O Estado de S. Paulo
A tortura e morte do cão Orelha e a responsabilidade de pais, escola, Estado, redes e plataformas
A tortura e morte do Cão Orelha, que trazia
alegria a uma comunidade e nunca fizera mal a ninguém, traz uma série de
questões para o debate nacional: a responsabilidade dos pais, a educação nas
escolas, a influência da internet nas crianças e adolescentes, o exemplo que
vem dos Poderes e autoridades e o papel da Justiça num País cujo principal e
mais doloroso problema é a desigualdade social.
Como se sentem as famílias que acolheram e cuidaram do Orelha, entre outros cães comunitários? Indignadas e confiantes na Justiça e na punição daqueles capazes de cometer uma atrocidade dessas? Ou com medo, impotentes, descrentes das devidas punições? E se os suspeitos fossem pretos, pobres, da própria comunidade?
Não se trata de demonizar os adolescentes,
até porque as investigações continuam, todos são “inocentes, até prova em
contrário” e, mesmo que efetivamente culpados, como tudo indica, têm o direito
de arrependimento e ressocialização. Mas o crime, até pela covardia e
crueldade, não pode ficar impune.
Os pais e o tio que foram indiciados por intimidação de testemunha não parecem preocupados em saber o que ocorreu, as motivações e estímulos, nem em refletir sobre como eles puderam fazer algo assim e, enfim: onde foi que eu errei? Aparentemente, só querem apagar tudo.
Agendada ou não, a viagem de dois envolvidos
à Disney, após o crime, acrescenta indignação e aumenta o fosso entre a
comunidade simples que acolhe cães abandonados e famílias abastadas que se
passam por insensíveis e desconectadas da humanidade, da civilidade.
E a escola? Não percebeu nada? Quem comete um
ato tão grave já devia ter comportamento duvidoso e sinais de agressividade,
fazendo “bullying” com colegas. Ou foram capazes de torturar o Orelha de
repente, do nada? Improvável.
A reportagem Grupos de ódio na internet
incitam adolescentes a torturar animais, no Estadão, é chocante, mas não uma
surpresa. Se criminosos instigam meninas e meninos a se automutilarem, até a se
suicidarem, tudo é possível. Aí, entra a responsabilidade não só de pais, mães,
parentes e escolas, mas do Estado e das plataformas e redes. Fechar os olhos é
autorizar, facilitar e estimular crimes contra outros e contra si próprios.
Que o sistema e os agentes da Justiça cumpram
o papel que a sociedade exige: investigar e, se for o caso, punir dentro da
lei. O oposto seria aprofundar a descrença nas instituições e na igualdade de
direitos entre pobres e ricos e o incentivo aos autores, às redes, ao ódio e à
desumanidade. “O bem sempre vence no final?” Esse sonho não pode morrer.

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