantes graves”.

Já era tempo de regulamentar a Cannabis medicinal no país. Mais de 873 mil pacientes usam produtos à base da planta com fins terapêuticos, segundo o Anuário da Cannabis Medicinal no Brasil 2025, da consultoria Kaya Mind. Nos últimos dois anos, o uso mais que dobrou. Em 2015, a Anvisa passou a permitir a importação individual dos medicamentos, com regras. O paciente precisa obter receita médica, dar entrada com pedido de autorização e recorrer a uma empresa que importará o produto. Dá trabalho, e custa caro. No ano passado, a agência concedeu quase 195 mil autorizações.

Em muitos casos, há controvérsia sobre a eficácia do tratamento com base na Cannabis, mas estudos comprovam efeitos positivos. Por isso os produtos deveriam ser mais acessíveis, desde que de maneira controlada, mediante evidências científicas e com a devida supervisão médica. A saída para muitos tem sido recorrer à Justiça, que não deveria resolver questões de saúde pública. Espera-se que as decisões da Anvisa abram caminho a uma regulação equilibrada, que contemple a demanda dos doentes e a necessidade de controle. É cruel impor a pacientes acometidos por distúrbios graves um esforço adicional para obter alívio à dor.

Fazendo o País de bobo

Por O Estado de S. Paulo

Caso da relação do escritório de Lewandowski com o Master é só a mais recente de uma série de situações eticamente reprováveis, mas que são tratadas pelas autoridades com espantosa naturalidade

Algumas autoridades importantes de Brasília querem fazer os brasileiros se convencerem de que nem sempre um bicho que tem pé de porco, orelha de porco e rabo de porco é mesmo um porco.

Por exemplo: ao contrário das aparências, dizem esses próceres da República, não há nada de errado quando o escritório de advocacia de um ministro da Justiça presta serviços para um banco investigado pela Polícia Federal, que está sob o comando desse mesmo ministro; também não há nenhum problema quando um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) decide comandar o inquérito sobre esse tal banco mesmo tendo parentes possivelmente envolvidos no caso; por fim, não há nada de mais quando o escritório de advocacia da mulher de outro ministro do Supremo é contratado por esse mesmo banco, com remuneração milionária, para representá-lo junto ao Banco Central e ao Congresso Nacional – atividade típica de lobistas, não de advogados.

Ora, francamente. O possível envolvimento de autoridades de altíssimo escalão com o Banco Master, protagonista de um dos maiores escândalos da história recente, já seria suficientemente grave, mas mais grave ainda é essa tentativa vergonhosa de negar o que está escancarado à vista de todos: que essas autoridades no mínimo se comportaram de maneira imprudente, ignorando limites éticos óbvios. Seria sinal de respeito pelos cidadãos se os indigitados ao menos reconhecessem o deslize. Mas não: preferem fazer o País de bobo.

É espantosa a naturalidade com que Ricardo Lewandowski, por exemplo, tratou da vigência do contrato de “consultoria jurídica” firmado entre seu escritório de advocacia e o Banco Master no período em que ele já era ministro da Justiça e Segurança Pública. Ao justificar que se afastou da advocacia para ingressar no governo federal, deixando a banca aos cuidados da mulher e do filho, Lewandowski insultou a inteligência alheia. Não deveria ser difícil identificar um problema ético quando o núcleo familiar do ministro responsável por órgãos centrais do sistema de persecução penal e de controle financeiro do País recebe dinheiro do principal investigado no caso Master, Daniel Vorcaro.

Já o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli, por exemplo, ainda não se dignou a esclarecer os negócios de seus irmãos com um cunhado de Vorcaro, o que deveria ser suficiente para determinar sua suspeição no processo. Seu colega Alexandre de Moraes, por sua vez, até hoje não disse uma palavra convincente sobre o contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua mulher, que previa honorários de espantosos R$ 129,6 milhões.

