Por Beatriz Roscoe e Renan Truffi / Valor Econômico
Em busca de melhorar a relação com o
Legislativo em 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva promoveu uma agenda
informal e de aproximação, na noite desta quarta-feira, com o presidente da
Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e líderes da base aliada do governo na
Casa. O encontro durou cerca de três horas e aconteceu na Granja do Torto, como
é conhecida a casa de campo da Presidência da República.
O Valor apurou
que, apesar de o evento ter sido convocado num momento de retomada dos
trabalhos no Parlamento, o clima na Granja foi muito mais de
"confraternização" do que de reunião de trabalho. Para abrir a
conversa, por exemplo, Lula pediu que fosse tocada a música
"Disparada", de Geraldo Vandré, que ficou famosa na voz de Jair
Rodrigues.
Com essa trilha sonora, Lula parafraseou o primeiro verso da canção e pediu que os deputados "abrissem o coração" para ouvi-lo. A partir daí, passou a contar histórias que viveu, por exemplo, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. "Ele ficou contando histórias, muito despreocupado com política, com a pauta [da Câmara], estava mais contando histórias da vida mesmo", relatou um parlamentar.
Para o cardápio do jantar, Lula escolheu o
pirarucu, peixe nativo da Amazônia. Além disso, ele evitou fazer cobranças ou
sugerir projetos para os os deputados presentes. "Ele estava muito
emocionado, orgulhoso, agradeceu [os deputados] e disse que estava animado com
a eleição", acrescentou um congressista.
Neste sentido, o petista também procurou
fazer acenos a Motta, de acordo com interlocutores presentes no jantar. Em
certo momento da confraternização, inclusive, Lula demonstrou solidariedade com
os "momentos difíceis" vividos pelo presidente da Câmara, disse que
também passou por dificuldades e afirmou neste sentido, que sua mão está
"estendida" para o deputado paraibano.
O afago acontece alguns meses depois de Motta
ver deputados bolsonaristas e de esquerda ocuparem à força, em momentos
distintos, a tribuna da Câmara dos Deputados -- o que suscitou discussões sobre
o enfraquecimento do presidente da Casa.
Em resposta à fala do presidente da
República, Motta teria adotado discurso “fraterno”, mas mais protocolar, de
acordo com relatos. Ainda assim, o deputado paraibano também sinalizou intenção
de ajudar o governo de Lula nesta reta final de mandato. "O Hugo Motta
teve uma fala mais protocolar, mas disse algo meio [na linha de] 'estamos aqui
pro que precisar'", contou outro deputado.
A troca de gentilezas gerou a sensação de que
Motta e o governo petista podem estar no mesmo lado na eleição de 2026, disse
um parlamentar em condição de anonimato. "Ele [Lula] está em campanha e
começou a fazer uma coisa que ele deveria fazer há muito tempo [receber os
líderes e buscar essa aproximação]. O Hugo está muito mais próximo [do
governo]", defendeu este interlocutor.
"Se eu pudesse apostar, diria que
[Motta] já escolheu seu lado [na eleição]. A fala do Lula pra ele foi uma fala
de quem já está afinado", complementou.
Alguns participantes também destacaram a
presença de líderes de partidos como PP e União Brasil, legendas do Centrão que
não necessariamente têm alinhamento com o governo federal. Também marcaram
presença parlamentares do Podemos, PSD, MDB, PSB, PDT, PSOL, Avante,
Solidariedade, PRD, PV, Rede Sustentabilidade e PCdoB.
Pelo lado do governo, participaram da
confraternização vice-presidente Geraldo Alckmin e os ministros da Fazenda,
Fernando Haddad, da Casa Civil, Rui Costa, de Minas e Energia, Alexandre
Silveira, da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, e da Secretaria de Relações
Institucionais (SRI), Gleisi Hoffmann.
Esta última é responsável pela articulação
política e não pretendia discursar, mas foi convencida diante dos apelos dos
deputados presentes. De acordo com uma fonte, a ministra disse aos
parlamentares que tem aprendido muito na SRI, e, no cargo, passou a respeitar
ainda mais os líderes partidários.
Por fim, a confraternização acabou com Lula demonstrando estar empolgado com a homenagem recebida da escola de samba Acadêmicos de Niterói, do Rio de Janeiro. Isso porque o samba-enredo em sua homenagem embalou o final do jantar. A agremiação decidiu levar para a Sapucaí, neste ano, um enredo intitulado: “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”.

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