domingo, 8 de fevereiro de 2026

Angústias da direita. Por Merval Pereira

O Globo

A combinação era que o candidato desse consórcio partidário seria Tarcisio de Freitas, mas a escolha de Flavio inviabilizou o plano de união já no primeiro turno

Embora as pesquisas recentes indiquem uma subida dos candidatos da direita, especialmente de Flavio Bolsonaro, que estariam em empate técnico com Lula no segundo turno, persiste a dúvida sobre a escolha do ex-presidente Jair Bolsonaro, muita gente achando que fica cada mais evidente que a definição em favor do filho, se for conclusiva, é um erro. O sentimento antipetista continua forte, o que embala as candidaturas de políticos ligados ao bolsonarismo. Mas a rejeição a Flavio também é grande, enquanto o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas mantém-se afastado de um índice de rejeição que inviabilize sua candidatura.

Mantendo-se o panorama atual, a disputa mais uma vez será entre os candidatos de maior rejeição, Flavio e Lula, pois os demais ainda não demonstraram que têm condições de chegar ao segundo turno. A escolha de Flavio, vista como balão de ensaio, no entanto, mostraria sabedoria política, ao atrair para Bolsonaro o protagonismo nas decisões políticas mais relevantes. Os sucessivos escândalos de corrupção (INSS, Banco Master etc.), envolvendo figuras da importância de um filho do presidente da República e de dois ministros do Supremo, fazem com que o tema da moralidade cresça de tamanho e passe a competir com segurança entre as preocupações maiores da população que será chamada às urnas em outubro.

Persiste, internamente, a discussão sobre quem seria o candidato ideal, que poderia ser resumida numa questão colocada por um bolsonarista de carteirinha: “Vamos de Flávio mesmo, pela força do sobrenome, ou apostamos no Tarcísio, pessoa sabidamente competente e que não apresenta qualquer mácula moral em seu currículo?”. Nesse campo, a lógica que sustenta a escolha de Flávio para o embate presidencial é a de que Bolsonaro é a principal liderança, com amplo apoio popular, e que o filho, carregando o nome e o parentesco, permitiria a identificação imediata e completa com o nome e a imagem de seu pai.

Há um porém: em todas as pesquisas eleitorais já realizadas, Lula ganha no segundo turno quando confrontado com o Bolsonaro pai, o que desconstrui a lógica, pois se o pai perde, que dirá o filho? Mesmo com a melhora de avaliação dos potenciais candidatos que poderiam ser abençoados por Bolsonaro, continua latente em parte ponderável do bolsonarismo a sensação de que para ampliar o eleitorado contra Lula, é preciso ter um candidato como Tarcisio, que uniria a base do bolsonarismo, com o eleitorado de centro-direita que deu a vitória a Lula em 2022 e hoje estaria desiludido.

Esses eleitores não votariam em um herdeiro de Bolsonaro que se transforme em um radical como o pai, mas se sentiriam representados por um que tivesse um pé fora do radicalismo de direita. Pensando nisso foi que o governador de São Paulo não se livrou de Gilberto Kassab, seu secretário de governo e presidente do PSD, nem trocou de partido. Se fosse para o PL, partido do Bolsonaro, teria sido mais fácil ser o escolhido, mas ele joga na possibilidade, mais remota hoje, de ser aceito como um candidato de consenso entre os partidos de direita.

Já Kassab, enxergando um caminho do meio nessa disputa da direita, lançou não um, mas três potenciais candidatos : os governadores do Paraná, Ratinho Jr (o preferido); Ronaldo Caiado, de Goiás e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul. A combinação era que o candidato desse consórcio partidário seria Tarcisio de Freitas, mas a escolha de Flavio inviabilizou o plano de união já no primeiro turno. Neste momento, com Flavio sendo o escolhido oficialmente, Ratinho Jr deve ser o candidato a tentar essa terceira via. Mas só no início de abril saberemos se o governador de São Paulo está mesmo fora do páreo.

 

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