quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Master pauta articulações entre Poderes no recesso. Por Fernando Exman

Valor Econômico

Às vésperas do fim do recesso, o Senado, a quem cabe em última instância julgar a conduta dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e da cúpula do Banco Central (BC) em caso de pedidos de impeachment ou exoneração, prepara-se para entrar no caso Master. Quer tomar parte nas investigações. E como fez no ano passado ao dar um empurrão para o BC limitar as chamadas contas-bolsão que dificultavam a identificação de movimentações financeiras realizadas por facções criminosas, pretende contribuir no aprimoramento da regulação dos fundos exclusivos de investimento.

Neste momento, na cúpula do Senado não se fala de um eventual impeachment do ministro Dias Toffoli, que tem mantido a relatoria dos processos envolvendo o Banco Master no Supremo, a despeito de críticas e questionamentos sobre as ligações de sua família no caso. Nem de outros ministros do STF.

A intenção de senadores da base é aguardar eventuais desdobramentos do caso e, enquanto isso, estender a mão a Toffoli. Recentemente, por exemplo, foi enviada mensagem ao ministro dizendo que ele teria apoio na Casa, desde que, sem a necessidade de ser provocado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pela Polícia Federal (PF), saísse da defensiva e assumisse a postura esperada de um ministro do Supremo. Ter o apoio dos próprios pares seria um primeiro passo.

Tais parlamentares não ficaram surpresos, portanto, quando foi divulgada na semana passada uma extensa nota oficial pelo presidente do Supremo, Edson Fachin. Articulado também por outros integrantes da Corte, o comunicado deu apoio à atuação do ministro Dias Toffoli - ainda que com a sinalização de revisão de eventuais “vícios ou irregularidades” pelo colegiado nos termos regimentais e processuais.

No governo federal, aliás, existe a convicção de que Toffoli tem colocado os demais colegas em uma situação delicada. Mas, pondera-se, a sua ruína poderia abrir caminho para outros processos de impeachment contra ministros do Supremo. É uma porteira que muitos temem ver aberta, sobretudo em ano eleitoral.

Para esses interlocutores no Executivo, portanto, uma barreira de contenção poderia ser justificável neste momento. Além disso, existe uma avaliação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria manter distância do caso: foi só ele criticar publicamente o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que já surgiu a informação de que recebera o banqueiro em dezembro de 2024.

Ou seja, se o assunto é tóxico, a estratégia do PT será relacionar o escândalo a brechas no sistema que não foram devidamente vedadas durante a gestão anterior do BC, afastando-o tanto do Palácio do Planalto quanto da atual administração do Banco Central. Mas ainda há dúvidas se o próprio presidente Lula não se arriscará novamente nesse polêmico terreno, sob a justificativa de que atacar Vorcaro faria sentido em uma estratégia de roubar a bandeira “antissistema” da extrema direita.

Com este pano de fundo, articula-se a ida ao Senado do presidente do BC, Gabriel Galípolo.

É bem possível que na ocasião surjam questionamentos se a autoridade monetária poderia ter sido mais rápida ao decidir se liquidava ou não o Banco Master. Em sua defesa, contudo, haverá quem diga que está provado que esse tipo de processo precisa ser feito com toda diligência possível, pois há exemplos recentes de outras liquidações que foram parar na Justiça e, além de gerar constrangimentos ao BC, podem produzir prejuízos bilionários ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A intenção é que Galípolo apresente sugestões ao Senado do que os parlamentares poderiam aprovar para, por exemplo, fortalecer o BC, órgãos reguladores e de fiscalização. A palavra de ordem é aumentar a regulamentação de fundos de cota única. Segundo a Receita Federal, por exemplo, muitos desses fundos são utilizados pelo crime organizado como estruturas para ocultação de patrimônio.

Existe, por fim, a frente investigativa. Há discussões sobre a criação de uma comissão parlamentar de inquérito para investigar as supostas fraudes cometidas pelo Master e os tentáculos do banco entre os poderosos, assim como a disposição de envolver a CPI do Crime Organizado nesta missão. A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), presidida por Renan Calheiros (MDB-AL), também criou um grupo de trabalho para acompanhar o assunto.

Mas um outro plano em gestação pode alterar a correlação de forças nessa seara: reunir sob a presidência de Renan Calheiros os comandos da CAE e da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI), cuja chefia é alternada entre as duas Casas do Congresso a cada ano e em 2026 retorna para a área de influência do Senado.

Este colegiado pode, por exemplo, requisitar relatórios sigilosos da Polícia Federal (PF), Receita Federal e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A ideia é do líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (AM), e será colocada em discussão com o presidente Davi Alcolumbre (União-AP) quando o ano legislativo finalmente começar.

 

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