terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Para que serve a 'terceira via'? Por Joel Pinheiro da Fonseca

Folha de S. Paulo  

Brasil tem muitos governadores muito bem avaliados e que têm conquistas a mostrar

O problema é que o perfil menos chamativo e mais eficaz, que busca moderação e diálogo, falha em capturar a atenção

O poder de Lula sobre a esquerda brasileira é maior do que o de Bolsonaro sobre a direita. É possível vislumbrar uma direita não bolsonarista; um sonho distante, é verdade, mas os nomes estão aí. Já na esquerda, o pós-Lula encontra apenas o silêncio total.

Dito isso, por mais nomes de direita ou centro-direita que apareçam, Flávio Bolsonaro parece seguro em seu trono. Até agora, segue firme a premissa de que o candidato que disputará o segundo turno contra Lula será aquele apoiado por Jair Bolsonaro. Jair escolheu seu filho Flávio. Será ele, portanto, que irá para o segundo turno. É o que as pesquisas têm mostrado.

Uma coisa é certa: se a "terceira via" —que, nesta eleição, significa a direita não-bolsonarista— quiser ter alguma chance de superar Flávio, não pode dividir seu já exíguo potencial de votos entre quatro ou cinco candidatos. Nesse sentido, a ida de Caiado para o PSD é uma boa notícia para a terceira via.

Além deles, Romeu Zema corre por fora, não se sabe se para sair candidato e puxar votos para o partido Novo ou se aliar a Flávio desde já. Se aderir ao bolsonarismo, será menos um nome para dividir os votos da terceira via. Além dele, há Renan Santos apostando na estratégia "Pablo Marçal": mostrar-se mais radical e antissistema que o candidato de Bolsonaro, tentando reacender a chama de revolucionário que, com a escolha do convencional Flávio como representante do movimento, foi definitivamente apagada.

Ainda assim, vendo Caiado, Ratinho Jr. e Eduardo Leite juntos nesse ato de grandeza que é se comprometer a apoiar a candidatura de apenas um deles, luto para espantar o pensamento de que eles disputam a oportunidade de ter 5% na eleição presidencial.

A não ser que algum dos governadores tenha uma carta bombástica na manga que vire o jogo até outubro, é difícil imaginar uma mudança. Ou alguém acha que as multidões ficarão empolgadas com um "bom gestor" quando a campanha começar?

O Brasil tem hoje muitos governadores muito bem avaliados e que têm conquistas a mostrar. Caiado pode apontar a queda expressiva dos homicídios em Goiás. Zema, o crescimento da economia mineira. Ratinho Jr., a subida do Paraná para o primeiro lugar da Ideb. Isso não se limita à direita. No Espírito Santo e no Piauí, algo similar poderia ser dito. O problema é que o perfil menos chamativo e mais eficaz, que busca moderação e diálogo em vez de conflito constante, falha em capturar a atenção e, portanto, a adesão entusiasmada de parte do público para ter uma base da qual partir para a disputa no primeiro turno.

E, no entanto, é importante a existência de uma terceira via. Primeiro porque, num cenário polarizado, mesmo os 5% dos votos podem ser o fiel da balança no segundo turno. Para conseguir esse apoio, os candidatos mais bem votados precisam ampliar sua frente e caminhar para o centro, como fez Lula ao buscar o apoio de Simone Tebet em 2022.

Além disso, o amanhã colherá aquilo que se plantou hoje. Lula e Bolsonaro em breve deixarão o campo de batalha. O espaço se abrirá para novas lideranças. Já ser conhecido e ter tido um desempenho respeitável é um primeiro passo. Todo mundo que gostaria de ver um Brasil menos refém de militâncias polarizadas torce um pouquinho por uma terceira via.

 

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