O Globo
A volta das férias do Legislativo nesta semana foi assombrada pela fraude do Banco Master. Nos corredores e gabinetes, a maior parte das conversas era sobre como abafar o caso e impedir a instalação de comissões de inquérito. São quatro os pedidos só na Câmara dos Deputados. Mas, da esquerda à extrema direita, quase todo mundo tem motivo para querer evitar uma investigação sobre os esquemas de Daniel Vorcaro. Nos tempos áureos, dizia-se que a bancada do Master era maior que a de muitos partidos, sem contar que vários de seus integrantes ainda tinham poder para arrastar os votos de outros, como Ciro Nogueira, do PP, ou Antonio Rueda, do União Brasil.
O networking de Vorcaro e seu sócio Augusto
Lima também alcançava o Supremo Tribunal Federal (STF),
governos estaduais de variadas linhas ideológicas, a Esplanada dos Ministérios
e o Palácio do Planalto. Toda essa gente passou os últimos dias em
confabulações sobre como trocar as meias sem tirar o sapato, evitando a
instalação de uma CPI sem ter de arcar com o desgaste diante da sociedade.
Hugo Motta (Republicanos-PB)
saiu-se com um argumento burocrático. Disse que tinha de respeitar a fila de
cerca de 15 pedidos de CPI e que, portanto, os deputados teriam de decidir
sobre as outras antes de pensar em abrir a do Master.
“A Câmara tem de obedecer a essa ordem
cronológica e tem de obedecer regimentalmente ao funcionamento de cinco CPIs ao
mesmo tempo”, declarou.
Balela. O regimento realmente estabelece o
limite de cinco comissões ao mesmo tempo, e a questão do respeito à fila vem de
uma resposta a uma questão de ordem dada há mais de 20 anos pelo presidente da
Câmara de então. Depois disso, em 2021, o próprio STF, ao ordenar a instalação
da CPI da Covid,
decidiu que, para criar CPIs, é preciso “unicamente” preencher três critérios:
reunir o mínimo de assinaturas necessárias, haver um fato determinado e prazo
de duração. E nada mais. Quando quer, Motta dá seu jeito, até porque sempre tem
um artigo do regimento ou uma jurisprudência a que se possa recorrer.
O presidente do Senado
Federal adotou postura mais discreta e malandra, como é do seu
estilo. Ele mesmo um dos personagens enrolados com o Master, em razão dos R$
400 milhões que o fundo de pensão do Amapá enterrou em letras financeiras do
banco, Davi Alcolumbre (União-AP) repetiu várias vezes a mesma resposta a quem
lhe pediu que liberasse uma investigação sobre o Master: “Vamos deixar isso
para depois do carnaval”.
Deixar para depois do carnaval virou mantra.
A própria defesa de Vorcaro recorreu ao expediente para ganhar tempo e ver se,
até o final da folia, se produz um acordão.
Conseguiu, numa triangulação com o ministro Dias
Toffoli — outro enrolado com o Master até a tampa —, adiar para o final do mês
o depoimento à CPI do INSS que tinha sido marcado para hoje. Nos bastidores,
Toffoli e Alexandre de
Moraes, o melhor amigo de Vorcaro no Supremo, também mexeram seus
pauzinhos, mandando recados aos parlamentares que porventura estejam
interessados em aprovar uma CPI.
Toda essa movimentação mostra que o bloco do
Master está afiado e bem ensaiado, mas não é garantia absoluta de vitória.
Ainda estão por ser discutidos no Senado mais de dez requerimentos propostos
pelo senador Alessandro
Vieira (MDB-SE)
noutra CPI em andamento, a do crime organizado.
Os pedidos são ousados — incluem convocar
para depor Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre e dona de um contrato
de R$ 130 milhões com o Master, e quebrar o sigilo bancário de seus escritórios
de advocacia —, mas a votação é aberta. Acaba de ser criado, ainda, um grupo de
trabalho liderado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) que não tem poder de
CPI, mas pode ajudar a manter o caso vivo até depois do carnaval.
Além disso, os inquéritos da PF continuam,
assim como a auditoria do Banco Central sobre
quem falhou no caso do Master. Nada impede que algum fato novo reedite o
roteiro da CPI do 8 de Janeiro. Nem o governo Lula queria
a comissão, temendo que contaminasse as eleições municipais, mas ela acabou se
tornando inevitável depois que revelações sobre possíveis omissões do Planalto
nos fatos daquele dia atraíram o interesse do bolsonarismo.
Em Brasília,
o acordão é a regra, mas o imponderável por vezes se impõe, e nesse caso do
Master os imponderáveis têm se multiplicado. Enquanto os blocos desfilam, as
engrenagens do escândalo se movimentam. A ressaca pós-carnaval é certa, mas
ainda não dá para cravar com segurança que cabeças vão doer.

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