quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Juros a conta-gotas. Por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O Copom já pode começar a cortar os juros, mas precisa conduzir esse processo com cautela

Está chegando a hora de o Copom começar um ciclo de corte de juros, depois de a taxa Selic ficar estacionada em 15% por bastante tempo. Embora a aposta da esmagadora maioria de analistas não seja a de que o primeiro corte aconteça ao fim da reunião de política monetária hoje, é grande a ansiedade sobre como o Copom irá conduzir as expectativas do mercado e sinalizar em que ritmo vai reduzir os juros e até onde pretende baixá-los.

As dúvidas são muitas. Irá o Copom começar a reduzir a Selic com um ritmo mais modesto (de 0,25 ponto porcentual) ou mais agressivo (de 0,50 ponto)? Qual o orçamento, isto é, o tamanho total do ciclo de afrouxamento monetário? A mediana das projeções de analistas, na pesquisa Focus, aponta para uma taxa a 12,25% ao fim de 2026, ou 2,75 pontos de corte. Mas há quem preveja uma redução maior. Ao fim do ano, estará a política monetária em nível restritivo, neutro ou acomodatício (quando estimula a economia)?

De um lado, o balanço de risco é favorável ao início do ciclo de corte de juros. Quando o Copom elevou a Selic para 15% em junho do ano passado, a projeção da inflação para 2025 pelos analistas era de 5,25%, mas o IPCA fechou em 4,26% no ano passado, abaixo do teto da meta. Em junho, a estimativa da inflação em 2026 era de 4,50%, enquanto na mais recente pesquisa Focus está em 4,0%. No Copom de junho, o dólar estava em R$ 5,50, ante o patamar atual ao redor de R$ 5,25.

De outro lado, os indicadores recentes apontam para uma reaceleração da atividade econômica. Os últimos dados ainda mostram um mercado de trabalho robusto, com criação de postos de trabalho acima do esperado e taxa de desemprego na mínima histórica. Isso significa que os preços de serviços não darão um alívio à inflação.

Para o IPCA convergir para a meta, a contribuição maior terá de vir de preços de bens comercializáveis, os quais dependem da taxa de câmbio e de preços administrados. Mas o câmbio é uma variável sobre a qual o Banco Central não tem controle. Com tantos riscos externos (geopolítica mundial) e internos (eleição presidencial), o dólar pode disparar a qualquer momento. Não dá para confiar numa dinâmica de inflação que depende mais do câmbio do que do hiato do produto.

O Copom já pode começar a remover o grau de aperto monetário, mas precisa conduzir esse afrouxamento com cautela, deixando, por ora, um nível ainda contracionista. E sinalizar que os próximos passos dependem dos dados da economia e da inflação. Ou seja, cortar a conta-gotas agora, para conseguir ir mais longe depois.

 

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