Em vez de constranger seus pares a recobrar o prumo em nome da honorabilidade da instituição que preside, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, jamais tratou do contrato da mulher de Moraes e classificou como “regular” a atuação de Toffoli à frente do caso Master – que nem deveria estar no Supremo. Já o decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes, defendeu Toffoli amparando-se no entendimento da Procuradoria-Geral da República, de resto omisso, segundo o qual nada justificaria o impedimento de Toffoli. Para o procurador-geral, Paulo Gonet, o aparente envolvimento direto de irmãos do ministro no caso não tem relevância alguma. No entender de Gilmar Mendes, essa conclusão de Gonet “reafirma a maturidade do sistema constitucional brasileiro”.

O denominador comum desses episódios é a naturalização de gritantes conflitos de interesses e a recusa sistemática dessas autoridades a prestar contas à sociedade, como se pairassem como entidades acima dos controles republicanos. O Supremo precisa pôr a mão na consciência e voltar a ser respeitado como instituição vital para o regime democrático.

Quando algumas das mais altas autoridades da República oferecem o silêncio ou explicações que ferem o bom senso sobre suas relações com um banqueiro que hoje só não está preso por causa da rede de proteção que teceu em Brasília, é sinal de que a bússola moral está avariada.

Sem querer, Trump impulsiona livre-comércio

Por O Estado de S. Paulo

Protecionismo do presidente americano leva Europa a destravar dois acordos comerciais que se arrastavam havia décadas, com o Mercosul e a Índia, além de aproximar o Canadá da China

Emparedada pelo protecionismo do presidente dos EUA, Donald Trump, e pelo avanço da China sobre seus mercados, a União Europeia finalmente deixou mais de duas décadas de resistência para trás e assinou dois grandes tratados de livre-comércio em pouco mais de uma semana. Primeiro com o Mercosul, e mais recentemente com a Índia.

Embora haja, entre os europeus, uma oposição ruidosa contra os tratados, e disposta a lançar mão dos mais diversos subterfúgios para atrasar a implantação dos acordos, a realidade parece se impor.

O acordo entre os europeus e a Índia é ainda mais grandioso que o firmado entre a UE e o Mercosul, pois, além de atingir uma população mais ampla, de quase 2 bilhões de pessoas, envolve ainda áreas críticas, como defesa. Os talentosos profissionais indianos das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática também terão mais facilidade de acesso ao mercado europeu, que tenta se aproximar de EUA e China na corrida tecnológica.

Tal como no caso do Mercosul, produtos industrializados europeus ganharam maior acesso ao mercado indiano, que, pasmem, é ainda mais fechado que o brasileiro a determinadas importações. No caso dos automóveis, por exemplo, a Índia reduzirá gradualmente a tarifa de importação de impressionantes 110% para 10%.

A exemplo do Brasil, a Índia foi punida por Trump com um tarifaço de 50%. Em ambos os casos o porcentual é completamente arbitrário. No caso do Brasil, alegou-se que o País tinha superávit comercial com os EUA, quando na verdade tem déficit.

Já parte das tarifas sobre a Índia deve-se ao fato de o país importar petróleo da Rússia – coisa que realmente faz, a exemplo de tantos outros países que, a despeito disso, não foram sancionados por Trump por esse motivo. Enquanto estendia tapete vermelho para o autocrata russo Vladimir Putin, Trump punia uma aliada de longa data dos EUA, a Índia, sacrificando também a boa relação que desfrutava com o premiê indiano, Narendra Modi. Desmoralizadas por Trump, Índia e Europa agora respondem à altura, estreitando a relação por meio do livre-comércio.

Já o Brasil, maior economia do Mercosul, viu um Trump pressionado pela inflação voltar atrás em parte das tarifas descabidas que impôs a produtos brasileiros que os EUA não produzem em volume suficiente, como o café.

Os ataques constantes de Trump contra o vizinho Canadá, um parceiro histórico dos EUA, também levaram a uma aproximação impensável há pouquíssimo tempo: o primeiro-ministro Mark Carney não apenas foi o primeiro líder canadense a visitar Pequim desde 2017, como firmou um acordo com os chineses permitindo a importação de 49 mil veículos elétricos pela tarifa mínima de 6,1%. Carney também classificou o país asiático como “muito mais previsível” que os EUA.

