domingo, 1 de fevereiro de 2026

Um palanque na Sapucaí. Por Bernardo Mello Franco

O Globo

A oito meses da eleição presidencial, Sambódromo será palco de desfile chapa-branca

Aconteceu há 12 dias, em solenidade no Rio Grande do Sul. De macacão laranja, o presidente da estatal Transpetro usou o púlpito para exaltar o governo e fazer campanha pela reeleição. “Mesmo diante das ameaças externas, estamos mais fortes”, discursou, dirigindo-se a Lula.

Em clima de comício, Sérgio Bacci arengou a claque e provocou a oposição. “Os brasileiros não vão permitir que os CEOs do atraso voltem a comandar este país”, disse. Em seguida, passou a recitar “um pedacinho do samba-enredo que será sucesso na Sapucaí”.

“Nosso sobrenome é Brasil da Silva/ Vale uma nação, vale um grande enredo/ No Brasil, o amor venceu o medo”, cantarolou, antes de pedir vivas ao presidente que disputará o quarto mandato em outubro.

O carnaval ainda não chegou, mas o desfile da Acadêmicos de Niterói já dá o que falar. Recém-promovida ao Grupo Especial, a escola cruzará a Avenida com um samba chapa-branca. A letra glorifica a trajetória de Lula, “da luta sindical à liderança mundial”. Sem sutileza, cita duas vezes o 13, número de urna do PT.

Enredos governistas não são novidade no carnaval carioca. Turbinadas com dinheiro público, as escolas já serviram à propaganda de prefeitos, governadores e generais. Em 1975, a Beija-Flor bajulou a ditadura com um enredo que cantava as maravilhas do Funrural e do PIS-Pasep. Neste ano, a Mangueira embolsará R$ 10 milhões para se apresentar como “Estação Primeira do Amapá”.

A indústria do samba-exaltação também aceita petrodólares do exterior. Em 2006, a estatal venezuelana PDVSA patrocinou um desfile da Vila Isabel que exaltava a “revolução bolivariana” de Hugo Chávez. Nove anos depois, a Beija-Flor recebeu uma bolada do ditador Teodoro Obiang para enaltecer a pequena Guiné Equatorial.

Apesar desse histórico, o samba da Niterói tem tons de ineditismo. Pela primeira vez, uma escola do Grupo Especial exaltará um presidente no cargo e prestes a disputar a reeleição. O homenageado parece satisfeito. Já recebeu os dirigentes da Niterói e foi representado pela primeira-dama em visita à Cidade do Samba. O casal é aguardado na Sapucaí no domingo de carnaval. Na última sexta, deputados petistas aproveitaram o ensaio técnico da escola para produzir vídeos para as redes sociais.

A festa do Sambódromo é uma das maiores expressões da cultura brasileira. Não deveria ser capturada pelo proselitismo político — muito menos às custas do contribuinte. Neste ano, a agremiação que exaltará Lula recebeu R$ 6,5 milhões das prefeituras do Rio e de Niterói. O governo federal repassou mais R$ 1 milhão, mesma verba destinada às concorrentes, via Ministério da Cultura e Embratur.

A pretexto de evitar multas da Justiça Eleitoral, a escola orientou os componentes a não fazerem o L com os dedos. Nem precisava. Sem medo de ser governista, o samba exalta o presidente (“Vi a esperança crescer/ e o povo seguir sua voz”), debocha da prisão de Bolsonaro (“Sem falsos mitos/ sem anistia”) e martela o hino dos comícios do PT (“Olê, olê, olê, olá/ Lula, Lula”).

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