Folha de S. Paulo
Conquistar a prefeitura da capital não será
tarefa fácil para Boulos
Previsões entusiasmadas de setores da
esquerda, baseadas nas últimas
pesquisas de intenção de voto, apontam a vitória de Guilherme
Boulos (PSOL)
para a Prefeitura de São Paulo como
altamente provável. Há também quem aposte que o retorno de Marta Suplicy ao PT, e sua presença
na chapa de Boulos como vice, é garantia de vitória.
No entanto, com ou sem Marta na chapa,
conquistar a prefeitura da capital não será tarefa fácil para o candidato do
PSOL. Afinal, é preciso levar em consideração que a esquerda perdeu a
capilaridade que possuía em seus próprios redutos eleitorais ao longo dos
últimos dez anos.
Em 2016, João Doria, então filiado ao PSDB, conquistou a prefeitura no primeiro turno, alavancado pelo antipetismo galopante e pelo sentimento antipolítica que precedeu o crescimento do bolsonarismo no país. Quatro anos depois, os tucanos permaneceram no comando da cidade após Bruno Covas (PSDB) obter mais de 1 milhão de votos a mais que Boulos no segundo turno.
Ainda que tenha saído vitorioso em regiões da
extrema periferia de São Paulo, o psolista perdeu nos bairros que já deram
vitórias ao PT em eleições passadas. Inclusive, no bairro do Campo Limpo, onde
reside, obteve pouco mais de mil votos a mais que Covas.
É possível argumentar que o PT venceu Jair
Bolsonaro, em nível nacional, e Tarcísio
de Freitas, em nível estadual, justamente nas periferias da cidade. Por
conta disso, nas eleições de
2022, a cidade de São Paulo se firmou como um bastião antibolsonarista.
Porém, o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), não é
reconhecido (ainda) como um político alinhado ao bolsonarismo, a despeito de
seu histórico ser permeado por acusação de violência doméstica, por ataques à
chamada "ideologia de gênero" e pela defesa da família tradicional.
Além disso, um fator importante nos cálculos
eleitorais é a avaliação da atual gestão. E, nesse sentido, Nunes possui
números semelhantes aos de Bruno Covas. Nas vésperas das eleições de
2020, a
gestão do tucano foi avaliada como ótima e boa por 25% da população,
regular por 45% e ruim e péssima por 27%.
Nos últimos dois anos, a gestão de Nunes foi
avaliada como ruim ou péssima por cerca de 30% da população, porém, houve uma
melhora em tais índices em 2023. De acordo com uma pesquisa divulgada em
setembro pelo Instituto Datafolha, 23%
da população avaliam a gestão do emedebista como ótima e boa, 49% a avaliam
como regular, e 24% como ruim e péssima.
É verdade que o sentimento de mudança é forte
entre muitos paulistanos. Por esse motivo, Nunes procura associar a novidade
representada por Boulos à instabilidade e à desordem. Ao agir dessa forma, o
prefeito busca provocar medo e ansiedade entre os eleitores, sobretudo entre os
moradores da chamada "periferia consolidada", os quais costumam
decidir as eleições da capital.
Em resposta, Boulos já anunciou que seu
gabinete será formado por pessoas de diferentes partidos e gestões passadas.
Resta saber se tal estratégia, combinada à atuação de Lula como seu
principal cabo eleitoral, será suficiente para fazer com que a esquerda retorne
à Prefeitura de São Paulo em uma disputa que promete ser a mais acalorada do
país em 2024.
*Doutora em ciência política pela USP e
pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
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