Concebidas para fazer a “América grande novamente”, as tarifas de Trump têm provocado uma série de efeitos colaterais na vida dos americanos, como inflação e problemas para pequenas empresas importadoras. Ao mesmo tempo, no plano das relações externas, os EUA estão rapidamente implodindo o papel de liderança global que exerceram por décadas.

Apesar da perda de popularidade interna – diferentes pesquisas de opinião situam a desaprovação a Trump acima de 50% – e da credibilidade cada vez mais arranhada no exterior, o republicano segue ameaçando impor tarifas a qualquer um que não se sujeite a seus caprichos.

Inconformado com a recusa da França de se tornar membro de um obscuro Conselho da Paz criado por ele mesmo, Trump ameaçou cobrar tarifa de importação de 200% sobre os vinhos franceses.

Pouco a pouco, porém, as ameaças protecionistas vão perdendo o poder de persuasão, seja porque os países se anteciparam ao tarifaço exportando produtos antes da imposição das sanções, seja porque de uma ou outra forma têm criado alternativas, entre as quais a aceleração de acordos comerciais.

Nesse cenário, é fundamental que o Brasil siga perseguindo novas parcerias comerciais. Com tantos atores buscando livrar-se da armadilha criada por Trump, tem vantagem quem se posiciona primeiro para assinar acordos de livre-comércio. Sem querer, Trump deu impulso a esse processo.

BC começa a afrouxar o cinto

Por O Estado de S. Paulo

Comitê de Política Monetária mantém taxa de juros em 15% ao ano, mas deixa redução engatilhada para março

Sem surpresas, o Banco Central (BC) anunciou a manutenção dos juros em 15% ao ano nesta semana. Mas, para aplacar a ânsia do mercado pela redução da Selic, voltou a adotar o chamado forward guidance, ferramenta de política monetária por meio da qual o BC antecipa suas intenções futuras, e indicou que começará a cortar as taxas na próxima reunião, marcada para março.

Com dois diretores a menos, o Comitê de Política Monetária (Copom) tomou a decisão de maneira unânime, mas é improvável que um quórum completo faria diferença. A atividade econômica desacelerou e o mercado de trabalho continua forte, mas a prévia da inflação de janeiro veio mais baixa do que se imaginava. Já a projeção para o IPCA no horizonte relevante que guia as decisões do colegiado, ou seja, daqui a 18 meses, no terceiro trimestre de 2027, está em 3,2% – acima do centro da meta, de 3%, mas bem perto dela.

Esse cenário leva em conta um câmbio a R$ 5,35. Mas a desvalorização do dólar, motivada pelas ciclotímicas decisões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tanto nas searas econômica e comercial quanto no cenário geopolítico, é um movimento mundial que vem se acentuando nos últimos meses e tem impacto relevante na inflação do País.

Janeiro ainda nem terminou, mas os estrangeiros, em menos de 30 dias, já injetaram na bolsa de valores brasileira mais da metade dos recursos que haviam aplicado ao longo de todo o ano passado na B3. Assim, o dólar chegou à menor cotação desde maio de 2024 e já há quem enxergue a possibilidade de o câmbio cair a R$ 5,00.

O diferencial entre as taxas de juro brasileira e norte-americana, hoje no intervalo entre 3,5% e 3,75% ao ano, certamente é um atrativo e tanto para os investidores, mas é inegável que o Brasil, em termos relativos, está bem posicionado perante seus pares emergentes. O desempenho do agronegócio e a ampla oferta de energia limpa se somam ao recuo dos EUA no tarifaço e ao fechamento do acordo entre Mercosul e União Europeia, depois de décadas de letargia nas negociações.

Tudo isso animou o mercado financeiro, que já torcia por juros mais baixos em janeiro e, agora, vê espaço até para cortes mais ambiciosos em março, muito embora o Banco Central tenha deixado o cenário em aberto, a depender da evolução dos indicadores econômicos nas próximas semanas. A ata da reunião, a ser divulgada na semana que vem, será aguardada com muita ansiedade.

