O Estado de S. Paulo
Mantida a tradição, a economia brasileira dificilmente poderá superar um crescimento médio anual próximo de 2%
O carnaval nem começou, a Páscoa está longe e o governo já reduziu de 2,4% para 2,3% sua projeção de crescimento econômico em 2026. A estimativa é mais otimista do que a do mercado, 1,80%, segundo o boletim Focus, mas parece modesta num início de ano com eleição presidencial. O avanço da agropecuária foi revisto de 8,3% para 9,5%, a expansão do produto industrial passou de 1,4% para 1,3% e o aumento calculado para os serviços mudou de 2,1% para 1,9%. Esse é o cenário do Ministério da Fazenda. Além disso, o desemprego foi de 5,1% em dezembro de 2025 e a média anual ficou em 5,6%, segundo as últimas estimativas oficiais. Os dois números são os menores da série iniciada em 2012, e a população empregada, 103 milhões de pessoas, foi recorde no final do ano.
O quadro pode parecer razoável, talvez
satisfatório, pelos padrões brasileiros do último quarto de século. Mas falta
definir se esses padrões são mesmo aceitáveis e compatíveis com o potencial do
País. Se esse “potencial” for entendido como a taxa efetiva de investimento em
meios físicos de produção – infraestrutura, máquinas, equipamentos e
instalações –, a resposta poderá ser positiva. Mas será admissível investir
apenas um valor próximo e frequentemente inferior a 18% do Produto Interno
Bruto (PIB)?
Esse padrão tem sido ultrapassado em várias
economias emergentes, onde se registram taxas iguais e até superiores a 20%,
segundo números publicados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Mantida a
tradição, a economia brasileira dificilmente poderá superar um crescimento
médio anual próximo de 2%. Dará um salto de vez em quando, como tem ocorrido há
anos, e logo voltará ao ritmo da mediocridade. Mas o dinamismo econômico
depende também do investimento em capacidade humana.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabe
disso. Pelo menos alguns de seus auxiliares também conhecem a importância da
educação para o desenvolvimento social e econômico. Mas desenvolvimento, em
todos os seus aspectos, normalmente resulta da combinação de vários fatores.
Isso inclui, entre vários itens, o investimento público, a formulação e
atualização de políticas e o empenho na implantação e na execução de planos e
programas ligados à instrução e ao desenvolvimento científico e tecnológico.
Não se percebem, no entanto, sinais claros de
empenho governamental na definição e na execução dessas tarefas. Apesar do
esforço de um ou de outro ministro, o governo carece, aparentemente, de um
roteiro bem definido de transformação social e de modernização econômica.
No Ministério da Fazenda, Fernando Haddad
formulou e tentou implantar um programa de arrumação financeira e de
estabilização das contas públicas. Nenhuma resposta clara e convincente de
aceitação e de incorporação desse programa partiu da Presidência da República.
O presidente se mostra capaz de perceber, de
entender e de enfrentar vários problemas e desafios internos e externos. Tem
exibido eficiência na ação diplomática e boa visão das questões do dia a dia,
como a crise do Banco Master. Mas nem sempre atendeu às orientações do ministro
Haddad, fundamentais para a boa gestão das finanças governamentais, para a
segurança fiscal e para a previsibilidade econômica.
Um maior cuidado na gestão das contas
públicas teria possibilitado, quase certamente, uma política monetária mais
branda. Os juros básicos talvez nunca tivessem chegado a 15%. Ou, se tivessem
atingido esse nível, o Banco Central (BC) teria conseguido reduzi-los mais
facilmente. A insegurança das finanças públicas tem sido um tema frequente dos
comunicados do BC. Mas, embora mantendo um relacionamento civilizado com os
condutores dos juros, o chefe do governo nunca levou em conta, no dia a dia,
suas avaliações da política fiscal. Continuou gastando de acordo com suas
conveniências e seus objetivos, como se os efeitos monetários de suas decisões
fossem irrelevantes.
A gastança federal contribuiu, certamente,
para o prolongamento da inflação longe da meta central, fixada em 3%, e para a
manutenção dos juros básicos em 15%. Esses juros poderão ser diminuídos a partir
de março, se nenhuma novidade atrapalhar o previsto declínio da inflação. Os
preços ao consumidor chegaram ao fim do ano passado com alta acumulada de
4,26%. Pela última projeção do mercado, registrada na pesquisa Focus, poderão
subir 3,99% em 2026. Ainda estarão bem acima da meta, mas abaixo do teto de
4,5%.
A combinação indicada nessa pesquisa –
inflação de 3,99% e crescimento econômico de 1,80% – ainda estará, se
confirmada pelos fatos, longe de valer uma comemoração. Talvez pareça mais
aceitável se for considerada a insegurança de um ano de eleições. Mas o quadro
seria, com certeza, muito menos preocupante se fosse possível apostar num
resultado com menos desdobramentos. O resultado agora previsto, convém lembrar,
envolverá mais que o desempenho fiscal de 2026. Se houver gastança eleitoral,
seus efeitos, por meio de aplicações em programas, obras e finalidades nem
sempre defensáveis, poderão estender-se pelos anos seguintes.

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