quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O carnaval de Vorcaro. Por Malu Gaspar

O Globo

A volta das férias do Legislativo nesta semana foi assombrada pela fraude do Banco Master. Nos corredores e gabinetes, a maior parte das conversas era sobre como abafar o caso e impedir a instalação de comissões de inquérito. São quatro os pedidos só na Câmara dos Deputados. Mas, da esquerda à extrema direita, quase todo mundo tem motivo para querer evitar uma investigação sobre os esquemas de Daniel Vorcaro. Nos tempos áureos, dizia-se que a bancada do Master era maior que a de muitos partidos, sem contar que vários de seus integrantes ainda tinham poder para arrastar os votos de outros, como Ciro Nogueira, do PP, ou Antonio Rueda, do União Brasil.

O networking de Vorcaro e seu sócio Augusto Lima também alcançava o Supremo Tribunal Federal (STF), governos estaduais de variadas linhas ideológicas, a Esplanada dos Ministérios e o Palácio do Planalto. Toda essa gente passou os últimos dias em confabulações sobre como trocar as meias sem tirar o sapato, evitando a instalação de uma CPI sem ter de arcar com o desgaste diante da sociedade.

Hugo Motta (Republicanos-PB) saiu-se com um argumento burocrático. Disse que tinha de respeitar a fila de cerca de 15 pedidos de CPI e que, portanto, os deputados teriam de decidir sobre as outras antes de pensar em abrir a do Master.

“A Câmara tem de obedecer a essa ordem cronológica e tem de obedecer regimentalmente ao funcionamento de cinco CPIs ao mesmo tempo”, declarou.

Balela. O regimento realmente estabelece o limite de cinco comissões ao mesmo tempo, e a questão do respeito à fila vem de uma resposta a uma questão de ordem dada há mais de 20 anos pelo presidente da Câmara de então. Depois disso, em 2021, o próprio STF, ao ordenar a instalação da CPI da Covid, decidiu que, para criar CPIs, é preciso “unicamente” preencher três critérios: reunir o mínimo de assinaturas necessárias, haver um fato determinado e prazo de duração. E nada mais. Quando quer, Motta dá seu jeito, até porque sempre tem um artigo do regimento ou uma jurisprudência a que se possa recorrer.

O presidente do Senado Federal adotou postura mais discreta e malandra, como é do seu estilo. Ele mesmo um dos personagens enrolados com o Master, em razão dos R$ 400 milhões que o fundo de pensão do Amapá enterrou em letras financeiras do banco, Davi Alcolumbre (União-AP) repetiu várias vezes a mesma resposta a quem lhe pediu que liberasse uma investigação sobre o Master: “Vamos deixar isso para depois do carnaval”.

Deixar para depois do carnaval virou mantra. A própria defesa de Vorcaro recorreu ao expediente para ganhar tempo e ver se, até o final da folia, se produz um acordão.

Conseguiu, numa triangulação com o ministro Dias Toffoli — outro enrolado com o Master até a tampa —, adiar para o final do mês o depoimento à CPI do INSS que tinha sido marcado para hoje. Nos bastidores, Toffoli e Alexandre de Moraes, o melhor amigo de Vorcaro no Supremo, também mexeram seus pauzinhos, mandando recados aos parlamentares que porventura estejam interessados em aprovar uma CPI.

Toda essa movimentação mostra que o bloco do Master está afiado e bem ensaiado, mas não é garantia absoluta de vitória. Ainda estão por ser discutidos no Senado mais de dez requerimentos propostos pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) noutra CPI em andamento, a do crime organizado.

Os pedidos são ousados — incluem convocar para depor Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre e dona de um contrato de R$ 130 milhões com o Master, e quebrar o sigilo bancário de seus escritórios de advocacia —, mas a votação é aberta. Acaba de ser criado, ainda, um grupo de trabalho liderado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) que não tem poder de CPI, mas pode ajudar a manter o caso vivo até depois do carnaval.

Além disso, os inquéritos da PF continuam, assim como a auditoria do Banco Central sobre quem falhou no caso do Master. Nada impede que algum fato novo reedite o roteiro da CPI do 8 de Janeiro. Nem o governo Lula queria a comissão, temendo que contaminasse as eleições municipais, mas ela acabou se tornando inevitável depois que revelações sobre possíveis omissões do Planalto nos fatos daquele dia atraíram o interesse do bolsonarismo.

Em Brasília, o acordão é a regra, mas o imponderável por vezes se impõe, e nesse caso do Master os imponderáveis têm se multiplicado. Enquanto os blocos desfilam, as engrenagens do escândalo se movimentam. A ressaca pós-carnaval é certa, mas ainda não dá para cravar com segurança que cabeças vão doer.

 

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