Se há dúvidas sobre o tamanho do corte, o certo é que o comunicado garante que ele não será único, mas parte de um ciclo de queda cujo ritmo e manutenção ainda não foram definidos. Com juros em queda nos próximos meses, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá motivos de sobra para explorar o tema em sua campanha à reeleição, ainda que não tenha feito nada para ajudar.

Não fosse a política fiscal expansionista adotada por seu governo desde o primeiro dia, o Banco Central não teria elevado os juros a 15% ao ano, maior nível desde 2006, nem mantido a Selic nesse patamar por tantos meses. Mas esse mea culpa Lula jamais fará.

A memória brasileira desguarnecida

Por Correio Braziliense

Não podemos naturalizar o sumiço de nossa herança cultural como se fosse mais uma estatística de segurança pública

Seguem desaparecidas as 13 obras roubadas do acervo da Biblioteca Mário de Andrade, um dos templos da cultura nacional, em São Paulo. Na ocasião, quase dois meses atrás, foram levadas gravuras de valor incalculável assinadas por Henri Matisse e Candido Portinari, pertencentes à exposição Do livro ao museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade, realizada em parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). 

O crime já seria absurdo apenas pela violência cotidiana. Para acessar a exposição, um grupo armado rendeu o segurança do local. Mas o roubo expôs uma outra ferida que o Brasil insiste em não tratar: a vulnerabilidade crônica de seu patrimônio histórico e artístico e o alarmante descaso com a memória coletiva.

O episódio na Biblioteca Mário de Andrade — a segunda maior do país, ressalte-se — reflete uma estatística vergonhosa apontada pelo Conselho Internacional de Museus (Icom), que coloca o Brasil em 26º lugar na lista dos países com maior número de objetos culturais roubados, além de uma taxa pífias de recuperação.

É verdade que a insegurança dos acervos é um desafio global. Até instituições que são sinônimo de blindagem, como o Museu do Louvre, em Paris, enfrentam desafios. Em outubro, não custa lembrar, um grupo arrombou uma das janelas da icônica instituição francesa e levou joias avaliadas em US$ 102 milhões (cerca de R$ 530 milhões), que ainda não foram encontradas. 

Contudo, no Brasil, o problema ganha contornos dramáticos porque o roubo é apenas uma das faces da moeda da dilapidação. A outra face é a manutenção precária, o subfinanciamento e a ausência de uma cultura técnica de preservação. Afinal, ainda está fresca na lembrança da população a imagem das chamas consumindo o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018. O incêndio foi o resultado previsível de anos de negligência estrutural. 

Seja pelo fogo que consome, seja pela mão que furta, o resultado é o mesmo: o apagamento. Quando obras como as de Portinari desaparecem, a sociedade perde um pedaço de sua narrativa. Cada objeto subtraído priva a coletividade de seu direito à fruição e ao conhecimento.

Há caminhos possíveis, como demonstra a Fundação Biblioteca Nacional, que adota protocolos rígidos de manuseio, digitalização massiva e controle de acesso. Novas ferramentas ajudam a identificar bens traficados, e a modernização da vigilância são passos urgentes. Mas a tecnologia, por si só, não basta se não houver vontade política e orçamento compatível com a grandeza dos tesouros que guardamos.

A falta de respostas no caso do roubo na Biblioteca Mário de Andrade deve servir como um ultimato. Não podemos naturalizar o sumiço de nossa herança cultural como se fosse mais uma estatística de segurança pública. A proteção dos acervos exige um pacto entre Estado, instituições e sociedade civil. É preciso que todos façam a sua parte — da vigilância nos portos e aeroportos à educação patrimonial nas escolas — para estancar essa sangria. Do contrário, estaremos condenados a ser uma nação de "Alexandrias modernas", assistindo passivamente, incêndio após incêndio, roubo após roubo, à destruição irrevogável da própria história.

