O Globo
Durante o período em que participaram do
embate político, ficaram permanentemente sob os holofotes da mídia, mas nem por
isso se deram bem
Foram muitas as tropas de choque
montadas no Congresso para blindar chefes do Executivo de ações movidas contra
eles, seus governos ou seus atos. Desde a redemocratização, houve cinco delas.
Seus membros sempre foram parlamentares ligados fisiologicamente ao mandatário
em questão. Durante o período em que participaram do embate político, ficaram
permanentemente sob os holofotes da mídia, mas nem por isso se deram bem. Na
verdade, com as exceções que confirmam a regra, quase todos os membros das
tropas de choque saíram delas para o ostracismo.
A primeira, que deu
origem ao nome, foi a que tentou sem êxito impedir o impeachment do
ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. Formada por alguns dos mais
polêmicos parlamentares da época, tinha entre seus membros o mal afamado
Roberto Jefferson, cassado anos mais tarde e preso há um mês por apologia do
uso da força contra a democracia. Comandado pelo ex-deputado Ricardo Fiúza, o
esquadrão colorido tinha ainda os ex-deputados Roberto Cardoso Alves, o
Robertão, e Humberto Souto. Todos adotavam o mesmo estilo atropelador e não se
incomodavam de estar alinhados a um governo notoriamente corrupto, incompetente
e infantil.
Fiúza foi o parlamentar que cunhou a
frase mais emblemática daqueles tempos, e que cabe até hoje em qualquer
governo. “É dando que se recebe”, parte da oração de São Francisco de Assis,
significava na linguagem política troca de voto por verbas e cargos no governo.
Não funcionou. Tampouco a truculência do grupo, que é outra característica de
toda tropa de choque, conseguiu evitar o afastamento melancólico do primeiro
presidente eleito depois da ditadura. Fiúza perdeu a eleição seguinte e voltou
quatro anos depois. Robertão morreu em acidente de carro em 1996. Souto não se
reelegeu, foi indicado para o TCU e hoje é prefeito de Montes Claros, em Minas
Gerais.
Alguns anos mais tarde, foi montada a primeira tropa de choque do PT para defender Lula na CPI do mensalão. Do agrupamento vale destacar a senadora Ideli Salvatti e os deputados Professor Luizinho e Ângela Guadagnin. Ideli não conseguiu se reeleger e evaporou. Ângela, conhecida pela dancinha da pizza no plenário da Câmara, tampouco foi reconduzida pelo eleitor. Luizinho teve apenas mais um mandato antes de desaparecer. A CPI não alcançou Lula, mas o estrago na base do governo foi enorme com a cassação de parlamentares, inclusive o ex-poderoso chefe da Casa Civil José Dirceu, o artífice do mensalão.
Outra tropa petista foi montada
para defender Dilma Rousseff dez anos depois. Ao contrário da anterior, esta
não teve êxito, como se sabe. Os seus integrantes mais importantes eram os
então senadores Lindbergh Farias, Gleisi Hoffmann, Vanessa Grazziotin e Fátima
Bezerra. Lindbergh e Vanessa não conseguiram renovar seus mandatos. Gleisi
disputou a Câmara porque não ganharia concorrendo para o Senado e ela precisava
de um mandato para manter o foro privilegiado. Fátima foi eleita governadora do
Rio Grande do Norte.
Houve ainda a tropa de
Temer, que ajudou a sustentar o ex-presidente no cargo depois do escândalo com
Joesley Batista, da JBS. Destaque para Alberto Fraga, líder da bancada da bala,
Darcísio Perondi e Carlos Marun. Fraga tentou ser governador do Distrito
Federal em 2018 e não chegou ao segundo turno. Perondi nunca mais voltou ao
Congresso e sumiu. Marun, que foi ministro de Temer depois de ajudar a salvar o
mandato do presidente, foi nomeado no último dia do governo para uma vaga de
conselheiro na Itaipu Binacional.
Finalmente chegamos à tropa de
choque de Bolsonaro. Nenhuma das anteriores foi tão despudorada quanto esta.
Houve uma que se protegeu pelo manto político, a de Dilma Rousseff, afastada
por usar instrumentos da política fiscal para tirar proveito eleitoral. As
outras defenderam desvios de dinheiro público em favor de pessoas físicas ou
jurídicas, todas privadas. A atual, protege um governo que, segundo os cálculos
mais cautelosos, poderia ter salvado pelo menos 200 mil das 600 mil vidas
perdidas para a Covid se tivesse agido com celeridade e não fosse desde sempre
negacionista.
Prevalecendo a maldição das tropas de
choque, alguém vai sentir saudades dos senadores Fernando Bezerra, Marcos
Rogério, Luiz Carlos Heinze, Eduardo Girão e Jorginho Mello?
