O Globo
A combinação era que o candidato desse
consórcio partidário seria Tarcisio de Freitas, mas a escolha de Flavio
inviabilizou o plano de união já no primeiro turno
Embora as pesquisas recentes indiquem uma subida dos candidatos da direita, especialmente de Flavio Bolsonaro, que estariam em empate técnico com Lula no segundo turno, persiste a dúvida sobre a escolha do ex-presidente Jair Bolsonaro, muita gente achando que fica cada mais evidente que a definição em favor do filho, se for conclusiva, é um erro. O sentimento antipetista continua forte, o que embala as candidaturas de políticos ligados ao bolsonarismo. Mas a rejeição a Flavio também é grande, enquanto o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas mantém-se afastado de um índice de rejeição que inviabilize sua candidatura.
Mantendo-se o panorama atual, a disputa mais
uma vez será entre os candidatos de maior rejeição, Flavio e Lula, pois os
demais ainda não demonstraram que têm condições de chegar ao segundo turno. A
escolha de Flavio, vista como balão de ensaio, no entanto, mostraria sabedoria
política, ao atrair para Bolsonaro o protagonismo nas decisões políticas mais
relevantes. Os sucessivos escândalos de corrupção (INSS, Banco Master etc.),
envolvendo figuras da importância de um filho do presidente da República e de
dois ministros do Supremo, fazem com que o tema da moralidade cresça de tamanho
e passe a competir com segurança entre as preocupações maiores da população que
será chamada às urnas em outubro.
Persiste, internamente, a discussão sobre
quem seria o candidato ideal, que poderia ser resumida numa questão colocada
por um bolsonarista de carteirinha: “Vamos de Flávio mesmo, pela força do
sobrenome, ou apostamos no Tarcísio, pessoa sabidamente competente e que não
apresenta qualquer mácula moral em seu currículo?”. Nesse campo, a lógica que
sustenta a escolha de Flávio para o embate presidencial é a de que Bolsonaro é
a principal liderança, com amplo apoio popular, e que o filho, carregando o
nome e o parentesco, permitiria a identificação imediata e completa com o nome
e a imagem de seu pai.
Há um porém: em todas as pesquisas eleitorais
já realizadas, Lula ganha no segundo turno quando confrontado com o Bolsonaro
pai, o que desconstrui a lógica, pois se o pai perde, que dirá o filho? Mesmo
com a melhora de avaliação dos potenciais candidatos que poderiam ser
abençoados por Bolsonaro, continua latente em parte ponderável do bolsonarismo
a sensação de que para ampliar o eleitorado contra Lula, é preciso ter um
candidato como Tarcisio, que uniria a base do bolsonarismo, com o eleitorado de
centro-direita que deu a vitória a Lula em 2022 e hoje estaria desiludido.
Esses eleitores não votariam em um herdeiro
de Bolsonaro que se transforme em um radical como o pai, mas se sentiriam
representados por um que tivesse um pé fora do radicalismo de direita. Pensando
nisso foi que o governador de São Paulo não se livrou de Gilberto Kassab, seu
secretário de governo e presidente do PSD, nem trocou de partido. Se fosse para
o PL, partido do Bolsonaro, teria sido mais fácil ser o escolhido, mas ele joga
na possibilidade, mais remota hoje, de ser aceito como um candidato de consenso
entre os partidos de direita.
Já Kassab, enxergando um caminho do meio
nessa disputa da direita, lançou não um, mas três potenciais candidatos : os
governadores do Paraná, Ratinho Jr (o preferido); Ronaldo Caiado, de Goiás e
Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. A combinação era que o candidato desse
consórcio partidário seria Tarcisio de Freitas, mas a escolha de Flavio
inviabilizou o plano de união já no primeiro turno. Neste momento, com Flavio
sendo o escolhido oficialmente, Ratinho Jr deve ser o candidato a tentar essa
terceira via. Mas só no início de abril saberemos se o governador de São Paulo
está mesmo fora do páreo.

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