Déficit fiscal cresceu em 2025 e pode piorar em ano eleitoral

Por Valor Econômico

O desequilíbrio das contas públicas deve passar ao largo da campanha eleitoral e não será uma agenda relevante no próximo governo

O resultado oficial fiscal se manteve estável e cumpriu a meta de 2025 — déficit de 0,1% do PIB, ou R$ 13 bilhões, dentro da tolerância de um piso de até -0,25% do PIB, ou R$ 32 bilhões. A contabilidade real, que incorpora R$ 48,7 bilhões de gastos excluídos da conta, mostra, no entanto, uma piora dos resultados. O resultado primário passou de um déficit de R$ 42,9 bilhões, ou 0,36% do PIB em 2024, para R$ 61,69 bilhões, 0,48% do PIB no ano passado. A dívida pública federal (interna e externa), que incluiu colchão preventivo de liquidez de títulos e juros muito altos, deu um salto de 18% e atingiu R$ 8,63 trilhões. Não há expectativa de melhoria do desempenho fiscal em um ano eleitoral no qual o presidente tentará a reeleição — ao contrário, pode haver piora adicional com medidas populistas.

Apesar do limite de aumento das despesas em 2,5% ao ano, elas continuam crescendo acima disso, pela expansão dos gastos obrigatórios. No geral, as receitas primárias cresceram 3,2% acima da inflação em 2025, mas as despesas totais aumentaram 3,4%. Ao indexar ao salário mínimo gastos sociais, eles empurraram para cima o total de dispêndios. Os benefícios previdenciários avançaram 4,1% acima da inflação, os benefícios de prestação continuada (BPC), que consumiram R$ 127 bilhões, subiram 9,1%, e a complementação ao Fundeb (educação), 19,7%.

O avanço das despesas obrigatórias roubou espaço dos investimentos, que caíram 7% em relação ao ano anterior. Para cumprir a meta fiscal, os governos contam com o empoçamento de despesas, gastos orçados que não foram realizados. A média dessas reservas, que contribuem para o resultado final, tem sido de cerca de R$ 15 bilhões nos últimos anos. Em 2025, caíram para R$ 8 bilhões.

De janeiro de 2023 a dezembro de 2025, o governo Lula acumulou um déficit primário (receitas menos despesas) de R$ 356,4 bilhões, segundo os dados do Tesouro. Essa foi a quantia acrescentada ao estoque da dívida pública, que não foi abatida em um centavo sequer e sobre a qual incidiram os juros mais altos desde 2006. A conta de juros deve ter superado R$ 1 trilhão ao fim de 2025, e o déficit nominal em novembro foi de 8,13% do PIB, um dos maiores do mundo.

A exclusão crescente de despesas do cômputo das metas tornou o regime fiscal pouco crível e menos apto à mensuração do nível real dos gastos públicos realizados. O Orçamento da União de 2026 ampliou essa distorção, ao contemplar os efeitos da aprovação da emenda constitucional 136 (2025), que deu novo encaminhamento ao total de precatórios. Eles deveriam ser plenamente integrados ao orçamento em 2027 e computados para a meta, mas foram retirados do limite de despesas e serão contabilizados em parcelas por 10 anos.

Com isso, segundo análise da Instituição Fiscal Independente do Senado, quando o projeto de lei orçamentária foi apresentado (PLOA), ele previa R$ 174,4 bilhões em gastos não sujeitos ao teto. A aprovação da exclusão dos precatórios elevou essas despesas a R$ 230,73 bilhões. As exceções cresceram de 6,7% do total das despesas primárias para 8,2%.

Retirando-se despesas e receitas não recorrentes, e os efeitos do ciclo econômico, o resultado estrutural negativo melhorou até o terceiro trimestre de 2025. Em 12 meses, ele se reduziu de 1,9% do PIB para 0,9%. No entanto, a desaceleração da economia fez o governo retomar estímulos fiscais, parafiscais e creditícios, de forma que o resultado estrutural piorou no terceiro trimestre em relação ao segundo, quando fora de -0,6% do PIB. Os analistas estimam que, para estabilizar a dívida pública e colocá-la em uma trajetória descendente, seria necessário um superávit fiscal de pelo menos 1,5% do PIB. No entanto, excluindo-se expedientes que trouxeram as contas públicas ao azul em 2022, último ano do governo de Jair Bolsonaro, o país vem acumulando rombos fiscais primários sucessivos desde 2014, há mais de uma década.