Indesejável
Enquanto na centro-direita DEM e PSL
aprovam a maior fusão partidária da história política nacional, a esquerda
troca sopapos nas ruas e nos palanques. Com todo respeito, como diria Ancelmo
Gois, mas hora grave como essa não tolera sectarismo. As agressões de
militantes petistas a Ciro Gomes nas manifestações de 2 de outubro mostram
que o caminho com a esquerda
depois de Bolsonaro pode ser tão turbulento quanto o
percorrido de janeiro de 2019 até aqui. Na entrevista que deu ontem à tarde em
Brasília, Lula criticou a imprensa, ainda por causa da Lava-Jato, e disse que
ela deveria se desculpar, mas que “é preciso grandeza para pedir perdão”.
Grandeza que não teve em relação a Ciro. Ao contrário, afirmou que ele é quem
sofre ataques de Ciro. Confundiu confronto político com paulada em via pública.
E aí não dá para se queixar de Pedro Passos, presidente da Natura, que disse
numa entrevista que deve-se “evitar a polarização entre o inaceitável e o indesejável”.
Fantasmas
Depois de ressuscitar politicamente o
ex-jornalista Franklin Martins, o idealizador do controle externo da
mídia, apelido que se inventou para
a censura, Lula agora está reabilitando José Dirceu, o criador do mensalão. Só
partidos pequenos, desestruturados, carentes de quadros recorrem a seus velhos
fantasmas. Não é o caso do PT.
Pós prévias
Curioso para ver como vai caminhar o PSDB
depois das prévias que indicarão o candidato do partido para presidente em
2022. Como Aécio Neves vai se mexer se Doria for o escolhido? Alguém tem dúvida
que ele vai fazer tudo para derrotar
o seu próprio partido, nem que isso signifique a reeleição
de Bolsonaro? Ou você acha que ele está preocupado com o Brasil? Para a sorte
do governador de São Paulo, Aécio já não manda mais em Minas.
Empate
Mais do que acertada a medida da prefeitura
de São Paulo de priorizar
gastos públicos nas áreas mais pobres da cidade. Será a
primeira vez na história de SP que o Plano Plurianual atende a esta lógica.
Ponto para o prefeito Ricardo Nunes, que assumiu no lugar do falecido Bruno
Covas. O mesmo prefeito resolveu aumentar os salários dos servidores, mas
apenas daqueles em cargos de confiança, ou de nomeação política. Ponto negativo
para Nunes.
Vai trabalhar
O conceito “mais Brasil e menos Brasília”
vem sendo aplicado largamente por Jair Bolsonaro. Mas seu viés é outro, não
atende a premissa de que é importante ver de perto como o Brasil profundo
funciona para melhor entender e resolver os seus problemas. Nos Estados Unidos
o conceito é conhecido como “Wall Street and Main Street”. Nos dois casos, a
ideia é dar menos
atenção ao mercado e à máquina administrativa e mais ao
povo e aos empreendedores. Bolsonaro viaja muito, passa mais tempo nos estados
do que no Distrito Federal. Seria bom se a sua motivação não fosse apenas
política, tanto que até mudou o conceito inicial desta nota para “mais eleição
e menos trabalho”.
Pedra no lago
O levantamento feito pelos repórteres
Bianca Gomes e Guilherme Caetano nas assembleias de São Paulo, Minas Gerais,
Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia, mostrando que quatro em cada dez
deputados bolsonaristas podem mudar de orientação na eleição de 2022, revela o
tamanho da batalha que o presidente em exercício terá pela frente. Sempre foi
assim, as dissidências começam na
parte de cima e depois vão se desdobrando para baixo.
Trata-se do efeito “pedra no lago”. Restam ainda 12 meses para que as ondas
provocadas pelas pedras jogadas nas assembleias cheguem até as mais distantes
franjas do eleitorado.
Fico com a briga
Ao comentar o embate entre a CPI da Covid e
a juíza Elizabeth Louro Machado, que julga o caso do menino Henry Borel, um
destacado advogado carioca resumiu assim como via a coisa: “Na briga entre a CPI e o Judiciário,
eu torço pela briga”.
Negacionistas
Dados publicados pelo GLOBO mostram que 94%
dos 218 internados no Hospital Ronaldo Gazolla, em 30 de setembro, não tinham
se vacinado. No Instituto Emílio Ribas, de São Paulo, 90% dos internos tampouco
tinham tomado a vacina. Estes números revelam que a Covid está se espalhando entre os negacionistas que
acreditam no tratamento precoce. Ou você ainda tem dúvida de que a maioria
desta turma tomou cloroquina, ivermectina e outras drogas ineficazes contra a
doença antes de se internarem?
Ilegal, e daí?
Como anda o processo contra o ex-ministro da Madeira e do Garimpo, o boiadeiro Ricardo Salles?
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