terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O trôpego pedestal da soberba humana. Por Paulo César Nascimento*

Algumas décadas atrás – talvez cinco ou mais – houve uma matança de uma colônia de gatos no Passeio Público do Rio de Janeiro, por um grupo de adolescentes, armados de pedaços de paus. À época a única pessoa que veio a público lamentar o episódio foi o jornalista e escritor Paulo Alberto de Barros, o Arthur da Távola, em sua coluna em um jornal do Rio de Janeiro. Ressaltou que os bichanos não mereciam isso porque “o gato é um bicho zen”. Mais ou menos uma década depois, o programa Fantástico mostrou uma reportagem acrítica sobre um homem no interior do Amazonas que costumava colocar armadilhas para prender uma das patas das onças, e daí eliminá-las a pauladas. Nenhum destes dois casos causou indignação, passando despercebidos pela sociedade brasileira.

Já a recente tortura e morte do cachorro Orelha, em janeiro deste ano em Florianópolis, tem causado uma comoção em todo o país. Como entender essa mudança, em apenas algumas décadas, no humor da população? Aqueles que acham que está havendo demasiada atenção para a morte de um cão, em um país com múltiplos problemas como o Brasil, certamente estão perdendo o famoso bonde da história. Toda esta revolta em torno da morte do Orelha, na realidade, revela uma transformação, ainda que sutil e vagarosa, na autocompreensão dos seres humanos sobre seu lugar e relação com o mundo.

Na origem do pensamento ocidental, o homem colocou-se em um pedestal acima da natureza e de todos os demais seres viventes por possuir aquela faculdade que lhe dava a mais importante das vantagens para sua sobrevivência e dominação: a Razão. E não só sobre a natureza e os animais, mas também sobre aqueles humanos – bárbaros, escravos, etc. que supostamente, por não deterem a Razão, eram meros “instrumentos vivos” e portanto condenados aos trabalhos corporais e à escravidão, como expressou-se Aristóteles em seu tratado A Política.

A prepotência da Razão informou o cristianismo por meio da patrística e da escolástica, municiando a fé cristã de explicações lógicas e reforçando a ideia do homem “criado à imagem de Deus”. Finalmente, a Razão desembocou no secularismo iluminista e no seu lema kantiano: “sapere aude” (ouse saber). Tal trajetória teórica foi adotada pelas principais correntes políticas da era moderna – o marxismo e o liberalismo – que levaram à prática, cada uma a seu modo, o que já estava inscrito no destino do ser humano racional: dominar a natureza, inclusive todos os demais seres viventes, colocando-os a seu serviço. Além disso, extrair dela o que for útil para o homem, destruir o que não pode ser aproveitável e, desse modo, desenvolver as “forças produtivas” para criar as bases materiais e espirituais da civilização humana moderna.

Certo é que esse projeto delirante encontrou inúmeros obstáculos e gerou visíveis contradições, já que a razão humana, ao contrário do que pregavam as teorias originadas a partir dela, nunca impediu inúmeras guerras de conquista, tentativas de aniquilamento de populações inteiras (do qual a destruição da faixa de Gaza pelo governo de Israel é um exemplo recente), e a conquista e colonização de territórios de outros povos considerados “inferiores” e “irracionais”.  Enquanto enaltecia as artes e obras arquitetônicas geradas pela sua criatividade, o homem ao mesmo tempo desenvolvia armas e instrumentos de guerra cada vez mais mortíferos, que multiplicavam exponencialmente as ondas de destruição e morte.

Todo esse lado sombrio da era do Antropoceno era justificado racionalmente – afinal de contas, o homem tinha de dominar a natureza para sobreviver, sendo as guerras sempre legitimadas por necessidades de defesa, eliminação de inimigos ameaçadores, etc. A Primeira Guerra Mundial chegou até a ser defendida como uma suposta causa nobre: dar um fim definitivo aos conflitos humanos. Seria, dessa forma, “a guerra para acabar com todas as guerras”. E o impacto das mortes era sempre amenizado por um humanismo choramingão e filisteu.

Claro está que os descaminhos da Razão não passaram desapercebidos nas obras de arte, na poesia, em movimentos culturais diversos, e nas disciplinas sociais. Os filósofos da Escola de Frankfurt, só para citar um exemplo, dedicaram vários estudos críticos à racionalidade humana. Jurgen Habermas apontou como a parte “instrumental” da Razão – que busca o sucesso e a dominação, e opera pela técnica e a relação meio-fins – veio a predominar sobre a “razão comunicativa”, voltada para o potencial humano de entendimento.

 Mas talvez tenha sido Freud quem melhor sintetizou a fragilidade do palanque em que se apoiava o amor-próprio do homem, ao apontar as três descobertas científicas, ou “feridas narcísicas”, em sua expressão, que relativizaram o poder da razão humana: a descoberta de Nicolau Copérnico, que demonstrou que a terra não era o centro do universo mas um mero planeta girando em torno do sol; a teoria da evolução de Charles Darwin, que provou que o homem não é uma criação divina, mas um descendente dos primatas; e a sua própria descoberta do inconsciente, que demonstrou que o pensamento humano é influenciado por desejos e impulsos que o próprio homem não controla.

Como viu muito bem Hannah Arendt, são fatos, e não teorias, que transformam o mundo. O caso do cão Orelha é um desses fatos. Ele pode ser politizado à esquerda ou à direita, mas isso faz parte do jogo político.  Não vai deixar de refletir, e em sua tragicidade encorajar, a tomada de consciência que o ser humano compartilha um mundo em comum com outros seres, mundo este que ele tem de preservar até para sua própria sobrevivência. E que a Razão não pode ser substituída pela paixão das irracionalidades, como gostariam algumas seitas moderninhas ou pós-qualquer-coisa, mas ajudar o homem a tornar-se o que um controverso filósofo chamou certa vez de “pastor” do mundo existente.    

*Paulo César Nascimento, professor de Ciência Política da Universidade de Brasília

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