A dívida pública em relação ao PIB piorou no governo Lula. Ela era de 71,7% quando Lula assumiu seu terceiro mandato, fechou o ano passado ao redor de 79,3% e deve alcançar 84,5% em 2026, com uma piora de quase 13 pontos percentuais do PIB, elevação de magnitude só vista no passado recente durante o governo de Dilma Rousseff, quando as contas públicas se deterioraram e nunca mais voltaram ao azul.

O governo terá mais dificuldades para atingir a meta de 0,25% do PIB este ano. As receitas fiscais, que bateram recordes sucessivos, devem recuar um pouco devido ao desaquecimento da economia. Há alguma subestimação das despesas no orçamento aprovado, o que pode exigir contenção ao longo do ano. Mas a União tem arregimentado recursos de fundos extraorçamentários para impulsionar o crédito subsidiado em vários programas, e novas iniciativas estão em estudo (como a tarifa zero no transporte urbano), com impacto nas contas públicas e efeitos eleitorais. O desequilíbrio das contas públicas deve passar ao largo da campanha eleitoral e não será uma agenda relevante no próximo governo, se Lula for reeleito. O presidente já disse que não concorrerá a um quarto mandato para ficar cortando gastos do orçamento.

BC indica que começará a reduzir taxa de juros

Por O Povo (CE)

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) criticaram o Banco Central por manter a taxa Selic

Como era previsível, o Banco Central (BC) manteve a taxa básica de juros (Selic) da economia em 15% ao ano. É o maior índice desde 2006, e também a quinta reunião consecutiva do Comitê de Política Monetária (Copom) em que o percentual é mantido.

Em seu comunicado, o BC informa que resolveu manter a Selic devido a vários fatores, incluindo a situação internacional: "O ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por tensão geopolítica".

Quanto às questões internas, o Copom cita ter havido "moderação" no crescimento das atividades econômicas, mas "resiliência" do mercado de trabalho.

Resumindo, o Banco Central argumenta ter havido redução no crescimento da atividade econômica, mas o mercado de trabalho continua aquecido, favorecendo a inflação. Além disso, segundo o BC, o índice está acima da meta e, para evitar o crescimento da inflação, seria necessário conter o consumo.

Acontece que o centro da meta inflacionária é de 3%, com uma banda de 1,5% para cima ou para baixo. A inflação está em 4,5%, portanto não superou o limite do intervalo estabelecido pela regra. Além disso, há de se considerar que o centro da meta em 3% é irreal para uma economia como a do Brasil, um país com inflação estruturalmente mais alta.

Por isso, reduzir a taxa de juros é uma reivindicação que tem a força de unir entidades representativas de empresários e trabalhadores, que normalmente estão em campos opostos.

Em nota, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) referiu-se duramente à decisão do Copom: "Juros em 15% são um boicote ao povo; penalizam trabalhadores, encarecem crédito e freiam consumo e emprego". A Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) também fez críticas: "Juros altos ignoram desaceleração da inflação, restringem investimento e criam custos extras para a indústria".

De qualquer forma, desta vez, o comunicado do Banco Central evitou, o tanto quanto pôde, uma linguagem cifrada para informar que, na reunião de março, o Copom vai começar a reduzir a taxa de juros: "O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta". Ainda que com atraso, a hora está marcada.

A projeção do mercado financeiro é que a Selic ficará em aproximadamente 12% até o fim do ano. Mesmo assim, descontada a inflação prevista de 4% para o período, o Brasil continuará sendo o país com a segunda maior taxa de juros real do planeta, atrás apenas da Rússia. Não parece razoável.

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