Por Catia Seabra e João Pedro Pitombo / Folha de S. Paulo
Presidente convoca militância, fala em guerra
política e diz que acabou o 'Lulinha paz e amor'
Lula volta a afirmar partido precisa focar na
periferia e critica disputas internas
O presidente Lula fez
cobranças públicas ao PT, criticou as disputas internas e buscou mobilizar a
base para as eleições
de outubro na celebração dos 46 anos do partido neste sábado
(7) em Salvador.
Em um discurso com ares de discussão de relacionamento,
o presidente defendeu a formação de alianças amplas e afirmou que o partido
"não está com essa bola toda" em todos os estados.
"Temos que tratar de fazer as alianças
necessárias para a gente ganhar as eleições. Um acordo político é uma coisa
tática para gente poder governar esse país. E estamos mais sabidos, muito mais
preparados", afirmou.
Ao mesmo tempo, Lula buscou inflamar a militância afirmando que está à disposição do partido: "Estejam preparados. Se vocês precisam de um timoneiro, está aqui eu. Se vocês precisam de um soldado para a linha de frente está aqui eu. Porque eu não quero ser um general, general sempre fica atrás. Eu quero estar na frente com vocês".
Na sequência, disse que a militância precisa
defender o governo e permanecer mobilizada nas redes sociais, classificou as
eleições de outubro como uma guerra.
"Nós temos que ser mais desaforados
porque eles são desaforados. E nós não podemos ficar sendo quietinhos. Não tem
mais essa de Lulinha paz e amor. Essa eleição vai ser uma guerra",
afirmou.
O presidente iniciou seu discurso relembrando
a fundação do PT nos anos 1980. Relembrou as bandeiras históricas da legenda,
disse que o partido não pode se igualar à direita em uma política movida pelo
dinheiro.
"A política apodreceu. Vocês que são
candidatos sabem como está o mercado eleitoral nesse país, quanto custa um cabo
eleitoral, quanto custa um vereador, quanto custa cada candidatura nesse país.
É uma vergonha", afirmou.
Na sequência, criticou a quantidade de
dinheiro envolvido nas campanhas eleitorais e disse sentir saudade dos tempos
em que o partido vendia camisetas para custear os comícios: "Agora é
dinheiro rolando para tudo quanto é lado".
O presidente cobrou uma autocrítica do PT por
ter sido a favor das emendas impositivas,
aprovadas no Congresso, e classificou o volume desses recursos como "um
sequestro" das verbas do Executivo para que deputados e senadores gastem
como quiserem.
"Vocês têm obrigação de não deixar que
partido vá para a vala comum da política desse país", afirmou
Também destacou que o PT precisa se
fortalecer na sociedade: "É o partido que tem que ser forte, não é o Lula.
O Lula é uma pessoa física, vocês são uma pessoa jurídica que não pode
acabar".
Ainda segundo Lula, o PT precisa ir para a
periferia e conversar com o eleitorado, incluindo os
evangélicos, lembrando que maioria deles recebem benefícios do
governo federal.
Depois das cobranças, encerrou o discurso em
tom otimista, afirmando que o PT só perde a eleição presidencial para si mesmo.
"A eleição vai ser uma guerra e temos
que estar preparados para ela para ganhar em alto nível. Vamos nos preparar.
Saibam que estou motivado para cacete porque o que está em jogo não é só ganhar
as eleições, precisamos pensar em um outro projeto para esse país, para
despertar os corações", afirmou.
Dois dias após dizer que o vice-presidente
Geraldo Alckmin (PSB) tem uma missão a cumprir em São Paulo, Lula o afagou
dizendo que teve sorte com seus vices: "O Geraldo Alckmin foi uma dessas
coisas que Deus fez acontecer na minha vida. É um homem extraordinário que eu
respeito e admiro".
O evento foi uma espécie de pontapé inicial
para as eleições de
outubro. O presidente aproveitou o ato para mobilizar a
militância e indicar as diretrizes da campanha, que incluem a
defesa do legado das gestões petistas, o combate a privilégios e pautas como o
fim da escala 6x1. A aposta é um discurso ideológico para enfrentar a
direita bolsonarista na eleição.
A Bahia foi escolhida para sediar as
celebrações dos 46 anos como forma de reafirmar a importância eleitoral do
estado, que deu uma frente de quatro milhões de votos a Lula na disputa
contra Jair
Bolsonaro (PL) no segundo turno em
2022.
Mais cedo, o presidente nacional do PT,
Edinho Silva, afirmou que a construção de um amplo arco de alianças será
crucial para a reeleição do presidente.
"Temos que ter capacidade de fazer
alianças partidárias e como a sociedade. Não podemos ter dúvidas do que é
central. Nada é mais importante do que a eleição do presidente", afirmou.
Ele ainda defendeu a importância de eleger
senadores comprometidos como a democracia e citou a meta de eleger ao menos um
deputado do PT em cada estado brasileiro e ampliar as bancadas nos estados onde
a sigla já tem representantes na Câmara dos
Deputados.
Edinho também destacou a importância de
resgatar bandeiras históricas como o orçamento participativo, que poderia ser
uma espécie de contraponto às emendas
impositivas, e disse que só o PT pode ser um partido antissistema.
"Se queremos ser um partido
antissistema, temos que fazer que os ricos paguem imposto e os trabalhadores
deixem de pagar. Se queremos ser um partido do antissistema, temos que defender fim da
jornada 6x1 e debater uma forma de custeio para que a gente
universalizar a tarifa zero",
afirmou.
Lula chegou à Bahia na sexta-feira (6) para
participar de uma cerimônia de entrega de ambulâncias, de Unidade Odontológicas
Móveis e equipamentos para Unidades Básicas de Saúde. Pela tarde, o presidente
fez uma visita ao Santuário de Santa
Dulce dos Pobres, na capital baiana.
Na tarde deste sábado, o presidente e a
primeira-dama Janja participaram de um almoço na casa do cantor e
compositor Gilberto Gil,
que foi ministro da Cultura no primeiro mandato petista.

Nenhum comentário:
Postar um comentário