Folha de S. Paulo
Brasil tem muitos governadores muito bem
avaliados e que têm conquistas a mostrar
O problema é que o perfil menos chamativo e
mais eficaz, que busca moderação e diálogo, falha em capturar a atenção
O poder de Lula sobre
a esquerda brasileira é maior do que o de Bolsonaro sobre a direita. É possível
vislumbrar uma direita não bolsonarista; um sonho distante, é verdade, mas os
nomes estão aí. Já na esquerda, o pós-Lula encontra apenas o silêncio total.
Dito isso, por mais nomes de direita ou centro-direita que apareçam, Flávio Bolsonaro parece seguro em seu trono. Até agora, segue firme a premissa de que o candidato que disputará o segundo turno contra Lula será aquele apoiado por Jair Bolsonaro. Jair escolheu seu filho Flávio. Será ele, portanto, que irá para o segundo turno. É o que as pesquisas têm mostrado.
Uma coisa é certa: se a "terceira
via" —que, nesta eleição, significa a direita não-bolsonarista— quiser ter
alguma chance de superar Flávio, não pode dividir seu já exíguo potencial de
votos entre quatro ou cinco candidatos. Nesse sentido, a ida de Caiado para
o PSD é
uma boa notícia para a terceira via.
Além deles, Romeu Zema corre
por fora, não se sabe se para sair candidato e puxar votos para o partido Novo ou
se aliar a Flávio desde já. Se aderir ao bolsonarismo, será menos um nome para
dividir os votos da terceira via. Além dele, há Renan Santos apostando na
estratégia "Pablo Marçal":
mostrar-se mais radical e antissistema que o candidato de Bolsonaro, tentando
reacender a chama de revolucionário que, com a escolha do convencional Flávio
como representante do movimento, foi definitivamente apagada.
Ainda assim, vendo Caiado, Ratinho Jr.
e Eduardo Leite juntos
nesse ato de grandeza que é se comprometer a apoiar a candidatura de apenas um
deles, luto para espantar o pensamento de que eles disputam a oportunidade de
ter 5% na eleição presidencial.
A não ser que algum dos governadores tenha
uma carta bombástica na manga que vire o jogo até outubro, é difícil imaginar
uma mudança. Ou alguém acha que as multidões ficarão empolgadas com um
"bom gestor" quando a campanha começar?
O Brasil tem hoje muitos governadores muito
bem avaliados e que têm conquistas a mostrar. Caiado pode apontar a queda
expressiva dos homicídios em Goiás. Zema, o crescimento da economia mineira.
Ratinho Jr., a subida do Paraná para o primeiro lugar da Ideb.
Isso não se limita à direita. No Espírito Santo e no Piauí, algo similar
poderia ser dito. O problema é que o perfil menos chamativo e mais eficaz, que
busca moderação e diálogo em vez de conflito constante, falha em capturar a
atenção e, portanto, a adesão entusiasmada de parte do público para ter uma
base da qual partir para a disputa no primeiro turno.
E, no entanto, é importante a existência de
uma terceira via. Primeiro porque, num cenário polarizado, mesmo os 5% dos
votos podem ser o fiel da balança no segundo turno. Para conseguir esse apoio,
os candidatos mais bem votados precisam ampliar sua frente e caminhar para o
centro, como fez Lula ao buscar o apoio de Simone Tebet em
2022.
Além disso, o amanhã colherá aquilo que se
plantou hoje. Lula e Bolsonaro em breve deixarão o campo de batalha. O espaço
se abrirá para novas lideranças. Já ser conhecido e ter tido um desempenho
respeitável é um primeiro passo. Todo mundo que gostaria de ver um Brasil menos
refém de militâncias polarizadas torce um pouquinho por uma terceira via.

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